Em um contexto marcado pelo aumento dos casos de violência contra as mulheres no Brasil, lideranças de religiões de matriz africana reforçaram o papel dos terreiros como espaços de acolhimento, proteção e mobilização social. Durante a mesa de abertura de um encontro promovido pela Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), com a participação do Núcleo de Mulheres de Axé da rede, a diretora executiva de KOINONIA, Ana Gualberto, destacou a importância de fortalecer o enfrentamento à violência doméstica dentro dos espaços religiosos.
Terreiros como espaços de acolhimento e transformação
Em sua participação, Ana Gualberto ressaltou que os terreiros historicamente cumprem um papel fundamental de cuidado e escuta, mas também têm a responsabilidade de contribuir para a transformação das realidades vividas por mulheres em situação de violência.
“O terreiro é um espaço de acolhimento e também um espaço formador de opinião. Precisamos estar atentos para que esses ambientes não reproduzam violências, mas sejam capazes de acolher, orientar e proteger quem vive essas situações”, destacou.
A diretora chamou a atenção para a necessidade de romper o silêncio em torno da violência doméstica, incentivando que o tema seja debatido de forma permanente nas comunidades religiosas. Segundo ela, além de acolher, é fundamental que as lideranças compartilhem informações qualificadas sobre os direitos das mulheres e os serviços disponíveis para proteção.
Outro ponto enfatizado foi a importância de fortalecer parcerias entre organizações da sociedade civil, comunidades tradicionais e poder público para construir respostas mais articuladas diante da violência.
“Também precisamos discutir a efetividade das políticas públicas e o quanto as populações mais vulnerabilizadas ainda encontram dificuldades para acessar as políticas de cuidado e proteção”, afirmou.
Além de representantes de KOINONIA, a mesa contou com a participação de uma representante da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). O encontro foi organizado pela Renafro em parceria com seu Núcleo de Mulheres de Axé.
Uma trajetória de mobilização das mulheres de axé
As reflexões apresentadas durante o evento dialogam diretamente com a trajetória do projeto “Mulheres de Axé Mobilizadas contra a Violência Doméstica e Familiar”, iniciativa do Ilê Omolu Oxum que, desde 2005, atua na Baixada Fluminense e em diferentes territórios do país promovendo ações de prevenção, formação e acolhimento.
Para muitas mulheres, o terreiro representa o primeiro, e, em alguns casos, o único espaço seguro para compartilhar experiências de violência e buscar apoio para interromper o ciclo das agressões.
Dados evidenciam a urgência do enfrentamento
A nova edição da publicação do projeto reúne dados que reforçam a urgência da mobilização. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado, em 2015, alcançando uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Entre as vítimas, 64% são mulheres negras.
As mulheres de axé enfrentam uma realidade marcada por múltiplas formas de violência. Além da violência doméstica, convivem com o racismo religioso, que compromete o exercício de direitos e amplia as barreiras de acesso às políticas públicas.
A pesquisa “Respeite o meu Terreiro”, coordenada por Mãe Nilce de Iansã, aponta que 80% das pessoas pertencentes às comunidades tradicionais de matriz africana já sofreram racismo religioso, evidenciando a necessidade de políticas integradas de proteção e garantia de direitos.
Formação e redes de apoio fortalecem a proteção às mulheres
O enfrentamento à violência exige ações permanentes de formação. A iniciativa tem investido na capacitação de lideranças religiosas para identificar sinais de violência, orientar mulheres sobre seus direitos e divulgar os canais oficiais de atendimento, como a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180.
Na publicação apresentada durante o encontro, Mãe Meninazinha de Oxum lembra que “Orixá é respeito, harmonia e união”. Para KOINONIA, fortalecer as redes entre terreiros, universidades, organizações da sociedade civil e instituições públicas é um passo fundamental para garantir que os espaços de matriz africana continuem sendo territórios de acolhimento, dignidade e defesa da vida das mulheres.
Acesse o material completo
A cartilha “Mulheres de Axé: Mobilizadas contra a violência doméstica e familiar – A luta continua!” reúne dados atualizados, orientações jurídicas e informações sobre os serviços de acolhimento e denúncia disponíveis para mulheres em situação de violência.
Clique aqui para fazer o download da cartilha (PDF).
Canais de acolhimento e denúncia
- Violência contra a mulher: Ligue 180.
- WhatsApp Ligue 180: (61) 9610-0180.
- Emergências: 190 (Polícia Militar).
- Racismo religioso e violações de direitos humanos: Disque 100.
Crédito das imagens: Viviane Nascimento, Yawô de Oyá.
Fontes e referências
- BRASIL. Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha).
- BRASIL. Lei nº 14.532/2023 (Equipara a injúria racial ao crime de racismo).
- IANSÃ, Mãe Nilce de. Mulheres de Axé – Mobilizadas contra a violência doméstica e familiar. 2ª edição, 2015.
- IANSÃ, Mãe Nilce de; TEOBALDO, Marco Antonio. Respeite o meu terreiro: Racismo religioso contra os povos tradicionais de religiões de matriz africana no Brasil. MDHC, 2025.
- OXUM, Mãe Meninazinha de; IANSÃ, Mãe Nilce de; TEOBALDO, Marco Antonio. Museu Memorial Iyá Davina. Catálogo. Ilê Omolu Oxum, 2026.


