Comunidades quilombolas debatem novas tecnologias durante oficinas na Ilha da Marambaia 

Entre os dias 3 e 5 de julho, lideranças quilombolas de diferentes territórios do estado do Rio de Janeiro estiveram reunidas na sede da Associação dos Remanescentes do Quilombo da Ilha da Marambaia (ARQIMAR), para participar de uma programação dedicada à reflexão sobre os impactos e as potencialidades das novas tecnologias para o avanço dos direitos das comunidades quilombolas. 

Promovido por KOINONIA em parceria com a Fundação Heinrich Böll e o data_labe, o encontro reuniu representantes de comunidades da Ilha da Marambaia, Santa Rita do Bracuí e Alto da Serra do Mar, que discutiram como a internet, as redes sociais, a inteligência artificial e a circulação de informações influenciam a garantia de direitos, a proteção dos territórios e o fortalecimento da comunicação comunitária. Mais do que compreender os desafios do ambiente digital, as oficinas buscaram construir estratégias coletivas para que as próprias comunidades ocupem esses espaços de forma crítica, segura e fortalecida. 

A programação, com três dias de duração, foi conduzida por Rosa Peralta, Assessora de Relações Institucionais de KOINONIA, Marilene de Paula e Manoela Vianna, da Fundação Heinrich Böll, e Polinho Mota e Leonardo Nogueira, do data_labe. Também integraram a equipe de KOINONIA Rafael Soares, Secretário de Planejamento e Cooperação, Amanda Souza, mobilizadora comunitária e representante do Quilombo do Bracuí, e Gabriel Luiz, da equipe de Comunicação. 

A chegança 

As atividades começaram com a travessia de barco entre Itacuruçá e a Ilha da Marambaia, em Mangaratiba. Recebidos na sede da ARQIMAR com um café da manhã coletivo, os participantes iniciaram uma programação marcada pelo diálogo entre diferentes territórios quilombolas. 

A abertura foi conduzida por Iane Lima, liderança da ARQIMAR e comunicadora quilombola da Ilha da Marambaia, que apresentou a história da comunidade, seus modos de vida e os desafios enfrentados atualmente. Em sua fala, destacou a pesca como principal atividade econômica da comunidade, a conquista da implantação do ensino médio em 2026, a celebração do tradicional Jongo em 20 de novembro e o fortalecimento da visitação comunitária por meio da iniciativa do projeto Comércio com Identidade, que valoriza a cultura, os saberes tradicionais e a geração de renda no território. O momento reforçou que compreender um território é também compreender sua história, sua identidade e as formas como sua população constrói coletivamente estratégias de permanência e resistência. 

Contextos locais revelam a importância da discussão sobre justiça climática nos territórios quilombolas 

A programação do primeiro dia também promoveu um amplo debate sobre os impactos das mudanças climáticas nos territórios quilombolas. 

Na apresentação “A crise climática como pretexto”, Rosa Peralta partiu da referência do livro “Ecologia decolonial”, do autor martinicano Malcom Ferdinand, para provocar uma reflexão sobre como a atual crise climática é resultado de séculos de racismo ambiental e da imposição de um modelos de desenvolvimento que produziu desigualdades históricas e degradação ambiental em todos o mundo, gerando riquezas apenas para poucos. 

Ao longo da conversa, foram discutidos temas como economia azul, políticas climáticas internacionais e a necessidade de reconhecer os saberes ancestrais como parte das soluções para enfrentar os desafios ambientais contemporâneos. 

As lideranças presentes compartilharam situações vividas em seus próprios territórios. Iane Lima relatou mudanças na dinâmica das marés da Ilha da Marambaia, o desaparecimento de espécies e alterações na formação das algas marinhas.  

“Quando eu vejo a Valéria passando no mesmo perrengue que eu, aí eu fico assim: ‘Ah então tá bom, não tô sozinha nessa não’ sabe? E a gente se apoia mesmo… a gente vai resistir, vai continuar” Afirmou Iane. 

Representantes do Quilombo Alto da Serra chamaram atenção para a diminuição da vazão dos rios e seus impactos sobre a produção de mel e a agricultura. Integrantes do Quilombo do Bracuí relataram mudanças percebidas nas plantações e o surgimento de árvores que passaram a secar de forma repentina.  

Também foram apresentados relatos sobre intervenções realizadas sem a devida consulta às comunidades, desconsiderando os direitos e os conhecimentos tradicionais sobre o território. 

Durante o debate, uma frase sintetizou o espírito da discussão: 

“Justiça climática também é ter colégio na Marambaia.” 

A afirmação de Rosa Peralta ampliou o conceito de justiça climática para além das questões ambientais, relacionando-o ao acesso à educação diferenciada, à saúde integral e, sobretudo, à permanência das comunidades em seus territórios. 

Mapeando os impactos sociais e ambientais da internet 

O segundo dia foi dedicado às oficinas sobre tecnologia, internet e comunicação. Para tanto, Manoela Vianna e Marilene de Paula, da Fundação Heinrich Böll, e Rosa Peralta, de KOINONIA, lançaram mão da metodologia “Mapa dos territórios da internet”, desenvolvida pela organização Coding Rights. A ideia é visibilizar as estruturas físicas e as dinâmicas políticas por trás das novas tecnologias. 

 “Os quilombolas precisam fazer parte de todas essas discussões sobre tecnologia porque é impossível falar sobre defesa de direitos sem falar sobre a importância da conectividade… e como todas essas questões também se conectam com justiça climática” Disse Manoela (Fundação Heinrich Böll) 

A partir de uma dinâmica coletiva, surgiram discussões sobre conectividade, redes sociais, inteligência artificial e os desafios enfrentados pelas comunidades para acessar serviços básicos em um contexto de infraestrutura precária.  

Uma das participantes compartilhou que quase perdeu a oportunidade de ingressar no ensino superior devido às constantes falhas no fornecimento de energia elétrica e na conexão à internet em sua comunidade. 

Ao longo da oficina, tecnologia deixou de ser tratada apenas como inovação e símbolo de progresso. Assim como no caso de outros tipos de megaempreendimentos, foram destacados os impactos sociais e ambientais sobre corpos e territórios em diversos lugares do país e do mundo. 

A oficina também trouxe dados sobre o destino dos resíduos tóxicos, o elevado consumo de água e energia necessário para o funcionamento de grandes centros de processamento de dados e os impactos provocados pela instalação desses empreendimentos em diferentes regiões do país. 

Os debates evidenciaram que o acesso à internet, a conectividade e a circulação de informações são parte de um sistema maior, que influencia diretamente a economia, a organização comunitária, a defesa dos territórios e o exercício da cidadania.  

Como destacou Marilene de Paula: “Podemos ver nitidamente que a rota dos cabos de internet é a mesma lógica da rota das navegações da época da colonização. Sendo que antes transportavam mercadorias, agora, transmitem dados, enriquecendo as bigtechs.” 

Nesse contexto, fortalecer a presença das comunidades quilombolas no ambiente digital significa também fortalecer sua capacidade de defender direitos e produzir suas próprias narrativas. 

Enfrentando a desinformação e fortalecendo as narrativas comunitárias 

Outro tema apresentado durante o encontro foi a importância da produção de dados pelas próprias comunidades.  

A partir da metodologia da Geração Cidadã de Dados, apresentada pelo data_labe, os participantes refletiram sobre como registrar informações produzidas pelos próprios territórios pode fortalecer a incidência política diante das mudanças climáticas e da ausência histórica de políticas públicas. 

 “A Geração Cidadã de Dados permite “propor soluções que são para além de soluções baseadas na natureza, são soluções carregadas de sabedoria ancestral” Disse Polinho do data_labe 

A proposta parte do entendimento de que os territórios tradicionais possuem conhecimentos fundamentais para compreender as transformações ambientais que vivenciam diariamente. Organizar essas informações permite transformar experiências locais em instrumentos de reivindicação, planejamento e defesa de direitos. 

Mais do que produzir dados, trata-se de fortalecer o protagonismo das comunidades na construção das soluções para seus próprios desafios. 

Durante a tarde, Polinho e Leonardo conduziram a oficina dedicada à desinformação e segurança digital, trazendo exemplos de conteúdos falsos que circulam nas redes sociais, os mecanismos utilizados pelos algoritmos para ampliar sua disseminação e os interesses políticos e econômicos que sustentam a produção dessas narrativas.  

A conversa ganhou ainda mais força com relatos de experiências vividas nos diferentes territórios. 

Durante a oficina, também foi discutido como determinadas narrativas procuram deslegitimar as comunidades tradicionais, associando-as a estereótipos que contribuem para o apagamento de suas identidades e para a desinformação sobre seus modos de vida. 

Ao longo das atividades, ficou evidente que proteger os territórios hoje também significa proteger suas narrativas.  

Além dos conteúdos técnicos, as oficinas reforçaram a importância do intercâmbio entre diferentes comunidades quilombolas. 

Reforçando laços 

Lideranças da Marambaia, Bracuí, Alto da Serra e outros territórios compartilharam experiências sobre mudanças climáticas, comunicação comunitária, organização política e defesa de direitos, percebendo que, apesar das diferentes realidades geográficas, enfrentam desafios semelhantes. 

 “Acho que o mais importante é a força que uma dá para a outra. É sobre recarregar as energias. A gente vem das nossas lutas, das nossas vidas pessoais, do movimento, do trabalho, tentando conciliar tudo. Quando chega em outra comunidade, encontra pessoas que ama estar junto, encontra força e se sente em casa. Somos irmãs de quilombo”, afirmou Valéria, do Quilombo Alto da Serra do Mar, em conversa com Iane Lima, da Comunidade Remanescente de Quilombo da Marambaia. 

O encontro fortaleceu vínculos, promoveu trocas de estratégias e reafirmou que a construção coletiva entre comunidades é um exercício potentes para aumentar a resiliência diante dos desafios contemporâneos. 

No último dia da programação, os participantes realizaram uma visita guiada pela Ilha da Marambaia.

  

Conduzidos pelas lideranças locais, percorremos diferentes áreas da comunidade, conhecendo sua história, seus espaços de convivência e elementos que ajudam a compreender a relação entre memória, cultura e território. 

Entre os locais visitados, as ruínas da antiga senzala, espaço que preserva parte da história da comunidade e que atualmente integra as celebrações realizadas durante o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Emocionada, Iane Lima destacou a importância da continuidade da luta coletiva: “Hoje a gente se encontra para dar continuidade a toda a luta que eles, nossos antepassados, tiveram no passado.” 

A visita reforçou que cada caminho, cada construção e cada paisagem carregam memórias fundamentais para compreender a história da resistência quilombola na região. 

Ao longo dos três dias, as oficinas demonstraram que discutir tecnologia vai muito além de falar sobre internet, redes sociais ou inteligência artificial.  

Significa refletir sobre quem produz as informações, quem controla as narrativas, como a desinformação afeta os territórios e quais estratégias podem fortalecer a autonomia das comunidades diante desses desafios. 

Ao ocupar também os espaços digitais, produzir seus próprios dados e fortalecer sua comunicação, as comunidades quilombolas ampliam sua capacidade de defender seus direitos, preservar sua memória e construir novos caminhos para o futuro. 

Nas palavras de Renato Estanislau, liderança da ARQIMAR: “Esse tipo de atividade é de grande importância para nossas comunidades. Pensamos às vezes que essas questões não nos afetam. Só que, quando vocês apresentam as informações dessa maneira, a gente percebe que é impactado, mas que também temos um papel para mudar o cenário.” 

Mais do que um espaço de formação, o encontro reafirmou que território físico e território digital caminham juntos. Em ambos, a defesa da vida, da memória, da democracia e da dignidade continua sendo construída coletivamente. 

Por: Gabriel Luiz, com colaboração de Rosa Peralta
Equipe de Comunicação de KOINONIA

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