A Ocupação Luiz Gama, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo, recebeu uma oficina de autodefesa em parceria com o coletivo Autodefesa para Mulheres e Pessoas Trans. A atividade reuniu moradoras da ocupação em um espaço de formação, acolhimento e fortalecimento coletivo diante das violências vividas no território.
O coletivo, que realiza treinos abertos uma vez por mês — geralmente no segundo domingo pela manhã, no Parque da Aclimação — conduziu práticas voltadas à autodefesa, identificação de situações de risco e estratégias de cuidado de si e cuidado mútuo. A oficina contou com exercícios coletivos, rodas de conversa e compartilhamento de experiências entre as participantes.
Durante os relatos, mulheres da ocupação destacaram que a violência enfrentada vai além do ambiente doméstico e atravessa também os espaços coletivos. “A violência não é só dentro da casa, ela também acontece no coletivo”, relatou uma das lideranças presentes na atividade.
As porteiras da ocupação, todas mulheres, compartilharam situações constantes de medo e insegurança. Entre os episódios mencionados, estiveram ameaças, receio de invasões e preocupações relacionadas à proteção de crianças e moradoras. Um dos casos citados envolveu ameaças direcionadas a uma criança, situação que mobilizou a comunidade e resultou no afastamento de um agressor identificado como Carlano.
Os relatos demonstraram como as mulheres vêm se organizando para responder coletivamente às situações de violência. Moradoras passaram a atuar diretamente em momentos de conflito, fortalecendo ações de proteção comunitária dentro da ocupação. “A defesa aqui tem sido feita principalmente pelas mulheres”, destacou uma participante.
A oficina também evidenciou os impactos psicológicos provocados pela violência cotidiana. Mulheres relataram medo constante, retraimento social e dificuldade de convivência em função das ameaças vividas. Segundo uma das falas compartilhadas durante o encontro, “o medo faz com que muitas mulheres deixem de circular e até se afastem das relações por proteção”.
Além das práticas de autodefesa física, o encontro abordou a importância da educação comunitária e do autoconhecimento como ferramentas de prevenção. As participantes discutiram a necessidade de enfrentar comportamentos machistas, orientar novas moradoras sobre situações de risco e fortalecer mecanismos coletivos de apoio.

O grupo também iniciou a construção de um coletivo de autodefesa dentro da ocupação, com o objetivo de ampliar as redes de cuidado e proteção entre mulheres e pessoas trans. Como encaminhamento, ficou marcada a participação das moradoras nos próximos encontros promovidos pelo coletivo Autodefesa para Mulheres e Pessoas Trans, fortalecendo a continuidade da articulação.
“Precisamos unir forças para garantir nossa proteção e nosso cuidado coletivo”, afirmou Eduarda Carolina Vaz, uma das lideranças ao final da atividade.
A oficina foi avaliada de forma muito positiva pelas participantes e reforçou a importância da organização comunitária como resposta às múltiplas formas de violência enfrentadas pelas mulheres nos territórios populares
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