Pauta climática é um dos temas centrais do 4º Encontro Estadual das Mulheres Quilombolas da ACQUILERJ 

Intitulado “Mulheres Quilombolas: Território, Direitos, Saúde, Clima e Autonomia”, o encontro foi realizado na cidade de Cabo Frio, entre 6 e 9 de julho, reunindo mulheres de diferentes regiões do estado do Rio de Janeiro.  

O encontro foi promovido pela Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Rio de Janeiro (ACQUILERJ), sob coordenação da sua presidenta Bia Nunes, e reuniu lideranças femininas para refletir sobre os desafios contemporâneos que atravessam os territórios quilombolas, promovendo debates sobre justiça climática, direitos sociais, políticas públicas, ancestralidade e organização comunitária. A atividade integra uma iniciativa mais ampla da ACQUILERJ: o Fórum Estadual Quilombola “Cuidar da Terra é Cuidar da Gente – A Luta Quilombola pela Mata Atlântica”, lançado durante a I Cúpula das Vozes Quilombolas pelo Clima, no dia 15 de novembro de 2025, na Lapa.  

Durante quatro dias, as participantes discutiram os impactos das mudanças climáticas sobre os territórios tradicionais, estratégias para a proteção da Mata Atlântica e a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas às comunidades quilombolas.  

No segundo dia, as convidadas palestrantes Vanessa Angélica e Heloisa da Silva abriram o evento com falas potentes sobre empreendedorismo negro e sobre como o autocuidado é parte fundamental da luta coletiva, compreendendo que cuidar de si também fortalece a capacidade de cuidar das comunidades, dos territórios e do meio ambiente. 

Segundo Vanessa Angélica, falar de empreendedorismo de mulheres negras vai além de geração de renda: “Meu objetivo ao falar desse tema é que a mulher reconheça seu valor, a potência que ela já carrega dentro de si, e construa autonomia para ser quem ela é”. 

KOINONIA também marcou presença nesse dia, sendo representada por Rosa Peralta, Assessora de Relações Institucionais. Em sua palestra sobre Clima e Território, com mediação de Elizabeth Fernandes, do quilombo Baía Formosa, localizado em Búzios, Rosa abordou como a defesa dos territórios quilombolas está diretamente relacionada aos desafios do enfrentamento das mudanças climáticas. Reforçou que cada vez mais estudos comprovam o que as comunidades afirmam há muito tempo: que as práticas tradicionais de produção e os modos de vida quilombola são os que mais protegeram as matas e as águas que abastecem as cidades.  

“As comunidades quilombolas já resistem há muito tempo à degradação da natureza e a diversas formas de violência, desde muito antes que a sociedade começasse a falar de mudanças climáticas. Por isso, as comunidades, principalmente as mulheres, podem ensinar muito sobre organização para lidar com os problemas atuais.  Por outro lado, a falta de acesso a serviços básicos, o aumento de episódios de extremos climáticos e os conflitos de terra ameaçam as comunidades, com impactos ainda mais graves sobre a vida das mulheres. Por isso é importante mostrar para a sociedade o que as comunidades estão vivendo, com informações vindas dos territórios, não apenas da academia, e firmar alianças que respeitem e valorizem esses saberes.” 

Valéria Cristina Leite, da comunidade de Alto da Serra, em Rio Claro (RJ), enfatizou alguns dos pontos levantados na palestra: 

“É realmente muito importante que quilombolas comecem a levantar dados sobre suas próprias comunidades. Muitas vezes não tem dados oficiais que revelem o quanto as comunidades contribuem para a pauta climática, mas também é importante saber sobre as dificuldades que já enfrentamos e nossas soluções.” 

Na parte da tarde, a Luciana da Mota, Defensora Pública e Coordenadora do Núcleo de Combate ao Racismo e à Discriminação Étnico Racial (NUCORA) descreveu os desafios e injustiças que têm encontrado em seu trabalho: 

“Eu sinto muita indignação quando vejo o descaso do Estado em relação às comunidades. Pode parecer incrível, mas em pleno ano de 2026, há comunidades sem energia elétrica, sem coleta de lixo, sem ônibus escolar digno. É duro, mas também é muito enriquecedor ir até os territórios e conhecer tantas pessoas e mulheres com histórias de resistência incríveis”. 

O encontro também abordou temas como saúde e educação quilombola, a valorização dos griôs como guardiões da memória e da tradição oral, combate às diferentes formas de violência contra a mulher, participação política das mulheres e a proteção de crianças e adolescentes por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

Compartilhe em suas redes:
Tags: No tags