O feminicídio é uma pandemia silenciosa que segue matando mulheres todos os dias no Brasil
Lídia Maria de Lima (colaboradora de KOINONIA)
Há cinco anos, entramos em pânico diante da constatação de que estávamos vivendo uma pandemia. Ninguém sabia ao certo o que aquilo significava, mas, aos poucos, fomos tomando consciência de que se tratava de algo perigoso, assustador e mortífero. Embora houvesse pessoas que negassem o fato, ele estava dado e fazia estragos em diversas partes do mundo, impulsionando as pesquisas científicas em busca de antídotos e soluções para aquela crise sem fronteiras.
Trago esse fato porque, novamente, estamos diante de uma pandemia — e não temos discutido isso com a mesma urgência. O feminicídio não é um evento isolado, mas o ápice de uma pandemia silenciosa e persistente, na qual o gênero se torna o principal fator de risco para a própria sobrevivência.
Os números não mentem. Em 2025, o Brasil atingiu o maior número de feminicídios desde que a lei foi implantada, em 2015. No total, foram registradas 1.568 mortes de mulheres, apenas por sua condição de gênero — um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Em média, quatro mulheres são assassinadas por dia em nosso país. Em 80% dos casos, o assassino era companheiro ou ex-companheiro. E é fundamental destacar que 64% das mortes aconteceram dentro da própria residência, o que comprova que não estamos seguras nem mesmo dentro de nossas casas.
Essa “pandemia” torna-se ainda mais grave quando olhamos para além das mortes consumadas.
Tentativas de feminicídio: em 2025 foram registrados 6.904 casos (entre consumados e tentados), o que representa um salto alarmante de 34% em relação ao ano anterior.
Medidas protetivas: cerca de 13% das vítimas já possuíam uma medida protetiva de urgência ativa no momento em que foram assassinadas, o que reforça a necessidade de maior fiscalização e apoio social.
Diferentemente de outras crises sanitárias, a pandemia do feminicídio não se combate com vacinas, mas com a desconstrução de uma cultura que tolera a violência doméstica como se fosse um assunto de foro íntimo. É preciso abrir espaços para debate e para a construção de soluções no enfrentamento da misoginia e do fortalecimento de masculinidades tóxicas, muitas vezes legitimadas por discursos conservadores e fundamentalistas.
Nós, KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, aproveitamos a data e o tema para apresentar o projeto Mulheres Vivas, que, em parceria com o MMCR (Movimento de Moradia do Centro e Região), acontece até maio de 2026 com o objetivo de fortalecer o autocuidado integral das mulheres, unindo corpo, mente, segurança, tecnologia e redes de apoio, pensando na possibilidade de fortalecer nossa luta por sobrevivência e dignidade.
Para além do 8 de março, queremos contribuir para a construção de uma cultura de cuidado mútuo diante dessa pandemia que nos assola.
Rememorando as palavras de Conceição Evaristo:
“Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”.
Que o Dia Internacional da Mulher seja, acima de tudo, o dia em que a sociedade, as instituições e também os espaços religiosos renovem o pacto pela vida, garantindo que o amanhã de cada mulher seja livre do medo e cheio de dignidade.
