Por Lídia Maria de Lima*
Resumo
Este artigo analisa uma experiência realizada com mulheres residentes em ocupação urbana, na qual foram convidadas a expressar suas “fomes” – entendidas como necessidades materiais, emocionais e simbólicas – a partir de uma dinâmica mediada pela canção Comida. Participaram 30 mulheres, que registraram suas percepções em suportes simbólicos (pratos plásticos). Os resultados indicam a predominância das categorias “paz”, “saúde” e “moradia”, entre outras. Observa-se que as “fomes” expressas ultrapassam a dimensão biológica, configurando-se como indicadores de desigualdades estruturais.
Palavras-chave: fome simbólica; mulheres; ocupação urbana; interseccionalidade.
Introdução: sobre o que não cabe no prato
A fome, tradicionalmente compreendida como privação alimentar, tem sido progressivamente ampliada no campo das ciências sociais. Conforme afirma Josué de Castro, “a fome não é um fenômeno natural, mas um produto das estruturas sociais” (CASTRO, 2003, p. 45).
Nesse sentido, este estudo parte de uma experiência coletiva realizada com mulheres em contexto de ocupação urbana, propondo uma reflexão sobre “fomes” que extrapolam o campo biológico. A atividade foi mediada pela escuta da canção Comida, cuja letra afirma: “a gente não quer só comida”, indicando a complexidade das necessidades humanas.
A pesquisa busca compreender quais demandas emergem quando mulheres em situação de vulnerabilidade são convidadas a nomear suas “fomes”, bem como analisar o que essas expressões revelam sobre as condições sociais contemporâneas.
Referencial Teórico: as palavras que nos sustentam
A compreensão da fome como fenômeno social é central na obra de Josué de Castro, que afirma que “a fome coletiva é a expressão biológica de males sociológicos” (CASTRO, 2003, p. 67). No campo das relações de gênero, Heleieth Saffioti destaca que a desigualdade estrutural impacta de maneira diferenciada a vida das mulheres, sobretudo aquelas em condições de vulnerabilidade. Segundo a autora, “a violência de gênero é estrutural e atravessa as relações sociais” (SAFFIOTI, 2015, p. 78).
A análise também se ancora na perspectiva da interseccionalidade, proposta por Kimberlé Crenshaw, que aponta que “as experiências das mulheres não podem ser explicadas por um único eixo de opressão” (CRENSHAW, 2002, p. 177).
Além disso, este estudo dialoga com o conceito de escrevivência, de Conceição Evaristo, que compreende a escrita como expressão da experiência vivida. Para a autora, “nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para ninar os da casa-grande” (EVARISTO, 2005, p. 54).
Metodologia: como escutar com o corpo
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter participante, realizada a partir de uma oficina do Projeto Mulheres Vivas, desenvolvido por Koinonia Presença Ecumênica e Serviço e financiado pela FAU ( Fondo de Acción Urgente). Na ocasião participaram 30 mulheres residentes em ocupações urbanas, na área central de São Paulo. Todas participantes do Movimento por Moradia do Centro e Região (MMCR), que existe desde 2012 e que conta com a participação de mais de 200 mulheres, todas envolvidas nesta luta por moradia, dignidade e segurança.
A atividade foi estruturada em quatro etapas:
a) escuta coletiva de música disparadora: Comida (Titãs,1987);
b) reflexão individual sobre necessidades e desejos;
c) registro das percepções em pratos plásticos;
d) partilha coletiva.
Os dados foram organizados por meio de análise temática, considerando a frequência e o conteúdo das palavras registradas. A abordagem metodológica fundamenta-se na valorização da escuta e da participação das sujeitas envolvidas, reconhecendo o conhecimento produzido a partir da experiência.
Resultados: o que apareceu nos pratos
A sistematização dos dados permitiu identificar as seguintes categorias:
Observa-se que as categorias indicadas pelas participantes podem ser agrupadas em diferentes dimensões: necessidades fundamentais (paz e saúde); segurança habitacional (casa própria/moradia); dimensão material (bens materiais); dimensão ética e formativa (justiça, sabedoria e conhecimento); e dimensão relacional (amor, respeito, dignidade e reciprocidade).
No entanto, é importante destacar o apontamento da frase “a gente tem fome de saída para qualquer parte”, registrada em um dos pratos por uma das lideranças do movimento. Tal enunciação pode ser interpretada como a expressão de uma fome que ultrapassa as categorias anteriormente mencionadas, evidenciando um desejo profundo de mudança, deslocamento e reinvenção da vida. Trata-se de uma busca que não se restringe à satisfação de necessidades imediatas, mas que aponta para um movimento contínuo em direção à sobrevivência digna e à construção de novos horizontes possíveis, nos quais outros temas também possam ser incluídos, tais como mobilidade social, direito à cidade e esperança como prática política.
Discussão: quando a fome vira caminho
Os resultados evidenciam que as necessidades expressas pelas participantes ultrapassam a dimensão material, abrangendo aspectos relacionados à segurança, dignidade e bem-estar.
A centralidade das categorias “paz” e “saúde” pode ser compreendida à luz das condições sociais brasileiras. Dados do IBGE indicam a persistência de desigualdades estruturais, enquanto estudos do IPEA apontam para a precarização das condições de vida em contextos urbanos.
A recorrência da moradia como demanda reforça a importância do direito à cidade, evidenciando a insuficiência de políticas habitacionais que é o tema central deste movimento.
Além disso, as categorias relacionadas ao afeto e à dignidade indicam que as privações vivenciadas são também simbólicas, o que reforça a necessidade de abordagens interseccionais na análise social.
Considerações Finais: o que ainda nos move
Este estudo evidencia que a noção de fome, quando ampliada, permite compreender de forma mais profunda as condições de vida de mulheres em contextos de ocupação urbana.
As “fomes” expressas constituem indicadores relevantes das desigualdades sociais, ao mesmo tempo em que revelam expectativas e projetos de vida. Por fim, destaca-se a importância de metodologias participativas na produção de conhecimento, especialmente em contextos marcados por invisibilização social.
Esta experiência nos leva a afirmar que entre pratos vazios e palavras cheias, as mulheres revelam que a fome não é apenas de pão – é de mundo.
Referências
CASTRO, Josué de. Geografia da fome. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, p. 171–188, 2002.
EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe: um dos lugares de nascimento de minha escrita. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL MULHER E LITERATURA, 2005.
IBGE. Síntese de indicadores sociais. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
IPEA. Relatório de desigualdade social. Brasília: IPEA, 2023.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado e violência. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
Titãs. Comida. In: Õ Blésq Blom. São Paulo: WEA, 1989.

* Lídia Maria de Lima é teóloga negra, feminista, jornalista e pedagoga. Mestre em Ciências da Religião. Escritora e pesquisadora, com publicações na área de religião, negritude, gênero e pastoral. Mãe do Pedro e da Sofia. Atualmente trabalhando com pautas de Direitos Humanos, negritude, diversidade e religião. Assistente de projetos em KOINONIA e mobilizadora no projeto Mulheres Vivas.


