Apoiadores do candidato a prefeito de Simões Filho, Dinha Tolentino, promovem violência religiosa contra adeptos de religião de matriz africana

Por Luciana Faustine

Na última segunda-feira (09), adeptos de religião de matriz africana foram surpreendidos por um vídeo que circula nas redes sociais, o qual promove a candidatura de Dinha Tolentino (MDB) e diz que o candidato Eduardo Alencar (PSD) está indo a um terreiro de candomblé para receber a “benção do demônio”.

Com 1:53 de duração o vídeo mostra imagens da entrada do terreiro Ilê Axé Ominigê e um grupo de pessoas entrando no local. Segundo o narrador do vídeo uma das pessoas seria o candidato Eduardo Alencar, que estaria indo ali para “pedir a benção do demônio para receber a chave da cidade”.

Nos minutos seguintes o narrador afirma que evangélicos, católicos e pessoas que creem em Deus não devem permitir que Alencar  seja eleito, pois o único dono da cidade é Deus, e Deus levantou Dinha para governar a cidade.

Divulgada no último dia 7 de novembro uma pesquisa do Paraná Pesquisas demostra que Dinha está liderando as intenções de votos na cidade, com 32,4%, seguido por Eduardo Alencar, que ocupa o 2° lugar, com 23,3% das intenções de voto.

Em nota, representantes do Terreiro Ilê Axé Ominigê ressaltaram que se sentiram surpreendidos por um ato de racismo religioso, que ofende o direito de liberdade religiosa expresso na Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, que configura crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões.

“Nós do terreiro Ilê Axé Ominigê fomos surpreendidos, nesta segunda-feira, por um ato grosseiro e covarde de racismo religioso, comportamento de perseguição e cerceamento ao livre exercício de religião com o claro intuito de desqualificar a religião de matriz africana professada por milhares de pessoas na cidade. Um vídeo que circula nas redes sociais, promovendo a candidatura à reeleição do atual prefeito da cidade, conhecido como “Dinha”, ataca o nosso terreiro. O narrador, neste vídeo, declara com desfaçatez e escárnio que o candidato visitante estava “pedindo a bênção do demônio para receber a chave da nossa cidade…”. Constata-se, assim, que seus autores têm a intenção de nos desqualificar, atacando a nossa fé em nome de uma disputa partidária. Sentimo-nos extremamente violentados”, diz a nota.

Em suas redes sociais, Dinha Tolentino se manifestou através de uma nota de esclarecimento, na qual diz que “repudia atos de intolerância de qualquer natureza e Fake News”.

“Nossa campanha, que é pautada unicamente em trabalho e propostas para dar continuidade ao desenvolvimento do município, está sendo alvejada por uma vasta produção diária de Fake News. A falta de respeito na tentativa de pautar a disputa política, em Simões Filho, está causando indignação à nossa sociedade, e nossa Coligação repudia veementemente toda forma de notícia falsa, conteúdo preconceituoso, intolerância, retaliação ou violência que possam ferir a honra ou a moral do cidadão, grupos políticos, representações sociais ou religiosas”, diz a nota do candidato.

Ekedi de Oxum do Ilê Axé Ominigê, Tassia Batista, também se disse surpreendida com o vídeo e refuta a nota divulgada por Dinha Tolentino. Segundo ela, por ser um vídeo no qual enaltece a candidatura, o candidato deveria dizer se tem ou não algo a ver com o desenvolvimento e publicação do conteúdo.

“Ele não fala que não foi ele quem fez o vídeo, que não partiu de sua candidatura, ele não menciona nada disso. Ele só fala que é contra a Fake News. Como o vídeo enaltece a candidatura dele, o mínimo que ele deveria fazer é se posicionar contra atitudes racistas e de intolerância religiosa. Meu pai ficou super abalado. A perversidade do racismo, ele atinge de várias esferas, inclusive no sentido cívico”, disse ela.

Também Ekedi do Ilê Axé Ominigê, Fernanda Silva, gravou um vídeo expressando a sua indignação com o ocorrido.

“Todos nós da casa fomos surpreendidos. Esse vídeo escarnece com o candomblé, humilha e tira a dignidade do meu babalorixá e de todos os filhos da casa. O meu pai de santo tem 50 anos de iniciado, a casa está em Simões Filho há 40, é um lugar respeitado por toda comunidade, nós nunca passamos por isso. Nós, os filhos da casa, estamos engajados na batalha, pela história do meu babalorixá, Luiz Natividade de Oxum, pela história do nosso Ilê Axé Ominigê, por Oxum e por justiça”, disse ela.

Integrantes de religião de matriz, tanto de Simões Filho quanto de outras cidades e estados, demonstraram apoio ao acontecido. Dentre eles, Dofono Hunxi e Apokan Walter Junior, integrantes do Vodun Zo Kwe, que se manifestaram em suas páginas nas redes sociais, e Jaciara Ribeiro, ativista contra intolerância religiosa e iyalorixá do Ilê Abasá de Ogum, localizado em Salvador, capital do estado.

“Isso é muito perverso, até porque qualquer iyalorixá, qualquer babalorixá tem a sua casa e livre arbítrio para receber quem quiser. Então meu repúdio a esses neopentecostais. Mesmo nesse momento de afastamento presencial, estamos aqui atentos. Vamos denunciar ao Ministério Público, ao Centro de Referência de Combate ao Racismo e vamos aclamar aos orixás que nos proteja”, disse Jaciara.

Por sua parte, o candidato Eduardo Alencar, até o fechamento desse texto, não havia se manifestado publicamente sobre o ocorrido.  

Nota de Repúdio ao racismo religioso contra o Ilê Axé Ominigê

Simões Filho, 09 de novembro de 2020

Nós do terreiro Ilê Axé Ominigê fomos surpreendidos, nesta segunda-feira, por um ato grosseiro e covarde de racismo religioso, comportamento de perseguição e cerceamento ao livre exercício de religião com o claro intuito de desqualificar a religião de matriz africana professada por milhares de pessoas na cidade. Um vídeo que circula nas redes sociais, promovendo a candidatura à reeleição do atual prefeito da cidade, conhecido como “Dinha”, ataca o nosso terreiro. Nas imagens, consta a entrada da Casa Religiosa, cuja comunidade foi visitada por um candidato à Prefeitura de Simões Filho – prática comum em campanhas políticas. O narrador, neste vídeo, declara com desfaçatez e escárnio que o candidato visitante estava “pedindo a bênção do demônio para receber a chave da nossa cidade…”. Constata-se, assim, que seus autores têm a intenção de nos desqualificar, atacando a nossa fé em nome de uma disputa partidária. Sentimo-nos extremamente violentados.

É válido rememorar que a Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Repudiamos toda e qualquer iniciativa que insista em violar a livre expressão religiosa, assegurada pela Constituição Federal Brasileira. Atitudes como essa devem ser investigadas e punidas pelas autoridades responsáveis.

Não seremos interrompidos em nossa dignidade religiosa, jamais trataremos com condescendência atos que ferem nosso Babalorixá, nossa comunidade, nossa religiosidade. O Ilê Axé Ominigê demanda respeito e, como cidadãos, seus filhos e filhas se recusam a tratar este caso como corriqueiro. Este é um crime de ódio e de racismo e usaremos todos os recursos legais para identificar e punir os autores.

Nosso povo não esquece. Não esqueceremos.

Racismo religioso foi tema central da Roda de Conversa organizada por KOINONIA na Semana de Afirmação da Liberdade Religiosa

Foto: Erin McManaway

Por Camila Chagas

Aconteceu no dia 29 de janeiro de 2020, no Espaço Vovó Conceição, localizado no Terreiro da Casa Branca, a Roda de Conversa Sobre Racismo Religioso, uma das ações organizadas por KOINONIA na Semana de Afirmação da Liberdade Religiosa.

Para tratar sobre o tema, foram convidadas as professoras Elizete da Silva, historiadora e professora da Universidade Estadual de Feira de Santana e Lindinalva Barbosa, Omorixá do Terreiro do Cobre, ativista integrante da Frente Nacional Makota Valdina e da Caminhada Contra a Intolerância Religiosa do Engenho Velho da Federação.

A professora Elizete da Silva falou sobre o racismo religioso numa perspectiva histórica, explicando como as Igrejas Cristãs se relacionaram com a escravização no Brasil e como a prática do racismo reverbera nos dias atuais.

De outra ponta, a professora Lindinalva Barbosa trouxe suas vivências como mulher negra candomblecista face ao racismo e como este criou substrato para a intolerância religiosa.

A comunidade local, religiosos e pesquisadores refletiram muito atentamente sobre as questões apresentadas. Eles partilharam suas experiências, trouxeram questões e proposições de como é possível enfrentar e combater o racismo religioso.

As abordagens apresentadas pelas docentes se complementaram e ampliaram a dimensão da discussão, na perspectiva de pensar alternativas eficazes que sigam o caminho do respeito, educação, diálogo e da convivência pacífica entre as pessoas.

As pessoas presentes abordaram a importância do incentivo à educação, na ampliação de escolas comprometidas com a formação de seus discentes. Na oportunidade, foi colocado em questão o fechamento do Colégio Estadual Odorico Tavares, localizado na Vitória, bairro nobre de Salvador.

Os participantes demonstraram sua indignação com a medida do Governo do Estado da Bahia que fortalece o racismo e a exclusão social da juventude negra.

Nesse contexto, foi proposta a criação de um museu, no espaço onde está localizada a escola, como elemento de reparação ao genocídio da população negra, constituindo um centro de memória e resgate do legado africano na cultura brasileira.

Ademais, foi apontada a necessidade da participação dos cristãos na luta contra a intolerância religiosa, ressaltando a importância da comunhão com aqueles que acreditam no diálogo como fortalecimento da cultura da paz.