Entidades lançam campanha para combater fundamentalismo religioso

Na última segunda-feira, 17 de agosto, foi lançada a campanha Tire os Fundamentalismos do Caminho! Pela Vida das Mulheres. Para dar o pontapé inicial, organizações feministas e entidades religiosas – cristãs, afro brasileiras e indígenas – organizaram uma live que discutiu, entre outros assuntos, o papel do fundamentalismo no cerceamento dos direitos das mulheres.

O caso da menina de 10 anos estuprada pelo próprio tio pautou parte das discussões. “O lançamento da campanha faz ainda mais sentido, mostra a sua relevância e a sua urgência diante do que vivemos nos últimos dias com uma menina de 10 anos. Mostra toda a fúria e a violência dos grupos fundamentalistas e a desumanidade que esses grupos impões a nós mulheres contra a nossa vida, como se mostrou no caso dessa menina já submetida desde tão cedo à violência dos homens e do patriarcado, por meio do estupro. Foi também submetida à violência do Estado e à violência da ação dos grupos fundamentalistas. Essa situação nos provoca e nos conclama organizar a nossa revolta, organizar a nossa indignação contra os fundamentalismos, sua força e sua fúria contra nossas vidas e nossos corpos”, declarou Verônica Ferreira pesquisadora e educadora do SOS Corpo.

A campanha tem como objetivo alertar a sociedade brasileira sobre o avanço dos fundamentalismos e o risco que isso representam à vida das mulheres. A ação também tem como finalidade reafirmar a importância da pluralidade de crenças e apontar caminhos e práticas que levem à uma cultura de respeito e de valorização da diversidade.

Para a advogada e militante Vera Baroni, “o fundamentalismo hoje se transformou em política de governo”, e acrescenta que essa é uma “violência que não é nova, mas que vem crescendo a cada dia em nosso país”. Ela também afirma que vivemos um fundamentalismo escondido por trás do evangelho de Jesus de Nazaré, “que na verdade é um fundamento político, um projeto de poder que se funda no racismo presente em nossa sociedade”.

Representando as tradições indígenas, Elisa Pankararu lembra que o fundamentalismo religioso esteve presente em todas as épocas da história, e que Brasil, em relação aos povos indígenas, trouxe enormes prejuízos. “Esse fundamentalismo religioso, que tem como base o monoteísmo, quando chega aos nossos territórios traz uma imposição, uma invasão uma violação às nossas formas harmônicas de viver. Ele atinge diretamente as harmonias dos nossos coletivos, agride e viola os nossos territórios, corpos e espíritos”, pontuou.

Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), disse que a campanha era uma boa oportunidade para a autocrítica. “São as mulheres negras, as mulheres indígenas as que mais cotidianamente são atingidas pelos fundamentalismos. É um fundamentalismo que tem base religiosa, mas que também é político, econômico, racista e patriarcal. Infelizmente, no continente latino-americano têm se manifestado por uma matriz religiosa cristã. Então, para nós cristãs e cristãos, essa campanha serve como chamado à autocrítica, mas não uma autocrítica momentânea, uma autocrítica permanente. Será que nos identificamos realmente que a fé em Jesus Cristo seja associada com atitudes de racismo, de violência, de exclusão, de apedrejamento público? Será que isso mesmo que nós queremos?”.

GT de Comunicação da Campanha

Leia o manifesto “Não, meu irmão, não me violentes”

Fórun ACT Aliança FESUR: Um compromisso por ações que iluminem o caminho

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ARGENTINA – De 19 a 21 de agosto, organizações membros da ACT Alianza na América do Sul, realizaram o Seminário Internacional “Fundamentalismos, Democracia e Direitos Humanos: fé na ação por uma vida plena e digna na América do Sul”. Estiveram presentes 60 representantes de organizações religiosas e igrejas da América do Sul, que fazem parte da ACT Alianza e seus aliados, bem como agências ecumênicas internacionais, que emitiram uma Declaração de Compromisso.

Leia na íntegra:

Com profunda gratidão aos sinais divinos que vêm do trabalho a partir da paz, que nos une com amor e justiça em lutas e esforços compartilhados que fazem sentido em nossa América do Sul, e a partir do espírito ecumênico que nos estimula a novos desafios, assumimos com responsabilidade e esperança a criação do FESUR, como um espaço coletivo de ação, que está gestando novas e melhores ideias e projetos para responder o que está acontecendo na região com uma FÉ viva e desafiadora.

Nossa jornada compartilhada como FESUR é parte de um longo processo que teve, como ponto importante, a Conferência Global sobre América Latina e Caribe em março de 2019 na Guatemala. Foi quando membros dos Fóruns ACT da Argentina, Brasil, Colômbia e Peru concordaram sobre a validade e importância da consolidação do Fórum Ecumênico ACT Sulamericano (FESUR), como instrumento de ação e incidência na realidade sociopolítica de um continente encurralado devido ao aprofundamento das desigualdades estruturais, a redução dos espaços de participação da sociedade civil, ao aumento da violência e dos assassinatos de
defensores e defensoras dos direitos humanos e pelo enfraquecimento das democracias.

É essencial uma ação determinada com uma agenda de trabalho definida para os contextos onde crescentes fundamentalismos religiosos, políticos e econômicos invisibilizam e restringem os direitos de setores e comunidades já vulneráveis: grupos LGBTIQ +, povos indígenas e Quilombolas, população negra, crianças e adolescentes , mulheres de todos os grupos étnicos e
condições e milhões de pessoas criminalizadas por sua condição de migrantes. Esta ação é chamada a contestar não só as narrativas de medo predominantes, onde “o outro” é alguém a temer e odiar, mas também a estabelecer com certeza que qualquer construção de uma sociedade mais justa e solidária depende – em todos os momentos – de a atuação conjunta de todos os setores sociais e da FE de nossa região.

Abraçamos o sonho de um continente melhor, onde:
✓ A diversidade de pessoas e a pluralidade de seus pensamentos sejam uma riqueza a ser mantida.
✓ As múltiplas desigualdades, sejam um desafio a ser superado cotidianamente.
✓ Os projetos empreendidos coletivamente e em comunidade, sejam a referência para o caminho, mas também um lugar compartilhado, para caminhar com outras pessoas.

Que nossos compromissos sejam fortes e duradouros. Nossas vozes, firmes e de apoio. E nossos gestos, de amor e esperança.