Missão Ecumênica Visita Comunidades Tradicionais E Recolhe Denúncias De Violação De Direitos

Na tarde da última sexta-feira (04/10), a Missão Ecumênica pela Águas do Cerrado da Bahia: “Das nascentes ao São Francisco, águas para a vida!” seguiu rumo as comunidades e territórios tradicionais para recolher as denúncias e levar uma mensagem de esperança para os povos que diariamente lutam para viver e sobreviver. A comitiva teve a oportunidade de experenciar a diversidade da fauna e da flora local, como também dialogar sobre os desafios para manter a vegetação nativa e os rios menos escassos.

As visitas nas comunidades tiveram como objetivo verificar in loco os “clamores do povo”, as violações de direitos humanos decorrentes dos conflitos pelos recursos hídricos, e prestar solidariedade às histórias de vida e de luta das populações que vivem diretamente as consequências do modelo de desenvolvimento regido pelo capital.

As histórias narradas pelos moradores do território de Porteira de Santa Cruz que abrange Porteira de Santa Cruz, Torradas e Teles; das comunidades ribeirinhas Decoral e Morrão, do município de São Desidério; e dos povoados do Fecho de Pasto do Capão do Modesto e de Praia, ambos há 30 km de Correntina (BA), são bastante semelhantes. Famílias lutam em defesa pelo seu modo de vida e de produção, sofrem processo de criminalização e repressão policial e são obrigadas a construir a articulações e resistência todos os dias.

Segundos os relatos das populações tradicionais, a exploração das terras, das águas e dos territórios se intensificaram a partir da década de 70 com o início da invasão dos territórios das comunidades tradicionais para a expansão agropecuária, e posteriormente, para agronegócio. E todo esse processo foi “na base da bala e da expulsão”, conforme afirma uma ribeirinha da comunidade de Praia, que abrange terras de Fundos e Fechos de Pasto localizado na margem direita e esquerda do vale do Rio Arrojado.

Elisete Carvalho, moradora do Fecho de Clemente, explica que as comunidades de Fundo e Fecho de Pasto fazem o enfrentamento direito a ordem – onde tudo se transforma em mercadoria e dinheiro: “As comunidades se mantêm de forma coletiva, possuem uma dinâmica diferenciada, com uma administração partilhada. Conseguem viver sem conflito. Chega até ser uma aversão a lógica do capitalismo. ” E completa que os/as moradores da área são os verdadeiros/as guardiães do Cerrado “Se existe Cerrado em pé é graças a essas comunidadesApesar de tanta angustia e sofrimento, temos o prazer de viver e cuidar do nosso território ”.

Para Sônia Mota, representante do Fórum Ecumênico ACT Brasil e diretora executiva da CESE, os momentos das visitas para as comunidades foram bastante significativos, pois os participantes da Missão Ecumênica tiveram a oportunidade de conhecer de perto o modo de vida das pessoas, como elas se relacionam com a natureza, e como convivem e guardam o bioma Cerrado. “Viemos somar nossas vozes com as vozes das populações que lutam diariamente em defesa deste bem comum. Vamos fazer essa situação ecoar para as agências de cooperação internacional e parceiros/as que habitam em outros países. ”.

Após a visita, os missioneiros/as participaram do lançamento do Livro “Os pivôs da discórdia e a digna raiva: análise dos conflitos por terra, água e territórios em Correntina – Bahia” de Carlos Walter e Samuel Britto.

Audiência Pública Marca O Primeiro Dia Missão Ecumênica No Oeste Baiano

Respeitar os direitos das comunidades ”. Essas foi uma das frases mais repetidas durante a “Audiência Pública sobre Violação aos Direitos Humanos de acesso a água e ao território dos povos tradicionais do oeste baiano”. A ação civil pública abriu a Missão Ecumênica pela Águas do Cerrado da Bahia: “Das nascentes ao São Francisco, águas para a vida! ”, iniciativa do Fórum Ecumênico ACT Brasil, sob coordenação da CESE, em parceria com diversas organizações populares, movimentos sociais e pastorais.

A audiência ocorreu na Câmara de Vereadores da cidade de Barreiras (BA) e reuniu diversas representações sociais, gerazeiros, quilombolas, ribeirinhos, camponeses e camponesas de comunidades do oeste da Bahia – povos tradicionais das bacias do Rio Grande e Rio Corrente, do Baixo Rio São Francisco e outras localidades. O objetivo da ação civil pública foi debater e ouvir as populações diretamente afetadas com a violações de direitos relacionados a água, a terra e ao território.

Com a atribuição de estimular a efetiva participação da sociedade civil nas discussões e ações voltadas a proteção da Bacia do Rio São Francisco,  a audiência pública contou com a participação da Promotoria Regional de Barreiras e Promotoria de Justiça de Formosa do Rio Preto, a Coordenação do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos (CAODH), a CESE, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), a Agência 10envolvimento, o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Corrente, a Secretária de Promoção da Igualdade Racial (SEPROMI), a Governadoria do Estado da Bahia, o Ministério Público, entre outros.

Durante a audiência foram discutidas questões referentes ao atual modelo de desenvolvimento brasileiro e como o agronegócio tem usurpado os recursos naturais e destruído vidas. Amanda Silva, da Agência 10envolvimento, compôs a mesa como representante das organizações e movimentos presentes com o intuito de evidenciar os problemas sociais e ambientais que atingem as populações há décadas: “As comunidades lutam e resistem há anos para manter o Cerrado em pé. E isso tem aumentado os conflitos socioambientais e cerceado os direitos das comunidades. Não vamos pagar o preço desse modelo de desenvolvimento insustentável”, afirma a militante, sendo uma das falas mais aplaudidas pelas duzentas pessoas presentes no ato.

A plenária participou ativamente desta ação da Missão Ecumênica. Foram inúmeros os relatos de violência policial, ameaças, cárcere privado e sequestro de liderança. Na comunidade de Aldeia, no município de Formosa do Rio Preto são muitos os depoimentos de violação de direitos, que vão desde o risco a integridade física à falta de sossego emocional. Os moradores relataram agressões e atrocidades, além de denunciar a omissão e anuência do Estado. “O progresso chegou como rolo compressor passando por cima da gente. Estamos sendo oprimidos. Somos cidadãos com direitos e esses direitos precisam ser respeitados. ”, afirmou uma das participantes.

A plenária também se posicionou em relação ao Estado, que não só financia agronegócio, como também se omite diante dos conflitos socioambientais existentes na região. “Ninguém diz que as terras utilizadas para o agronegócio são terras públicas griladas. Há financiamento público através paras Parcerias Público Privadas (PPP) para explorar e violar direitos. Sem falar nas violentas ações e pistolagens legitimadas por decisões políticas e por fraudes cartoriais. ”, narrou um dos debatedores da plenária.

Luciana Khoury, promotora ambiental do Ministério Público da Bahia e mediadora da audiência, chama atenção para a questão da concentração da riqueza e da desigualdade condições socioeconômicas da região. Para a promotora, muitas comunidades produtivas são responsáveis pelo desenvolvimento do país e que decisões sobre a exploração dos recursos naturais precisam ser compartilhadas com a população: “As comunidades precisam ser consultadas. Se há indícios de devolutividade, não pode ter outorga e supressão de vegetal. É por isso que as pessoas estão afirmando que há ilegalidade. ”.

Para Khoury o saldo da audiência foi bastante positivo: “Quando as situações são contextualizadas sabemos quais serão os limites para exploração dos recursos naturais e quais serão os critérios técnicos paras concessões. Conseguimos coletivamente identificar onde podemos melhorar. ”, concluiu a mediadora.

Além da Missão Ecumênica, audiência pública fez parte do encerramento da missão organizada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e pelo Comitê de Defensores/as de Direitos Humanos (CBDDH).

Fotos: Thomas Bauer

Fórum Ecumênico ACT Brasil realiza a Missão Ecumênica pelas Águas dos Cerrados

MISSÃO ECUMÊNICA VISITA OESTE BAIANO E DENUNCIA CRISE HÍDRICA E VIOLAÇÕES DE DIREITOS SOCIOAMBIENTAIS

 

Entre os dias 3 e 5 de outubro, o Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT/ FEBRASIL) realiza a Missão Ecumênica pelas Águas dos Cerrados da Bahia no oeste do estado, estampando o lema: “Das nascentes ao São Francisco, águas para a vida!” Sob coordenação da CESE, a ação de incidência é realizada em parceria com diversas organizações sociais, movimentos populares e pastorais, entre elas, CONIC e Koinonia, além do apoio das agências internacionais HEKS/EPER; Christian Aid; Brot für die Welt e Misereor.

Desde 2015, o Fórum vem organizando missões com o objetivo de dar visibilidade nacional e internacional a situações de violação de direitos; fazer pressão a órgãos públicos na resolução dos conflitos; buscar uma maior aproximação das igrejas à realidade dos povos e reafirmar o compromisso ecumênico na defesa dos direitos humanos e ambientais.
Audiência pública, celebração ecumênica e visitas in loco irão compor a programação de atividades em comunidades dos municípios de Barreiras e Correntina.
Nesta região se encontram os rios das bacias do Carinhanha, Corrente e Grande, principais contribuintes das águas do rio São Francisco na Bahia, responsáveis por até 90% de suas águas no período seco. São elas que abastecem milhares de comunidades rurais e centenas de municípios baianos e dos outros estados do Sub médio e Baixo São Francisco. No entanto, as ações do agronegócio (que age sob a chancela do Estado) têm contribuído para uma das maiores crises hídricas da região.
Só para dar um exemplo, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – INEMA concedeu à Fazenda Igarashi, por meio da Portaria nº 9.159, de 27 de janeiro de 2015, o direito de retirar do rio Arrojado uma vazão de 182.203 m³/dia, durante 14 horas/dia, para a irrigação de 2.539,21 ha. Este volume de água retirada equivale a mais de 106 milhões de litros diários, suficientes para abastecer por dia mais de 6,6 mil cisternas domésticas de 16.000 litros na região do Semiárido. A água consumida pela população de Correntina, aproximadamente 3 milhões de litros por dia, equivale a apenas 2,8% da vazão retirada pela referida fazenda do rio Arrojado.
Tendo em vista esse panorama de violação de direitos, a Missão Ecumênica tem como objetivos denunciar o modelo predatório com que as águas da região vêm sendo utilizadas pelo agronegócio e pelas grandes empresas; cobrar que o Estado cumpra com o seu papel na resolução dos conflitos socioambientais, territoriais e hídricos no oeste da Bahia; e anunciar um outro modelo de convivência com o Cerrado, baseado na defesa da água como bem comum, na agroecologia e no respeito aos modos de vida das comunidades tradicionais.
PROGRAMAÇÃO
 Dia 03 de Outubro – Barreiras (Quinta-feira)
– Audiência Pública na Câmara de Vereadores – 14h
Dia 04 de outubro (Saída para as visitas às comunidades)
– São Desidério: comunidade atingida pela barragem do Alto Fêmeas
– Serra Dourada: comunidade Porteira de Santa Cruz
– Correntina: comunidade Capão Modesto
– Correntina: comunidade Praia
– Noite: Lançamento do Livro “Os pivôs da discórdia e a digna raiva: análise dos conflitos por terra, água e territórios em Correntina – Bahia” de Carlos Walter e Samuel Britto.
Dia 05 de outubro (Correntina)
– Ato Ecumênico
– Avaliação da Missão
MISSÃO ECUMÊNICA – OESTE BAIANO
Com realização do Fórum Ecumênico ACT Brasil e sob coordenação da CESE, a Missão Ecumênica pelas Águas dos Cerrados da Bahia no oeste do Estado conta com as seguintes parcerias: Comissão Pastoral da Terra-CPT; Instituto Padre André; Coletivo dos Fundos e Fechos de Pasto do Oeste da Bahia; Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais – AATR; Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP; Pastoral do Meio Ambiente – PMA; Agência 10envolvimento; Movimento de Atingidos por Barragem-MAB; Escola Família Agrícola Pe. André – EFAPA; Movimento de Mulheres Unidas na Caminhada-MMUC; Conselho Indigenista Missionário – CIMI; Campanha Nacional em Defesa do Cerrado: Sem Cerrado, Sem Água, Sem Vida; Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco-FUNDIFRAN; Associação Ambientalista Corrente Verde; Processo de Articulação e Diálogo-PAD; ACEFARCA, Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA e Ministério Público da Bahia.
A ação é apoiada pelas agências internacionais HEKS/EPER; Christian Aid; Brot für die Welt e Misereor.
Fonte: CESE
Imagem: Reprodução

KOINONIA participa de seminário sobre injustiça e desigualdades em São Paulo

 

Foto: Natália Blanco/ KOINONIA para Christian Aid

Por: Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC
Com adaptações

Injustiça e Desigualdades no Brasil hoje: Desafios Teológicos e Respostas de Fé. Este foi o tema de um seminário promovido pela Christian Aid, dias 5 e 6 de setembro, em São Paulo, e que contou com a participação do CONIC, representado pela secretária-geral Romi Bencke.

O objetivo era promover debates entre teólogas/os e diferentes atores da sociedade civil (movimentos sociais, organizações baseadas na fé, ONG´s, Igrejas) para a inovação de respostas ecumênicas ao retrocesso de direitos e controle dos recursos naturais em nosso país.

Contextualização

O trabalho de igrejas e organizações baseadas na fé por justiça social é reforçado por formulações teológicas que oferecem respostas aos desafios de cada contexto. É nesse sentido que Christian Aid organizou o Seminário com movimentos sociais, teólogos e teólogas, igrejas e organizações da sociedade civil, afinal, precisávamos debater temas como aumento da violência e do autoritarismo, desigualdade no acesso aos recursos naturais e a atuação de setores religiosos fundamentalistas foram alguns dos temas discutidos.

Debatedores
O evento iniciou com Doris Vasconcelos, representando a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), apresentando quem são as vozes proféticas na Amazônia e como a Igreja Católica vem trabalhando para defender as forças vivas na região e para promover sua presença como um sinal de esperança para os povos.
Ivanei Dalla Costa, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), mostrou os desafios enfrentados pelo MAB em suas lutas cotidianas de resistência junto às pessoas que tiveram sua existência desrespeitada e atropelada pelos megaprojetos e interesses de empresas privadas.
Pedro Abramovay, diretor para América Latina e Caribe da Open Society Foundations, apontou para o papel estratégico do Brasil na disputa entre discursos religiosos dicotômicos, e alertou para os perigos da associação entre atores religiosos e setores corruptos da sociedade latinoamericana.

Para Nancy Cardoso, teóloga da Christian Aid, a cooptação de discursos religiosos por atores que se beneficiam das injustiças é um sintoma do que Walter Benjamin chamou de parasitismo da religião pelo capitalismo: “A Bíblia nunca foi tão importante, e a Bíblia não quer dizer nada”. Nancy afirmou que uma interpretação radical do Evangelho nos permite ver que toda riqueza e concentração de recursos de parábolas é negativa. Através como Ezequiel e O Jovem Rico, fica claro que o desvelamento dos mecanismos de reprodução da desigualdade é uma condição para esperança e salvação.

Segunda etapa
A seguinte mesa explorou os desafios relacionados à apropriação dos recursos naturais. O representante do MAB apresentou dados sobre as riquezas naturais do Brasil e por que o país está na mira dos interesses geopolíticos internacionais. A Sempreviva Organização Feminista (SOF) trouxe casos relacionados à organização de comunidades por seus recursos e direitos, e provocou o grupo a pensar em como manter formas de vida em comunidades que vivem em comunhão com a natureza.

O teólogo Fabio Py conduziu o público por uma reflexão sobre o movimento de Jesus, que foi um movimento de trabalhadores pobres, de camadas excluídas da população, contra a subjugação do império Romano. Para Fabio, esse Jesus permanecerá para sempre fora da historiografia oficial, e é o papel daqueles comprometidos com a justiça desenvolver uma narrativa alternativa que complemente seu legado.

Terceiro tempo
Marilia Schüller esteve representando KOINONIA, compartilhando as experiências de resistência e desafiadora no contexto atual, ao trabalhar a partir de uma perspectiva interreligiosa e ecumênica pautas na promoção de direitos com a superação da intolerância e racismo religioso, justiça de gênero, população LGBTQI+ e comunidades negras tradicionais. Foto: Natália Blanco/ KOINONIA para Christian Aid
Seguindo a mesma estrutura, a terceira mesa trouxe experiências de MST e Koinonia no enfrentamento à violência e ao retrocesso em direitos fundamentais. Suas falas convocaram à elaboração de alternativas, mas não teóricas – em termos práticos, quais são os elementos que nos levam a uma boa vida? Nesse sentido torna-se urgente construir novas pontes entre diferentes grupos culturais e lutas específicas.
O teólogo Fellipe dos Anjos conduziu uma reflexão sobre como a teologia pode ajudar nessa tarefa – mas somente se deixamos de lado as visões que colocam a religião como lugar do passado. Para Fellipe, a teologia é uma linguagem viva que legitima alguns valores e formas de vida em detrimento de outras, e a tarefa é produzir novas teologias e reafirmar novos valores.
Última mesa
Na última mesa, a reflexão teológica esteve no centro no debate e refletiu os elementos levantados anteriormente. Yuri Orozco (pelo CONIC) apresentou uma síntese das reflexões anteriores e enfatizou a necessidade de buscar novas formas de teologia que reflitam o ser humano como sujeito coletivo.
A teóloga anglicana Bianca Daebs refletiu sobre o papel privilegiado da teologia com o potencial de trazer novos sujeitos do discurso para o centro da arena.
O pastor Ricardo Gondim compartilhou sua experiência como pastor enfrentando os desafios de defender a justiça em um contexto que em as pessoas buscam saídas fáceis pela religião. “Nossa missão não é que as pessoas se sintam bem nos cultos, mas sim que sejam chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória”, concluiu.

Juntos e juntas pelo Brasil – Christian Aid lança sua nova Estratégia Global em São Paulo

 

Na última quinta-feira, dia 30 de maio, Christian Aid realizou evento de lançamento de sua Estratégia Global 2019-2026 no Consulado da Irlanda em São Paulo. KOINONIA, como organização parceira de Christian Aid no Brasil esteve presente, além de representantes de outras organizações, a equipe internacional da Christian Aid, representantes do governo irlandês e lideranças religiosas.

O evento apresentou a estratégia e o compromisso da organização em fortalecer um movimento global por justiça e fortalecer parcerias pelo compromisso com a erradicação da pobreza extrema e suas causas estruturais, além da ampliação de vozes proféticas dos pobres e marginalizados.

“A crescente presença irlandesa na América Latina demonstra o compromisso do governo irlandês com essa parte do mundo. Parabéns à Christian Aid pelo lançamento dessa Estratégia Global!”

Barry Tumelty- Cônsul da Irlanda em São Paulo.

“(…) A Christian Aid está lançando sua estratégia global no Brasil, e como secretário geral da Aliança ACT eu quero aproveitar essa ocasião para enviar uma saudação e ressaltar a importância dessa estratégia para a nossa Aliança. (…) Como uma organização baseada na fé, a estratégia reflete a nossa crença de que todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus, e portanto agentes de direito. A estratégia articula o desejo de que todos tenham vida em abundância e o compromisso de fazer tudo que pudermos para garantir que a nossa contribuição seja focada em realizar essa visão. Parabéns Christian Aid e seus parceiros no Brasil!

Rudelmar Bueno- Secretário Geral da Aliança ACT

“O Brasil é o primeiro país a realizar um evento de lançamento da Estratégia Global. Em um momento de muitos desafios na America Latina e de crescente pobreza, essa é uma importante expressão de solidariedade.”

-Mara Luz – Chefe da Divisão America Latina e Caribe da Christian Aid

No atual contexto de aumento da pobreza e violência no país, a Christian Aid tem um importante papel a cumprir como organização global atuando localmente. Conectando atores de fé e comunidades locais com igrejas do Reino Unido, a organização permanece junto àqueles que lutam por justiça, por dignidade e por igualdade.

 

Por: Christian Aid Brasil

FEACT – Brumadinho: 70 dias depois e infinitas realidades de um mesmo crime

Região do Córrego do Feijão, atingida pelo rompimento da barragem. Rodrigo Zaim R.U.A/Christian Aid

 

Dois meses se passaram desde o dia 25 de janeiro. Há dois meses que a vida das pessoas da região de Brumadinho (MG), estacionou no crime cometido pela mineradora Vale do Rio Doce, com o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão . Dois meses depois do “auê” da imprensa tradicional e sua cobertura quantitativa. Número de mortos, desaparecidos, sobreviventes, investimentos que caíram, “dinheiros” perdidos.

“A Vale roubou minha paz de espírito. Perdi minha cunhada e minha irmã. Minha cunhada foi encontrada, sofremos, mas conseguimos fechar esse capítulo. Mas agora eu vivo na espera, todos os dias, por notícias sobre a minha irmã. Não consigo mais fazer o que era minha maior alegria, ir caminhar no meio do mato, porque a qualquer momento penso que vão me ligar pra dizer que encontraram o corpo dela.” – Atamaio Ferreira, morador de Córrego do Feijão.

Desde janeiro o Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT), coordenado por KOINONIA, Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e parceiros locais estão atuando no apoio psicossocial e distribuição de água e alimentos para famílias atingidas no crime de Brumadinho. Tudo isso graças ao Fundo de Resposta Rápida da ACT Aliança.

Além disso, o trabalho também se deu em parcerias com o Ministério Público (MPF), a seção local de Minas Gerais do escritório do Defensor Público (DPU), Igreja Católica e Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC-MG).

Débora Matte é psicóloga de formação e atuou como orientadora e monitora das equipes de atendimento psicossocial da articulação MAB/FEACT – KOINONIA. Ela e outros parceiros relataram que se tornou comum na região ouvir histórias de crianças desenhando corpos, sangue e helicópteros, num sinal claro da experiência vivida. A moradora Sara de Souza Silva conta sobre o trauma em seus filhos, que não conseguem mais dormir sozinhos.

“Para mim, a Vale tinha que tirar todo mundo daqui. Como as crianças vão crescer com essa lembrança? Como vai ficar a cabeça delas no meio dessa lama toda?”.

A região apresenta cenários distintos e complexos. No centro de Brumadinho, a vida tenta manter uma normalidade, e as famílias da região do Córrego do Feijão pensam em como seguir daqui para frente.

Confira a reportagem especial completa abaixo:

Brumadinho: 70 dias depois e infinitas realidades de um mesmo crime (Português)

Brumadinho: 70 días después y infinitas realidades de un mismo crimen (Español) – ALC noticías

* Por Natália Blanco/ KOINONIA com a colaboração de Sheila Tanaka/ Christian Aid Brasil para FEACT .

Após conferência global sobre América Latina e Caribe, ACT Aliança se posiciona diante contexto de retrocessos na região

Mais de 50 representantes de 32 organizações, oriundas de 21 países da América Larina e Caribe, América do Norte e Europa, convocados pela ACT Aliança, estiveram reunidos na Guatemala, de 27 a 29 de março, para discernir e discutir a complexa e instável situação da América Latina e Caribe, bem como suas relações com os processos políticos globais e suas implicações em relação aos Direitos Humanos, a segurança, a democracia, as necessidades humanitárias e o desenvolvimento sustentável. O objetivo foi definir estratégias que contribuam para soluções políticas, reconciliação social e solidariedade na região.
O fortalecimento de setores políticos e econômicos que promovem o conservadorismo; a violência de gênero e feminicídio; intolerâncias contra migrantes; os problemas em torno das mudanças climáticas e o protecionismo praticado para com empresas que se apossam de bens comuns; o crescente fundamentalismo religioso; e a violência contra defensores de direitos humanos, foram alguns dos temas debatidos durantes estes dias.

KOINONIA*, como organização membro da aliança, esteve presente, assim como o Fórum Ecumênico Brasil.

Foto: Sarah De Roure – Christian Aid.

Rafael Soares, diretor de KOINONIA, participou do painel sobre o papel que o fundamentalismo religioso acaba exercendo, trazendo a conjuntura vivida pelo Brasil.

Para Rafael, “o cristianismo tem sido um terreno receptivo para as negações cientificas (como supostas conexões entre vacinas e enfermidades, a questão das mudanças climáticas, etc) negações históricas (sobretudo em relação às literalidades da bíblia), e uma integridade moral, que não restringe ao ambiente particular e que toma espaços coletivos e políticas públicas (como a defesa de abstinência sexual como único método de combata às ISTs e gravidez precoce, por exemplo)”.

“Para os fundamentalistas, não basta negar a universidade, a ciência, a imprensa, como um “lobo solitário”, mas são necessários grupos e instituições que legitimem tão negações como verdades literais e integrais. Isso abarca desde grupos que militam pelo ensino do criacionismo nas escolas, como também comunidades defensoras de teorias conspiratórias como os terraplanistas. Se forma assim uma cosmovisão em que o mundo se divide entre nós, os esclarecidos, portadores da verdade, contra os demais, dominados e doutrinados pelas forças demoníacas, comunistas, secularistas e por aí vai”, completa.

Os membros da ACT Aliança, as organizações ecumênicas e as organizações baseadas na fé, da América Larina e Caribe, estão preocupadas – enfatizam – e muitas delas se veem afetadas pela reação violenta contra os Direitos Humanos e o estado de direito, a redução do espaço de ação da sociedade civil, a diminuição da liberdade de imprensa, a imparcialidade, o aumento da corrupção e a carência de transparência por posições políticas.

Como organizações baseadas na fé, não deixaram de fora a reflexão teológica: “A ação de Deus nos desloca, nos salva, nos exige perseverança e coragem para caminhar junto às lutas de nossos povos na construção de sociedades democráticas, na promoção da justiça econômica e socioambiental, na luta pela justiça de gênero e a justiça para as populações migrantes e deslocadas.”

A partir da região, foram pensadas ações pontuais de trabalho a curto e médio prazo, por exemplo: fortalecer a ação conjunta com agências e programas das Nações Unidas no intuito de impulsionar iniciativas regionais de justiça de gênero e contra todas as formas de violência que transformem marcos legais e eliminem leis discriminatórias; transpor a impunidade; lutar contra a redução do espaço de atuação da sociedade civil; dar visibilidade para a questão da gravidez na juventude; acompanhar as comunidades em seus processos de acesso à justiça.

“A gravidade do sofrimento dos nossos povos nos impele a levantar nossa voz frente aos poderes políticos e econômicos que causam a injustiça e a desigualdade que afetam milhões de vidas.

* Neste ano, especificamente em abril, KOINONIA celebra 25 anos de existência. Anos de muita luta por direitos, desafios e também de alegrias. Conheça KOINONIA (com link: https://koinonia.org.br/quem-somos/sobre-koinonia).

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A seguir, a declaração completa:

Declaração final da Conferência Global sobre a América Latina e o Caribe

27 a 29 de março de 2018, Cidade da Guatemala

Somos mais de 50 representantes de 32 organizações de 21 países da América Latina e do Caribe, América do Norte e Europa convocados pela Ação Conjunta das Igrejas da ACT Aliança¹ para discernir e discutir a situação complexa e volátil na América Latina e no Caribe, a intersecção com os processos políticos globais, bem como seu envolvimento nos direitos humanos, segurança, democracia, necessidades humanitárias e desenvolvimento sustentável.

A ACT Aliança é uma coalizão internacional de igrejas e organizações baseadas na fé que trabalham juntas em resposta humanitária, trabalho de desenvolvimento e incidência. No geral, os membros têm uma longa história de promoção da justiça social, dos direitos humanos e do desenvolvimento sustentável. Na Assembleia Geral da ACT Aliança, realizada em Uppsala, Suécia, no final de 2018, os membros da ACT da América Latina e do Caribe apresentaram seus compromissos para atuar conjuntamente¹ em situações políticas, econômicas, sociais e humanitárias, estas cada vez mais complexas.

Vemos que a região da América Latina e do Caribe enfrenta uma crise crescente com sérias implicações humanitárias e reações violentas aos direitos humanos e ao estado de direito. Desde junho de 2016, uma onda de eventos políticos negativos está afetando países como Venezuela, Brasil, Nicarágua, Guatemala, Honduras, Colômbia e Haiti. Estas se dão em um contexto de fortalecimento de setores políticos e grupos econômicos que promovem o conservadorismo, as políticas protecionistas e a intolerância contra imigrantes.

Este problema é agravado por uma invasão das indústrias extrativistas multinacionais e pelo impacto desigual provocado pelas mudanças climáticas. Essas empresas tiveram acesso injusto a bens comuns, como terra e água, sem proteção ambiental adequada ou tributação justa. Seus efeitos, aliados ao uso crescente de agroquímicos, são sentidos diretamente pelo meio ambiente e comunidades indígenas e camponesas. O impacto desigual das mudanças climáticas exacerba os processos de empobrecimento e migração de grandes setores da nossa população.

A violência política tem ceifado centenas de vidas. As execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias se dirigem cada vez mais às pessoas defensoras dos Direitos Humanos, ativistas sociais e políticos progressistas, povos indígenas, afrodescendentes, mulheres e pessoas LGBTI. O racismo, a xenofobia, o ódio às pessoas empobrecidas, a homofobia e a misoginia estão aumentando em todos os níveis.

Estamos cientes de que parte dos conflitos e da violência que vivemos na América Latina e no Caribe, bem como em outras partes do mundo, se baseiam no desenvolvimento do fundamentalismo religioso. No entanto, entendemos que não há fundamentalismo religioso sem fundamentalismo político e econômico que se alimenta das desigualdades, injustiças e

iniquidades. De fato, estão sendo desenvolvidas políticas discriminatórias a partir destes setores que ameaçam as convenções e acordos globais alcançados pela comunidade internacional.

Os membros da Aliança ACT, organizações ecumênicas e organizações baseadas na fé na América Latina e no Caribe, estão preocupados e afetados pela reação contra os direitos humanos e o estado de direito, a redução do espaço para a sociedade civil, a diminuição da liberdade de imprensa, o aumento da corrupção e a falta de transparência nos processos políticos.

A Quaresma nos faz recordar que é um momento particular de transformação pela ação divina que renova a vida. Testemunhamos a caminhada de Deus em nosso continente, de Sua palavra que se eleva profeticamente e nos transforma em esperança. Reconhecemos nas vidas e vozes de tantas mulheres e homens os sinais do Reino da Justiça, e na Sua morte e legado um apelo à ação pela dignidade. Aprendemos com os lutadores indígenas como Berta Cáceres de Honduras, das mulheres negras, como Marielle Franco do Brasil, de Alizon Mosquera, uma das centenas de defensores de direitos humanos mortos na Colômbia. Estamos retumbantes às vozes de milhares de pessoas na caravana dos migrantes na América Central, dos defensores ambientais da comunidade de Granadillas e das meninas vítimas do Lar Seguro Virgem da Assunção, na Guatemala.

A ação de Deus nos desloca, nos salva, nos exige perseverança e coragem para caminhar junto às lutas de nossos povos na construção de sociedades democráticas, na promoção da justiça econômica e socioambiental, na luta pela justiça de gênero e a justiça para as populações migrantes e deslocadas. A gravidade do sofrimento dos nossos povos nos impele a levantar nossa voz frente aos poderes políticos e econômicos que causam a injustiça e a desigualdade que afetam milhões de vidas.

Estamos cientes de que a busca pela superação da pobreza, da injustiça e da violência nos obriga a levar em conta a diversidade de temas e assuntos envolvidos na construção de soluções com propostas democráticas de solidariedade e de bem comum.

Vemos na voz e na ação pública da juventude, a criatividade e a potencialidade de uma voz profética diante da sociedade, dos governos e dos espaços multilaterais. Assumimos o compromisso de aprender com eles, de trabalhar em conjunto e de reforçar a sua participação e envolvimento nos processos decisórios.

Reconhecemos, a partir de nossa vocação ecumênica e interreligiosa, que se torna necessário e urgente: ampliar nossas alianças com diferentes organizações religiosas e com a comunidade religiosa; Fortalecer diálogos efetivos com organizações de direitos humanos, movimentos sociais, incluindo o setor privado e agências governamentais e multilaterais, atuando conjuntamente com provocação, reflexão e diálogo para caminhar no ritmo das rápidas mudanças da realidade, que deixam até hoje os paradigmas vigentes pouco válidos.

Agradecemos com especial atenção o acompanhamento da presidenta da Comissão Interamericana de direitos humanos (CIDH) Esmeralda Arosemena de Troitiño, de Luis Pedernera Reyna, do Committee on the Rights of the Child, bem como a presença de representantes das Nações Unidas na análise dos desafios e possibilidades de uma maior interação contra os desafios que são apresentados e projetados na América Latina e no Caribe.

Assumimos o compromisso de:

  • Estabelecer uma articulação regional e global que acompanhe as crises políticas e sociais na região, com especial atenção às situações vivenciadas nos países da Venezuela, Brasil, Nicarágua, Guatemala, Honduras, Colômbia e Haiti.
  • Promover e apoiar a voz e as estratégias das igrejas e organizações baseadas na fé frente ao fechamento dos espaços da sociedade civil, influenciando aos organismos regionais e globais.
  • Acompanhar as comunidades em seus processos de acesso à justiça em nível territorial, apoiando suas demandas e reivindicações.
  • Fortalecer a ação conjunta com as agências e programas das Nações Unidas para promover iniciativas regionais e globais de Justiça de gênero e contra todas as formas de violência que transformem quadros jurídicos e eliminem leis discriminatórias.
  • Desafiar a impunidade e a redução do espaço da sociedade civil e assegurar às cidadãs e cidadãos, sujeitas e sujeitos de direitos, desmascarando práticas nocivas e corruptas.
  • Fortalecer os espaços internos da Aliança, como as comunidades de práticas de Justiça de gênero e outros, para gerar visões e ações conjuntas contra o fundamentalismo religioso e a injustiça.
  • Garantir que as lideranças dos direitos humanos e da natureza sejam protegidos.
  • Visibilizar e influenciar órgãos oficiais para que a institucionalidade funcione, contra a estigmatização, falta de acesso e a falta de atenção para com defensores de direitos.
  • Evidenciar as violações de direitos, a fim de alcançar as agências e governos em instâncias de direitos humanos, reforçando o diálogo com a CIDH, o sistema das Nações Unidas e as organizações nacionais e internacionais de justiça.
  • Facilitar a voz das crianças e dos jovens, para que sejam sujeitas e sujeitos plenos de seus direitos. A defesa das crianças e dos jovens deve basear-se na realidade da inequidade e das desigualdades em que este setor serve como justificação e segue sofrendo com as consequências da exclusão.

Neste tempo de Quaresma e da proximidade da Páscoa da Ressurreição temos na certeza da nossa fé, que a esperança é revitalizada no Jesus encarnado, a quem nos viramos em face de toda a desesperança para renovar a nossa vocação de Justiça e de amor. Jesus, “para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna “(Evangelho de João 6:68).

 

Cidade da Guatemala, 29 de março de 2019.

 

¹ https://actalliance.org/act-assembly/assembly/public-statement

Não Esqueceremos: Atos em Minas Gerais marcam vitórias um mês após o desastre em Brumadinho

Ato em memória e por justiça em Brumadinho no dia 25/02/19 – MG. Foto: Christian Aid Brasil

Exatamente um mês após o desastre causado pelo rompimento da Barragem da Vale do Rio Doce de Córrego do Feijão, Brumadinho, MG, atos e celebrações aconteceram em Brumadinho em Belo Horizonte para marcar as conquistas judiciais conseguidas até o momento.

Com a voz das pessoas atingidas, ainda sem total amparo, e com muitos familiares desaparecidos, a mobilização da solidariedade lembrou o luto na luta para fazer valer a reparação e buscar o consolo para tanto sofrimento. Religiosos e religiosas, como se somaram a movimentos sociais nessa ação de memória, denúncia e oração.

Em Belo Horizonte as atingidas e atingidos ocuparam a Praça Sete para se expressar. Em Brumadinho as ruas centrais foram ocupadas até um ato em frente à ponte sobre o Rio Paraopeba. Outros atos se seguiram, como em Salvador – BA e ao longo do Rio já bastante contaminado, alcançando celebrações ao longo do Rio São Francisco até a sua foz, em Penedo – AL.

Nesse dia e nos dias seguintes também tem sido um tempo de, no luto, celebrar a primeira vitória conquistada na interlocução entre famílias atingidas, ministério público,

Ato em Belo Horizonte no dia 25/02/2019. Foto: KOINONIA.

defensoria pública, representantes da empresa Vale, perante juízo.

Após decisão judicial a Vale deverá pagar:
1) Para as pessoas do Município de Brumadinho, mensalmente por 12 meses
– Um salário mínimo (s.m) para cada adulto;
– Meio salário mínimo para cada jovem ou adolescente;
– e 1/4 de salário mínimo para cada criança.

2) Para pessoas ao longo do Paraopeba, que vivem em um raio de 1km, para cada lado da calha do Rio:
– As mesmas indenizações provisórias decididas para Brumadinho: 1 s.m. por adulto, 1/2 s.m por jovem ou adolescente e 1/4 s.m. por criança, mensalmente por 12 meses.

O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT – Brasil) esteve presente no ato em Belo Horizonte e segue trabalhando na região de Brumadinho e em localidades seguindo o curso do Rio Paraopeba.

Por mais 75 dias, o FEACT – Brasil seguirá atuando com parceiros e lideranças comunitárias, na coordenação das ações. Uma equipe de facilitadoras e facilitadores, promotoras e promotores e lideranças locais vai garantindo a implementação da resposta humanitária, estabelecendo comitês com as pessoas atingidas, para a gestão adequada das atividades.

Da perspectiva inicial cresceu o número de famílias identificadas, e que, após 30 dias do desastre, não receberam sequer a primeira ajuda de segurança alimentar. Um atendimento já estimado em 960 famílias está em curso, e ficou evidente a necessidade de ajustar a estratégia da ajuda psicossocial, para o cuidado com a proteção solidária das vítimas nos próximos dias da ajuda humanitária às famílias – incluindo dimensões de empodramento das atingidas para diálogos, negociações e incidências por seus direitos básicos.

Para sua atuação, o FEACT – Brasil recebeu apoio do Fundo de Resposta Rápida da ACT Aliança, uma coalisão com sede em Genebra (Suíça), que reúne 151 organizações baseadas na fé e igrejas, trabalhando juntas em mais de 125 países.

É tempo de solidariedade no luto e de celebrar a esperança na luta!

#NãoEsqueceremos #Brumadinho #NãoFoiAcidenteFoiCrime

 

Neste ano, especificamente em abril, KOINONIA celebra 25 anos de existência. Anos de muita luta por direitos, desafios e também de alegrias. Conheça KOINONIA.

Fórum Ecumênico ACT Brasil atua com fundo de resposta rápida da ACT Aliança em Brumadinho

Era uma sexta-feira, dia 25 de janeiro de 2019, quando o estado de Minas Gerais, mais uma vez foi surpreendido pelo rompimento de uma barragem da empresa mineradora Vale. Desta vez a cidade de Brumadinho e a reserva do Parque da Cachoeira, município da zona metropolitana de Belo Horizonte, capital mineira; e mais de 220 km ao longo do curso do rio Paraopeba.

As imagens divulgadas mostram como de repente um mar de lama avança, liberando mais de 12 bilhões de litros de fragmentos de resíduos minerais, com rejeitos da mineração de ferro. Há apenas 3 anos, outro desastre ambiental semelhante, fruto de negligências, acontecia na cidade Mariana, também Minas Gerais.

Com este cenário, o Fórum Ecumênico Brasil (FEACT), membro da Aliança ACT, solicitou uma ajuda de emergência para suporte humanitário na região. A solicitação foi atendida, e nos próximos 3 meses, o Fórum vai atuar em conjunto com parceiros e lideranças comunitárias nos processos de coordenações da ação.

A ação visa o apoio psicossocial para 760 famílias, e entre elas, 150 apoiadas com água, alimentos suplementares de proteína e materiais de higiene para mulheres e crianças.

Neste momento há uma equipe de facilitadores, promotores e líderes locais que vai garantir a implementação adequada da resposta humanitária, estabelecendo comitês operacionais para uma gestão adequada da ajuda.

14 dias após o rompimento da barragem os números do impacto são:
• 760 famílias despejadas afetadas diretamente (3.800 pessoas)
• 5400 famílias evacuadas de domicílios (27.000 pessoas) de Brumadinho
• 157 óbitos confirmados – 134 pessoas identificadas
• 192 pessoas resgatadas
• 182 pessoas desaparecidas
• 250 casas danificadas
• 25 casas totalmente destruídas.

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Meu Corpo, Minha Fé

No último sábado, 02/02, aconteceu a Roda de diálogo Meu corpo, minha fé: violências e abusos da religião. Parceria entre KOINONIA, Reju São Paulo (Rede Ecumênica da Juventude), Evangélicas pela Igualdade de Gênero e Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Pudemos escutar grandes contribuições de mulheres como Ivone Gebara, teóloga, filósofa e freira católica; Priscila Queiroz, assistente social e ativista da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito; Samantha Lodi, comunicóloga, historiadora, doutora em Educação, membro da ABPE (Associação Brasileira de Pedagogia Espírita) e do Coletivo Educacional de Mulheres Maria Lacerda de Moura. Maryuri Mora Grisales, teóloga, cientista da religião e ativista da Rede Ecumênica da Juventude; Iyá Adriana Toledo , zeladora do Ilê Axé Omó Nanã e integrante da Frente Interreligiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz. Sarah de Roure, coordenadora do programa para o Brasil da Christian Aid Brasil, Valeria Vilhena, teóloga, pesquisadora e fundadora da Evangélicas pela Igualdade de Gênero; e Angelica Tostes, teóloga, ativista inter-religiosa e da Rede Ecumênica da Juventude.

Ester Lisboa, de KOINONIA, também pode compartilhar sobre a iniciativa da Rede Religiosa de Proteção à Mulher Vítima de Violência, que aposta no potencial das comunidades religiosas para o acolhimento, buscando transformá-las em espaços de informação e prevenção da violência contra mulheres de diferentes faixas etárias.

O encontro, também proporcionou momentos de desabafos, compartilhar de sentimentos e vivências que nos fazem refletir para agir. Movimentos como Católicas Direito de Decidir, Diversidade Católica, entre outros.

“A gente entende que nossa missão profética é vir afirmar a nossa presença dentro dos espaços religiosos. E mostrar que a igreja cristão não é essa aí que está e não nos representa. Não é essa igreja cis hetero normativa, branca. É uma igreja diversa, é uma igreja plural, que reflete a imagem de um Deus plural, de um deus que é trindade, que nós acreditamos”, contribuiu Cris Serra, da Diversidade Católica.

De luto, à luta!

Também tivemos a honra de contar com uma participação à distância de Sabrina de Campos Bittencourt, ativista que há anos trabalhou denunciando e lutando contra a violência e opressão para com as mulheres nas comunidades religiosas, como no último caso noticiado de João de Deus. Sabrina, de 38 anos nos deixou no mesmo sábado, cometendo suicídio aos 38 anos.
Ela era porta-voz do movimento COAME – Combate ao Abuso no Meio Espiritual, responsável coletivamente em conjunto com Grupo Vítimas Unidas, por denunciar, acolher as vítimas e articular com a sociedade civil os crimes cometidos por líderes religiosos.

KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço se solidariza com a famílias e amigos de Sabrina, na certeza de que sua luta não será em vão nesta jornada por um mundo mais justo e igualitário para todas as mulheres, todas as pessoas.

Confira as fotos do encontro: https://goo.gl/KTMr2S

 

Fotos e texto: Natália Blanco/ KOINONIA.

 

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Relato: Juventude latinoamerica se reúne em El Salvador para discutir Água, Alimentação e Justiça Climática

É tempo de reconciliação com a Pacha Mama*

No dia 1 de novembro havia se passado 3 dias do resultado das eleições presidenciais no Brasil e eu estava indo pra San Salvador (capital de El Salvador, um país de cerca de 21 mil km² de extensão. O estado de São Paulo no Brasil, onde vivo, tem cerca de 248 mil km²). Estava a caminho da EcoSchool 2018 “Água, Alimentación y Justicia Climática” para me juntar a um grupo de jovens de diversos países da América Latina e Caribe para 12 dias de trabalho intenso sobre a temática. A iniciativa é do Conselho Mundial de Igrejas em parceria com o escritório da ACT Aliança para a América Latina, a qual KOINONIA e outras organizações brasileiras fazem parte.

Fui decidida a desligar de tudo que vinha pensando/passando no meu país. Mas como o “vento sopra onde quer” (na linguagem ecumênica), fui surpreendida.

Bem, falar sobre água, alimentação e justiça climática sob por meio de uma perspectiva teológica é bastante desafiador. Porque quando nós, como pessoas e organizações, instituições baseadas na fé, nos comprometemos com os valores de justiça do reino nossas responsabilidades se multiplicam.

Logo no primeiro dia da EcoSchool escutamos Ángel María Ibarra Turcios, vice ministro do Meio Ambiente e Recursos Naturais do governo de El Salvador, que nos apresentou o contexto do país em relação aos temas de água, clima e alimentação, frente aos abusos praticados por grandes corporações, na privatização de recursos naturais e completa despreocupação com as vidas que ali habitam.

“Este ano El Salvador enfrentou a maior seca dos últimos 40 anos, prejudicando abastecimento de água, alimentos, energia. Enquanto isso sabemos que 6 empresas transnacionais controlam o mercado mundial”, afirma Ibarra. Famílias de baixa renda sofrem com a escassez de água. Mil litros de água potável custam cerca de cinco dólares no país.

“O ser humano se divorciou da Mãe Terra, nossa Pacha Mama. Precisamos lembrar que somos seres vivos, somos parte e dependemos dela Oiukumene significa isso, casa comum”.

É preciso romper com as lógicas colonizadoras, que se tratando das igrejas cristãs, são muito presentes ainda hoje na América Latina, e nos voltarmos para aprender com aqueles e aquelas que sempre cuidaram desta terra sagrada. Habitar a casa comum, oikoumene, nos proporciona uma chance de nos reconciliarmos com a criação e aprender com os conhecimentos milenares dos povos originários que resistem. Dessa forma uma ruptura radical com os padrões de consumo e de produção impostos pelo sistema imperialista é possível.

Ouvimos movimentos como a Via Campesina, e sua trajetória de resistência na defesa da terra e produção agroecológica. Os desafios do Foro Del Agua de El Salvador, e como movimento conseguiu unir diferentes movimentos sociais, como o ARA (nome) a Kawoq, movimento de ecofeministas, todos juntos na luta pela água como um direito humano inegociável.

KOINONIA tem tido a experiência de assessoras comunidades na região do Baixo Sul da Bahia que atuam diretamente com a questão da produção agroecológica. Como o caso da Feira Feira Agroecológica de Mulheres em Camamu, que este ano já está em sua 7º edição. Na feira, mulheres de diferentes cidades da região expõem produtos agrícolas e artesanais, cultivados e criados por elas. Ao mesmo tempo debatem o problema da violência contra a mulher, além dos caminhos para solucioná-lo, principalmente, pela via das políticas e serviços adequados ao dia a dia da mulher negra rural.

Segundo Sara Garcia, Ecofeminista do movimento Kawoq e integrante do Foto Del Agua de El Salvador, “temos defendido nosso corpo, terra e território. E fazemos um trabalho de incidência para formação e sensibilização das comunidades. Estamos como mulheres defensoras, lutando ao lado de todo movimento nacional aqui em El Salvador por meio da Aliança Nacional Contra a Privatização”.

“El água no se vende, se cuida y se defende!” (Água não se vende, se cuida e defende!)

É tempo de reunir forças e resgatar esperanças

Seria muito difícil escolher um único momento marcante de toda a experiência durante estes 12 dias porque muito mais que as reflexões teóricas e práticas, com excelentes especialistas, exposições técnicas e discussões em grupo acerca desses três temas; pude ver como aprendemos no encontro com outrxs.

A escuta, a troca, os questionamentos, o “confronto” de realidades. E no meio desse confronto, reconciliação. E a partir de todo aprendizado também pudemos planificar ações para atuarmos regionalmente em nossos países, comunidades e organizações.

Também ouvimos relatos de resistência como o poema da companheira Patrícia Morales sobre Dom Oscar Romero, canonizado recentemente pelo Papa Franciscco  e defensor dos mais pobres e oprimidos. Romero foi voz profética durante um período tenebroso da história do país e morreu assassinado enquanto presidia a Santa Missa, no dia 24 de março de 1980, por um atirador de elite do exército de El Salvador.

Patrícia recitou seu poema durante a visita que realizamos pela casa onde o Monsenhor viveu na capital. Com a voz carregada de emoção e os olhos marejados pelas recordações daquele tempo:

Sucedió un Domingo de Ramos

Voy a contar una historia
 Algo que pasó de verdad
 Todavía vive en mi memoria
 Lo sucedido en Catedral...
 
 En Catedral comenzó su jornada
 En Catedral alzó su voz
 Catedral es ahora su última morada
 A Catedral llega el pueblo
 Con su dolor
 
 El 24 de marzo lo asesinaron
 El 30 era su funeral
 Fue un domingo, Domingo de Ramos,
 Domingo de luto
 en Catedral
 ….
 Era inevitable
 Aquel mar de gente era inevitable
 ¿Cómo contener a un pueblo herido
 por la pérdida de un hijo?
 ¿Cómo se controla un cuerpo
 cuando le amputan un miembro?
 
 El dolor era grande
 Siempre duele que se derrame la sangre
 Siempre que muere un hijo
 Llora la madre
 
 Era inevitable.
 
 Y ellos lo sabían
 los cobardes lo sabían
 y tenían miedo...
 
 Aquel mar de gente
 había venido desde lejos
 
 Desde Aguilares
 Desde Chalate
 Desde Cojute
 Desde San Pedro
 
 Desde todos los rincones
 de nuestro suelo
 llegaron hombres, mujeres y niños,
 jóvenes y viejos
 sacerdotes, religiosas,
 intelectuales y reporteros
 
 Hermanos de otros países
 se unieron a nuestro duelo
 acompañando el lamento
 de nuestro pueblo
 
 Aquel mar de gente
 inundaba el centro
 desbordaba las plazas
 las aceras, las calles,
 el templo
 
 Largas filas de manifestantes
 venían desfilando
 desde el Parque
 su jornada era de luto
 pero también de combate
 denunciando y condenando
 las masacres
 
 Al frente de las filas
 iban los obreros
 y con el puño en alto
 y en silencio
 rindieron homenaje
 a Monseñor Romero
 
 Los aplausos rompieron el silencio
 Al ver llegar tan dignamente
 Aquella manifestación
 De dolor sincero
 
 La gente reunida
 solidariamente
 compartía aquel día
 Un riesgo evidente
 La rabia de los perros
 Esa rabia de muerte
 No soportó
 nuestro gesto valiente
 
 Su cobardía hizo
 Estallar una bomba
 Y surgir la ráfaga
 Y otra bomba
 Y otra bomba
 
 El horror se regó
 Y comenzó la estampida
 y entre el humo y los gritos
 la gente caía
 
 La multitud corrió desesperadamente
 Gritando
 Temblando
 Llorando
 Rezando
 
 Aquel mar de gente
 Estaba en agonía
 Nuevamente
 Le asestaban una herida
 
 Decenas de muertos
 Fue la respuesta
 De los golpes, la asfixia,
 Y la balacera
 
 Las calles quedaron vacías
 Solo el dolor vagaba en las esquinas
 
 En medio de la plaza
 Esta imagen se prendió en mis pupilas:
 Una montaña de pañuelos,
 Zapatos, carteras,
 Y las palmas esperando
 Su agua bendita
 ..…
 
 Mientras tanto
 Monseñor Romero
 Quedó en su ataúd
 Ya no hubo entierro
 Y desde algún lugar
 Fue mudo testigo
 De la masacre de aquel domingo
 ….
 
 Los guardias y soldados
 No escucharon su llamado
 Oyeron la voz de su amo
 Cobardemente
 Ordenando dar muerte
 La mañana de aquel
 Domingo de Ramos

Patrícia Morales
 (San Salvador, Semana Santa de 1980, escrito a mis 17 años)

E como disse lá em cima que “o vento sopra onde quer”, eu não consegui me desligar de tudo que vinha passando. Não é novidade, a eleição no Brasil foi noticiada no mundo inteiro. As notícias sobre como denominações evangélicas se apropriaram de um discurso de ódio para colocar em prática um projeto de poder correram.

E no dia que fui surpreendida pela imagem do “ninguém solta a mão de ninguém” durante o momento de reflexão em grupo, entendi o luto pelo qual estava passando sem perceber (como o querido amigo Dario Barolin disse).

Mas ao mesmo tempo que sofri, vivi na prática isso de ninguém soltar a minha mão. Pude sentir as mãos, os ombros, os choros, as palavras e o carinho. É no encontro com o outrx que nós nos encontramos, Cristo nos ensina isso.

E neste espírito de reconciliação comigo mesma, meus companheiros e companheiras, é que retorno com forças e esperanças para contribuir regionalmente na luta em defesa da criação e tudo que a envolve.

A EcoSchool 2018 é um esforço conjunto dos programas de água (rede ecumênica de água) a Aliança Ecumênica de Incidência (EAA) o programa de Justiça Econômica e Climática do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), juntamente com o Programa Global de Justiça Ecológica da FUMEC (WSCF), ACT Aliança ALC, Christian Aid, a Federação Luterana Mundial e da Universidade Luarana Salvadorense, com o apoio da Igreja Evangélica Luterana na América (ELCA) e da organização Infaith.

*Pacha Mama – divindade máxima que representa a Mãe Terra, presente em diversas nas culturas indígenas dos povos originários latinoamericanos.