Foro Ecuménico ACT Brasil sobre la situación en la Amazonia: Brasil, nuestra casa común está em llamas

Click here and check out the English version of the statement: Brazil, Our Common Home Aflame

Confira a versão em portugês: Brasil, nossa casa comum em chamas

 

Porque el anhelo ardiente de la creación es el aguardar la manifestación de las hijas e hijos de Dios. En esperanza de ser liberada de la esclavitud y de la corrupción. Romanos 8.19;21

El Foro Ecuménico ACT Brasil (FE-ACT Brasil) se une a todas las organizaciones ambientales, movimientos sociales, pueblos y comunidades tradicionales para expresar su dolor y su extrema preocupación con respecto a la política ambiental del gobierno actual, cuyo resultado concreto es la profundización del proceso de devastación, visible en la extensa quema en la región amazónica, a niveles alarmantes.

Según datos del Instituto Nacional de Investigación Espacial (Inpe), hubo un aumento de más del 80% en el número de incendios forestales en Brasil, entre el 1 de enero y el 19 de agosto de este año, en comparación con el mismo período del año pasado. Ante esto, a la ligera e irresponsablemente, el presidente del país afirma que los incendios serían “acción criminal” de “ongueiros” para llamar la atención contra el gobierno brasileño y “su persona”.

La declaración del presidente no es sorprendente, ya que una de sus estrategias ha sido la criminalización de las organizaciones de la sociedad civil que defienden los derechos sociales y ambientales, deslegitimando y buscando mecanismos para prevenir las actividades de estas organizaciones. Esta postura se expresa en la declaración del presidente, que dice: “El tema de la quema, en mi opinión, puede haber sido potenciado por las ONG, porque perdieron dinero”.

Respaldados por el fundamentalismo religioso y económico, las fake news, las opiniones irresponsables y la contestación de la evidencia científica, en unos pocos meses, ya tenemos un escenario socio ambiental catastrófico: relajación de la legislación ambiental, adhesión irresponsable e incondicional a los intereses de la minería y los agro negocios, liberación sin criterios de cientos de pesticidas, aumento de conflictos en el campo, desmantelamiento del sistema nacional de áreas protegidas y supervisión ambiental, desterritorialización y violación de los derechos de los pueblos indígenas y pueblos y comunidades tradicionales, recortes presupuestarios en áreas estratégicas y falta de respeto a los acuerdos internacionales y a la política climática.

En reacción a las presiones de la sociedad civil y de los investigadores e investigadoras que han estado trabajando con pautas socio ambientales durante años, el ministro de Medio Ambiente, Ricardo Salles, dice que todo esto es “sensacionalismo”.

Defendemos la soberanía nacional y los derechos sobre la tierra, con sus bosques, ríos y animales, pueblos y comunidades tradicionales.

Nuestro testimonio ecuménico es la protección de la socio biodiversidad de la Creación y la defensa de las organizaciones de la sociedad civil y los movimientos sociales que repudian este proyecto político de muerte.

Fórum Ecumênico ACT Brasil, 22 agosto 2019

Acción Solidaria Ecuménica Global para la Amazonía –
¡participe! https://conic.org.br/portal/noticias/3177-participe-da-acao-global-de-solidariedade-ecumenica-pela-amazonia

Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT) on Amazon situation: Brazil, our Common Home Aflame

Consulte la versión en español de la declaración: Brasil, nuestra casa común está em llamas

Confira a versão em portugês: Brasil, nossa casa comum em chamas

“The whole creation is eagerly waiting for God to reveal his sons and daughters […]
but creation still retains the hope of being freed, like us, from its slavery to decadence”
(Romans 8:19;21)

Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE-ACT Brasil) joins in solidarity with environmental organizations, social movements, indigenous peoples, and traditional communities to express its sorrow and deepest concern about the environmental policies of the current administration, which have led to a surge in devastation of the environment – as exemplified by the fires raging in the Amazon region – to alarming levels.

According to National Institute for Space Research (Inpe) data, the number of forest fires in Brazil from January 1 to August 19, 2019 has surged more than 80% compared to the same period in 2019. When confronted with this fact, the President of Brazil rashly and irresponsibly claimed that the fires could be “a criminal action” by “NGO people” to “call attention against the Brazilian government” and “himself”.

The president’s statement is unsurprising, given his strategy of criminalizing, delegitimizing, and seeking out mechanisms to prevent the operation of civil society organizations that uphold environmental rights. This stance is made clear by his allegation that “the fires, the way I see it, may have been boosted by NGOs, because they’ve lost money.”

Built on a foundation religious and economic fundamentalism, fake news, irresponsible opinions, and rejection of the scientific evidence, a catastrophic social and environmental scenario has arisen within the space of a few months: weakening of environmental legislation, irresponsible and unconditional subservience to the interests of mining concerns and agribusiness, baseless approval of hundreds of pesticide compounds, increased conflict in rural areas, systematic dismantling of the national system of environmental protection areas and environmental oversight, deterritorialization and violation of the rights of indigenous peoples and traditional communities, budget cuts to strategic areas, and noncompliance with international treaties and climate policies.

In response to pressure from society at large and from researchers who have worked on social and environmental issues for years, the Minister for the Environment, Ricardo Salles, claims this is “nothing more than sensationalism”.

We defend national sovereignty and land rights; the Earth’s forests, rivers, animals, indigenous peoples and traditional communities.

We hold an ecumenical belief in the protection of the social and biological diversity of Creation and the defense of civil society organizations and social movements that repudiate this political project of death.

Fórum Ecumênico ACT Brasil
August, 22/2019

Ação Global de Solidariedade Ecumênica pela Amazônia – participe! https://conic.org.br/portal/noticias/3177-participe-da-acao-global-de-solidariedade-ecumenica-pela-amazonia

Fórum Ecumênico ACT Brasil sobre situação na Amazônia: Brasil, a Casa Comum em chamas

Consulte la versión en español de la declaración: Brasil, nuestra casa común está en llamas

Click here and check out the English version of the statement: Brazil, Our Common Home Aflame

 

 

 

A Criação aguarda ansiosamente a manifestação das filhas e dos filhos de Deus.
Com a esperança de ser ela também libertada do cativeiro da corrupção.
Romanos 8.19;21

O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FE-ACT Brasil) une-se a todas organizações ambientais, movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais para expressar sua dor e sua extrema preocupação frente à política ambiental do atual governo, cujo resultado concreto é o aprofundamento do processo de devastação, visível nas extensas queimadas na região Amazônica, em níveis alarmantes.

Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve um aumento superior a 80% no número de incêndios florestais no Brasil, entre 1º de janeiro e 19 de agosto deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Frente a isso, de maneira leviana e irresponsável, o presidente do país alega que as queimadas seriam “ação criminosa” de “ongueiros” para chamar a atenção contra o governo brasileiro e “a sua pessoa”.

A declaração do presidente não surpreende, pois uma de suas estratégias tem sido a criminalização das organizações da sociedade civil que defendem os direitos socioambientais, deslegitimando e buscando mecanismos para impedir a atuação destas organizações. Esta postura fica expressa no pronunciamento do presidente, ao dizer que: “A questão da queimada, no meu entender, pode ter sido potencializada por ONGs, pois perderam dinheiro.”

Sustentado em fundamentalismos religioso e econômico, fake news, opiniões irresponsáveis e de contestação a evidências científicas, em poucos meses, já temos um cenário socioambiental catastrófico: flexibilização da legislação ambiental, adesão irresponsável e incondicional aos interesses de mineradoras e do agronegócio, liberação sem critérios de centenas de agrotóxicos, aumento dos conflitos no campo, desmantelamento do sistema nacional de Unidades de Conservação e da fiscalização ambiental, desterritorialização e violação de direitos de povos indígenas e de povos e comunidades tradicionais, cortes no orçamento de áreas estratégicas e desrespeito a acordos internacionais e à política climática.

Em reação às pressões da sociedade civil e de pesquisadores e pesquisadoras que há anos atuam com pautas socioambientais, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirma que tudo não passa de “sensacionalismo”.

Defendemos a soberania nacional e os direitos da terra, com suas florestas, rios e animais, povos e comunidade tradicionais.

Nosso testemunho ecumênico é a proteção da sociobiodiversidade da Criação e a defesa das organizações da sociedade civil e movimentos sociais, que repudiam este projeto político de morte.

Fórum Ecumênico ACT Brasil

22 de agosto de 2019

Ação Global de Solidariedade Ecumênica pela Amazônia – participe! https://conic.org.br/portal/noticias/3177-participe-da-acao-global-de-solidariedade-ecumenica-pela-amazonia

Confira versões em inglês e espanhol da nota:

ACT Aliança se posiciona sobre situação da democracia brasileira

Declaração: Democracia e Estado de Direito no Brasil

Genebra, Suíça, 25 de junho de 2019

É com espanto e preocupação que recebemos as notícias do Brasil sobre as alegações de conluio altamente controverso e politizado entre o procurador-chefe da operação anticorrupção “Lava-Jato” e o juiz responsável pelo caso, que atualmente é o ministro da Justiça do Brasil. Este novo evento político se soma à onda de problemas negativos que o Brasil vem experimentando desde junho de 2016, quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi retirada de sua função através de um processo de impeachment duvidoso, e onde o mesmo juiz autorizou, de forma ilegal, a divulgação de gravações de ligações telefônicas da presidente Rousseff, em uma saga que envolveu vários políticos e a mídia corporativa.

Desde esse retrocesso contra a democracia no Brasil, a violência política custou centenas de vidas. Execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias estão cada vez mais direcionadas a defensores de direitos humanos, líderes sociais e políticos, povos indígenas, afrodescendentes, mulheres e pessoas LGBTI. O racismo, a xenofobia, o ódio aos pobres, a homofobia e a misoginia estão aumentando em todos os níveis e, em alguns casos, até mesmo sendo promovidos por autoridades governamentais de alto nível.

Os membros da Aliança ACT no Brasil estão preocupados com o estado de deterioração da democracia no país, e estão sendo afetados pela reação violenta contra os direitos humanos e o estado de direito, o espaço cada vez menor para a sociedade civil, a diminuição da imparcialidade e liberdade de imprensa e o aumento da corrupção e das posições políticas que carecem de transparência.

A Aliança ACT espera que o sistema judicial brasileiro se baseie em práticas legais e que todos os juízes sejam imparciais, justos e não tendenciosos, e sigam estritamente as leis e a Constituição brasileira. Também espera que a decisão de garantir os preceitos democráticos seja baseada na lei, e não na pressão de grupos econômicos, religiosos ou políticos. A violação das prerrogativas de independência e imparcialidade do judiciário pode levar ao uso político e ideológico do sistema judicial e deve ser denunciada.

A Aliança ACT saúda a divulgação pelos meios de comunicação da desonestidade sistemática praticada por funcionários públicos. O público tem o direito de saber, e a sociedade civil tem a obrigação de denunciar as injustiças como forma de fortalecimento da democracia e para manter governos e instituições responsáveis e transparentes.

Portanto, a Aliança ACT insta as instituições brasileiras a realizar uma investigação adequada sobre o caso de conluio e a reverter os delitos graves, o comportamento antiético e as práticas ilegais levadas a cabo por funcionários públicos que põem em risco a democracia, os direitos humanos e o estado de direito. Exortamos ao Supremo Tribunal Federal brasileiro para acelerar a investigação e a restauração da justiça em todos os processos que foram implementados ilegalmente. Esse é um passo fundamental para garantir uma sociedade democrática, pacífica e inclusiva.

Rudelmar Bueno de Faria
Secretário Geral
ACT Alliance

 

ACT Alliance é uma coalizão de 155 igrejas e organizações relacionadas a igrejas que trabalham juntas em mais de 125 países para criar mudanças positivas e sustentáveis na vida das pessoas pobres e marginalizadas, independentemente de sua religião, posição política, gênero, orientação sexual, raça ou nacionalidade, que opera com os mais altos códigos e padrões internacionais. ACT é apoiada por uma equipe de 30 mil pessoas de organizações membros e mobiliza a cada ano cerca de US $ 3 bilhões para o seu trabalho, em três áreas específicas: ajuda humanitária, desenvolvimento sustentável e defesa de direitos.

Juntos e juntas pelo Brasil – Christian Aid lança sua nova Estratégia Global em São Paulo

 

Na última quinta-feira, dia 30 de maio, Christian Aid realizou evento de lançamento de sua Estratégia Global 2019-2026 no Consulado da Irlanda em São Paulo. KOINONIA, como organização parceira de Christian Aid no Brasil esteve presente, além de representantes de outras organizações, a equipe internacional da Christian Aid, representantes do governo irlandês e lideranças religiosas.

O evento apresentou a estratégia e o compromisso da organização em fortalecer um movimento global por justiça e fortalecer parcerias pelo compromisso com a erradicação da pobreza extrema e suas causas estruturais, além da ampliação de vozes proféticas dos pobres e marginalizados.

“A crescente presença irlandesa na América Latina demonstra o compromisso do governo irlandês com essa parte do mundo. Parabéns à Christian Aid pelo lançamento dessa Estratégia Global!”

Barry Tumelty- Cônsul da Irlanda em São Paulo.

“(…) A Christian Aid está lançando sua estratégia global no Brasil, e como secretário geral da Aliança ACT eu quero aproveitar essa ocasião para enviar uma saudação e ressaltar a importância dessa estratégia para a nossa Aliança. (…) Como uma organização baseada na fé, a estratégia reflete a nossa crença de que todos os seres humanos são criados à imagem e semelhança de Deus, e portanto agentes de direito. A estratégia articula o desejo de que todos tenham vida em abundância e o compromisso de fazer tudo que pudermos para garantir que a nossa contribuição seja focada em realizar essa visão. Parabéns Christian Aid e seus parceiros no Brasil!

Rudelmar Bueno- Secretário Geral da Aliança ACT

“O Brasil é o primeiro país a realizar um evento de lançamento da Estratégia Global. Em um momento de muitos desafios na America Latina e de crescente pobreza, essa é uma importante expressão de solidariedade.”

-Mara Luz – Chefe da Divisão America Latina e Caribe da Christian Aid

No atual contexto de aumento da pobreza e violência no país, a Christian Aid tem um importante papel a cumprir como organização global atuando localmente. Conectando atores de fé e comunidades locais com igrejas do Reino Unido, a organização permanece junto àqueles que lutam por justiça, por dignidade e por igualdade.

 

Por: Christian Aid Brasil

Fórum Ecumênico ACT Brasil se posiciona sobre jovem evangélica que deixa o país após série de ameaças

O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT), do qual KOINONIA e outras organizações parceiras como Conselho Nacional da Igrejas Cristãs (CONIC), Fundação Luterana de Diaconia (FLD) e Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), fazem parte, divulgou hoje a nota em apoio à ativista evangélica Camila Mantovani. Confira  a nota:

Nota de Solidariedade à Camila Mantovani e seus familiares

“Felizes as pessoas que promovem a paz,
porque serão chamadas filhas de Deus” (Mt5.9)
O Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT) expressam irrestrita solidariedade à Camila Mantovani e seus familiares.
Uma das atuações de Camila, uma jovem evangélica, é prestar solidariedade e apoio pastoral a mulheres evangélicas que sofrem violência doméstica e não conseguem romper com este ciclo porque são orientadas por lideranças religiosas de que “a mulher cristã deve ser submissa a seu marido”.
Lembramos que nas histórias do Antigo Testamento bíblico muitas mulheres ousaram desafiar o sistema opressor, entre elas, Vasti, que não se submeteu ao rei Assuero (Est 1.1-22).
Há bastante tempo, o protagonismo de Camila tem provocado a raiva de líderes religiosos evangélicos fundamentalistas. Hoje, a raiva tornou-se ódio.
As ameaças se tornaram graves. Sua casa e seus familiares passaram a ser vigiados e Camila ficou sem lugar fixo para morar. Foi obrigada a mudar a rotina. A gravidade das ameaças obriga Camila a sair do país.
O CONIC e o FEACT colocam-se ao lado de Camila e de seus familiares. Denunciam que outras pessoas evangélicas, engajadas em movimentos de promoção e defesa dos direitos humanos, estão sofrendo ameaças semelhantes.
A perseguição vivida por estas pessoas é consequência da instrumentalização da fé cristã para legitimar práticas de violência e discursos de ódio. O fundamentalismo religioso não aceita o pluralismo e nem a crítica à religião – mesmo que ela cause algum tipo de opressão ou violência.
A fé cristã não pode ser instrumentalizada para subjugar as pessoas, nem para dominar territórios, impondo medo às pessoas. A fé cristã não pode ser associada com armas e nem com o crime organizado.
A fé evangélica não é violência. Não está fundamentada no exclusivismo e nem no autoritarismo. Ela se orienta pela graça amorosa de Deus e pela liberdade.  É este o testemunho das muitas tradições evangélicas no país. Não aceitaremos que nossa tradição de fé seja instrumentalizada para a promoção do ódio, do racismo, do sexismo e outras formas de dominação e violência.
Que a paz de Jesus Cristo, seu testemunho radical de vida, contrário a todo o poder opressor estatal e religioso nos oriente e fortaleça.
Fórum Ecumênico ACT BRASIL

FEACT – Brumadinho: 70 dias depois e infinitas realidades de um mesmo crime

Região do Córrego do Feijão, atingida pelo rompimento da barragem. Rodrigo Zaim R.U.A/Christian Aid

 

Dois meses se passaram desde o dia 25 de janeiro. Há dois meses que a vida das pessoas da região de Brumadinho (MG), estacionou no crime cometido pela mineradora Vale do Rio Doce, com o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão . Dois meses depois do “auê” da imprensa tradicional e sua cobertura quantitativa. Número de mortos, desaparecidos, sobreviventes, investimentos que caíram, “dinheiros” perdidos.

“A Vale roubou minha paz de espírito. Perdi minha cunhada e minha irmã. Minha cunhada foi encontrada, sofremos, mas conseguimos fechar esse capítulo. Mas agora eu vivo na espera, todos os dias, por notícias sobre a minha irmã. Não consigo mais fazer o que era minha maior alegria, ir caminhar no meio do mato, porque a qualquer momento penso que vão me ligar pra dizer que encontraram o corpo dela.” – Atamaio Ferreira, morador de Córrego do Feijão.

Desde janeiro o Fórum Ecumênico ACT Brasil (FEACT), coordenado por KOINONIA, Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e parceiros locais estão atuando no apoio psicossocial e distribuição de água e alimentos para famílias atingidas no crime de Brumadinho. Tudo isso graças ao Fundo de Resposta Rápida da ACT Aliança.

Além disso, o trabalho também se deu em parcerias com o Ministério Público (MPF), a seção local de Minas Gerais do escritório do Defensor Público (DPU), Igreja Católica e Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC-MG).

Débora Matte é psicóloga de formação e atuou como orientadora e monitora das equipes de atendimento psicossocial da articulação MAB/FEACT – KOINONIA. Ela e outros parceiros relataram que se tornou comum na região ouvir histórias de crianças desenhando corpos, sangue e helicópteros, num sinal claro da experiência vivida. A moradora Sara de Souza Silva conta sobre o trauma em seus filhos, que não conseguem mais dormir sozinhos.

“Para mim, a Vale tinha que tirar todo mundo daqui. Como as crianças vão crescer com essa lembrança? Como vai ficar a cabeça delas no meio dessa lama toda?”.

A região apresenta cenários distintos e complexos. No centro de Brumadinho, a vida tenta manter uma normalidade, e as famílias da região do Córrego do Feijão pensam em como seguir daqui para frente.

Confira a reportagem especial completa abaixo:

Brumadinho: 70 dias depois e infinitas realidades de um mesmo crime (Português)

Brumadinho: 70 días después y infinitas realidades de un mismo crimen (Español) – ALC noticías

* Por Natália Blanco/ KOINONIA com a colaboração de Sheila Tanaka/ Christian Aid Brasil para FEACT .

Após conferência global sobre América Latina e Caribe, ACT Aliança se posiciona diante contexto de retrocessos na região

Mais de 50 representantes de 32 organizações, oriundas de 21 países da América Larina e Caribe, América do Norte e Europa, convocados pela ACT Aliança, estiveram reunidos na Guatemala, de 27 a 29 de março, para discernir e discutir a complexa e instável situação da América Latina e Caribe, bem como suas relações com os processos políticos globais e suas implicações em relação aos Direitos Humanos, a segurança, a democracia, as necessidades humanitárias e o desenvolvimento sustentável. O objetivo foi definir estratégias que contribuam para soluções políticas, reconciliação social e solidariedade na região.
O fortalecimento de setores políticos e econômicos que promovem o conservadorismo; a violência de gênero e feminicídio; intolerâncias contra migrantes; os problemas em torno das mudanças climáticas e o protecionismo praticado para com empresas que se apossam de bens comuns; o crescente fundamentalismo religioso; e a violência contra defensores de direitos humanos, foram alguns dos temas debatidos durantes estes dias.

KOINONIA*, como organização membro da aliança, esteve presente, assim como o Fórum Ecumênico Brasil.

Foto: Sarah De Roure – Christian Aid.

Rafael Soares, diretor de KOINONIA, participou do painel sobre o papel que o fundamentalismo religioso acaba exercendo, trazendo a conjuntura vivida pelo Brasil.

Para Rafael, “o cristianismo tem sido um terreno receptivo para as negações cientificas (como supostas conexões entre vacinas e enfermidades, a questão das mudanças climáticas, etc) negações históricas (sobretudo em relação às literalidades da bíblia), e uma integridade moral, que não restringe ao ambiente particular e que toma espaços coletivos e políticas públicas (como a defesa de abstinência sexual como único método de combata às ISTs e gravidez precoce, por exemplo)”.

“Para os fundamentalistas, não basta negar a universidade, a ciência, a imprensa, como um “lobo solitário”, mas são necessários grupos e instituições que legitimem tão negações como verdades literais e integrais. Isso abarca desde grupos que militam pelo ensino do criacionismo nas escolas, como também comunidades defensoras de teorias conspiratórias como os terraplanistas. Se forma assim uma cosmovisão em que o mundo se divide entre nós, os esclarecidos, portadores da verdade, contra os demais, dominados e doutrinados pelas forças demoníacas, comunistas, secularistas e por aí vai”, completa.

Os membros da ACT Aliança, as organizações ecumênicas e as organizações baseadas na fé, da América Larina e Caribe, estão preocupadas – enfatizam – e muitas delas se veem afetadas pela reação violenta contra os Direitos Humanos e o estado de direito, a redução do espaço de ação da sociedade civil, a diminuição da liberdade de imprensa, a imparcialidade, o aumento da corrupção e a carência de transparência por posições políticas.

Como organizações baseadas na fé, não deixaram de fora a reflexão teológica: “A ação de Deus nos desloca, nos salva, nos exige perseverança e coragem para caminhar junto às lutas de nossos povos na construção de sociedades democráticas, na promoção da justiça econômica e socioambiental, na luta pela justiça de gênero e a justiça para as populações migrantes e deslocadas.”

A partir da região, foram pensadas ações pontuais de trabalho a curto e médio prazo, por exemplo: fortalecer a ação conjunta com agências e programas das Nações Unidas no intuito de impulsionar iniciativas regionais de justiça de gênero e contra todas as formas de violência que transformem marcos legais e eliminem leis discriminatórias; transpor a impunidade; lutar contra a redução do espaço de atuação da sociedade civil; dar visibilidade para a questão da gravidez na juventude; acompanhar as comunidades em seus processos de acesso à justiça.

“A gravidade do sofrimento dos nossos povos nos impele a levantar nossa voz frente aos poderes políticos e econômicos que causam a injustiça e a desigualdade que afetam milhões de vidas.

* Neste ano, especificamente em abril, KOINONIA celebra 25 anos de existência. Anos de muita luta por direitos, desafios e também de alegrias. Conheça KOINONIA (com link: https://koinonia.org.br/quem-somos/sobre-koinonia).

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A seguir, a declaração completa:

Declaração final da Conferência Global sobre a América Latina e o Caribe

27 a 29 de março de 2018, Cidade da Guatemala

Somos mais de 50 representantes de 32 organizações de 21 países da América Latina e do Caribe, América do Norte e Europa convocados pela Ação Conjunta das Igrejas da ACT Aliança¹ para discernir e discutir a situação complexa e volátil na América Latina e no Caribe, a intersecção com os processos políticos globais, bem como seu envolvimento nos direitos humanos, segurança, democracia, necessidades humanitárias e desenvolvimento sustentável.

A ACT Aliança é uma coalizão internacional de igrejas e organizações baseadas na fé que trabalham juntas em resposta humanitária, trabalho de desenvolvimento e incidência. No geral, os membros têm uma longa história de promoção da justiça social, dos direitos humanos e do desenvolvimento sustentável. Na Assembleia Geral da ACT Aliança, realizada em Uppsala, Suécia, no final de 2018, os membros da ACT da América Latina e do Caribe apresentaram seus compromissos para atuar conjuntamente¹ em situações políticas, econômicas, sociais e humanitárias, estas cada vez mais complexas.

Vemos que a região da América Latina e do Caribe enfrenta uma crise crescente com sérias implicações humanitárias e reações violentas aos direitos humanos e ao estado de direito. Desde junho de 2016, uma onda de eventos políticos negativos está afetando países como Venezuela, Brasil, Nicarágua, Guatemala, Honduras, Colômbia e Haiti. Estas se dão em um contexto de fortalecimento de setores políticos e grupos econômicos que promovem o conservadorismo, as políticas protecionistas e a intolerância contra imigrantes.

Este problema é agravado por uma invasão das indústrias extrativistas multinacionais e pelo impacto desigual provocado pelas mudanças climáticas. Essas empresas tiveram acesso injusto a bens comuns, como terra e água, sem proteção ambiental adequada ou tributação justa. Seus efeitos, aliados ao uso crescente de agroquímicos, são sentidos diretamente pelo meio ambiente e comunidades indígenas e camponesas. O impacto desigual das mudanças climáticas exacerba os processos de empobrecimento e migração de grandes setores da nossa população.

A violência política tem ceifado centenas de vidas. As execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias se dirigem cada vez mais às pessoas defensoras dos Direitos Humanos, ativistas sociais e políticos progressistas, povos indígenas, afrodescendentes, mulheres e pessoas LGBTI. O racismo, a xenofobia, o ódio às pessoas empobrecidas, a homofobia e a misoginia estão aumentando em todos os níveis.

Estamos cientes de que parte dos conflitos e da violência que vivemos na América Latina e no Caribe, bem como em outras partes do mundo, se baseiam no desenvolvimento do fundamentalismo religioso. No entanto, entendemos que não há fundamentalismo religioso sem fundamentalismo político e econômico que se alimenta das desigualdades, injustiças e

iniquidades. De fato, estão sendo desenvolvidas políticas discriminatórias a partir destes setores que ameaçam as convenções e acordos globais alcançados pela comunidade internacional.

Os membros da Aliança ACT, organizações ecumênicas e organizações baseadas na fé na América Latina e no Caribe, estão preocupados e afetados pela reação contra os direitos humanos e o estado de direito, a redução do espaço para a sociedade civil, a diminuição da liberdade de imprensa, o aumento da corrupção e a falta de transparência nos processos políticos.

A Quaresma nos faz recordar que é um momento particular de transformação pela ação divina que renova a vida. Testemunhamos a caminhada de Deus em nosso continente, de Sua palavra que se eleva profeticamente e nos transforma em esperança. Reconhecemos nas vidas e vozes de tantas mulheres e homens os sinais do Reino da Justiça, e na Sua morte e legado um apelo à ação pela dignidade. Aprendemos com os lutadores indígenas como Berta Cáceres de Honduras, das mulheres negras, como Marielle Franco do Brasil, de Alizon Mosquera, uma das centenas de defensores de direitos humanos mortos na Colômbia. Estamos retumbantes às vozes de milhares de pessoas na caravana dos migrantes na América Central, dos defensores ambientais da comunidade de Granadillas e das meninas vítimas do Lar Seguro Virgem da Assunção, na Guatemala.

A ação de Deus nos desloca, nos salva, nos exige perseverança e coragem para caminhar junto às lutas de nossos povos na construção de sociedades democráticas, na promoção da justiça econômica e socioambiental, na luta pela justiça de gênero e a justiça para as populações migrantes e deslocadas. A gravidade do sofrimento dos nossos povos nos impele a levantar nossa voz frente aos poderes políticos e econômicos que causam a injustiça e a desigualdade que afetam milhões de vidas.

Estamos cientes de que a busca pela superação da pobreza, da injustiça e da violência nos obriga a levar em conta a diversidade de temas e assuntos envolvidos na construção de soluções com propostas democráticas de solidariedade e de bem comum.

Vemos na voz e na ação pública da juventude, a criatividade e a potencialidade de uma voz profética diante da sociedade, dos governos e dos espaços multilaterais. Assumimos o compromisso de aprender com eles, de trabalhar em conjunto e de reforçar a sua participação e envolvimento nos processos decisórios.

Reconhecemos, a partir de nossa vocação ecumênica e interreligiosa, que se torna necessário e urgente: ampliar nossas alianças com diferentes organizações religiosas e com a comunidade religiosa; Fortalecer diálogos efetivos com organizações de direitos humanos, movimentos sociais, incluindo o setor privado e agências governamentais e multilaterais, atuando conjuntamente com provocação, reflexão e diálogo para caminhar no ritmo das rápidas mudanças da realidade, que deixam até hoje os paradigmas vigentes pouco válidos.

Agradecemos com especial atenção o acompanhamento da presidenta da Comissão Interamericana de direitos humanos (CIDH) Esmeralda Arosemena de Troitiño, de Luis Pedernera Reyna, do Committee on the Rights of the Child, bem como a presença de representantes das Nações Unidas na análise dos desafios e possibilidades de uma maior interação contra os desafios que são apresentados e projetados na América Latina e no Caribe.

Assumimos o compromisso de:

  • Estabelecer uma articulação regional e global que acompanhe as crises políticas e sociais na região, com especial atenção às situações vivenciadas nos países da Venezuela, Brasil, Nicarágua, Guatemala, Honduras, Colômbia e Haiti.
  • Promover e apoiar a voz e as estratégias das igrejas e organizações baseadas na fé frente ao fechamento dos espaços da sociedade civil, influenciando aos organismos regionais e globais.
  • Acompanhar as comunidades em seus processos de acesso à justiça em nível territorial, apoiando suas demandas e reivindicações.
  • Fortalecer a ação conjunta com as agências e programas das Nações Unidas para promover iniciativas regionais e globais de Justiça de gênero e contra todas as formas de violência que transformem quadros jurídicos e eliminem leis discriminatórias.
  • Desafiar a impunidade e a redução do espaço da sociedade civil e assegurar às cidadãs e cidadãos, sujeitas e sujeitos de direitos, desmascarando práticas nocivas e corruptas.
  • Fortalecer os espaços internos da Aliança, como as comunidades de práticas de Justiça de gênero e outros, para gerar visões e ações conjuntas contra o fundamentalismo religioso e a injustiça.
  • Garantir que as lideranças dos direitos humanos e da natureza sejam protegidos.
  • Visibilizar e influenciar órgãos oficiais para que a institucionalidade funcione, contra a estigmatização, falta de acesso e a falta de atenção para com defensores de direitos.
  • Evidenciar as violações de direitos, a fim de alcançar as agências e governos em instâncias de direitos humanos, reforçando o diálogo com a CIDH, o sistema das Nações Unidas e as organizações nacionais e internacionais de justiça.
  • Facilitar a voz das crianças e dos jovens, para que sejam sujeitas e sujeitos plenos de seus direitos. A defesa das crianças e dos jovens deve basear-se na realidade da inequidade e das desigualdades em que este setor serve como justificação e segue sofrendo com as consequências da exclusão.

Neste tempo de Quaresma e da proximidade da Páscoa da Ressurreição temos na certeza da nossa fé, que a esperança é revitalizada no Jesus encarnado, a quem nos viramos em face de toda a desesperança para renovar a nossa vocação de Justiça e de amor. Jesus, “para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna “(Evangelho de João 6:68).

 

Cidade da Guatemala, 29 de março de 2019.

 

¹ https://actalliance.org/act-assembly/assembly/public-statement

Fórum Ecumênico ACT Brasil assina nota sobre Reforma da Previdência de Governo Bolsonaro

 

NOTA DE POSICIONAMENTO

SOBRE A PROPOSTA DE REFORMA DA PREVIDÊNCIA DO GOVERO BOLSONARO

O Governo Bolsonaro encaminhou proposta de reforma da previdência ao Congresso Nacional no segundo mês de seu governo, como prometeu. Muitas análises e uma disputa para legitimar a proposta estão em curso. Alguns dos argumentos centrais apontados pelo governo e pelos analistas e economistas aliados aos interesses do mercado são de que o Brasil precisa fazer a reforma da previdência para (1) contribuir no ajuste fiscal e controle das contas públicas, sem o qual não se retoma o crescimento da economia no país, (2) fazer justiça social, corrigindo as distorções existentes no sistema previdenciário e (3) garantir a seguridade da previdência para as gerações futuras. Apresentamos alguns comentários ainda iniciais de posicionamento.

(1) O argumento do ajuste fiscal e da retomada do crescimento da economia, entre outras questões, destaca o chamado déficit orçamentário da previdência ou “rombo da previdência”. Para os economistas comprometidos com os senhores do mercado este é o grande atravancador do avanço da economia no país. A economista e professora da UFRJ, Denise Lobato Gentil, defende que este argumento não se sustenta, quando confrontado à Constituição Federal de 1988. Para ela “o governo faz um cálculo sem considerar o que prevê a Constituição Federal nos artigos 194 e 195. Nesses dois artigos verifica-se que os recursos que pertencem à seguridade social, que financiarão os gastos com saúde, assistência social e previdência, são provenientes de várias fontes de receita”. Segundo ela, “quem defende a seguridade social, no entanto, sabe que toda essa retórica é forjada para privatizar a oferta de serviços públicos”. Com isto “empurra-se a população para fazer planos de previdência em fundos privados de capitalização e desloca essas pessoas de um serviço que deveria ser público para o sistema financeiro. Trata-se de um processo de financeirização do orçamento público. Reduzir benefícios significa empurrar as pessoas para os planos privados de previdência”.[1] Para a economista, em acordo com o que aponta a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), “baseado nos preceitos constitucionais, não há déficit da previdência”. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) realizada pelo Senado Federal e concluída no final de 2017, em seu relatório final,[2] aprovado por unanimidade, observou que “falar simplesmente de déficit da Previdência, a partir do comportamento das receitas e despesas atuais da seguridade social como um todo, é mitigar a realidade” (2017, p. 34). Por outro lado, é importante frisar que o crescimento da economia é resultado de vários fatores e atrelar a crise econômica ao sistema previdenciário é jogar com o interesse dos mercados sobre os direitos dos/as trabalhadores/as.

(2) O argumento de que a proposta de reforma apresentada pelo governo vai definitivamente promover a justiça social não passa de armadilha retórica ou mera ficção. Isso porque, nivelar os já historicamente prejudicados e alijados dos direitos constitucionais, do acesso aos serviços públicos básicos com aqueles que sempre gozaram de benefícios ou privilégios no sistema previdenciário não tem o menor senso de justiça social. Isto é, na contramão deste discurso, num rápido olhar sobre a proposta apresentada pelo governo, é possível detectar que ela é muito dura e injusta com os mais pobres, sobretudo em razão da diminuição dos ganhos, do aumento da idade e do tempo de contribuição e as mudanças no Benefício de Prestação Continuada (BPC), por exemplo. A previsão de que a população que tem direito ao BPC somente passará a receber o salário mínimo integral a partir dos 70 anos significa, para o economista e professor da Unicamp, Eduardo Fagnani, que “esta população terá uma sobrevida muito curta, uma vez que é difícil que cheguem aos 70 anos de idade”[3]. A proposta previdenciária também atinge de forma negativa as mulheres, elevando e equiparando a idade e o tempo de contribuição com os homens, num universo adverso do mundo do trabalho, onde as mulheres além de exercerem a maternidade, na sua grande maioria cumprem com carga horária de trabalho dobrada e com ganhos inferiores aos dos homens. A classe trabalhadora que, em média vive de salário mínimo ou pouco mais, e que, em geral, ocupa os trabalhos mais onerosos à saúde, terá a idade mínima para garantia de aposentadoria aos 65 anos de idade para os homens e 62 para as mulheres, além da exigência de 40 anos de contribuição para a recepção do valor integral, gerando potencial altíssimo de ganho menor do que o salário mínimo ao se aposentar. Na contramão destas injustiças e sacrifício dos mais pobres e frágeis no sistema, o governo continua fazendo a opção em não discutir o gasto público no que se refere aos custos com pagamento de juros da dívida pública e com renúncias tributárias e fiscais dos mais ricos, além da inadimplência e das dívidas não cobradas, que transferem polpudos valores ou então deixam de arrecadar sobre lucros e dividendos, sustentando assim o avanço da concentração de renda e da desigualdade social no país.

(3) No que se refere ao terceiro argumento, defender a previdência para as gerações futuras não significa penalizar quem entrou recentemente ou está entrando agora no mercado de trabalho. Há análises que dizem que a proposta de reforma da previdência apresentada pelo governo vai incentivar a contratação de aposentados, uma vez que propõe desoneração com relação ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e multa rescisória. Logo, além de promover a perda de direitos para os/as trabalhadores/as mais velhos e/ou aposentados, estimula o mercado a não contratação de trabalhadores e profissionais mais jovens. Isto é defender as gerações futuras? Ainda, ao manter na ativa por mais tempo profissionais mais velhos, promove incentivo para que os mais jovens, especialmente os menos qualificados, se disponham a trabalhar com menos direitos, aderindo a já anunciada “carteira de trabalho verde e amarela”, que flexibilizará ainda mais os direitos trabalhistas.[4] Por outro lado, fazer a reforma de previdência de costas para a realidade do mundo do trabalho e do trabalhador no Brasil, é um erro. No Brasil, mais ou menos 50% do trabalho se dá na informalidade, sem contribuição à previdência. Nesta perspectiva, segundo Eduardo Fagnani, “com essas regras propostas, que são duríssimas, mais uns 20% não irão conseguir contribuir e serão lançados à assistência ganhando 400 ou 500 reais.” Logo, ao invés de proteger as gerações futuras, o que teremos daqui a 20 ou 30 anos, no dizer de Fagnani, é “um país indigente” ou “um capitalismo sem consumidor”.

Enfim, centralmente o principal retrocesso na proposta do governo é que ela destrói um dos conceitos mais bem construídos e de amplo alcance na garantia de direitos sociais, formulado na Constituição Federal de 1988, a seguridade social. Na previsão atual, articula previdência, saúde e assistência social. A proposta de reforma do governo inaugura uma nova forma de previdência que não é de seguridade, mas de seguro social, numa perspectiva de capitalização e não de direitos. Esta proposta ataca profundamente os mais pobres pois se soma à reforma trabalhista já aprovada que flexibiliza e precariza de modo profundo as relações de trabalho. Ao promover esta mudança profunda, o País deixa de oferecer a garantia de realização dos direitos previstos no Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (arts. 9º e 11, especialmente), promovendo um retrocesso imensurável e que viola este tratado internacional ratificado pelo Brasil (§ 1º do art. 2º e §§ 1º e 2º do art. 5º) e também o artigo 29 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), à qual o Brasil aderiu em 1992.

Fazer correções no sistema previdenciário é coisa que todos os países sérios fazem, mas não é justo fazer isto às custas da destruição do sistema de proteção social e que os maiores prejudicados sejam os/as cidadãos/ãs e trabalhadores/as que historicamente já pagam esta conta no país.

Brasília, 11 de março de 2019.

Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil

Assinam:

Articulação Estadual MNDH RS

Centro de Direitos Humanos de Cristalândia – Dom Heriberto Hermes

Centro de Direitos Humanos de Sapopemba – CDHS

Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos

Coletivo Jovem de Minas Gerais

Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo – CDHPF

Comissão Pastoral da Terra

Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB

FIAN Brasil

Fórum de Direitos Humanos e da Terra

Fórum Ecumênico ACT Brasil

Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte – GPEA-UFMT

Instituto Caracol – ICA

Instituto de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais – IDHESCA

Koinonia Presença Ecumênica e Serviço

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH

Movimento REBELIÃO

Observatório da Educação Ambiental – OBSERVARE

Parceiros de Misereor no Brasil

Processo de Articulação e Diálogo Internacional – PAD

Rede Internacional de Pesquisadores em Educação Ambiental e Justiça Climática – REAJA

Rede Mato-grossense de Educação Ambiental – REMTEA

Sociedade Maranhense de Direitos Humanos

 

[1] Ver entrevista para IHU Unisinos: www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/551994-entre-a-insustentavel-retorica-do-deficit-e-as-verdadeiras-razoes-da-reforma-previdenciaria-entrevista-especial-com-denise-gentil

[2] Relatório completo em http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento/download/c20f0635-1112-4636-bc0c-49a2ca4b919a e principais pontos do relatório em www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/10/24/veja-os-principais-pontos-do-relatorio-da-cpi-da-previdencia

[3] Ver entrevista ao IHU Unisinos: www.ihu.unisinos.br/78-noticias/586875-previdencia-de-bolsonaro-produzira-massa-miseravel-avalia-economista

[4] Ver entrevista à Folha de São Paulo: www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/02/reforma-da-previdencia-levara-jovem-a-aceitar-menos-direitos-trabalhistas.shtml

 

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Fórum Ecumênico ACT Brasil atua com fundo de resposta rápida da ACT Aliança em Brumadinho

Era uma sexta-feira, dia 25 de janeiro de 2019, quando o estado de Minas Gerais, mais uma vez foi surpreendido pelo rompimento de uma barragem da empresa mineradora Vale. Desta vez a cidade de Brumadinho e a reserva do Parque da Cachoeira, município da zona metropolitana de Belo Horizonte, capital mineira; e mais de 220 km ao longo do curso do rio Paraopeba.

As imagens divulgadas mostram como de repente um mar de lama avança, liberando mais de 12 bilhões de litros de fragmentos de resíduos minerais, com rejeitos da mineração de ferro. Há apenas 3 anos, outro desastre ambiental semelhante, fruto de negligências, acontecia na cidade Mariana, também Minas Gerais.

Com este cenário, o Fórum Ecumênico Brasil (FEACT), membro da Aliança ACT, solicitou uma ajuda de emergência para suporte humanitário na região. A solicitação foi atendida, e nos próximos 3 meses, o Fórum vai atuar em conjunto com parceiros e lideranças comunitárias nos processos de coordenações da ação.

A ação visa o apoio psicossocial para 760 famílias, e entre elas, 150 apoiadas com água, alimentos suplementares de proteína e materiais de higiene para mulheres e crianças.

Neste momento há uma equipe de facilitadores, promotores e líderes locais que vai garantir a implementação adequada da resposta humanitária, estabelecendo comitês operacionais para uma gestão adequada da ajuda.

14 dias após o rompimento da barragem os números do impacto são:
• 760 famílias despejadas afetadas diretamente (3.800 pessoas)
• 5400 famílias evacuadas de domicílios (27.000 pessoas) de Brumadinho
• 157 óbitos confirmados – 134 pessoas identificadas
• 192 pessoas resgatadas
• 182 pessoas desaparecidas
• 250 casas danificadas
• 25 casas totalmente destruídas.

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