Vigília Inter-religiosa – Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa

Na última terça – feira (21.01) foi realizada a vigília Inter-religiosa no dia nacional de combate a intolerância religiosa. Líderes e pessoas leigas de várias religiões, ou sem religião se reuniram.

Texto da celebração:

Vinte e um de janeiro a janeiro!

Parte I

No princípio era o movimento.

O sopro

O balanço

O toque

O sentir de que tudo é um só.

A mistura nos deixou inseparáveis.

Terra, Corpos, Folhas, Troncos…Molhados pela doçura e pelo sal.

[Ir dando as mãos suavemente]

Ah… essa gostosa sensação de tudo.

Ah… a imensidão tão simples: de uma mão que se ligou à outra,

De uma ligação que nunca se perdeu.

Ah… como somos um, como somos vida pela sintonia, sinfonia de tudo…

Ah… era tudo tão bom, que ousamos chamar de sagrado,

de casa comum,

de lugar onde ninguém fica de fora,

colo da nossa irmandade, mundo Amado.

Um só corpo! Terra, Vegetais e Humanidade!

Mas esse nosso corpo sofre!

Gente como nós vai cortando nossos laços. A vida, segue aos pedaços.

[Soltamos as mãos]

Parte II

A saga humana domina, com poder de morte. Tritura a vida e sangra em sacrifício nossas vitalidades.

O desejo egoísta, o erro de enriquecer e consumir sem fim vai ferindo e recortando os corações que nos levam alimentos de Amor e de Liberdade.

Somos um só corpo e muitos corações! Eles bombeiam o líquido da vida: pelo ar, pela terra, pelas águas!

E também somos um só sofrimento!

O mesmo pó e terra que nos constrói, ofusca os olhos de quem odeia.

[cuia com Areia, Areia é manuseada em grandes gestos]

Ai desses olhos turvos, que enxergam:

– raça, onde há alegria;

– cor da pele, onde há diversidade;

– religião errada, onde há dignidade.

Que venham as águas pra lavar a dor!

Parte III

[Aspersão de águas]

Que as águas venham pra lavar de Amor:

– os corpos molhados de sangue;

– os olhos sangrando de ódio;

E penetrem toda a separação!

Entrem águas, pelas fendas sem coração, dos privilegiados;

Pelos secos caminhos do desamor enraizado:

– contra toda intolerância;

– contra todo racismo malignamente ressuscitado!

Povos Negros!

– Roguem por nós,

Povos Indígenas!

– Roguem por nós,

Povos migrantes no Brasil!

– Roguem por nós.

Abençoa água, a vida a pulsar nas periferias e cidades afora! Abençoa e salve toda santa diáspora!

E que venha o vento pra espalhar a nossa voz!

Parte IV

Que o vento venha feito inspiração:

– para os corações que se unem em vertigem, de cada um respeitando a sua origem;

– para as vozes denúncia de toda calamidade, que não quer respeitar cada dignidade;

Sopra ar contra as separações, feitas por intolerantes poderosos;

Sopra contra o gatilho dos criminosos;

Sopra as brasas pra que venha o fogo, de nossos corações!

Parte V

 [Velas são acesas)

Que se acenda o fogo da Justiça, no Brasil todo e no nosso Rio!

Pois todo dia deveria ser 21 de janeiro!

Venha a chama e seu calor a nos animar!

Pra refazer vela em punho mais um compromisso.

Já se vão 20 anos e seguimos decretando: que o AMOR vai superar isso!

Venha entre irmãs e irmãos a força da luz!

Vamos seguir! Com as bênçãos do AMOR que cada um produz!

[bênçãos diversas e finais, uma por tradição presente!]

[Encerramento com a condução das velas para um aparato seguro ao pé do palco]

[Semana de Afirmação da Liberdade Religiosa] #mãegildavive

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Breve histórico sobre o dia 21 de Janeiro:

Em 2000, Mãe Gilda infartou após uma série de violências e difamações contra ela e seus filhos de santo. Agressões desencadeadas por uma publicação na primeira página do jornal Folha Universal, da igreja Universal do Reino de Deus, sob a chamada “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes” e uma foto de Mãe Gilda. Após uma série de lutas na justiça, Mãe, filha consanguínea de Mãe Gilda e hoje Ialorixá do Abassá de Ogum, e a equipe jurídica de KOINONIA em parceria com a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do Estado da Bahia – AATR, conseguiram a vitória em 2008. O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de Janeiro, é uma homenagem à Iyalorixá. Mas isso não foi suficiente para que a perseguição e o racismo religioso cessasse. Em 2016 o busto erguido em memória de Mãe Gilda, no bairro de Itapuã, foi destruído, precisando ser reformado novamente.

Imagens da Vigília (Foto: Talita Nascimento):