Verdade e Gênero – a violência da ditadura contra as mulheres

Clarisse Braga com revisão de Manoela Vianna

Foto: Assembleia Legislativa de SP – ALSP

Para entender às atrocidades cometidas nos porões do regime militar contra as mulheres, a audiência “Verdade e Gênero” aconteceu na última segunda-feira (25/3), na Assembleia Legislativa de São Paulo. Realizada pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva e pela Comissão Nacional da Verdade. Estavam presentes ex-presos e presas políticos, militantes, jornalistas e curiosos, que tomaram conta do auditório Paulo Kobayashi.

A Comissão da Verdade (CV) tem por objetivo investigar as violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura militar (1964-1985). No entanto, como lembrou o coordenador da Comissão Nacional da Verdade Paulo Sérgio Pinheiro, Comissões da Verdade no mundo afora falharam em excluir as mulheres da lista de sobreviventes. “Todos os comissionados têm pela ciência da importância do “revivamento” das mulheres que participaram da luta por justiça e liberdade neste país”, constatou Paulo Sérgio Pinheiro.

Além do coordenador nacional da CV, também participaram da audiência a sobrevivente e assessora de comunicação da comissão estadual Maria Amélia de Almeida Teles (a Amelinha), o deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), a teóloga, filósofa e especialista em gênero Ivone Gebara, a psicanalista Maria Rita Kehl e a advogada Rosa Maria Cardoso (ambas integrantes da comissão nacional), e a ministra da Secretaria de Políticas paras as Mulheres da Presidência da República Eleonora Menicucci de Oliveira.

A ministra Eleonora Menicucci ficou encarregada de homenagear Inês Etienne Romeu, a única sobrevivente da Casa da Morte – um centro clandestino de tortura criado pela repressão militar. Inês Etienne foi presa, humilhada, torturada e estuprada repetidas vezes, até ser abandonada quase sem vida em uma rua do subúrbio da cidade do Rio. Acusada de participar do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, Inês foi presa pelo delegado Sérgio Paranhos e enviada à Casa da Morte. O que restava àqueles que diariamente eram torturados por um nome ou informação era a memória. Inês Etienne guardou os nomes de seus torturadores e dos presos assassinados e desaparecidos. Livre de prisões e torturas, a sobrevivente dedicou a sua vida às denúncias de crimes ocorridos na Casa da Morte.

Inês Etienne Romeu / crédito Assembleia Legislativa de SP – ALSP

Ao lembrar-se de Inês e daquela época, a ministra Eleonora Menicucci confessou sentir um misto de alegria e sofrimento. Alegria por ter sobrevivido para participar de um momento em que a verdade não mais é esquecida e ignorada. E sofrimento “porque quando falamos da nossa tortura e ouvimos relatos de companheiros e companheiras, voltamos a viver aquele sofrimento”.

Pela primeira vez, o tema gênero na ditadura foi discutido na Comissão da Verdade trazendo ao conhecimento a violência até então silenciada pela história.

A Campanha “O amor lança fora todo medo”, em sintonia com essa realidade vivida no passado, como também ainda presente na vida de muitas mulheres do Brasil, denuncia que a violência contra as mulheres ainda é uma prática ainda em nossos dias. 

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