Nova edição da Revista OQ

Estamos de volta com mais um número da Revista OQ, depois da última edição em 2016.
Este número teve duas motivações em sua organização: ter um número todo escrito por pesquisadoras negras de diversas universidades e temas em diálogo com as comunidades quilombolas e fazer uma homenagem póstuma a Angélica Pinheiro, uma mulher quilombola, pesquisadora que nos deixou em 2017. Assim surge este número, que deveria ter saído em julho dialogando com o 25 de julho, Dia da Mulher Afro Latinoamericana e Caribenha, mas que ficou pronto agora no finalzinho de agosto.
Trazer a escrita destas pesquisadoras negras, três delas quilombolas, é trazer pesquisas que propõem uma outra escrita, uma outra forma de construção de textos, uma escrita motivada pela vida de cada uma. Como nos explica Conceição Evaristo, é a nossa escrevivência. Neste sentido este número é uma afirmação de um posicionamento político de KOINONIA como organização de visibilização de conhecimentos e na luta antirracista.
Os textos deste número trazem os seguintes temas: Ana Gualberto aborda os temas da participação política da população negra na construção da Constituição Federal de 1988; Fabiana Ramos apresenta os saberes tradicionais na comunidade quilombola de Santa Rita do Bracuí; Tamiles Alves discute sobre a ação do estado brasileiro com políticas públicas e compensatórias para as populações tradicionais; Cledinea Carvalho Santos faz uma reflexão sobre identidade quilombola através da narrativa das mulheres da comunidade quilombola de Boa Esperança – WG/BA e nos brinda com uma linda poesia “Naná”; Ana Carolina Fernandes dos Santos nos apresenta uma reflexão sobre os impactos do governo atual na saúde mental dos quilombolas; e um texto sobre turismo de base comunitária na comunidade quilombola de Santa Rita do Bracuí, construído por Angélica Pinheiro.
Vale a pena destacar neste editorial que Angélica Pinheiro nos deixou muito cedo, com apenas 34 anos, logo após terminar sua graduação em Educação no Campo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Ela foi a primeira de sua família a entrar na universidade, estava na primeira turma de quilombolas do Bracuí que adentraram a Rural. Este exemplo foi seguido por vários outros que hoje estão concluindo seus cursos. Uma jongueira, liderança comunitária desde muito cedo, ajudou seu pai na criação de seus irmãos após a partida prematura da mãe. Uma mulher presente nas lutas de sua comunidade e nas demais comunidades quilombolas e jongueiras. Uma guerreira como muitas outras.
Reafirmo que para nós, mulheres negras, ocupar os espaços acadêmicos ainda é um desafio e mais do que entrar nestes espaços, mudar a forma de construção da escrita, apresentar uma outra forma de reflexão é o mais desafiador. Este número é uma referência a todas que continuam nesta luta e para aquelas que ainda adentrarão este espaço. Reafirmamos que nosso lugar é onde quisermos e que queiram ou não, estaremos afirmando nossa existência e nossa resistência desde nossa presença preta, nossa fala preta e nossa escrita preta.
Como nos ensinou D’jonga: Fogo nos racistas!
Viva nós e as águas!

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Ana Martins Gualberto – Editora

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