Jovens do Nordeste em jornada

Manoela Vianna

Sementes de uma rede para garantia de direitos

Muitos vieram de municípios próximos ao rio São Francisco, viajaram quase 20 horas; outros vieram de Olinda; Feira de Santana e da cidade de Salvador. Juntos eram 80 jovens de Alagoas, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte; de Sindicatos, Terreiros de Candomblé e Igrejas que se encontraram em Salvador para a Jornada Ecumênica da Juventude do Nordeste.

Em sintonia com a Jornada Ecumênica da Juventude do Rio de Janeiro, realizada no dia 1° de dezembro, o encontro em Salvador foi uma articulação regional para a garantia de direitos das juventudes. Um dos objetivos era realizar uma consulta sobre a participação dos jovens do Nordeste na Rede Nacional Ecumênica de Jovens, criada recentemente na Jornada do Rio.

Foram três dias, de 7 a 9 de dezembro, de intensos trabalhos de grupo que resultaram em reflexões sobre as violações de direitos das juventudes e os caminhos para superá-las. O encontro também provocou um grande intercâmbio de experiências de vida, cultura e religiosidade.

A Jornada Ecumênica da Juventude do Nordeste foi promovida pelo Fórum Ecumênico Brasil (FE Brasil) e realizada por KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, CESE, CEBI e Diaconia.

Início dos trabalhos

Axé, conhecimento, diálogo, sabedoria e respeito foram algumas das palavras ditas pelos participantes para traduzir suas expectativas para a Jornada e abrir os trabalhos do encontro, na noite do dia 7. Atividades de entrosamento também fizeram parte dos primeiros momentos do evento. Os participantes tiveram oportunidade de se apresentar uns para os outros, como fez Adelson Oliveira Júnior, único participante do Rio Grande do Norte. Júnior representou o grupo Juventude Unida de Caboré, do município de Lucrécia. Para ele, o encontro era importante pela diversidade dos participantes: “Uma Jornada como essa é muito boa para despertar interesse dos jovens. É uma oportunidade de conhecer a realidade de diferentes grupos.”.

Origem dos participantes da Jornada Ecumênica da Juventude do NE

Região do Submédio São Francisco: Santa Maria, Belém do São Francisco (PE) e Lucrécia (RN), Orocó, Jatobá e Itacuruba (PE), Chorrochó/ Barra do Tarrochi (BA), Rodelas e Paulo Afonso (BA).

Baixo São Francisco – Delmiro Gouveia, Água Branca, Santana do Ipanema, e Poço e Trincheiras (AL), Ouro Branco, Pariconha e Maravilha, Tapera, Pão de Açúcar, Olho D’água das Flores (AL).

Olinda (PE)

Feira de Santana (BA)

Salvador (BA)

 Um dia de reflexões e descobertas

“Estamos mostrando um pouco de nossa religião para quebrar o preconceito”. Com essa fala de Augusto César de Arruda foi iniciado o segundo dia da Jornada. Augusto, que é do Terreiro Ilê Axé Oyá Alafumbi, juntamente com outros meninos de Terreiros de Candomblé realizaram uma apresentação sobre a religião. Ao som de toques de atabaques e cânticos das diferentes nações do Candomblé, eles descreveram alguns orixás.

A Apresentação causou impacto nos participantes, pois muitos não tinham informações sobre o Candomblé. Para Oscar dos Santos, morador do município de Pão de Açúcar (AL), a convivência com os jovens de Terreiros foi transformadora: “Mudei meu ponto de vista sobre o Candomblé. Aqui evangélicos, católicos, Candomblé conversamos e respeitamos uns aos outros.”.

Identidades e violações

Uma das primeiras atividades do dia 8 foi a criação de mapas dos territórios dos participantes com destaque para as violações de direitos. No mapa do grupo dos Terreiros de Candomblé destacou-se a intolerância religiosa, “muitas vezes temos necessidade de omiti-la [a religião], afirmou o grupo”. Um dos grupos da região do Baixo São Francisco disse que em Delmiro Gouveia (AL) ocorrem “assassinatos brutais de jovens”.  Participantes do município de Pariconha (AL) disseram que em sua região faltam repasses de recursos para a saúde indígena e não há um programa de educação específico para essas populações.

Violações de direitos destacadas pelos participantes

Problemas de infra-estrutura: acesso à água potável e saneamento básico, acesso à transporte (também em relação a educação);

Violência: mortes de jovens (assassinatos), criminalização dos movimentos sociais, cadeia produtiva das drogas (destaque ao alcoolismo), (in) segurança pública;

Ausência de espaços de lazer para a juventude;

Má qualidade /ausência de atendimento ä saúde pública;

Intolerância religiosa;

Racismo, sexismo, homofobia e outras formas de preconceito;

 

Caminhos para a superação

A partir do mapeamento das violações de direitos foi levantada a seguinte questão para o grupo: “Como pensar a superação dessas situações a partir das comunidades de fé, a partir dos espaços de organização de luta social; a partir da situação juvenil e em quais desafios de superação os diferentes grupos juvenis aqui presentes podem construir solidariedade uns com os outros?”.

A idéia da criação de uma rede apareceu em destaque para responder o desafio de superar as violações de direitos. Para Thiago Santos Gomes, agricultor e Coordenador de Jovens do Sindicato de Trabalhadores Rurais de São José da Tapera (AL), existem muitos problemas em comum entre as diferentes comunidades como nas áreas de educação e segurança, assim os jovens devem discutir juntos os problemas.  Quando fomos convidados para esse evento falaram que iríamos criar uma rede de intercâmbio. Para isso temos que ter mais conhecimento e informação sobre as violações de direitos. Com essa rede poderemos enfrentar os problemas”, defendeu Thiago. Já Júnior afirmou que a rede deve ser de formação e criação de consciência de direitos juvenis: “Queremos que o grupo aqui reunido ajude a divulgar essa idéia”. O nosso interesse é que os jovens passem a lutar pelos seus direitos. Na minha cidade o hospital mais próximo fica a 400km. Temos que sair daqui com a idéia de multiplicar o que conhecemos”.

Respostas para as violações de direitos

Na discussão sobre superação das violações de direitos os jovens indicaram diversas saídas como as destacadas neste quadro.

Falta de acesso à educação e cultura pode ser superada por meio de contadores de história, disseminação popular da leitura.

Criar grupos de debates nas regiões e municípios para chamar a atenção do poder público

Nos colégios estaduais e municipais elaborar com a juventude processos de conscientização sobre as violações de direitos e possibilidades de superação.

 

Rede e Ecumenismo

As atividades do dia 9 de dezembro, último dia do encontro, foram iniciadas com reflexões sobre Rede, Ecumenismo e Rede Ecumênica.  “Quando falamos em construir essa rede [Rede Ecumênica de Juventude], estamos falando de dentro de um espaço ecumênico e de jovens criarem uma rede por meio das experiências dos jovens”, explicou Jorge Atílio Iulianelli, assessor do Programa Trabalhadores Rurais e Direitos de KOINONIA.

Muitos participantes apresentaram dúvidas sobre o conceito de ecumenismo e Rafael Soares, Secretário Executivo de KOINONIA, descreveu os diferentes significados da palavra, do histórico ao contexto atual. Para Rafael, “Ecumenismo é o diálogo entre cristãos, de acordo com a Historia, diálogo entre expressões de fé diferentes e é o diálogo daqueles que lutam pela justiça”. Ainda sobre o ecumenismo, Ana Gualberto, assessora do Programa Egbé Territórios Negros, afirmou: “Acreditamos na luta pela defesa da vida. Nos unimos pela solidariedade, independente da religião. A fé é importante para cada um e é preciso respeitar a fé do outro. Acreditamos na unidade pela luta de um mundo melhor.”.

Queremos a Rede?

Após a discussão conceitual sobre rede e ecumenismo, os participantes reuniram-se em grupos e decidiram participar da Rede Ecumênica de Juventude pela Promoção dos Direitos Juvenis e escolheram representantes e suplentes. Nesse sentido, os jovens vinculados ao Pólo Sindical de Trabalhadores Rurais do Submédio São Francisco afirmaram: “aceitamos participar desta rede porque nos sentimos parte deste processo e queremos dar nossa contribuição para a defesa do interesse da juventude nordestina com sua diversidade”.

Para Isaura Genoveva, equede do Terreiro Casa Branca, a promoção da jornada já criava simultaneamente uma rede: “Esses encontros são muito importantes porque cria-se uma rede com outros lugares. Conhecemos outras realidades. Eu acho que esses encontros  ajudam a superar as violações porque fortalecem os jovens”, concluiu Isaura. O processo de construção da rede também foi analisado: “Eu sou católico. Quando você se depara com outra situação, você vê como estamos limitados. Se essa rede surgir acho que temos que discutir mais ecumenismo. São os primeiros passos para organizar jovens do Nordeste. Misturando todos os tipos de juventudes. É um processo grandioso,” afirmou Thiago Santos Gomes.  

Próximos passos

A Jornada Ecumênica do Nordeste resultou na soma de mais um grupo de pessoas que passaram a fazer parte da Rede Ecumênica da Juventude pela Promoção dos Direitos Juvenis, criada no dia 1° dezembro durante a Jornada Ecumênica da Juventude do Rio de Janeiro. Em 2008 o FE Brasil continuará promovendo Jornadas Regionais com Jovens e no segundo semestre de 2009 está prevista a Jornada Latinoamericana. Além disso, o Fórum Ecumênico Brasil está implementando um projeto para apoiar a defesa dos direitos das juventudes.

Para saber mais:

Conheça o Blog Palavra de Jovem Rural: http://palavradejovemrural.blogspot.com/ e leia depoimentos de participantes da Jornada.

Leia no site de KOINONIA as notícias: Jornada Ecumênica da Juventude do Nordeste e

Jornada Ecumênica da Juventude do Rio e saiba mais sobre as Jornadas Ecumênicas Regionais da Juventude

 

 

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