Celebração da Amizade: os 70 anos de Anivaldo Padilha

Márcia Evangelista

Celebração da amizade

Os 70 anos de Anivaldo Padilha

Por Suzel Tunes

 

O que vale é a amizade

Foi sempre o que a gente fez

E por essa amizade

Eu faço tudo outra vez

A estrofe da canção de Lennon e McCartney, entoada com idioma e entusiasmo brasileiros, ecoou na Igreja Metodista de Vila Mariana como um testemunho. Na comemoração dos 70 anos de vida de Anivaldo Padilha, dia 19 de junho, o templo paulistano estava lotado de amigos e amigas da longa caminhada de fé do jovem mineiro que se tornou cosmopolita e uma referência no movimento ecumênico internacional.

Grande parte da história metodista no Brasil estava ali representada em carne, osso, abraços e sorrisos: Paulo Ayres, o amigo de cinquenta anos que faz dispensar o título de bispo; Zeni de Lima Soares, primeira presbítera metodista, ao lado do marido, pastor Sérgio Marcus Pinto Lopes; pastores Társis Prado e Tércio Siqueira; o radialista Moisés da Rocha, à frente do Coral Resistência de Negros Evangélicos; Bispo Stanley Moraes; Liséte Espíndola, ao piano… O Rev. Edson César da Silva, pastor da Igreja anfitriã, notou que ali havia, também, um encontro de gerações. Afinal, jovens “velhos amigos” também se reuniram para celebrar o dom da vida, o compromisso com a história e a esperança de justiça que Anivaldo Padilha representa e inspira.

As primeiras palavras de Anivaldo foram de agradecimento. Agradeceu inicialmente pelo dom da vida, privilégio nos anos 40, tempos duros que ceifaram oito de seus nove irmãos antes que completassem três anos de idade; milagre nos anos 70 para as vítimas da tortura nas prisões militares. Agradeceu à Igreja e aos amigos, que lhe deram valores e bases sólidas e, também, a possibilidade de constante renovação. Agradeceu aos irmãos e irmãs do movimento ecumênico e da luta por direitos humanos, dos quais, sempre com o risco de ocultar vários nomes, se poderia destacar Eliana Rolemberg, diretora executiva da CESE, Coordenadora Ecumênica de Serviço, vinda diretamente de Salvador; Elza Lobo, presidente da Ação Solidária Madre Cristina; Mara Luz, responsável pela Região Brasil da Christian Aid, organização diaconal das igrejas protestantes e Anglicana do Reino Unido; Darli Alves, secretário regional  do Conselho Latino Americano de Igrejas; Dermi Azevedo, coordenador do Projeto Memória, da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo e os companheiros da organização KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço, onde Anivaldo atua: Ester Lisboa, bispo Paulo Ayres Mattos e Marilia Schüller. E finalmente, deu graças pela família: a esposa Vera, os filhos Alexandre, Celso e Paulo, a filha Mariana e a netinha Flora.

Então, ao som da belíssima “Gracias a la vida” todos começaram a assistir a uma coleção de memórias que era, também, um resgate da história recente do país. Nas fotos projetadas, imagens que remontavam ao nascimento de Anivaldo, em 11 de junho de 1940, em São Pedro da União, Minas Gerais; ao marcante aprendizado na Escola Dominical e à participação na Juventude Metodista, que lhe despertaram a sede de justiça e a fé necessária para buscá-la. Anivaldo agradeceu por ter pertencido a uma geração “que não se conformou com este século” e “não se calou perante à tirania”.

As lembranças das décadas de 60 e 70 foram relacionadas a imagens tristes, de censuras, prisões e mortes, sobre as palavras pungentes entoadas por Chico Buarque: “Pai, afasta de mim este cálice, de vinho tinto de sangue”. Mas o testemunho de Anivaldo também nesse momento foi de gratidão: “Agradeço Deus por ter me acompanhado no vale da sombra da morte e ter me trazido de novo à plenitude da vida”.

Preso em 1970, ele seria exilado em 1971. Esteve no Chile, Argentina, México, Estados Unidos e Suíça, sede do Conselho Mundial de Igrejas. Agradeceu à comunidade ecumênica internacional que o ajudou a reconstruir a vida. Deu graças, também, pelo reencontro com seu país, proporcionado pela Anistia. “Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes”, diz o Salmo 126.5-6. Anivaldo Padilha vivenciou essa passagem da Bíblia. Ao voltar ao Brasil, seu primeiro filho, Alexandre – que ele não vira nascer – já estava com oito anos de idade. Ele pôde, então, conviver com o primogênito e com os filhos Celso e Paulo, que nasceram no exílio.

Alexandre Padilha, atualmente ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República (aos 38 anos o mais jovem ministro do governo), disse que cada um dos filhos traz em si um pouco do pai. Pela função que ocupa, Alexandre realiza um pouco dos sonhos de democracia vividos pelo jovem Anivaldo. Celso e Paulo personificam seu lado mais artístico. “Você tem a capacidade de se diluir na identidade dos filhos”, brincou Alexandre, dirigindo-se ao pai. Com os presentes, compartilhou lembranças dos tempos de exílio, quando a comunicação entre pai e filho se dava pela troca de fitas cassete remetidas pelo correio. “Existe uma tecnologia Padilha de ser. Meu pai consegue criar formas de, mesmo à distância, manter toda a família por perto”. Ele terminou seu testemunho expressando o desejo de “mais 70 anos pra gente continuar misturando nossas identidades”.

Com seu depoimento, Alexandre Padilha abriu uma sessão de testemunhos emocionados, conduzidos com graça e bom humor por Ester Lisboa. A cada nome anunciado por Ester, mais lembranças eram compartilhadas – e, certamente, o lenço que Anivaldo levava aos olhos ficava um pouco mais molhado… 

Diná Branchini, coordenadora do Ministério de Ações Afroafirmativas, lembrou dos congressos de jovens que Anivaldo conduzia e dos quais ela participava ainda criança, acompanhando o pai que era pastor. E puxou o coro de um cântico da mocidade metodista que os presentes com mais de 50 de idade acompanharam com entusiasmo. O presbítero Darli, do CLAI, disse que aprendeu com Anivaldo que o movimento ecumênico é feito por pessoas e baseado na amizade. E deixou com o aniversariante e com os demais irmãos e irmãs o versículo 7 do capítulo 15 de 2 Crônicas: “Mas sede fortes, e não desfaleçam nas vossas mãos, porque a vossa obra terá recompensa”.

            Eliana Rolemberg, da CESE, teve dificuldades em conter as lágrimas. Em 1970, ela foi presa junto com Anivaldo. Ambos foram torturados e perderam amigos em comum, mortos pela ditadura militar. Lembranças assim doloridas não se apagam, mas Eliana também não se esquece de que, nos piores momentos, o amigo conseguia manter o senso de humor e procurava animar os outros presos. O que Eliana mais admira em Anivaldo é “a dedicação profunda ao que acredita, a grande criatividade e a capacidade de buscar o diferente acima dos preconceitos, buscando a unidade no que é possível”, características tão necessárias à Igreja.

O sociólogo e doutor em saúde pública Ideraldo Beltrame, que representava também INERELA, Rede Internacional de Líderes Religiosos que Vivem e Convivem com HIV/Aids, pediu bênçãos divinas ao companheiro do programa Saúde & Direitos, de KOINONIA, pelo qual a organização atua nas áreas de saúde, educação sexual, direitos sexuais e reprodutivos e relações de gênero, dando especial atenção à prevenção da AIDS e ao acolhimento de pessoas portadoras de HIV.

Bem humorada, Marília Schüller destacou a participação de Anivaldo no movimento ecumênico nacional e internacional e fez um agradecimento em inglês,  idioma que falavam em Genebra, desculpando-se “por não saber falar mineiro”. Moisés também arrancou risos de todos, lembrando que certamente seria uma pessoa mais bem sucedida economicamente se não tivesse sido influenciado por Anivaldo. O músico conheceu o jovem militante nos anos 60, e foi despertado para o compromisso de implantar o Reino de Deus na terra. Certamente ele não enriqueceu seguindo este caminho…  Mas continua acreditando que Deus desperta talentos para formar evangelistas, cristãos e cristãs dispostos a colaborar na implantação do Reino. “Continuo acreditando que a Igreja Metodista forma apóstolos. Jesus continua contando conosco”.

Dermi Azevedo deu um depoimento contundente. “Meu filho de um ano e oito meses foi preso comigo e minha esposa, e levado para o DOPS (o antigo Departamento de Ordem Política e Social, que reprimia os movimentos populares durante a ditadura militar). Ele foi jogado no chão pelos militares. Ficou com seqüelas para o resto da vida”. Mais chocante ainda foi o resultado de uma pesquisa feita por Dermi anos mais tarde. Ele descobriu que havia delegacias especializadas em receber denúncias “de religiosos contra religiosos”.  Hoje já não é segredo que o jovem metodista Anivaldo Padilha foi denunciado às forças militares por um bispo metodista, já falecido, Isaías Sucasas e seu irmão José Sucasas. “Queremos pedir a Deus que isso nunca mais aconteça”, disse Dermi.

O bispo Paulo Ayres, quando convidado por Ester a dar seu depoimento, protestou: “falar de uma amizade de 50 anos em três minutos?” Mas ele se saiu bem. Lembrou que, em 1965, havia sido designado coordenador nacional da Juventude Metodista, mas nem chegou a assumir, com a justificativa de que a Igreja precisava de pastores, logo depois da divisão que criaria a Igreja Metodista Wesleyana. “Esse não era o verdadeiro motivo. A verdadeira razão é que eu era considerado comunista. Então me destituíram e escolheram o Anivaldo”… e arrancou risos da platéia. Paulo Ayres, na época ainda pastor e Anivaldo Padilha trabalhariam juntos no CEDI, Centro Ecumênico de Documentação e Informação, e hoje estão juntos na sucessora KOINONIA.  “Nossa amizade só fez crescer. O amigo ama em todo o tempo, diz a Palavra de Deus. Koinonia quer dizer comunhão. Continuamos em comunhão mesmo quando fomos denunciados pelos próprios irmãos. Isso não nos fez renunciar à fé, nem ao sonho de que outro mundo é possível”.

Mara Luz, da Christian Aid, destacou a humildade e tranqüilidade de Anivaldo na condução dos esforços – muitas vezes árduos – de cooperação ecumênica. E Daniel Souza, jovem estudante de teologia e um dos coordenadores da Rede Ecumênica de Juventude, fechou o ciclo de depoimentos reportando-se a Alexandre Padilha: “Alexandre disse que a identidade do Anivaldo dilui-se nos filhos. Suas utopias também vão nascendo em outros jovens”.

Ester Lisboa ainda destacou mensagens de amigos que, impossibilitados de comparecer à celebração, mandaram mensagens carinhosas. As mensagens, vindas de diversos lugares e crenças – de lideranças católicas, anglicanas, da umbanda e candomblé – expressavam todas o mesmo reconhecimento e gratidão.

Confirmando a canção que marcou toda a noite, Anivaldo resumiu: “Faria tudo outra vez”. E a própria celebração, amiga, singela e envolvente, confirmou o que tem sido sua vida, exemplo e o testemunho registrado no dia 19 de junho na Igreja Metodista de Vila Mariana: “o movimento ecumênico, união de esforços para a valorização da vida e luta pela justiça, existe para além das barreiras institucionais”. Enquanto instituições pensam em si mesmas, o ecumenismo é feito por pessoas e para pessoas que, em união fraterna, testemunham e sinalizam o Reino de Deus.

 

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