Campinho, Quilombolas e vídeos

Manoela Vianna

Dona Teresinha, Seu Nana, Débora, Bené, Sinei, entre mais de trinta quilombolas do Rio de Janeiro se encontraram em Campinho da Independência, em Paraty, para a Reunião de KOINONIA e comunidades do Sul do estado. Eles foram personagens de mini-documentários de KOINONIA, lançados neste evento.

KOINONIA produziu cinco spots (vídeos com cerca de um minuto) e três mini-documentários que compõem a série Visões Quilombolas. Mais de 20 remanescentes de quilombo falam sobre identidade, território, religiosidade, racismo; memória, entre outros temas.

A programação da reunião contou com a exibição dos vídeos, intervalos para debates, informes das comunidades e uma feijoada oferecida no Restaurante Comunitário de Campinho.

A exibição

O debate mais caloroso aconteceu depois da apresentação do vídeo “Mulheres Quilombolas”. O mini-documentário mostra mulheres de Alto da Serra, Campinho, Santa Rita do Bracuí e Ilha da Marambaia. Nesta última comunidade, o vídeo registra a interrupção da entrevista de Sonia Machado, quilombola e pescadora da Marambaia. As gravações foram interrompidas, pois as equipes tiveram que se retirar da Ilha diante de uma ordem do Comando Geral da Marinha.

Após a exibição, Seu Naná, liderança da comunidade da Marambaia, lamentou o fato: “Eu estava pautado para a entrevista, estava tudo certo, mas recebi um telefonema dizendo que a KOINONIA teria que sair. A KOINONIA é muito importante para nós. Não só para a Marambaia, mas para outras comunidades. Se conhecemos outras comunidades, em reuniões como essa, é por causa do trabalho dela”.

A Marinha controla a Ilha da Marambaia desde 1970 e não aceita que as terras quilombolas sejam tituladas. A publicação do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da comunidade, uma das últimas etapas para a regularização fundiária, chegou a acontecer em 2006. Mas o governo federal voltou atrás e hoje o processo está parado.

Seu Naná ainda contou que em visita à comunidade, no mês de abril, o ministro da Seppir, Edson Santos, afirmou que a titulação não ocorrerá de acordo com os direitos da comunidade. O relato gerou indignação de todos os participantes da reunião.

Religião como direito

“Religiosidade nas comunidades quilombolas” é um dos filmes da série apresentada no evento. O mini-documentário mostra que diversidade religiosa também é uma das características das comunidades quilombolas. Para Ana Gualberto, assessora do Programa Egbé Territórios Negros, o vídeo não discute fé e dogma, e sim mostra a religião na perspectiva de um direito que deve ser respeitado por todas e todos. Já Ronaldo dos Santos, presidente da Associação de Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj) acredita que o vídeo também mostra a função política da religião, já que os quilombolas abordam a importância da fé na luta política.

“Casca de coco no terreiro, faz lembrar dos tempo de cativeiro”

O spot “A Luta contra o Racismo” e o debate sobre o vídeo fizeram os quilombolas lembrarem do jongo “Vovó não qué casca de coco no terreiro, faz lembrar dos tempos de cativeiro”. Para Ronaldo, ao contrário da música, é preciso entender a história para combater o racismo. Miguel Francisco da Silva, da comunidade de Santana (Quatís) destacou que cavar espaços na sociedade para os negros é uma forma de combater o racismo.

Além dos quilombolas de Campinho da Independência, Santana e Ilha da Marambaia (Mangaratiba) também participaram da Reunião representantes das comunidades de Alto da Serra (Rio Claro) e do Quilombo de Santa Rita do Bracuí.

Outros lançamentos:

O Programa Egbé Territórios Negros também lançará os vídeos “Visões Quilombolas” em outras comunidades atendidas por KOINONIA e o material passará a fazer parte de suas oficinas.

Os vídeos estão disponíveis aqui no site de KOINONIA e os interessados também podem solicitar uma cópia em DVD.

Assista “Visões Quilombolas” e saiba mais sobre a produção dos vídeos: https://www.koinonia.org.br/visoes_quilombolas/Saiba

 

Visite o [OQ] Observatório Quilombola e saiba mais sobre as comunidades quilombolas.

 

Entenda a situação da comunidade da Marambaia lendo as notícias:

RJ – Procuradoria suspende decisão que autoriza a ocupação da Marambaia por quilombolas (6/5/2008)

Conaq divulga nota em favor de quilombolas da Marambaia (30/4/2008)

ARQIMAR divulga nota sobre a visita de Edson Santos à Ilha da Marambaia (11/4/2008)

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