AIDS 2016

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Cláudio C. Monteiro Jr.

“Peste Gay”: foi exatamente assim que a estranha doença que atacava de forma fatal homossexuais masculinos tomou as manchetes do mundo no início dos anos oitenta, numa época em que o HIV era desconhecido e tudo o que se referisse à AIDS encontrava-se no campo das suposições. Suposições que levaram a um brutal recrudescimento da homofobia, ao ponto de homossexuais serem agredidos de diversas formas em todo mundo, por serem potenciais disseminadores de uma doença sem cura, letal e estigmatizante, capazes de comprometer a saúde de toda a população

A descoberta da etiologia viral da AIDS, através do isolamento do HIV (inicialmente chamado de HTLV III pelos americanos e de LAV pelos franceses) e a revelação de que o contágio só é possível através da troca dos “fluidos infectantes”, por um lado, desculpabilizou os gays pela tal peste, pondo por terra a hipótese absurda de que uma determinada patologia teria tropismo por indivíduos com determinadas orientações sexuais.  Com efeito, menos de uma década depois, o número de indivíduos no Brasil que haviam adquirido o vírus através de outras vias que não a sexual, ou seja, associado ao uso de substâncias psicoativas endoinjetáveis, ultrapassava o número de homossexuais masculinos acometidos pela AIDS.

Vieram outros “momentos epidemiológicos” e as ações de prevenção capitaneadas pelos programas oficiais passaram a priorizar outros grupos, como as mulheres heterossexuais. Com efeito, heterossexualização e feminização da epidemia passaram a ser, na primeira década deste século, as “pedras de toque” da prevenção. Não totalmente sem razão, pois o indicadores epidemiológicos apontavam para tal necessidade, mas criando a falsa ilusão de que a “peste gay” era coisa do passado. Uma coisa não excluía a outra, mas as políticas públicas de enfrentamento parecem ter achado que sim.

Baixou-se a guarda da prevenção junto aos G dos LGBT e as consequências disto são palpáveis. Obviamente, os indicadores[1] são os mesmos do início dos anos 80, onde o percentual de casos novos de AIDS entre homossexuais masculinos era próximo do absoluto (100 % em 1980 e 75 % em 1982). Se considerarmos que esse percentual atingiu seu ponto mínimo em 1996 (21, 5%) e que em 2014 o mesmo atinge os consideráveis 41, 8 % (sendo que a linha de tendência epidemiológica encontra-se acelerada em ascensão), caso nada seja feito, é possível que dentro de oito ou dez anos tenhamos percentuais de incidência de casos novos de AIDS entre homossexuais masculinos similares aos de trinta anos atrás.

Muitos fatores contribuíram para o atual panorama, desde o advento das terapias antirretovirais (associada a falsa ideia de que “AIDS agora tem cura”), até práticas explicitamente associadas ao risco como o bare backing e o sperm Cult, passando pela insuficiência (ou inadequação) de ações de prevenção junto a grupos específicos, e pela reducionismo de se confundir “prevenção” com o “insumo de prevenção” ou seja, ao preservativo. Achou-se que a disponibilização de preservativos em larga escala, associada a um discurso normativo “camisinhocêntrico” fosse o suficiente para quebra a cadeia de transmissão e para tão sonhada minimização de vulnerabilidades.  A realidade mostra que não foi assim, e, hoje em dia, incorre-se na tentação ainda mais reducionista de culpabilizar os indivíduos e seus comportamentos (de “risco”) frente ao sexo pelo “descontrole” da epidemia entre o gays.

Sem dúvida as chamadas “novas tecnologias de prevenção” (como as Profilaxias Pós e Pré Exposição) surgem enquanto insumos estratégicos importantes, num cenário onde tudo que venha a agregar torna-se importante, mas no qual o preservativo – devido sua ação mecânica e palpável – continua ainda sendo a única certeza absoluta de preservação individual contra a infecção. E usá-lo ou não, é uma decisão que envolve minimamente duas pessoas, seus desejos e as circunstâncias da relação sexual, algo muito mais complexo do que o combate ao Aedes Aegypti através da eliminação de criadouros.

E por complexo que seja, a ação se faz necessária. As experiência que demonstram a eficiência da educação interpares e do protagonismo de grupo, como estratégias que propiciem a reflexão individual sobre corpo, sexo, cuidados e exercício consciente da sexualidade, parecem evidenciar  este “construtivismo sexual”  como um alicerce basal para decisão de adotar-se esta ou aquela forma de prevenção, ainda que sempre, e em última instância a decisão em aderir-se ou não à prevenção será algo intrinsecamente individual.

Será algo individual para um problema de saúde coletiva.

 

[1] O dados apresentados foram obtidos através do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN).