A interiorização da violência letal contra jovens e o Sertão Alagoano

Foto: Agência Brasil
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Delmiro Gouveia (AL), junho de 2013. Policiais do 9ª Batalhão registram mais um homicídio. A vítima é José Cícero da Silva, 27.

Santana do Ipanema (AL), outubro de 2014. Clerisval Lima, 19, não resiste aos ferimentos à bala após um atentado. Ele já era a quarta vítima de homicídio em apenas 48h, somente no município. Antes foram mortos Alex Silva, 19, Cícero Silva, 22 , e Danilo da Silva Lima, 16.

São José da Tapera (AL), setembro de 2014. Anderson Rodrigues dos Santos, 25, é morto a tiros no quintal de casa.

Em comum, além da região — o Sertão alagoano –, os casos também têm o perfil das vítimas: homens, entre 15 e 29 anos de idade. Todos os crimes aconteceram no estado onde mais se mata jovens no Brasil. É o que diz o “Mapa da Violência 2014”, que confirma Alagoas como o número um em quantidade de homicídios de jovens, com taxa de 65 mortes a cada 100 mil habitantes. O crescimento dos homicídios de jovens no estado foi de 138% entre 1998 de 2012 e, embora a maioria da população esteja concentrada nas áreas urbanas, as zonas rurais — como as do Sertão alagoano – vão adquirindo importância neste quadro.

A região reúne 26 cidades, com população de mais de 430 mil habitantes, quase 120mil deles jovens e a maior parte vivendo em áreas rurais. Dos 106 municípios do estado, o Sertão possui dois dos 15 mais violentos para os jovens: Santana do Ipanema, em décimo segundo lugar, e Delmiro Gouveia, em décimo. Estas duas cidades figuram na lista das 100 mais violentas do país que tem mais de 5.500 municípios.

De acordo com Thiago Santos Gomes, 25, vice presidente do Sindicato dos Trabalhadores(as) Rurais e vereador do município de São José da Tapera, no Sertão, as áreas rurais têm sofrido com a falta de iniciativas governamentais de prevenção à violência contra seus jovens. “Penso que um dos principais motivos para o aprofundamento da vulnerabilidade dos jovens é a ausência de políticas públicas específicas para eles. E mesmo quando essas existem, muitas vezes são desenvolvidas de forma desordenada e sem um processo de continuação”, analisa.

Segundo o assessor de KOINONIA, Jorge Atílio Iulianelli, coordenador do programa Trabalhadores Rurais e Direitos, este processo que atinge em especial os jovens rurais está muito relacionado ao fenômeno da interiorização da violência. Contudo, para ele, o desafio não se restringe a criação de propostas na área da segurança.

“Desde o início dos anos dois mil se verifica um processo de interiorização da violência, antes percebido como fenômeno mais urbano e dos grandes centros. Esse deslocamento mostra que a questão não é apenas de segurança, mas também de saúde pública e precisa de melhor atendimento. A criminalização das juventudes não é o melhor caminho para o enfrentamento da violência, porque incrementa o foco em uma determinada faixa etária como se aqueles que estão dentro dela fossem necessariamente perigosos e desviantes. O atual programa interministerial “Juventude Viva” confere um plano possível de atendimento ao problema. A implementação precisa ser mais célere, no entanto”, analisa.

Um dos grandes desafios para estas políticas certamente é o de lidar com o conjunto de desigualdades enfrentadas pelos jovens rurais. Para se ter uma ideia, cerca de um terço dos jovens do Sertão alagoano vive com menos de um salário mínimo. Nas áreas rurais da região, o rendimento médio mensal entre os jovens é de aproximadamente R$ 260. E a dimensão econômica é apenas uma das várias que precisam de atenção das políticas públicas, sobretudo, as que se propõem a desenvolver ações específicas para os jovens do campo.