Contraponto: Religiosos progressistas e Comunidade LGBTI+ se unem em congresso e lançam carta frente ao aumento fundamentalismo nas religiões e na política

 

Documento enfatiza que discursos religiosos não devem ser instrumentos de opressão nas vidas LGBTI+ e que a narrativa cristã fundamentalista não é a única possível, entre outras questões.

Acesse a carta na íntegra em: http://bit.ly/CartaIgrejasComunidadeLGBTI   

A carta foi elaborada durante o 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ que aconteceu na Paróquia da Santíssima Trindade IEAB em São Paulo em parceria com KOINONIA Presença Ecumênica durante o feriado de Corpus Christi.

O documento que marca um posicionamento político, é assinado por pessoas das mais diversas igrejas e comunidades de fé e traz como proposta a afirmação de “pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero” frente às diversas religiosidades e comunidades de fé, além de denunciar experiências de exclusão e opressão contra essas pessoas.

No momento em que a sociedade brasileira vive um governo pautado e guiado por uma moral religiosa, o crescimento dos fundamentalismos religiosos acentua discursos contra a diversidade sexual e de gênero.

Por isso, a carta propõe um alerta à sociedade para a situação de vulnerabilidade da população LGBTI+ trazendo para o debate as questões dogmáticas de comunidades cristãs que em geral tendem a excluir e reforçar as vulnerabilidades e silenciar essas pessoas.

“Lamentamos e denunciamos que, como estratégia para alcançar representatividade, muitas lideranças políticas e midiáticas do campo religioso, sobretudo entre cristãos, estejam se apropriando e instrumentalizando o imaginário e a linguagem religiosa e teológica para produzir e disseminar pânico moral, ressentimento, medo e ódio a partir de expressões como “ideologia de gênero” e reforço da ‘hombridade’”, consta no documento.

Pessoas de diferentes partes do Brasil e de outros países como Estados Unidos, Argentina, Paraguai passaram por 3 dias de debates e mesas no 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+. Temas como representatividade política, epidemia de HIV/ Aids, políticas públicas, acolhimento nas igrejas, experiências de resistência e leituras bíblicas a partir de outras teologias, foram abordados.

Com cerca de 200 participantes em média, e encontro reuniu não apenas pessoas leigas e lideranças do mundo religioso como protestantes, católicas, evangélicas pentecostais e neopentecostais, adventistas, budistas, lideranças de religiões de matriz afro e afrobrasileira mas também representantes da política como a deputada estadual Erica Malunguinho e Renato Simões, movimentos sociais e também pesquisadores/as da temática.

 

Bloco Interreligioso chamou a atenção na Parada do Orgulho LGBTI+ em São Paulo

No domingo, 23 de junho, grupos que participaram do congresso se juntaram a outras frentes religiosas para compor o bloco “Gente de Fé Contra a LGBTfobia”na Parada LGBTI+ na Paulista.

Carregando uma faixa com o nome do bloco, religiosas e religiosos paramentados eram aplaudidos e cumprimentados por muitas pessoas que viam o grupo passar. Atrás dos representantes.

A ideia surge também a partir da necessidade do resgate dessa espiritualidade LGBTI+, especialmente ao relembramos este ano os 50 anos de Stonewall, como a história da ativista trans Sylvia Rivera, que ao lado de Marsha Johnson foram destaques na noite de Stonewall. O que a história muitas vez não conta é sua trajetória como membra e coordenadora na Igreja da Comunidade Metropolitana ICM (Metropolitan Church Community, primeira comunidade cristã denominada inclusiva.

O Rev. Alex Silva Souto da Igreja Metodista Unida dos Estados Unidos, que participou de uma das mesas do congresso e caminhou com bloco na parada, destaca “Se a comunidade LGBTQIA+ tiver experiências positivas com comunidades religiosas, e vice versa todos ganharemos com isso. Como disse Rev. Dr. Martin Luther King Jr., “ninguém é livre até que todos estejam livres “, não há paz e liberdade sem justiça, e amor que é amor de verdade é incondicional além de palavras baratas”.

Para o Reverendo Budista Tetsuji do movimento Rainbow Shanga, “notamos muito a expressão de surpresa, emoção e apoio de muitas pessoas durante a caminhada e que nunca imaginariam em uma festa linda uma marcha de protesto contra a lgbtfobia por religiosos, ao mesmo tempo afirmando que há sim outras formas da população LGBT+ expressar suas religiosidades”.

Mais sobre o 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+:
http://bit.ly/CongressoIgrejasComunidadeLGBTI

Nas redes sociais: confira a hashtag #IgrejasEComunidadeLGBTI

Evento do Congresso no Facebook (com mais fotos): http://bit.ly/EventoCongresso

Evento do Bloco da Parada no Facebook (com mais fotos):  http://bit.ly/BlocoGenteDeFeContraLGBTFOBIA

Artigo: “Você gosta de mim, mesmo sendo gay?”

Foto: Julio Cesar Silva/ Divulgação KOINONIA

Por Daniela Leão, 
Mestra em Ciências da Religião pela UMESP
Para KOINONIA

Essa pergunta me surpreendeu outro dia no watsapp. Minha primeira reação foi perguntar: “Como assim? Tá, sou sua amiga, mas o que eu tenho a ver com a sua sexualidade?” A segunda foi: “Por que você está me perguntando isso?”

Não consigo parar de pensar nesse fato! Claro que minha amiga estava angustiada e precisava da minha aprovação. Então, eu dei: “Eu te acolho, te gosto, te respeito, te aceito. (e ponto final!)” Mas por que essa necessidade? Tenho para mim que a resposta está na quantidade de desaprovação que ela tem recebido ultimamente.

Poucas vezes eu paro para pensar nas pessoas que são “desaprovadas” pela sociedade, sabia? Minha vida é tão cheia de aprovações… Olha só: nunca repeti de ano na escola, tenho carro e casa próprios, família de comercial de margarina, ocupo espaços de liderança na igreja etc, etc, etc. Enfim, aos olhos do mundo: estou aprovadíssima, tenho méritos, sou uma pessoa de sucesso! Ou Deus me abençoou? Mas… e quem vive sob o constante jugo da desaprovação? Essa pessoa não tem méritos, não é um sucesso? Deus não a abençoou?

Foi tentando analisar essa situação que me dei conta de que o que eu tive foi acesso a um privilégio socialmente construído e sorte! E isso não tem nada a ver com Deus. Tive o privilégio de ter tido tempo para sempre me dedicar aos estudos como prioridade na minha vida, privilégio de ter encontrado um bom trabalho, sorte de ter encontrado o meu marido antes de ele conhecer outra pessoa mais interessante do que eu, sorte de ter nascido heterossexual numa família de classe média, sorte de ter um dom que a comunidade acolha e com o qual me permita colaborar, privilégio de ter encontrado o motivo pelo qual eu vivo. Simplesmente tive sorte e privilégios!

Como posso querer invocar a bênção de Deus somente para mim e as/os socialmente aprovadas/os? Quer dizer que Deus nos abençoou e esqueceu-se da minha amiga e das/os outras/os? Jamais! Ele jamais os deixaria, os deixa ou virá a deixá-los sem a Sua bênção, todos os dias, sobre as suas vidas! Deus nunca abandonará ninguém. Ainda que uma mãe abandone um filho, Ele jamais o fará!

A angústia que minha Bela amiga sente não nasce da falta da bênção de Deus, mas da discriminação que a sociedade (incluindo a sua comunidade de fé) tem praticado para com ela. É a constante tentativa de colocá-la dentro de um padrão ou tentar mantê-la à margem – longe dos olhos dos preconceituosos – por não conseguir padronizar-se que se fazem presentes nas narrativas que ela escuta diariamente que a angustia e a faz sofrer. É a confusão que se faz entre a bênção de Deus e a aprovação social, somada à falta de amor para acolher a diversidade da criação de Deus que faz com que as/os marginalizadoras/es construturas/es de regras (neste caso, heteronormativas) não a reconheçam como igual, tratando-a como “não abençoada” ou “fora do padrão”, “desqualificada” para o convívio com os demais. Tal situação envia-lhe a mensagem: “esconda-se!”, o que provoca sensação de não pertencimento, gerando angústia no coração da Bela.

E, assim como minha amiga, muitas pessoas sentem que não pertencem a um grupo. Agora, pensemos nessa constatação neurocientífica: pertencer a um grupo, amar e ser amado pelos integrantes desse grupo é uma necessidade humana que precisa ser atendida, sem a qual não conseguimos alcançar o nosso pleno potencial como ser humano. A angústia causada pela falta de acolhimento em grupo é uma das grandes causas de transtornos físicos e mentais, porque é vital que seres humanos estejam em relação, uns com os outros. Quando se trata de relações sexuais, isso não é diferente.

Numa sociedade predominantemente cristã como a nossa, ainda mais cruel do que normatizar comportamentos e apontar os que estiverem “fora do normal” é classificar a homossexualidade (ou qualquer outra forma de expressão da sexualidade humana) como pecado. Ao fazer isso, somamos o peso da culpa à angústia causada pela sensação de não pertencimento. Notemos que essa “pecaminização” não trata de qualquer culpa, mas da pior: a culpa sem redenção. Por quê? Porque a sexualidade é uma pulsão, um movimento interno que direciona a vida e, uma vez descobertas suas condições sexuais, seres humanos não podem mais desfazer-se dessa pulsão. Nesse raciocínio acachapante de “pecaminizar” uma condição sexual, não há resgate possível para essa culpa, daí a profunda crueldade dessa ação.

Quando tomamos contato com narrativas contidas nos Evangelhos sobre a vida de Jesus, percebemos que Cristo praticou incessantemente o acolhimento às/os socialmente excluídas/os. Curou leprosos, acolheu prostitutas, cobradores de impostos e todos as/os pechadas/os como pecadoras/es de sua época. O nazareno gerou (no sentido de fazer germinar) ambientes de amor e acolhimento em volta de si. E os frutos desses ambientes tornaram-se permanentes. Por onde quer que passasse, as pessoas O aceitavam como filho de Deus porque ele amava e acolhia como o próprio Deus. Ao anunciar o Reino de Deus como um lugar onde todas/os teriam assento, Ele atende à necessidade humana de pertencimento a um grupo, de amar e ser amado pelos integrantes desse grupo. Foi essa a fé que nos alcançou. E esses relatos permanecem vivos e falam conosco sobre a psique humana desde sempre, inclusive nos dias de hoje.

Além de nos anunciar um espaço onde TODAS e TODOS caibam, os Evangelhos proclamam Jesus como o Cordeiro de Deus que TIRA o pecado do mundo. Olha que maravilha! Jesus TIROU O PECADO DO MUNDO! Então, se Jesus já tirou o pecado do mundo, quem somos nós, pequeninos diante da grandeza de Deus, para introduzi-lo novamente? É muita petulância!

Se formos verdadeiramente cristãs/os e quisermos segui-lo, a nossa missão não é a de fazer planilhas que classifiquem as pessoas, podando-as e fazendo-as ficar adequadas às regras sociais inventadas (sabe-se lá quando) por seres humanos. Também não é excluir quem quer que seja do nosso convívio, tampouco condenar ao anonimato as/os socialmente classificadas/os como “não adequadas/os”. Ao contrário de julgar e padronizar comportamentos, somos chamadas/os para proclamar a libertação que só Jesus pode dar! Nesta semana aprendi que libertação é a ação da palavra. Portanto, ao nos chamar para proclamarmos a Sua libertação, Jesus nos convida a agirmos de forma a promover a liberdade das/os cativa/os nas mais diferentes prisões em que se encontrem.

A missão para a qual Jesus nos convida é a de continuar contando a Sua história, vivendo e anunciando as Boas Novas da Sua vida. E para isso, Eles nos deixou várias instruções. Trago algumas que nos alimentam a esperança: “Acolham, não julguem. Não olhem nem apontem para o comportamento dos outros, preocupem-se com os seus próprios e os corrijam. Não se preocupem com o mundo, eu já o venci. Espalhem amor. Se alguém te magoar, perdoe. Tenham bom ânimo, acreditem: Eu sou o cordeiro que tira o pecado do mundo!”

De minha parte, eu te acolho, Bela amiga! A você, a sua companheira, a sua família e a todas/os que se sentirem marginalizadas/os e sem o necessário apoio para viver e praticar o amor humano. Vamos nos somar para livrar-nos uns aos outros das culpas e das angústias que o mundo nos impõem. Não se engane: todos nós somos podados ou praticamos a auto poda para sermos consideradas/os “normais” ou seja, para agirmos dentro das normas. Umas/uns sofrem mais, claro, outras/os (como eu), menos. Mas sabemos que Deus não quer que ninguém viva pela metade. Ao enviar Seu filho Jesus, o Pai quis que tivéssemos vida em abundância!

Não digo que terei sempre palavras acolhedoras, nem que saberei agir sempre da melhor forma. Também fui educada para julgar. Mas, se me quiserem, quero estar com vocês, desconstruindo normas que aprisionam e denunciando privilégios dos quais poucos possam gozar. Quero estar junto de vocês, construindo e espalhando o Reino de Deus, aprendendo juntas/os sobre a liberdade para a qual Jesus nos libertou. Não tenho medo, Deus está nos guardando, o próprio Cristo segue conosco e é o Espírito Santo quem nos anima e consola! E sigamos até o fim dos tempos… de opressão.

ACT Aliança se posiciona sobre situação da democracia brasileira

Declaração: Democracia e Estado de Direito no Brasil

Genebra, Suíça, 25 de junho de 2019

É com espanto e preocupação que recebemos as notícias do Brasil sobre as alegações de conluio altamente controverso e politizado entre o procurador-chefe da operação anticorrupção “Lava-Jato” e o juiz responsável pelo caso, que atualmente é o ministro da Justiça do Brasil. Este novo evento político se soma à onda de problemas negativos que o Brasil vem experimentando desde junho de 2016, quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi retirada de sua função através de um processo de impeachment duvidoso, e onde o mesmo juiz autorizou, de forma ilegal, a divulgação de gravações de ligações telefônicas da presidente Rousseff, em uma saga que envolveu vários políticos e a mídia corporativa.

Desde esse retrocesso contra a democracia no Brasil, a violência política custou centenas de vidas. Execuções extrajudiciais, sumárias e arbitrárias estão cada vez mais direcionadas a defensores de direitos humanos, líderes sociais e políticos, povos indígenas, afrodescendentes, mulheres e pessoas LGBTI. O racismo, a xenofobia, o ódio aos pobres, a homofobia e a misoginia estão aumentando em todos os níveis e, em alguns casos, até mesmo sendo promovidos por autoridades governamentais de alto nível.

Os membros da Aliança ACT no Brasil estão preocupados com o estado de deterioração da democracia no país, e estão sendo afetados pela reação violenta contra os direitos humanos e o estado de direito, o espaço cada vez menor para a sociedade civil, a diminuição da imparcialidade e liberdade de imprensa e o aumento da corrupção e das posições políticas que carecem de transparência.

A Aliança ACT espera que o sistema judicial brasileiro se baseie em práticas legais e que todos os juízes sejam imparciais, justos e não tendenciosos, e sigam estritamente as leis e a Constituição brasileira. Também espera que a decisão de garantir os preceitos democráticos seja baseada na lei, e não na pressão de grupos econômicos, religiosos ou políticos. A violação das prerrogativas de independência e imparcialidade do judiciário pode levar ao uso político e ideológico do sistema judicial e deve ser denunciada.

A Aliança ACT saúda a divulgação pelos meios de comunicação da desonestidade sistemática praticada por funcionários públicos. O público tem o direito de saber, e a sociedade civil tem a obrigação de denunciar as injustiças como forma de fortalecimento da democracia e para manter governos e instituições responsáveis e transparentes.

Portanto, a Aliança ACT insta as instituições brasileiras a realizar uma investigação adequada sobre o caso de conluio e a reverter os delitos graves, o comportamento antiético e as práticas ilegais levadas a cabo por funcionários públicos que põem em risco a democracia, os direitos humanos e o estado de direito. Exortamos ao Supremo Tribunal Federal brasileiro para acelerar a investigação e a restauração da justiça em todos os processos que foram implementados ilegalmente. Esse é um passo fundamental para garantir uma sociedade democrática, pacífica e inclusiva.

Rudelmar Bueno de Faria
Secretário Geral
ACT Alliance

 

ACT Alliance é uma coalizão de 155 igrejas e organizações relacionadas a igrejas que trabalham juntas em mais de 125 países para criar mudanças positivas e sustentáveis na vida das pessoas pobres e marginalizadas, independentemente de sua religião, posição política, gênero, orientação sexual, raça ou nacionalidade, que opera com os mais altos códigos e padrões internacionais. ACT é apoiada por uma equipe de 30 mil pessoas de organizações membros e mobiliza a cada ano cerca de US $ 3 bilhões para o seu trabalho, em três áreas específicas: ajuda humanitária, desenvolvimento sustentável e defesa de direitos.

Igrejas e Comunidades LGBTI+ realizam Congresso em São Paulo

Movimentos sociais do campo e das cidades, representantes religiosos e pessoas LGBTI+ discutem fundamentalismo e exclusão em nome da religião

Texto: Mario Manzi – CPT e Wesley Lima – MST
Fotos: Julio Cesar Silva – Divulgação: Koinonia Presença Ecumênica

O 1º Congresso Igrejas e Comunidades LGBTI+, realizado entre os dias 19 e 23 de junho, na Paróquia da Santíssima Trindade, da Igreja Anglicana em São Paulo, reuniu as duas questões propostas no nome do Congresso, com o objetivo de construir unidade em torno da luta contra a LGBTfobia, tendo como principal desafio romper com o conservadorismo e o fundamentalismo religioso presentes na história brasileira. O Congresso foi realizado pela Paróquia da Santíssima Trindade e por Koinonia Presença Ecumênica e Serviço com o apoio de Igreja Episcopal Anglicana do Brasil/Junta Nacional de Educação Teológica (JUNET); Christian Aid Brasil; Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo; AHF Brasil.

O Congresso incluiu-se na programação de uma das maiores festas de luta do Orgulho LGBT do país, a Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo. Especificamente no Congresso estiveram presentes cerca de 200 pessoas, entre elas, representantes de organizações sociais pelos direitos da população LGBTI+, entidades nacionais e internacionais e movimentos populares.

Ao analisar o processo histórico de lutas da população LGBTI+ em nosso país e o avanço do pensamento conservador nos últimos anos, principalmente a partir do discurso de ódio utilizado pelo atual presidente Jair Bolsonaro (PSL), Nancy Cardoso, teóloga e integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT), afirmou que neste momento é central “celebrar a vida” à mesa de abertura, denominada “Fotografia do Momento Político, Econômico, Religioso, Movimento Social e suas implicações na Vida dos LGBTI+”.

Cardoso emendou: “Deus é amor. Mas existe um discurso que destrói as comunidades LGBTI+; destrói os corpos. Esse discurso é fundamentalista e destrói também as famílias. Por isso precisamos pensar uma teologia que consiga reconstruir a vida, as comunidades, a coletividade”.

“Existem conteúdos comuns que criminalizam a luta e os corpos LGBT. Existe um processo de globalização dessa cruzada. Nós somos reduzidos a uma teologia do corpo, que tem como base a disciplina dos corpos. Nesse sentido, se constrói uma discussão sobre o que é natural.”

Além disso, Cardoso pontuou que há, hoje, um movimento de uma Articulação dos Fundamentalistas Religiosos com o objetivo de ocupar espaços importantes mundialmente com um discurso conservador, normatizando as formas de viver e de amar, ampliando o debate em torno da ideologia de gênero. Entre eles, ela destaca o Congresso Mundial da Família, o Observatório, Vaticano e a Aliança Mundial da Juventude.
Para Renan Quinalha, professor de Direito da Unifesp – que também compunha a mesa –, a desqualificação do debate público é apontada como um dos piores pontos do atual governo “O pior estrago já está feito”. Como estratégia, o movimento deve sempre pensar o próximo passo, vez que a conquista de direitos não é um fim, que muitas vezes o desafio é conseguir fazer vigorar o direito conquistado. “O Direito Penal nunca resolveu problema nenhum em nossa sociedade, tem um recorte de classe, de raça muito importante”, afirmou em referência à criminalização pelo Superior Tribunal Federal (STF) da criminalização da homofobia. Apesar da análise, Quinalha classificou como positiva a resposta do STF ao ciclo de atropelos vivido neste governo Bolsonaro.

Igreja Anglicana

À mesa “Desafios da inclusão LGBTI+ na Comunhão de Igrejas Anglicanas: pistas de caminhos teológicos e pastoriais”, o reverendo Gustavo Gilson, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, descreveu brevemente o processo de conquista de espaço dentro da instituição a qual ele faz parte. Para ele ocorre uma “tensão entre o evangelho da radicalidade do amor e uma ideia da religião da lei, da normatividade, que quase sempre está a serviço de poderes econômicos e políticos”. Para ele os discursos religiosos e cristãos têm tido papel forte na reprodução e fortalecimento no modelo de poder cis-heteronormativo, portanto é necessário pensar um outro “modelo de eclesialidade” e enfrentar a misoginia e a lgbtfobia. “Não é uma necessidade apenas a quem se identifica, é uma questão de toda a Igreja, de toda a religião.”

Mesa “Jesus Cristo, rainha do céu” composta apenas por representantes trans

“Eu sei o que eu passei para ver Deus sorrir para mim”

Um deus que nem sempre sorriu para suas e seus filhas, filhos e filhxs. A frase é da pastora Alexya Salvador, da Igreja Comunidade Metropolitana (ICM). Junto a ela, somam-se diversas trajetórias expostas na mesa “Jesus Cristo, Rainha do Céu”, que convergem nos testemunhos de rejeição das igrejas e comunidades àquelas e àqueles que não se enquadravam nos padrões de normatividade sexual e de gênero eleitos por essas igrejas.

Esses lugares de fé foram pontuados como, por vezes, fechados a esses corpos que rejeitavam ou contestavam o controle das denominações religiosas. Pouco ou nada acolhedores a transgêneros, transexuais e travestis, esses lugares negavam a acolhida de deus.

Há um novo cenário. Alexya é hoje a primeira pastora trans da América Latina. E é a partir das trajetórias dessas pessoas excluídas, e por estas pessoas, que ela propõe o debate. “Entender que a partir de nós se desponta um cenário até então não visto, não falado, não só dentro de seus ambientes, mas para o mundo.”

Portas fechadas

Ao corpo travesti de Keila Simpson foi negado o acesso a deus pela igreja. “A igreja foi me mostrando a visão dela, que ela tinha comigo, e a Igreja foi começando a me excluir dela.” Foi nas ruas que Keila construiu sua religiosidade. “Deus me aceita da forma que eu sou, como prostituta trans de 53 anos. Na religião a gente vê exclusão, assepsia das pessoas. As igrejas estão incitando o ódio e a violência.”

O Congresso foi então debatido, em seu curso, pela mesa. Realizado no ambiente eclesial da paróquia, o lugar foi discutido, bem como a mesa formada apenas por pessoas trans. “Eu jamais pensei que fosse possível sentar nesse lugar. Meu rompimento foi com o homem, não com deus.”

Também na mesa, a ialorixá Fernanda de Morais, que descreveu todo o processo para tornar-se ialorixá no Candomblé, religião por vezes considerada como mais acolhedora às pessoas LGBTI+. Na fala de Fernanda, contudo, foi pontuado todo o processo de posicionamento que enfrentou para conquistar espaço dentro da religião a que faz parte.
No dia anterior, a deputada estadual por São Paulo, Erica Malunguinho (Psol), também falava aos presentes sobre a importância do Congresso, durante a mesa “Representatividade política de comunidades de fé e o respeito aos direitos LGBTI+”. “Esse encontro é uma resposta propositiva ao sistema que oprime.” Malunguinho ressaltou o papel da religiosidade na narrativa hegemônica, devendo ser também responsabilizada em um processo de reparação. “Processos de colonização não vem apenas com força bélica, mas como arte, cultura e religiosidade.”

Não há mais espaço para o quase

A dissociação entre política e religião foi debatida na mesa da qual fez parte a deputada. O cenário de retrocessos na esfera da conquista de direitos foi tratado, tendo sido consenso a necessidade de discutir os projetos de lei que tocam as comunidades LGBTI+. Renato Simões ao abordar a importância da representatividade política, pontuou sobre a necessidade das pessoas LGBTI+ se envolverem nos debates políticos. À fala dele somou-se a do pastor José Barbosa Junior, da Campanha Jesus cura a homofobia, que também tratou do envolvimento das pautas de combate ao racismo.

Organizações do Campo

Não só movimentos, organizações e pessoas de origem (ou da luta) urbana fizeram parte do 1o Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+. Presentes à ocasião, representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pastoral da Juventude Rural (PJR) participaram ativamente das atividades e lembraram as pessoas LGBT’s do campo e suas pautas específicas.

Parada

No dia 23 de junho, durante a 23a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, os participantes do Congresso somaram-se ao bloco inter-religioso “Gente de Fé”, que levou à Avenida Paulista o discurso de cidadania religiosa para as pessoas LGBTI+. Um dia antes o Congresso realizado no bairro de Santa Cecília, havia produzido e debatido à exaustão carta aberta à sociedade, durante plenária ocorrida após as oito mesas temáticas do Congresso e a realização de nove oficinas. O documento deve ser publicado em breve.

Bloco Gente de Fé Contra a LGBTfobia em São Paulo. Foto: Julio Cesar Silva/ Divulgação KOINONIA

 

Veja também:  Da igreja à Parada LGBTI. Quem era o bloco interreligioso que agitou a Paulista

A travessia de um pioneiro ecumênico – Elter Dias Maciel (1935 – 2019)

Por  Zwinglio Dias

É com a tristeza que a saudade gera que partilhamos uma infausta notícia: faleceu no dia 18 deste mês na cidade de Goiânia, onde estava residindo, o Prof. Dr. Elter Dias Maciel, um dos sócios fundadores de KOINONIA. Sua partida significa que o movimento ecumênico nacional se vê privado da presença de um de seus mais relevantes líderes que, nas décadas de sessenta e setenta, teve papel significativo na consolidação e desenvolvimento da proposta ecumênica entre nós.

Sociólogo com formação teológica, Elter participou intensamente dos processos de formação,  educação sociopolítica e ecumênica de diferentes grupos da sociedade civil. Acompanhou a formação do CEI (Centro Ecumênico de Informação) na década de sessenta e, posteriormente integrou-se ao CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informação) na década seguinte. Profissionalmente, trabalhou como professor e pesquisador do IESAI (Instituto de Estudos Avançados em Educação) da Fundação Getúlio Vargas.

Filho de tradicional família presbiteriana do Triângulo Mineiro e inconformado com o predomínio do fundamentalismo teológico e o conservadorismo político que caracterizavam essa tradição protestante, dedicou-se ao estudo da natureza socioteológica  que desde sempre marcou o protestantismo no Brasil. Sua tese doutoral na Universidade de São Paulo, em 1973, foi sobre o Pietismo no Brasil. Neste particular ele pode ser contado também como um dos pioneiros no desenvolvimento da Ciência da Religião em nosso país.

Sua postura crítica e sua radical honestidade política são elementos de sua personalidade que permanecem entre nós como exemplos a serem seguidos nesses tempos de carências éticas e triunfos das falsidades.

Para nosso consolo e encorajamento, encerrando esta nota de lamento e lembrança, deixo aqui as palavras sábias que Rubem Alves, seu grande amigo que nos deixou há cinco anos,   escreveu sobre a morte:

“A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.”

 

1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ vai debater o respeito à diversidade nas comunidades religiosas em São Paulo

 

RELACIONADO: Religiosos de diferentes tradições se reúnem em bloco contra a LGBTfobia na Parada do Orgulho LGBTI+ em São Paulo – O bloco vai reunir diferentes tradições e organizações religiosas para afirmar que diversidade e fé são complementares e que o discurso religioso não deve mais ser ferramenta para excluir, silenciar, negligenciar e violentar corpos LGBTI+.

 

Representatividade política, epidemia de HIV/ Aids, políticas públicas, acolhimento nas igrejas, experiências de resistência e leituras bíblicas a partir de outras teologias, são alguns exemplos dos temas que serão abordados durante os 4 dias de evento

KOINONIA  e a a parceira Paróquia da Santíssima Trindade IEAB em São Paulo estão a frente da organização do 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ vai acontecer agora durante os dias 19 a 23 de junho, nas dependências da Trindade em São Paulo.

No mês marcado pelo Dia Internacional do Orgulho LGBTI+, que neste ano relembra os 50 anos da Revolta de StoneWall, a cidade vai receber pela primeira vez um evento que vai discutir a diversidade sexual e de gêneros a partir de uma perspectiva ecumênica, interreligiosa e latino-americana.

As mesas e oficinas de diversos temas como saúde, políticas públicas, política, inclusão, arte, entre outros, vão reunir lideranças políticas e religiosas, movimentos sociais e defesa dos direitos humanos, pessoas que pesquisam ou são interessadas na relação entre espiritualidade e questões LGBTI+.

O objetivo é além de discutir e refletir sobre espiritualidade e diversidade mas também estreitar laços dos espaços religiosos para minimizar o preconceito e intolerância no contexto desafiador do crescimento dos fundamentalismos e da fragilização de direitos de LGBTI+. O evento se encerra com um bloco de religiosos pela diversidade na Parada do Orgulho LGBTI+ no dia 23 de junho.

O congresso é um esforço coletivo de diversas organizações. As inscrições estão abertas e custam R$ 50 como forma de colaborar com bolsas para pessoas que gostariam de ir mas não tem recursos financeiros. Além disso foi criada uma vaquinha virtual para colaboração com essas bolsas.

 

Importância do movimento ecumênico e inter-religioso no enfrentamento de discursos religiosos fundamentalistas

É urgente e necessária a integração e reaproximação dos setores progressistas das religiões com o compromisso da afirmação e promoção dos direitos da comunidade LGBTI+ dado o contexto de retrocessos dos direitos LGBTI+ na maioria da região Latino Americana; o aumento significativo do fundamentalismo com campanhas  “contra a Ideologia de Gênero” e “Escola sem Partido”; e o aumento das desigualdades e violências que gera o aumento das vulnerabilidades da população LGBTI+ .

Colocar todo cristão e/ou comunidade cristã dentro deste pacote é um equívoco, e é sobre isso que o “1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+” vai tratar.

A verdade é que as comunidades baseadas na fé cristã têm apresentado diferentes posições nas questões envolvendo suas espiritualidades e a diversidade sexual e de gênero. Ora apoiando e acolhendo, ora excluindo ou invisibilizando seus fiéis e suas lideranças, tornando, ou não, seus espaços religiosos seguros.

E por isso o Congresso surge como uma demanda que vai além da análise de conjuntura; promoção de exemplos de ações inspiradoras no campo religioso e LGBTI+; a criação de redes de articulação de iniciativas existentes; e fortalecimento de atores para incidência pública na defesa dos direitos em um contexto de enfrentamentos e busca de proteção.

O Congresso busca utilizar a experiência de ecumenismo amplo, que no Brasil tem importância desde o período da ditadura militar, demonstrou ser uma importante ferramenta para o avanço do debate em pautas muitas vezes consideradas tabus no ambiente religioso.

Uma perspectiva ampla de ecumenismo permite estender a mesa para todas as pessoas de boa vontade, sejam elas de fé ou não, mas que compartilhem de um compromisso com a justiça e a inclusão de todas as pessoas.

 

KOINONIA e a pauta LGBTI+

KOINONIA já atua há mais de 20 anos com a temática, sendo Direitos da População LGBTI+ um dos nossos eixos de trabalho. 

Saiba mais:

A espiritualidade do orgulho LGBTI+
Solidariedade ao Jean Wyllys e à população LGBTI+
Juventude, sexualidade e direitos humanos: construindo pontes e aprendizados
Como o aumento do fundo partidário para mulheres abre discussões sobre gênero e diversidade LGBTI+ na política

Carta Assembleia CESE sobre a comunidade Bairro 135 (BA)

 

 

 

 

 

“Procurarás a justiça, nada além da justiça” (Dt 16.11-20)

Provocados e provocadas pelo tema bíblico que anima a Semana de Oração pela Unidade Cristã, nós, igrejas, organizações ecumênicas e inter-religiosas, pastorais sociais e movimentos sociais fomos ao encontro da comunidade do Bairro 135, em São Félix, localizada no Recôncavo Baiano. Nosso objetivo foi buscar sinais de justiça junto a uma população que ainda sofre as consequências da escravização do povo negro e do racismo estrutural, um dos principais pilares da desigualdade social brasileira.

Depois de conhecer a história da Barragem e Hidroelétrica Pedra do Cavalo, ouvimos as histórias de vida de moradores e moradoras da comunidade do Bairro 135, no município de São Félix/ BA. Nesta escuta-ativa-dialogal compreendemos que na comunidade a construção e a permanência da Barragem Pedra do Cavalo trouxe e consolidou situações de injustiça. Não há justiça na comunidade do Bairro 135. Os moradores e as moradoras são os impactados pela distorção da justiça.  A falta de justiça se percebe na absolutização do “direito” de um grupo financeiro enriquecer com a exploração do Rio Paraguaçu, destruindo o complexo ecossistema criado no entorno do rio.

Os principais impactos da injustiça percebidos na comunidade são a violência psicológica, pois existe constantemente medo de a barragem romper, inundando e destruindo o povoado; além não há áreas de lazer. O esgoto do município de Muritiba e os dejetos produzidos pela empresa Mastrotto Brasil são despejados no rio Paraguaçu, obrigando o povoado a viver em meio à poluição e ao mau cheiro e levando à destruição do bioma e à diminuição da pesca, uma das principais fontes de renda da população. Essa injustiça atinge também nossos valores sagrados, uma vez que a água é um elemento que está presente na maioria das tradições de fé.

E o desmonte de políticas públicas – como o Minha Casa Minha Vida – gera desemprego e diminui as alternativas de renda, pois um número significativo de moradores trabalhava na construção civil.

Estes fortes sinais de injustiça colocam a população diante de outros desafios como o de lidar com o tráfico de drogas, que seduz as juventudes – que veem aí a possibilidade de ascensão social e econômica – e com o alcoolismo que impacta mulheres e homens que perderam sua principal fonte de renda: a pesca.

“Procurarás a justiça, nada além da justiça” é a provocação que nos desafiou a irmos ao encontro da mencionada comunidade em São Félix.  Pois não nos cabe o direito de ficarmos calados e caladas. Juntamos, portanto, nossas vozes às vozes das crianças, jovens, mulheres e homens de São Félix para reivindicar:

  • Que o município de Muritiba pare de escoar seu esgoto no rio Paraguaçu;
  • Que o Ministério Público Estadual medeie ações de reparação e mitigação para com a comunidade;
  • Que o Grupo Votorantim, que administra a Usina Hidroelétrica de Pedra do Cavalo, dialogue com a comunidade, mediado pelo Ministério Público, a fim de iniciar um processo de reversão e reparação dos impactos provocados;
  • Revitalização do Rio Paraguaçu para que a pesca retorne e as manifestações do sagrado sobrevivam;
  • Que a administração municipal de Cachoeira cobre imediatamente da empresa Mastrotto Brasil a implementação de um sistema de tratamento dos dejetos para que estes não sejam lançados in natura no Rio Paraguaçu;

Sinais de justiça somente são perceptíveis se seres humanos, ecossistemas e as manifestações dos sagrados tiverem o direito à plena existência. Por isso, declaramos que toda a violação de direitos provocada pela absolutização do lucro é idolatria e viola a justiça da graça de Deus.

Salvador, 06 de junho de 2019.

 

  • As instituições e Igrejas que participaram da Assembleia da CESE 2019 e assinam essa carta, entrarão com uma representação junto ao Ministério Público Estadual (BA) solicitando providências sobre a situação da comunidade Bairro 135.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Declaração da Comunidade de Prática de Gênero de ACT Aliança sobre a iniciativa “Lei para a proteção da vida e da família” em Guatemala

 

 

 

Como organizações com base na fé (OBFs) e igrejas membros da Aliança ACT * na Guatemala e como Comunidade de Prática de Gênero da Aliança ACT na América Latina e Caribe **, nos pronunciamos face à problemática sobre a questão de gênero na América Latina, especificamente no avanço da iniciativa 5272 na Guatemala, que leva o nome de “Lei para a proteção da vida e da família”, promovido pelos deputados do Congresso da República, dos partidos políticos Viva e PAN, entre outros. Durante o mês de maio de 2019, a iniciativa de lei 5272 aguardava a realização do seu terceiro debate, que se fosse aprovado, aguardaria a aprovação de artigos e redação final para ser encaminhado ao executivo e tornar-se lei.

Como cristãs e cristãos, vemos com preocupação as ideias que sustentam esta iniciativa, pois, se aprovada como lei, representaria um grande retrocesso no progresso alcançado no exercício dos direitos das mulheres, crianças e comunidade LGBTI+ na Guatemala, devido à que:

  1. Limita a educação sexual e reprodutiva a qualquer instituição/organização pública e privada, ficando exclusivamente a cargo de pais e mães, de tutoras e tutores, que poderiam não ter as informações necessárias.
  2. Portanto, favoreceria o aumento anual de gravidez em meninas e adolescentes, que já é alto, e que são em grande parte resultantes de estupro. Ademais, a lei guatemalteca reconhece que todo ato sexual com uma criança menor de 14 anos é crime.
  3. Torna o acesso ao aborto terapêutico mais difícil, sem já tenha sido garantido um mecanismo de acesso ao mesmo e penaliza o aborto (involuntário) com penas de prisão, e com penas de prisão mais severas do que as já estabelecidas, o aborto voluntário.
  4. Limita legalmente o modelo de família ao nuclear, tornando invisíveis todos os modelos familiares existentes, como aqueles compostos de mães solteiras e filhas ou filhos, avós e avôs que criaram netas e netos, etc.
  5. Torna ainda mais vulnerável a garantia dos direitos da comunidade LGBTI +, já que atualmente na Guatemala a união de fato e o casamento igual carecem de reconhecimento legal. Com esta iniciativa de lei pretende-se proibir e rejeitá-la legalmente.

Reconhecemos os mandatos que governam e ordenam nossas sociedades para o livre exercício de nossas crenças religiosas, com o devido respeito à cidadania, aos fiéis de outras religiões, às nossas instituições e às autoridades que as representam. Nesse sentido, todo exercício legislativo deve ser realizado com o propósito do bem de toda a sociedade.

Como Comunidade de Prática de Gênero, juntamo-nos aos pronunciamentos de vozes internacionais e da sociedade guatemalteca e às vozes de cristãs e cristãos que expressam publicamente a sua rejeição à iniciativa 5272, reconhecendo que somos a favor do direito a uma vida digna e de qualidade para meninas e mulheres e todas as pessoas.

Pedimos à sociedade guatemalteca e especialmente aos cristãos que façam uma leitura crítica da situação atual e dos problemas na Guatemala, para que não se deixem influenciar pelas ações dos políticos que não geraram progresso no acesso à educação, saúde, nutrição e justiça; e não apoiar um retrocesso em termos de direitos humanos para os setores menos favorecidos da sociedade, como meninas, meninos, mulheres guatemaltecas e pessoas de diversidade sexual.

* ACT Aliança é uma coalizão internacional de 151 igrejas e organizações religiosas que trabalham juntas em resposta humanitária, trabalho de desenvolvimento e defesa de direitos em mais de 100 países. É a maior aliança de desenvolvimento humanitário protestante / ortodoxo do mundo e, juntos, os membros têm uma longa história de promoção da justiça social, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.

** Comunidade de Prática de Gênero de ACT Aliança na América Latina e no Caribe, é um grupo formado por especialistas em gênero e responsável por programas e projetos de organizações membros da Aliança ACT, que através da prática e reflexão sob uma perspectiva de gênero e fé foi proposta para incentivar a capacitação, a produção de conhecimento e a defesa de direitos para contribuir para a justiça de gênero, de acordo com nossos princípios cristãos e da Política de Gênero e a Estratégia Global e Regional da Aliança ACT.

Tradução: Marilia Schüller

 

Comunidades Tradicionais fazem manifestação contra mineradoras na região do baixo sul da Bahia

Por Camila Chagas

Em 05 de junho é celebrado o dia mundial do Meio Ambiente. Esta data foi estabelecida pela ONU, em 1972, na Convenção de Estocolmo, com o objetivo de promover atividades de proteção e preservação do Meio Ambiente e alertar sobre os perigos das ações e omissões do Estado e da Sociedade em face dos impactos ambientais.

Na tarde do dia 05, as comunidades de Barcelos do Sul, Pratigi, Matapera, Pedra Rasa, Ilha do Tanque, Cassange, Saquaira e Algodões  fizeram uma passeata na rodovia que liga a Comunidade de Barcelos do Sul à BA001, onde está localizada uma das filiais da Knauf.

A região da Costa do Dendê tem sido alvo de empresas mineradoras. Estas chegaram nas comunidades, sem realizar consulta, e começaram a executar atividades extrativistas. As comunidades de Barcelos do Sul e circunvizinhas estão preocupadas com os impactos ambientais da mineração e os seus reflexos na pesca, agricultura, turismo e nas riquezas naturais da Baía de Camamu.

Em 03 de abril de 2019, ocorreu o I Seminário sobre Mineração e Sustentabilidade das Comunidades Tradicionais. O evento reuniu mais de noventa pessoas e teve como objetivo ampliar o diálogo sobre as ações das empresas mineradoras.

A exploração de Gipsita em Barcelos do Sul

Segundo informações divulgadas pelos representantes da empresa Knauf, aos meios de comunicação, a Baía de Camamu abriga a maior jazida de gipsita do país e existe a estimativa de que seja três vezes maior do que a da bacia de Araripe, em Pernambuco, responsável pelo fornecimento de 95% da gipsita do Brasil.

A comunidade de Barcelos do Sul está preocupada e temerosa com os riscos e danos ambientais decorrentes da exploração da gipsita pela mineradora Knauf. Há relatos de que a exploração deste minério, que serve de matéria-prima para produção de gesso, será de 200 anos. A comunidade relata que não houve diálogo e temem, a exemplo dos crimes ambientais de Mariana e Brumadinho, que os danos sejam irreversíveis.

A extração de areia em Pratigi e Matapera

As comunidades de Pratigi e Matapera estão sofrendo fortes impactos ambientais em razão da extração de areia pelas empresas Alfa e Atual. Estas estão provocando a destruição dos areais, aterrando fontes e mangues, além de deixar a estrada para Cajaíba intransitável. Também foram relatados problemas respiratórios nas crianças, em razão da quantidade de areia em suspensão. Aumentou o tráfego de veículos pesados e, por consequência, o barulho e os riscos de atropelamento de estudantes durante o percurso de ida e vinda da escola. Estes problemas também estão sendo enfrentados pela Comunidade de Pedra Rasa.

As comunidades estão juntas em defesa do Meio Ambiente e de seus Territórios e nós estamos acompanhando!

Revisão: Solange Simonato