Texto para Ceseep – Curso de verão 2026
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Por Ana Gualberto
A Terra não é só chão.
É corpo, é ventre, é memória.
Ela respira.
Ela sente.
Ela guarda segredos antigos, sussurrados pelas folhas, pelas águas e pelos ventos.
Ali, onde o tambor bate e a fumaça sobe, nasce uma relação profunda entre o sagrado e a natureza — uma aliança que sustenta a vida e ensina cuidado.
No Candomblé, na Umbanda, no Batuque, no Culto aos Caboclos, no Jarê, em tantas outras raízes africanas fincadas no solo brasileiro, o mundo não é dividido entre o natural e o espiritual.
Tudo é Uno.
Tudo é Axé.
O rio não é só água — é Oxum, é orixá.
A pedra não é apenas mineral — é Xangô, força e justiça.
A folha não é só remédio — é Ossaim, é cura sagrada.
Desrespeitar a natureza é profanar o divino.
É romper uma teia antiga de equilíbrio e respeito.
Por isso, o cuidado com o meio ambiente não é moda, nem política: é fundamento de fé.
Cada oferenda/ebó é feita com intenção, cada coleta é precedida de licença e todo o respeito. Não se corta folha sem antes pedir, não se entra no mato sem se apresentar.
É o sagrado que ensina: a Terra não pertence a nós. Nós é que pertencemos a ela.
As comunidades de terreiros — muitas vezes escondidos atrás de muros simples ou barracões humildes — guardam florestas em miniatura, nascentes protegidas, árvores centenárias. São ilhas verdes em meio ao concreto, são pulmões onde o sagrado ainda se respira.
São espaços de resistência ecológica e também política — pois onde se cultiva o orixá, também se cultiva liberdade.
E numa época em que o mundo inteiro clama por respostas à crise climática, os povos de terreiro têm algo vital a dizer:
Não existe futuro sem respeito à ancestralidade.
Não há cura do planeta sem escutar quem sempre soube viver com ele — não contra ele.
Essa espiritualidade não nos ensina a dominar a natureza, mas a dançar com ela.
A caminhar com leveza, a agradecer pela sombra, a pedir permissão à água, a ouvir o som das folhas como quem ouve conselhos.
É na espiritualidade de matriz africana que a ecologia vira poesia.
E que o cuidado com o mundo vira culto, reza e ato de amor.
Espiritualidade de Matriz Africana e a Preservação Climática
Resumo
O presente texto aborda, de forma breve, a relação entre as religiões de matriz africana e a preservação ambiental, destacando os terreiros como espaços de resistência ecológica, espiritual e cultural. Com base em saberes tradicionais, os povos de terreiro oferecem formas de cuidado com o meio ambiente que integram espiritualidade, ética e sustentabilidade. Em um mundo marcado pela crise climática e pelo racismo ambiental, essas espiritualidades propõem uma reconexão com a Terra como entidade sagrada e viva. A reflexão parte de uma perspectiva decolonial e ecossistêmica, ancorada em autores afrocentrados e saberes ancestrais.
Palavras-chave: religiosidades afro-brasileiras; ecologia ancestral; justiça climática; espiritualidade; racismo ambiental; terreiros.
Refletindo e problematizando
A crise ambiental que assola o planeta é também uma crise espiritual, epistemológica e ética. O modelo de desenvolvimento dominante, centrado na exploração desenfreada da natureza, tem ignorado saberes ancestrais que há séculos sustentam formas de vida mais harmônicas com o ambiente. Entre esses saberes, destaca-se a espiritualidade de matriz africana, cuja cosmovisão reconhece a natureza como sagrada e viva. Como afirma Luiz Rufino (2018), trata-se de um pensamento da encruzilhada, onde o mundo físico, espiritual e simbólico se entrelaçam em movimento contínuo.
Nas religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, os elementos naturais não são meros recursos: são moradas divinas. Oxum habita os rios, Iemanjá o mar, Ossaim as folhas, Xangô as pedreiras, Oyá é dona dos ventos e tempestades. Essa forma de ver o mundo é radicalmente distinta da concepção ocidental de natureza como objeto, pois aqui “a folha tem dono, o rio tem espírito, a montanha tem axé” (Umbuzeiro, 2015, p. 48).
Segundo Renato Noguera (2021), a filosofia africana nos ensina que o ser está sempre em relação — e essa relação inclui o solo, os ciclos, os ventos, as águas. Cuidar da natureza, portanto, é manter o equilíbrio cosmológico e espiritual. A destruição de um rio, não é apenas um desastre ecológico: é uma ruptura com o sagrado, uma violência contra Oxum. Pensemos nos crimes das rupturas de barragens, nas florestas desmatadas, manguezais aterrados, nos derramamentos de óleos nos mares, entre outros: quantas divindades sofrem em agonia em cada espaço/território destruído pela ação humana?
“… apesar de tantos nãos, somos nós: a alegria da cidade…”
O Brasil é o país onde todo mundo pula ondas na virada de ano, e é o país que queima terreiros e agride pessoas nas ruas que estão com suas vestes sagradas. Essa é a dualidade com a qual, nós povo de terreiro, convivemos cotidianamente. A sociedade brasileira se apropria de elementos nossos, mas não nos reconhece como detentores de saberes e práticas que são importantes para toda a sociedade.
Durante a pandemia, foi recorrente que os espaços religiosos aparecessem na mídia como espaços de distribuição de alimentos e de cuidados. As igrejas apareceram em muito repostagens, mas essa prática de alimentar as pessoas, acolher e cuidar que faz parte de nosso cotidiano não foi noticiada e muito menos reconhecida. Espaço de matriz africana é espaço de cuidado para todas as pessoas.
Apesar das perseguições e do racismo religioso, os terreiros resistem como espaços vivos de preservação e regeneração. A tentativa de driblar o crescimento desenfreado nas zonas urbanas, faz com os terreiros mantenham a muito custo espaços verdes. Muitas vezes são os últimos refúgios de vegetação nativa, de árvores frutíferas, de nascentes protegidas em meio aos bairros. De acordo com Barros (2000), os terreiros funcionam como “territórios simbólicos e ecológicos”, onde o cuidado com a Terra se expressa tanto nos rituais quanto no cotidiano.
Trago um exemplo de um terreiro localizado na cidade de Salvador: Kwe Vodun Zo, ele é responsável por manter viva uma mancha verde dentro do Curuzu, área esta que é protegida pelo terreiro a duras penas.
Lidar com a tentativa de ocupação e de desmatamento dessas áreas é uma das lutas diárias da comunidade do Vondun Zo. Nos afirma Doté Amilton Sacramento Costa que o Vodun Zo perdeu muito espaço físico. Hoje busca-se preservar o que antes totalizava a antiga medida de 50 braças quadradas, ou aproximadamente 12.100 metros. Calcula-se que essa extensão foi mantida até a década de 1970, ou meados da anterior, segundo declarações de antigos moradores da vizinhança.

Vista de uma laje na Rua da Liberdade. A área verde corresponde ao fundo do kwe.
O Kwe Vodun Zo está localizado no bairro do Curuzu, espaço urbano marcado por grande densidade populacional (264.45 habitantes por hectare) e muito árido em função da quase inexistência de áreas verdes. Segundo dados do último Censo, em 2010 o Curuzu tinha uma população de aproximadamente 17.239 habitantes, densamente concentrados na Rua do Curuzu, em ruelas e baixadas adjacentes. A forte presença e também a projeção alcançada por instituições culturais que têm sede no bairro, com destaque para antigos terreiros e para o Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do Brasil, conferem ao lugar uma identidade própria, marcada pelos valores da negritude, levando o Ministério da Cultura em 2002 a lhe reconhecer como território nacional da cultura afro-brasileira.
Além disso, a organização comunitária dos terreiros sustenta práticas agroecológicas, educação ambiental informal, e acolhimento social. As folhas cultivadas nos quintais sagrados são utilizadas para banhos, curas, defumações e rituais — uma prática que carrega conhecimento ancestral sobre a biodiversidade e sua manipulação consciente (Umbuzeiro, 2015).
A invisibilização dos saberes afro-brasileiros no debate climático é reflexo do racismo ambiental que estrutura a sociedade brasileira. Comunidades tradicionais e povos de terreiro sofrem com a contaminação de seus rios sagrados, com o desmatamento de matas onde realizam seus cultos, e com o apagamento simbólico de seus modos de vida. Como observa Carlos Walter Porto-Gonçalves (2006), “não há justiça ambiental sem justiça social, nem justiça social sem justiça epistêmica”. Mesmo nosso país sendo signatário de diversas legislações que em teoria garantem direitos destas populações, destacamos aqui a Convenção 169 da OTI2 como marco dos direitos destes grupos, vivemos um processo de negação dos direitos destes grupos e ataque total aos seus territórios sagrados.
Nos centros urbanos, onde o avanço do concreto sufoca rios, árvores e nascentes, os terreiros preservam quintais vivos, hortas, jardins, e até mesmo nascentes de água. Muitas casas mantêm espécies nativas e folhas sagradas que seriam extintas sem esse cuidado ancestral. A manutenção do sagrado exige a manutenção da natureza.
Além disso, esses espaços funcionam como refúgios ambientais em bairros periféricos, muitas vezes assolados pela poluição, pela falta de arborização e pela ausência de áreas verdes. Os terreiros não apenas cuidam do meio ambiente: ensinam a comunidade a respeitá-lo, a partir de uma ética ancestral e espiritual.
Carlos Walter Porto-Gonçalves (2006) propõe que o território é mais que um espaço físico — é o lugar de construção de sentido. Nesse sentido, os terreiros são territórios onde a terra não é recurso, mas presença divina, lugar de memória e de resistência.
Reconhecer o valor das religiões de matriz africana é parte da justiça e da aplicação de nossa constituição que afirma os direitos das pessoas e dos grupos.
Apontamos aqui alguns dos desafios significativos que estas comunidades enfrentam nas cidades:
- Intolerância religiosa: ataques físicos e simbólicos aos terreiros e seus símbolos;
- Racismo ambiental: despejo de casas de axé por obras públicas ou desvalorização de suas práticas ecológicas;
- Falta de reconhecimento legal: poucos são registrados como espaços culturais, ecológicos ou religiosos protegidos;
- Especulação imobiliária: a expansão urbana ameaça diretamente a existência dos terreiros, sobretudo nas periferias.
O enfrentamento desses desafios exige uma política urbana que reconheça os terreiros como patrimônio ecológico, cultural e espiritual das cidades. Como aponta Sidnei Nogueira (2016), “os terreiros são também templos de um saber que cura, organiza, planta, transforma — e por isso, incomodam.”
Reconhecer o papel ambiental dos terreiros é ampliar o próprio conceito de cidade. É admitir que há formas não-hegemônicas de produzir vida urbana, conectadas ao chão, às folhas, aos encantados. É, enfim, aceitar que existe floresta e espiritualidade resistindo sob o asfalto.
Terreiros nos Ensinam a Cuidar da Terra
As comunidades de terreiros nos convidam a viver a ecologia como prática espiritual e relacional.
Seguem alguns ensinamentos que emergem desses espaços:
🌿 A natureza como ser sagrado
Nos terreiros, aprende-se que a natureza não está à disposição humana. Ela é parente, é orixá, é espírito. Como diz Sidnei Nogueira (2016), “não há culto que se sustente sem a folha, sem a água, sem a pedra — pois sem natureza não há sagrado”.
🥣 Uso consciente dos recursos
Antes de colher, pede-se licença. Antes de ofertar, agradece-se. Isso ensina uma ética do limite e da reciprocidade, que contrasta com o extrativismo desenfreado do sistema atual.
🌱 Preservação da biodiversidade
Terreiros são verdadeiros viveiros de espécies nativas e medicinais. São bancos vivos de conhecimento botânico popular e espiritual.
🏡 Refúgios ecológicos urbanos
Em muitas comunidades periféricas, o terreiro é o único espaço verde existente. Ali se planta, se colhe, se cuida da terra como se cuida de um orixá.
📚 Educação intergeracional e oral
A transmissão do saber ecológico se dá na prática: ao varrer o chão, preparar o banho, colher a folha. É uma pedagogia do corpo, da escuta, da presença (Rufino, 2018).
🛡️ Resistência ao racismo ambiental
Ao lutar por seus territórios e preservar seus rituais, os povos de terreiro enfrentam não apenas a destruição ecológica, mas também o silenciamento de suas epistemologias. Destaco alguns pontos pare refletirmos:
- O Corpo como Lugar do Sagrado
Nas religiões de matriz africana, o corpo não é separado do sagrado — ele é veículo, altar e expressão do divino. Isso se manifesta:
- Na dança e no transe: A movimentação corporal durante os rituais não é apenas performance, mas meio de incorporação das divindades (Orixás, Inquices, Voduns), revelando que o corpo é sagrado.
- Na iniciação (rito de passagem): Transformações rituais envolvem o corpo de forma direta (raspagem do cabelo, banhos, tatuagens espirituais, vestimentas), marcando a aliança entre corpo e espiritualidade.
- Na oralidade e no canto: A fala, o canto e o som do atabaque também atravessam o corpo como forma de memória viva.
Essa abordagem é contrária à tradição judaico-cristã ocidental, que frequentemente separa o corpo do espírito.
- Território como Extensão do Axé
Nas religiões de matriz africana não entendemos o território apenas como espaço físico, mas como território ancestral e espiritual, carregado de axé (força vital). Exemplos:
- O terreiro é território sagrado: É o espaço onde o axé se concentra, onde se cultiva a ancestralidade, onde a terra é cuidada, e onde a natureza é respeitada como manifestação do divino.
- A natureza é divinizada: Rios, florestas, pedras, montanhas, ventos, mar — todos são moradas dos Orixás. Isso reconecta o humano à terra não como recurso, mas como relação.
- O território da diáspora: Mesmo fora do território africano, os praticantes recriam espaços de sacralidade, memória e pertencimento. O território torna-se resistência simbólica e concreta à diáspora forçada.
- O Sagrado como Experiência Ancestral e Coletiva
- O sagrado não é separado da vida cotidiana: Está presente ao acordar, na comida ritual, nas ervas medicinais, nas festas, em todos os ciclos da vida.
- Ancestralidade é central: Cultuar os antepassados é manter viva uma rede de sabedoria que sustenta a existência. Isso reconecta os vivos com os mortos, com a linhagem, com a história coletiva que a colonização tentou apagar.
- Coletividade e comunidade: O sagrado se realiza no encontro, na partilha, no toque, no cuidado mútuo. É um modo de viver a espiritualidade em comunidade, não apenas como experiência individual.
- Reconexão como Resistência
Reconectar corpo, território e sagrado a partir dessas tradições também é uma forma de resistência anticolonial:
- Recupera epistemologias negras e africanas.
- Questiona o apagamento promovido pelo racismo religioso.
- Restaura o valor do que foi historicamente marginalizado: os corpos negros, a terra afrocentrada, os saberes não ocidentais.
- Práticas que Fortalecem Essa Reconexão
- Participação em rituais e festas dos Orixás.
- Aprendizado com mais velhos e lideranças religiosas (yalorixás, babalorixás).
- Cozinha ancestral e cultivo de ervas sagradas.
- Caminhadas e rituais na natureza.
- Cuidado com o corpo como extensão do templo espiritual.
- Reivindicação do território como espaço de memória e cultura negra.
Considerações Finais
Num planeta marcado pela devastação, os terreiros apontam para outra forma de estar no mundo: enraizada, ética e sagrada. Suas práticas cotidianas revelam que ecologia não é apenas uma ciência ambiental, mas uma ciência da vida. Como ensinam os mais velhos do axé: cuidar da folha é cuidar da cabeça, e cuidar da Terra é cuidar do sagrado.
A ecologia ancestral das religiões afro-brasileiras pode e deve ocupar lugar de centralidade nos debates sobre preservação climática, especialmente em contextos latino-americanos. Valorizar essas vozes é reequilibrar não apenas a natureza, mas também as narrativas. E, talvez, reencontrar caminhos de cura.
Referências Bibliográficas
- BARROS, José Flávio Pessoa de. Candomblé: religião do corpo e da alma. São Paulo: Pallas, 2000.
- GONÇALVES, Carlos Walter Porto. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
- NOGUEIRA, Sidnei. O que é intolerância religiosa? São Paulo: Brasiliense, 2016.
- NOGUERA, Renato. Filosofia africana: modos de viver, modos de pensar. Petrópolis: Vozes, 2021.
- RUFINO, Luiz. Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem: uma introdução ao pensamento das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula, 2018.
- UMBUZEIRO, Egbomi Mirian. O Sagrado Verde: a natureza no Candomblé. Salvador: EDUFBA, 2015.
Seguem indicações de leitura com comentários. É importante ler, mas o mais importante ainda é se permitir conhecer através de pessoas religiosas. Religião de matriz africana se aprende vivendo, deixando-se envolver por essa cosmo-percepção, permitindo afetar-se.
Essa é a chave!
📚 Autores e Obras Essenciais
🌿 1. Corpo como lugar do sagrado e da memória
🔸 Leda Maria Martins – Afrografias da Memória
- Ideia central: O corpo é um “suporte da memória”. Nos rituais afro-brasileiros, ele performa o tempo, a ancestralidade e o sagrado.
- Conceito importante: Tempo espiralar, uma lógica cíclica onde passado, presente e futuro se sobrepõem no corpo que dança, canta e incorpora.
- Trecho:
“A corporeidade negra é um palimpsesto, onde estão inscritos saberes, ritmos e cosmologias africanas transladadas pela diáspora.”
🔸 Sueli Carneiro – Escritos de uma Vida
- Ideia central: O corpo negro feminino é politizado, espiritualizado e criminalizado. A reconexão com a ancestralidade cura o epistemicídio.
- Trecho:
“Ser negra é descobrir que o corpo é campo de disputa, mas também de reinvenção e poder ancestral.”
🔸 Mãe Stella de Oxóssi – Meu Tempo é Agora
- Ideia central: O corpo é extensão do axé. O cuidado com o corpo é cuidado com o sagrado — não há separação entre espiritualidade e vida cotidiana.
- Trecho:
“O corpo que dança para o Orixá é também o corpo que planta, cozinha, cuida e reza. Tudo é sagrado quando feito com axé.”
🏞️ 2. Território como espaço de axé, memória e resistência
🔸 Beatriz Nascimento – textos reunidos em O Negro e o Poder
- Ideia central: O quilombo é mais que um espaço físico — é um conceito filosófico, um território de liberdade espiritual e ancestral.
- Trecho:
“O território negro é corpo e memória. É o lugar onde o sagrado pode existir sem ser caçado.”
🔸 Rodney William – As Religiões Afro-Brasileiras e a Cultura Nacional
- Ideia central: Os terreiros são territórios culturais e espirituais que sobrevivem apesar da violência religiosa e estatal.
- Trecho:
“O território do axé é insurgente. Ele desafia o modelo ocidental de templo ao invadir a cidade com cheiro de erva, toque de tambor e canto ancestral.”
🔸 Luis Rufino – Pedagogia das Encruzilhadas
- Ideia central: A encruzilhada é território simbólico de aprendizado, mistura e liberdade. Exu ensina a caminhar no mundo.
- Trecho:
“A encruzilhada é uma escola. Não se passa por ela impunemente: aprende-se com o vento, com a pedra, com o silêncio.”
🌀 3. O sagrado como vivência ancestral, coletiva e encarnada
🔸 Mãe Stella de Oxóssi – Òsósi – O Caçador de Alegrias
- Ideia central: O sagrado é vivido no cotidiano: no preparo dos alimentos, no cuidado com a natureza, na relação com os Orixás.
- Trecho:
“Não existe religião africana sem natureza. O Orixá nasce na folha, canta no vento, dança no fogo.”
🔸 Cida Bento – O Pacto da Branquitude
- Ideia central: Denuncia o apagamento do sagrado negro nas estruturas de poder, mas propõe a recuperação dos saberes e espiritualidades negras como cura coletiva.
- Contribuição importante: Resgatar o sagrado negro é um ato político, pedagógico e reparador.
🔸 Grada Kilomba – Memórias da Plantação
- Ideia central: O trauma do colonialismo também é espiritual. A escrita e a arte são formas de ritualizar o sagrado em corpos deslocados.
- Trecho:
“Falar é um ato político. Escrever é um ritual. Contar a história é um retorno para casa.”
🌀 Outros nomes e referências valiosas
- Mãe Meninazinha de Oxum – Referência viva na preservação e transmissão da tradição afro-religiosa.
- Luis Rufino – Autor de Pedagogia das Encruzilhadas.
- Grada Kilomba – Escritora e artista que fala sobre memória, corpo negro e espiritualidade (embora com foco europeu).
- Muniz Sodré – Pensador da comunicação, traz uma visão afrocentrada de corpo, cultura e saber.
