A estupidez não é apenas uma pobreza do pensamento. Não se limita à incapacidade intelectual. Envolve coisa pior: incorpora o ódio. Carrega em seu seio uma aversão à inteligência, uma ojeriza à cultura.
O imbecil furioso se sente incomodado por tudo que chama à reflexão. Detesta a ciência, tem repugnância pela arte. Odeia a beleza que é incapaz de fruir. Como nada consegue criar, consagra-se à destruição. O cultivo da memória social aborrece o homem castrado pela estupidez. Ele abraça, portanto, o programa neofascista, que requer a mutilação da história. O vandalismo é sua única competência.
É gente desse naipe que sonha com a ruína do patrimônio criado pela sabedoria do povo ao longo de gerações. Agora temos um exemplo sinistro da tara obscurantista. Refiro-me ao mesquinho Projeto de Lei n° 1007 de 2026, proposto pelo Capitão Augusto, Deputado Federal PL-SP, que dispõe sobre a extinção do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
O deputado usa o argumento da economia para justificar uma medida que, se aprovada, resultará fatalmente num desastre econômico, no abandono de uma riqueza considerável. Quer que se desfaça um Instituto que desenvolveu, ao longo dos anos, uma perícia reconhecida em todo o mundo em matéria de preservação de bens culturais.
A importância do IPHAN só pode ser minimizada por quem sofre da mais aguda e bronca ignorância, por quem desconhece o valor da obra de grandes brasileiros como Mário de Andrade, Rodrigo de Melo Franco e Aloysio Magalhães, para citar apenas três ilustres dirigentes dessa instituição.
O IPHAN precisa, isto sim, de ser fortalecido, ter um orçamento condigno, à altura da enorme tarefa que lhe cabe, pois suas limitações derivam da carência de recursos. Ele ainda sofre, também, as sequelas da depauperação a que o submeteu um governo fascista. Quem tem respeito pelo Brasil, por sua história e sua cultura, só pode desejar o fortalecimento do IPHAN.
Sobre o autor

Ordep Serra é antropólogo, escritor e professor brasileiro, com trajetória destacada na preservação e valorização do patrimônio cultural, especialmente das tradições afro-brasileiras. Doutor em Antropologia pela USP e professor aposentado da UFBA, foi um dos fundadores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da instituição.
Atuou em cargos relevantes na gestão cultural, como Diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e Presidente da Fundação Cultural do Estado. Autor de diversos livros e artigos, transita entre a antropologia, a literatura e os estudos clássicos, tendo traduzido importantes obras da tradição grega para o português.
Associado fundador de KOINONIA, mantém forte atuação intelectual e política em defesa da cultura, da memória social e dos direitos de povos e comunidades tradicionais.
