O artigo reflete sobre democracia a partir da experiência de uma mulher quilombola, conectando maternidade, território e participação política. O texto denuncia desigualdades estruturais e reafirma a urgência de ampliar vozes negras e quilombolas nos espaços de poder.
Por Pedrina Belém do RosárioSou uma mulher negra, quilombola, filha de uma linhagem que não começou
comigo – começou muito antes, nos passos firmes daqueles que resistiram para
que hoje eu pudesse viver, falar e ocupar espaços. Levo comigo o território, a
memória e a responsabilidade de não esquecer de onde vim. Hoje, carrego
também uma nova vida em meu ventre. Talvez por isso – ou também por isso –
nunca tenha sido tão urgente, tão pessoal e tão político refletir sobre o
processo eleitoral. Falo a partir de uma perspectiva coletiva. Como liderança
comunitária e articuladora social aprendi que nenhuma conquista é individual.
Tudo o que construímos repousa nas mãos, vozes e sonhos de muitas
pessoas, especialmente de mulheres negras que sustentam seus territórios
mesmo diante da ausência do Estado.

O processo eleitoral no Brasil costuma ser apresentado como um dos principais
instrumentos da democracia. No entanto, quando observado a partir dos
territórios quilombolas e da experiência de mulheres negras, ele revela
contradições profundas. Para nós, não se trata apenas de votar – trata-se de
existir politicamente em um sistema que historicamente nos exclui. A política,
em nossos territórios não acontece apenas nas instituições. Ela se manifesta
no cotidiano da luta por direitos básicos: acesso à água, saúde, educação,
saneamento e permanência no território. Antes mesmo da urna, já estamos
fazendo política – organizando, resistindo e construindo caminhos coletivos.
Durante o período eleitoral, esse cenário se intensifica. O que para muitos é
apenas o exercício do voto, para nós é também um momento de tensão,
expectativa e reafirmação da nossa existência política. Não é possível dissociar
o debate eleitoral das condições concretas de vida das comunidades
quilombolas, onde direitos fundamentais ainda são tratados como promessas.
Ser mulher negra, quilombola e mãe é compreender que votar não é apenas
um direito – é uma ferramenta de luta pela existência. Mas também é
questionar: como confiar plenamente em um processo que historicamente nos
invisibiliza? Em que nossos problemas raramente são prioridade? Em que
ainda somos vistas mais como objetos de políticas públicas do que como
sujeitos políticos?
Ainda assim, não desistimos. Porque desistir nunca foi uma opção para quem
vem de onde viemos. Nossa expectativa em relação ao processo eleitoral é por
mais escuta, compromisso e verdade. Não queremos discursos que aparecem
a cada quatro anos, mas políticas construídas conosco, a partir de nossas
realidades, que respeitem nossos modos de vida e nossos saberes. Também
defendemos a ampliação da presença de mulheres negras e quilombolas nos
espaços de poder – não como símbolos, mas com autonomia, voz ativa e
condições reais de transformação. Porque quando uma de nós ocupa esses
espaços, ela não chega sozinha: ela carrega consigo uma comunidade inteira.
Não romantizo esse caminho. Conheço de perto a violência política, o racismo
estrutural e o machismo que atravessam nossas vidas. Sei o quanto é difícil
disputar espaços em um sistema historicamente excludente. Ainda assim,
seguimos. Os dados recentes revelam um cenário de profundas desigualdades.
Informações divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral indicam que, embora
tenha havido crescimento nas candidaturas femininas e de pessoas negras, a
sub-representação nos espaços de poder ainda permanece significativa.
No caso das comunidades quilombolas, a invisibilidade política assume
contornos ainda mais complexos. Mesmo com avanços recentes na
identificação dessas candidaturas, esse reconhecimento ainda não se traduz,
na mesma proporção, em ocupação efetiva dos espaços institucionais.
Além disso, segundo o Observatório Nacional da Mulher na Política, vinculado
à Câmara dos Deputados, em mais de 700 municípios brasileiros a cota
mínima de 30% de candidaturas femininas não foi cumprida nas eleições de
2024. Isso evidencia que, mesmo quando existem leis, sua implementação
ainda é frágil – e quem mais sofre com isso são mulheres negras, periféricas e
quilombolas.
Essas desigualdades refletem um país marcado pelo racismo estrutural e pelas
desigualdades de gênero. Como aponta o Ministério das Mulheres no Relatório
Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2025), mulheres negras seguem
enfrentando condições mais precárias de acesso a direitos fundamentais, como
saúde, renda e proteção social – o que impacta diretamente sua participação
política.
É nesse contexto que as reflexões de Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Beatriz
Nascimento seguem atuais e urgentes. Essas pensadoras nos ensinaram que
não há democracia real sem justiça racial e que os quilombos sempre foram – e
continuam sendo – espaços de construção de autonomia política.
Enquanto liderança comunitária, carrego a responsabilidade de dialogar com
essas contradições junto à minha comunidade. O período eleitoral traz
expectativas, mas também desconfiança. Muitas vezes, somos lembradas
apenas como eleitorado, e não como sujeitos políticos capazes de propor,
decidir e governar.
Ser mãe, nesse cenário, amplia ainda mais essa reflexão. O voto se torna
também um gesto de cuidado com o futuro. Cada escolha política impacta
diretamente a vida das nossas crianças – desde a escola que frequentam até a
garantia de permanência no território. Ao mesmo tempo, é importante
reconhecer que estamos em movimento. O crescimento, ainda que gradual, da
participação de mulheres negras e a maior visibilidade das candidaturas
quilombolas apontam para transformações em curso – fruto da organização
histórica dos movimentos de mulheres negras e quilombolas no Brasil.
Minhas expectativas em relação ao processo eleitoral estão ancoradas nessa
consciência. Não espero respostas imediatas de um sistema que sempre nos
negou direitos. Mas acredito na força da nossa organização coletiva e na
necessidade de disputar esses espaços sem abrir mão da nossa forma própria
de fazer política – uma política que nasce do território, da ancestralidade e da
vida em comunidade.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Câmara dos Deputados. Observatório Nacional da Mulher na Política.
Cota de gênero é descumprida em mais de 700 municípios brasileiros nas
eleições 2024.
BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. TSE divulga percentual de candidaturas
femininas e de pessoas negras por partido político. 2024.
BRASIL. Ministério das Mulheres. Relatório Anual Socioeconômico da Mulher
(RASEAM 2025).
GONZALEZ, Lélia Gonzalez. Por um feminismo afro-latino-americano.
CARNEIRO, Sueli Carneiro. Enegrecer o feminismo.
NASCIMENTO, Beatriz Nascimento. O conceito de quilombo e a resistência
cultural negra.

Pedrina Belém do Rosário é uma mulher negra quilombola, nascida e criada no território do Jatimane, onde constrói sua trajetória de luta, cuidado e articulação comunitária. É graduada em Relações Internacionais pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, com atuação voltada para direitos humanos, povos tradicionais e justiça racial. Atualmente, é Coordenadora de Mulheres da Associação Comunitária do Jatimane – (ACJ), onde fortalece o protagonismo feminino, a organização coletiva e a valorização dos saberes ancestrais. Também atua como condutora de visitantes no território, contribuindo com iniciativas de turismo de base comunitária e troca de saberes. Inicia sua trajetória no mestrado em Estudos Africanos pela Universidade do Estado da Bahia, aprofundando reflexões sobre identidade, território e diplomacia quilombola. Mulher, mãe e liderança, Pedrina segue gerando vida em múltiplos sentidos no cuidado com sua comunidade e na gestação de uma nova vida, extensão do seu existir no mundo.

