Ato na Avenida Paulista marca Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa em São Paulo

FOTO: Natália Blanco
FOTO: Natália Blanco

No último sábado (21), movimentos sociais e culturais, além de grupos de diferentes credos, se reuniram no vão livre do Museu de Artes de São Paulo (MASP) para protestar contra a intolerância religiosa, problema que assola, sobretudo, as religiões de matrizes africanas. KOINONIA também esteve presente.

FOTO: Natália Blanco
FOTO: Natália Blanco

Pessoas que passavam por ali no momento acabaram parando e aderindo ao movimento. Apesar de a chuva ter impossibilitado a caminhada pela Avenida Paulista, os diferentes segmentos puderam compartilhar de momentos de celebração e falas. Todos enfatizaram a importância da sociedade se levantar contra o racismo que está por trás da discriminação e a necessidade urgente da existência de um Estado laico, de fato no Brasil.

Rio de Janeiro tem ato contra intolerância

IMG_2051Depois de um ano marcado pela ascensão definitiva da intolerância religiosa no debate público nacional, em parte pelo aprofundamento das violências, representantes de várias tradições de fé se reuniram no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, na última quinta (19), para mais uma vez reafirmar a importância da liberdade de crença e de um Estado efetivamente laico. Cerca de 150 pessoas estiveram no evento para dizer “basta”.

Segundo o babalawô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), o prefeito Marcelo Crivela foi convidado a participar, mas não apareceu. Durante a campanha Crivela foi um dos candidatos que assinaram a “Carta Compromisso com os Direitos Humanos Contra a Violência, Racismo e Intolerância Religiosa”, com diretrizes para a promoção do respeito à diversidade e às garantia individuais e coletivas.

Representando o Ministério Público estadual, Eliane de Lima Pereira, assessora de direitos humanos e minorias, falou de como o órgão passa a encarar a questão da intolerância. “Minha presença aqui é antes de tudo uma manifestação de apoio e a expressão de que o MP estadual elege a defesa da liberdade religiosa como prioridade, porque entendemos que a diversidade é fundamental para o regime democrático”, destacou.

O xeque Rodrigo Jalloul, primeiro brasileiro nato a ser oficialmente reconhecido como clérigo xiita, lembrou que apesar de um direito universal, a escolha de que religião seguir ainda é, na prática, um privilégio em muitos lugares do mundo. “A oração é a base de minha religião e ela não me convida a pregar o ódio. Também não vejo diferença na essência das muitas religiões. O Brasil é um dos poucos países em que podemos professar nossa fé e isso é importante porque, em seguindo uma religião – seja ela qual for -, pelo sentido básico delas, não tem como sermos levados a atos de intolerância”, concluiu.

Na oportunidade também foi lançado o livro bilingue “Intolerância Religiosa no Brasil”, que traz dados e análises de especialistas sobre o problema, além de contribuições para seu enfrentamento. De acordo com a pastora luterana Lusmarina Garcia a publicação é mais um instrumento que ajuda a compreender a necessidade de um compromisso profundo tanto do Estado quanto da sociedade com a superação da intolerância. “De nossa parte, nessa caminhada temos mostrado que é possível, cada qual em sua religião, descobrir no outro, no diferente, um parceiro e uma parceira de vida. Esse movimento é em si um grande exemplo de como se produz uma quebra no ciclo de intolerância”.

 

A intolerância religiosa cresce. Mas o que acontece depois das denúncias?

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Menina Kailane, vítima de uma pedrada em 2015. FOTO: O GLOBO

Com aumento de mais de 3.700% nos últimos cinco anos, a intolerância religiosa é mais um dos fenômenos a desafiar a imagem cristalizada de um Brasil avesso a conflitos. Em 2011, quando o Disque 100, da hoje Secretaria Especial de Direitos Humanos, começou a registrar esse tipo de violação, foram apenas 15 denúncias. Comparando com o momento atual, somente entre janeiro e setembro de 2016, foram 300. No ano anterior, os casos ficaram em 556.

Num país de mais de 200 milhões de habitantes, a impressão é de que os números são pequenos. Mas infelizmente não é bem assim. Uma das explicações para o fato desse problema que tanto mobiliza a sociedade – a ponto de ter sido tema da redação do Enem, feito por mais de 8 milhões de estudantes – traduzir-se numa quantidade tão baixa de denúncias é a subnotificação.

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Capa da Folha Universal que estampava a imagem de Mãe Gilda. Caso acabou dando origem ao Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

A Iyalorixá baiana Jaciara dos Santos conta que, por falta de órgãos públicos atentos à questão, os casos são registrados oficialmente como tudo menos crimes de ódio motivados pela fé. “Você sai com as roupas de santo e é insultada no ônibus, na rua, em qualquer lugar. Se resolve denunciar, na falta de uma delegacia especializada, o policial de plantão, sem preparo, acha que aquilo é briga de vizinho”, diz.

A Iyalorixá sabe bem do que fala. Ela teve a história definitivamente marcada pela intolerância, quando no ano de 2000, sua mãe biológica, a Mãe Gilda, então líder do terreiro Axé Abassá de Ogum, infartou após uma série de atos de violência contra ela e seus filhos de santo. As agressões foram desencadeadas pela publicação de uma foto da religiosa na primeira página do jornal Folha Universal, da igreja homônima, sob a chamada “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de Janeiro, é uma homenagem à Iyalorixá.

A vitória na justiça na ação movida por KOINONIA e a celebridade do caso não foram suficientes para que a perseguição cessasse. Ano passado o busto erguido em memória de Mãe Gilda, no bairro de Itapuã, Salvador, foi destruído. “Nada se descobriu sobre quem fez isso. As câmeras mostraram que estavam com rosto coberto. Ninguém que quebra uma estátua por simples vandalismo vai se preocupar em preservar a identidade”, ressalta Jaciara, certa da motivação religiosa do ataque. O monumento foi restaurado em novembro passado.

Em outro caso famoso, o da menina Kailane, alvo de uma pedrada em junho de 2015, também não se conseguiu chegar aos autores do crime. Embora a família tenha recebido apoio do poder público, como destaca a avó da adolescente, Kátia Marinho, as imagens das câmeras de segurança de um ônibus, que poderiam identificar os responsáveis foram misteriosamente apagadas. Os vídeos foram recuperados em um procedimento técnico feito em Brasília. O tempo perdido acabou dificultando o reconhecimento dos prováveis autores da tentativa de homicídio contra a menina (a pedra pesava quase 3kg).

Atualmente, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) só existe em São Paulo, onde foi inaugurada em 2006. No Rio, apesar de aprovada desde 2011 pela Assembléia Legislativa, a especializada nunca chegou a ser implementada. Entre 2011 e 2015, o estado foi o recordista de denúncias, segundo o Disque 100. A Bahia, embora possua a política pública considerada mais avançada a respeito do tema no Brasil, o Estatuto da Igualdade Racial e Combate à Intolerância Religiosa, também não tem uma Decradi.

Outra questão preocupante além das agressões diretas é a resistência por parte do sistema de ensino à aplicação da lei 10.639, que desde 2003 determina sobre o ensino da história e cultura afro-brasileiras. Segundo Patrícia Tolmasquim, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), a dificuldade é um ingrediente importante para a reprodução da intolerância (lembrando ainda que os professores ocupam o 4º lugar na lista dos tipos de agressores intolerantes mais frequentes). “Ninguém identifica aquilo que não conhece e isso vai contribuindo para a naturalização da violência”, afirma.

O interlocutor da CCIR, babalawô Ivanir dos Santos, observa que, no momento, têm sido cada vez mais raras as oportunidades de diálogo entre a sociedade civil e o poder público para criação de políticas, leis e mecanismos de garantia da liberdade religiosa no país. Para o religioso, as razões da impermeabilidade dos gestores do Estado a estas demandas são claras. “Temos dificuldade de conseguir respostas concretas para casos de intolerância porque setores representativos dos que, em geral, são os violadores fazem parte das composições políticas nos níveis estadual, municipal e federal”, avalia.

De acordo com Ivanir, a estratégia da CCIR será pressionar o poder público a partir de denúncias feitas a organismos internacionais de direitos humanos. “Vamos começar a difundir a expandir o debate para além das fronteiras nacionais, tentando provocar reações mais contundentes do Estado brasileiro. Foi assim na época da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com o governo cedendo a pressões que vinham de fora”.

A CCIR lança nesta quinta (19), celebrando o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, um relatório bilíngue, que reúne números sobre o fenômeno no Brasil. A publicação traz ainda um roteiro de ações para a construção de um plano nacional de combate a intolerância religiosa. O lançamento acontece às 19h, no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Celebração pela liberdade de fé no vão livre do Masp, em São Paulo

arte divulgação - dia combate intolerancia religiosa (1)No próximo sábado (21), o espaço que tem dado lugar a manifestações que, de certa forma, resumem grandes tensões da sociedade brasileira, terá um ato para lembrar mais uma questão urgente: a necessidade de superação da intolerância religiosa. A celebração no vão Livre do Museu de Artes de São Paulo (MASP) começa às 15h. De lá os presentes sairão em marcha contra a violência que tem atingido principalmente os cultos de matriz africana.

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa surgiu em 2007, instituído pela Lei nº 11.635, de 27 de dezembro do mesmo ano. A data rememora o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum, em Salvador (BA), vítima de um enfarto, no dia 21 de janeiro, após tomar conhecimento de uma foto sua publicada na Folha Universal, sob a acusação de charlatanismo. Sua casa foi atacada e pessoas da comunidade agredidas. 

Lembra deles? “Gladiadores do Altar” da Igreja Universal serão investigados

GuardiõesEm nome dos advogados Hédio Silva Jr, Antonio Basílio Filho, Jáder Freire de Macedo Júnior e Andreia Letícia Carvalho Guimarães, o pedido de instauração de inquérito, datando do último dia 10, foi motivado por um texto publicado numa página do Facebook de nome “Gladiadores do Altar”. A publicação diz o seguinte: “(…)Destruiremos cada religião enganosa até que desapareça do nosso país! Essas religiões pagãs e de origens africana e asiática ou muçulmana não serão toleradas em nosso país! Nem o Homossexualismo! Faremos o trabalho que o governo não teve competência pra fazer! Junte-se a nós!”. A informação é do blog Umbanda EAD, que também disponibilizou uma cópia do requerimento enviado à Decradi de São Paulo.

Gladiadores 2O inquérito deve apurar a responsabilidade por crimes como propaganda de perseguição religiosa e prática, indução ou incitação a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Ambos os delitos têm pena de 1 a 4 anos de prisão. O documento que solicita a instauração do inquérito se refere aos “gladiadores” como grupo paramilitar e descreve o objetivo da mensagem como sendo o de “arregimentar pessoas com o propósito de ‘limpar’, destruir, fazer desaparecer, eliminar fieis das Religiões Afro-brasileiras, muçulmanos e homossexuais”.  

Espera-se que os autores da postagem sejam encontrados por meio de colaboração da Delegacia de Crimes Eletrônicos com a Decradi, identificando o dispositivo que divulgou e o horário de publicação da mensagem. Hoje (16), a página que teria postado o texto não foi mais encontrada no Facebook.

Relembre

Os “Gladiadores do Altar” ficaram conhecidos no início de 2015, quando vídeos do grupo foram difundidos na internet. O que a Igreja Universal define como “projeto”, é dedicado a formação de jovens que no futuro vão colaborar como pastores. Os participantes chamaram atenção por se apresentarem uniformizados encenando – com palavras de ordem, continência e formação – movimentos característicos da disciplina militar.

Na época, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) se disse chocado após assistir aos vídeos do grupo. Para ele, aquilo se tratava de uma manifestação de “fundamentalismo cristão”, que oferecia ameaça às liberdades individuais, a diversidade sexual e as manifestações culturais laicas. A Igreja Universal, por sua vez, se posicionou em nota dizendo que o comentário do parlamentar foi injurioso e que ele estava pouco informado sobre a iniciativa.

Quase dois anos depois, os “gladiadores” devem voltar ao centro do debate sobre intolerância, dessa vez, após uma mensagem que declara abertamente o ódio a adeptos de religiões não cristãs e aos homossexuais.  

Direitos de transexuais e travestis na educação popular

31832015760_672644178b_oNo último dia 8, KOINONIA esteve presente na 30ª edição do Curso de Verão, promovido pelo Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Ceseep). A formação é resultado de um programa de educação popular, de caráter ecumênico e inter-religioso, feito em mutirão por famílias, comunidades, movimentos populares e instituições da  sociedade civil.

Os encontros acontecem anualmente, sempre em janeiro, e desta vez começou no dia 6, na PUC-SP. A proposta é, nas diversas oficinas, estabelecer espaços de partilha de experiências, aprofundamento e revisão de práticas. Tudo com metodologia participativa. Ao final do curso, os inscritos receberam certificado de extensão universitária, outorgado pela PUC-SP e reconhecido pelo MEC.

31365728714_454e81784b_oRepresentada por sua assessora Ester Lisboa, KOINONIA ficou responsável por apresentar o tema “Transbordando cidadania” e o programa Transcidadania, desenvolvido em parceria com a prefeitura de São Paulo e voltado para a garantia dos direitos de transexuais e travestis. Ester destacou a importância de encarar a população T em sua condição de sujeitos políticos. “Atitudes de escuta e de solidariedade são necessárias, para que seja presente a justiça e o pleno direito”, enfatizou.

Neste sentido, a assessora de KOINONIA fez questão de sublinhar o papel inegociável dos direitos no respeito à dignidade humana de grupos vulneráveis, sobretudo, em uma sociedade em que transexuais e travestis são excluídos, exterminados e abandonos à própria sorte.

“Esses direitos têm sido conquistados por meio das lutas sociais. A universalidade dos Direitos Humanos deve estar acima de qualquer quadro de discriminação. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”, completou Ester.

 

Jovens vestem branco contra a intolerância religiosa

15994957_1158258364228156_3912410999800524614_oDe 19 a 21 de janeiro (Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa), jovens de todo o Brasil vão se mobilizar para pedir o fim da discriminação baseada na crença. É a campanha “Eu visto branco pela liberdade de fé”, encabeçada pela Rede Ecumênica da Juventude (REJU). A iniciativa propõe que pessoas de todas as tradições religiosas postem em seus perfis de redes sociais, principalmente, vídeos e imagens contendo mensagens que destaquem a importância do respeito à diferença e de um Estado laico pra valer.

A página do evento no Facebook, além de propor formas de engajamento – sempre usando a tag #VISTOBRANCO -, disponibiliza materiais de campanha como arte de postagem e imagem que pode ser adicionada à foto de capa.

15975206_1158252324228760_3171813557465021646_oPara Jonathan Félix, Facilitador Nacional da REJU, embora a intolerância venha crescendo e gerando conseqüências cada vez mais graves, ainda é preciso bater na tecla de que ela existe e é um dos principais problemas para comunidades religiosas inteiras, para as quais fé e identidade estão interligadas.

 “É preciso mostrar que, infelizmente, existe intolerância religiosa no Brasil. Às vezes as pessoas acham que é só a questão de ser politicamente correto, e que isso é chato. Na verdade, somos uma sociedade preconceituosa, racista e achamos que é piadinha. Muitos terreiros são vandalizados no Brasil é isso é algo muito forte. Segundo os dados da Secretária de Direitos Humanos do Governo Federal, nos últimos cinco anos as denúncias de intolerância religiosa, cresceram 3.076%. Nossa campanha precisa fazer alguma coisa para mudar essa realidade”, comenta.

As vítimas mais freqüentes das agressões intolerantes são os religiosos de matriz africana. No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, diferentes levantamentos referentes a épocas também distintas, como o da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), o do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir) e o de uma pesquisa da Puc-Rio, apontam que em cerca de 70% dos casos de intolerância, os ataques foram contra adeptos das religiões de matriz africana.

“Por isso o tema desse ano é ‘Seu racismo mata o meu axé”, diz Fernanda Scherer, Facilitadora REJU Rio Grande do Sul. “Visibiliza um problema histórico que encontra profundas raízes num racismo presente na sociedade brasileira, que se manifesta no meio religioso, político e social. As religiões de matriz africana, com sua origem negra, sofrem constantemente por manter suas crenças e tradições. Essas crenças são marginalizadas, criminalizadas e demonizadas”, completa.

“Para participar da campanha é simples, só pedimos que entre os dias 19 a 21 de janeiro as pessoas publiquem uma foto, de forma pública, em suas redes sociais vestido branco com as hashtag #Reju #VistoBranco #RespeiteMeuAxé”, explica Fernanda.

Quilombolas da comunidade Rio dos Macacos, em Simões Filho (BA), protestam contra interrupção de estrada

rio dos macacosNa manhã desta terça (10), o Exército já retirava materiais usados na obra de numa via que facilitaria a vida dos quilombolas, os quais atualmente só podem entrar ou sair passando pelo interior da vila naval. De acordo com lideranças locais, a interrupção da estrada ocorre logo após outro protesto contra a construção de um muro bloqueando o Rio dos Macacos, impedindo os moradores de pescar e buscar água.

Segundo a líder Rosimeire Silva, suspender a estrada é parte de uma estratégia de pressão para que a Marinha siga com o projeto de erguer o muro. “Estão negociando, na verdade, nossas vidas. Porque a gente pediu para não ser feito um muro cercando nossa área de pesca, de onde a gente sobrevive. Através disso aí, o governo federal junto com o ministro da defesa e a Marinha estão fazendo uma chantagem”, conta.

Embora tenha sido reconhecida como área remanescente de quilombo pelo Incra em 2015, a comunidade, que ocupa pouco mais de um terço das terras então geridas pela Marinha, ainda não foi titulada. Ela está na verdade entre as cerca de 5 mil comunidades quilombolas brasileiras vivendo em situação de total insegurança fundiária.

Segundo matéria publicada no jornal baiano A Tarde, a regularização fundiária é fundamental para que o governo realize melhorias na comunidade que hoje não tem água encanada, energia elétrica ou saneamento básico. Ainda de acordo com o mesmo texto, a previsão é que a regularização aconteça em até seis meses, com base em informações da Secretaria da Presidência da República. No entanto, durante todo o governo Temer houve até agora apenas uma única titulação de terras quilombolas.

Nota da Sociedade Civil do Conjuve sobre o ex-Secretário Nacional de Juventude

Bruno JulioNota da Sociedade Civil do Conjuve sobre as declarações e a política conduzida pelo ex-Secretário Nacional de Juventude

1. A sociedade civil do Conselho Nacional de Juventude não reconhece o governo golpista de Michel Temer. Por isso não estabeleceu diálogos e não construiu políticas conjuntas com a atual gestão da Secretaria Nacional de Juventude. Nesse último período, por exemplo – pela decisão que assumimos – não tivemos acesso ao orçamento do Conselho, aos relatórios da gestão e a uma estrutura mínima para o funcionamento dessa instância de participação social. Algo que resultará no acionamento do Ministério Público para que sejam cumpridas a Lei 11.129/2005 e o decreto No. 5. 490/2005.

2. Repudiamos a fala do ex-secretário Bruno Júlio! A sua declaração, que deseja “uma chacina por semana” nos presídios brasileiros, evidencia a política de Michel Temer, que se opõe radicalmente aos Direitos Humanos, à democracia e ao amplo acesso a direitos para todas as pessoas. A sua declaração, na verdade, em tempos de intolerância, incita ainda mais o ódio e reforça a noção de justiça como punição e vingança; não a noção de uma justiça restaurativa, com o pilar da garantia da dignidade humana e de políticas que busquem a ressocialização das pessoas encarceradas;

3. Se o Secretario Nacional e o governo de Michel Temer tivessem a participação social como um de seus pilares, as resoluções da 3a Conferencia Nacional de Juventude, realizada no final de 2015, seriam suas referências na condução da Política Pública de Juventude. Mas democracia, a participação e a garantia de direitos não compõem a gramática do atual governo, resultado de um golpe de Estado. Entre as propostas apresentadas na Conferência, no Eixo de Segurança, estão, por exemplo:
a. a garantia “no cumprimento de medidas socioeducativas e no sistema prisional, melhoria das atividades de ressocialização por meio de ações educacionais com cursos técnicos e palestras para a população carcerária, programas de inclusão dos jovens egressos de medidas socioeducativas e do sistema penitenciário no mercado de trabalho, para que cumpra sua função socioeducativa e de reinserção social”;
b. a “reforma do sistema prisional a fim de garantir cumprimento de medidas de desencarceramento e socioeducativas incluindo no centro detenção provisória com a proteção a represálias no caso de denúncias, de violação por parte dos agentes, condições sanitárias e superlotação, com devida assistência jurídica”;
c. para enfrentar o racismo institucional do Estado evidenciado no genocídio da juventude negra e na política de encarceramento em massa de jovens negros e pobres, a sociedade civil ainda apresentou como proposta a criação de “um Plano Nacional de Enfrentamento aos Homicídios que combata o extermínio da Juventude Negra, dos Jovens de Povos e Comunidades Tradicionais”, que incluiria o fortalecimento, fomento e ampliaçãodo “Plano Juventude Viva”; e a “Não à redução da maioridade penal, pelo cumprimento efetivo das medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente”.

4. Como sociedade civil, redigiremos – contra o ex-secretário – uma notícia de crime a ser protocolada no Ministério Público, por incitação e apologia ao crime (artigos 286 e 287 do código penal). A representação do Ministério Público, nesse caso, é necessária e tem caráter pedagógico. A justiça restaurativa pressupõe a instauração de um procedimento criminal. Na nossa compreensão, é nele que se criará o ambiente de escuta de ofensor e vítima e, de maneira dialogada, construída a solução do conflito, preferencialmente pela reparação e não pela punição.

5. A demissão de Bruno Júlio não é suficiente. A sua retirada não transformará os rumos da política pública de juventude no país. Por isso, defendemos a saída de Michel Temer e a convocação de eleições diretas para que o povo decida os rumos do Brasil.


Sociedade Civil do Conselho Nacional de Juventude – CONJUVE

Transcidadania: Práticas e Trajetórias de um Programa Transformador

IMG-20161216-WA0017Nesta quarta-feira, 21, as beneficiárias e os beneficiários do Transcidadania participarão da festa de dois anos do Programa. Na ocasião, será lançado o livro “Transcidadania: Práticas e Trajetórias de um Programa Transformador” que registra a experiência destes dois primeiros anos do Transcidadania e tem como objetivo subsidiar com material técnico e reflevixo a implementação dessa política em outros locais, constituindo-se como modelo para futuras experiências. O evento será no 7º andar da Prefeitura de São Paulo, Viaduto do Chá, a partir das 17h.

O Transcidadania tem como objetivo a promoção dos os direitos humanos e a cidadania e oferecer condições e trajetórias de recuperação de oportunidades de vida para mulheres transexuais e travestis e homens trans em situação de vulnerabilidade social. Ele possui como dimensão estruturante a oferta de condições de autonomia financeira, por meio da transferência de renda condicionada à execução de atividades relacionadas à conclusão da escolaridade básica, preparação para o mundo do trabalho e formação profissional, formação cidadã. A essas ações soma-se um exercício de aperfeiçoamento institucional, no que tange à preparação de serviços e equipamentos públicos para atendimento qualificado e humanizado.

O livro “Transcidadania: Praticas e Trajetórias de um Programa Transformador” reúne artigos técnicos e textos sobre estes dois anos de políticas públicas para mulheres transexuais e travestis e homens trans na Prefeitura de São Paulo. O livro conta com relatos das técnicas e técnicos do programa, além de prefácio do prefeito Fernando Haddad e apresentação de Alessandro Melchior, Rogério Sottili, Eduardo Suplicy e o atual secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania Felipe de Paula.

A organização da publicação ficou sob o comando dos pesquisadores Isabela Leite Consilio, psicóloga na área de políticas públicas, direitos humanos, saúde do trabalhador, saúde mental e atenção básica na perspectiva da Psicologia Sócio-Histórica; Marcos Amaral, psicólogo, mestrando em Psicologia da Educação nas áreas das políticas públicas, educação, gênero e sexualidade; e Paula Morena Silveira; também psicóloga professora e doutoranda nas áreas dos Direitos Humanos, políticas públicas, psicologia sócio-histórica, luta antimanicomial, gênero e sexualidade.

KOINONIA Presença Ecumênica é a instituição atuante do Programa Transcidadania e também responsável pela publicação de “Transcidadania: Práticas e Trajetórias de um Programa Transformador” em conjunto com a Coordenação de Políticas para LGBT na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo.

 

Serviço

Lançamento do livro: “Transcidadania: Praticas e Trajetórias de um Programa Transformador”

21 de dezembro de 2016

A partir das 17h

7º andar do prédio da Prefeitura de São Paulo