Encontrão Quilombola de Mulheres do Baixo Sul da Bahia

<p><em><strong><a href=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/02/koinonia_img_1394-2.jpg”><img src=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/02/koinonia_img_1394-2.jpg” alt=”IMG_1394 (2)” width=”960″ height=”539″ class=”alignleft size-full wp-image-5528″ /></a><br />Ivana Flores</strong></em></p><a href=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/02/koinonia_img_1096.jpg”><img src=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/02/koinonia_img_1096-168×300.jpg” alt=”Dona Maria Leite no preparo da moqueca de jaca verde (FOTO: Ivana Flores) ” width=”168″ height=”300″ class=”size-medium wp-image-5529″ /></a> Dona Maria Leite no preparo da moqueca de jaca verde (FOTO: Ivana Flores)<p>Entre os dias 6 e 8 de fevereiro, o Barroso, quilombo no Baixo Sul da Bahia, abriu suas portas para receber mulheres de outras comunidades vizinhas em um evento que elas batizaram de ‘Encontrão Quilombola’.</p><p>Com a participação de 40 mulheres de 10 diferentes comunidades, este foi um intercâmbio que teve entre os principais objetivos debater saúde alimentar; valorizar a produção rural feminina, criando estratégias para sua comercialização nos mercados locais; além planejar ações e mobilizações para 2017. O Serviço de Assessoria a Organizações Populares (O SASOP) e KOINONIA foram as instituições que ajudaram a facilitar o planejamento.</p><p>O Encontrão já rendeu o primeiro fruto: uma agenda para o próximo dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com uma série de atividades programadas envolvendo as comunidades quilombolas da região. Além da mobilização, o evento serviu ainda para o reforço dos laços de solidariedade entre as comunidades negras tradicionais, mas, sobretudo, entre as mulheres que puderam aproveitar além dos debates, o contato face a face.  </p><p>O ‘Encontrão’ teve ainda uma visita do grupo às propriedades de mulheres do Barroso, que já</p><a href=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/02/koinonia_img_1256.jpg”><img src=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/02/koinonia_img_1256-300×168.jpg” alt=”Ana Gualberto (KOINONIA) e Lucimara (SASOP) (FOTO: Ivana Flores)” width=”300″ height=”168″ class=”size-medium wp-image-5527″ /></a> Ana Gualberto (KOINONIA) e Lucimara (SASOP) (FOTO: Ivana Flores)<p>mantêm pequenos empreendimentos rurais, comercializando sua produção na feira de Camamu ou nas próprias casas. Ali, mulheres das outras comunidades puderam ver de perto e na prática como é o dia a dia das empreendedoras e tirar dúvidas.</p><p>Quando todas se juntaram para cozinhar, cada qual levou algo produzido em seu próprio quintal ou roça. As mulheres foram dividas em grupos responsáveis pelo preparo de pratos que seriam servidos no almoço coletivo. A interação rendeu mais de 10 especialidades: moqueca de jaca verde, casca da banana da terra empanada e vatapá de aipim foram os destaques. No encerramento, o tradicional samba de roda, de pé no chão, saia de chita e muita palma na mão. </p>

Beneficiárias do Transcidadania e KOINONIA levam demandas da população T para secretária de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo

FOTOS: Natália Blanco
FOTOS: Natália Blanco

Natália Banco

Nesta quinta feira, 2 de fevereiro, KOINONIA e um grupo de beneficiárias do programa Transcidadania participaram de uma reunião com a nova secretária de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Patrícia Bezerra e o secretário adjunto, Thiago Amparo.  Patrícia, além de assumir a pasta da nova gestão, também é vereadora e psicóloga.

 Marcele Gatti, Lohanny Brandao, Demily Nóbrega e Rose Mary, obtiveram ótimas notas no ENEM e vão usá-las para avançar suas escolaridades, e no encontro, levaram para o debate os desafios vividos no que se refere a inclusão e visibilidade eficaz da população T.

visita_transcidadania_secretaria_1Rose destacou para a secretária falou sobre a importância do acolhimento da sociedade para com homens e mulheres transexuais. “Se eu tivesse um acolhimento aqui em São Paulo, logo quando cheguei, muitas coisas teriam sido melhores para mim. Graças a Deus e à minha formação de caráter eu consegui não me envolver em situações que pudessem que deixar vulnerável, mas sei que para muitas outras meninas, a história acaba sendo diferente”.

As meninas também relataram as dificuldades de inserção de pessoas transgêneras no mercado de trabalho, que buscam uma autonomia como meio de driblar os preconceitos e a discriminação, fatos que impossibilitam essa população a alcançar seus objetivos, e deixando-as em situações de vulnerabilidade.

Para Demily, “foi um encontro muito especial para nós, transexuais, pois além de termos a oportunidade de sermos ouvidas, nos sentimos acolhidas por alguém que ocupa um carga importante na administração pública, que se dispôs a saber de nossas histórias e a trabalhar pela população T”.

Patrícia acolheu prontamente todas as sugestões e demandas levadas pelas meninas, e se comprometeu com as demandas apresentadas, e ressaltou também a importância da capacitação dos órgãos públicos para receber de forma correta homens e mulheres transexuais e travestis.

Transexualidade e religiosidade são temas em mesa de discussão em São Paulo

FOTOS: Marianne Clemente
FOTOS: Marianne Clemente

No dia 2 de fevereiro aconteceu a mesa de discussão, “TRANScendendo a fé”,um dos temas abordados pela I SEMANA DA DIVERSIDADE E IDENTIDADE TRANS, articulada pelo organizativo Transidentidades.

O evento, que contou com participação de KOINONIA, reuniu cerca de 200 pessoas na Catedral Anglicana da Santíssima Trindade, em São Paulo, e foi conduzido por representantes da população T de diferentes segmentos religiosos. Uma das convidadas, a travesti Giu Nonato, falou sobre sua experiência religiosa no Candomblé e a relação com sua sexualidade e identidade de gênero.

IMG_4185 (1)“Tenho sorte de fazer parte de uma família na qual eu sou aceita do jeito que sou. O Candomblé é uma religião que transmite muito acolhimento nas suas famílias, mais ainda assim, por ser uma religião em que a definição dos gêneros é bem definida, muitas mulheres ou homens transexuais, travestis e pessoas transgêneras acabam sofrendo com o preconceito, infelizmente”.

Após a mesa de discussão, o público ainda pode assistir à peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” de autoria da dramaturga britânica Jo Clifford, e montagem e direção de Natalia Mallo.

Interpretada pela atriz Renata Carvalho, travesti, a obra reconta histórias bíblicas, como “O Bom Samaritano”, “A semente de mostarda”, “A Mulher Adúltera” e o “Filho Pródigo”, o monólogo propõe uma reflexão sobre a opressão e intolerância sofridas pela população T e outras minorias e reitera valores cristãos como amor, perdão e aceitação. O espetáculo termina com uma celebração da Santa Ceia e oração comunitária, envolvendo todo o público, simbolizando o ideia de que todos somos Jesus, que partilhamos a vida, o corpo, as vivências e caminhadas.

#VisibilidadeTrans

 

FOTO: Angélica Tostes
FOTO: Angélica Tostes

Natália Blanco

“Ser uma mulher trans é um desafio como o de uma mulher que vive sob uma cultura machista. Nossa luta é contra o machismo, e por sermos mulheres trans, temos algumas dificuldades a mais”, diz a cabeleireira Demily Nóbrega, 48.

As “dificuldades a mais” são as de viver em um país em que só em 2016, cerca de 140 transexuais foram assassinados, segundo o último relatório do Grupo Gay da Bahia.

Um desafio que exige resiliência. Um desafio que exige“estar vivo por teimosia e lutar para se manter em pé e com dignidade” como completa Luciano Medeiros, 40, homem trans.

FOTO: Angélica Tostes
FOTO: Angélica Tostes

Ainda segundo o relatório, divulgado no último dia 23 de janeiro, 343 assassinatos foram cometidos no ano passado. Desse número, 42% foram contra transexuais e travestis. Os estados que registraram o maior número de pessoas LGBT assassinadas foram São Paulo com 49 casos; Bahia, 32; Rio de Janeiro, 30; e Amazonas, 28. Proporcionalmente, pessoas transexuais e travestis são as mais vitimizadas: o risco de uma pessoa trans ser assassinada é 14 vezes maior que um gay, por exemplo. Se compararmos com os Estados Unidos, as brasileiras têm 9 vezes mais chance de morte violenta do que as norte-americanas.

Tanto para Demily, que vai iniciar seus estudos na faculdade de Direito, quanto para Luciano, parte da superação do desafio está no conhecimento de seus direitos.

Em São Paulo, Demily participou, no último domingo (29), Dia Nacional da Visibilidade Trans, de um ato que reuniu pessoas de diferentes coletivos em favor da luta pelos direitos LGBT e em especial pelos direitos da população T, que foram protagonistas.

“Eu descobri que eu tinha direitos quando comecei a militar, e aprendi que preciso reivindicá-los. Quero usar minha faculdade para poder ajudar outras pessoas transexuais a conquistarem esse empoderamento e entendimento que eu conquistei”, diz a cabeleireira.

Conhecer e ter entendimento de seus direitos é essencial para que a pessoa “tome posse de coisas que existem para todos os cidadãos”, segundo Luciano. “Durante o programa Transcidadania aprendi muito no curso de Direitos Humanos, e ao longo da minha caminhada fui adquirindo conhecimento sobre meus objetivos e direitos. Sou consciente que a jornada é longa, mas tenho fé que um dia, nós, transexuais, teremos nosso espaço”,acrescenta.

O Transcidadania, programa coordenado por KOINONIA em parceria com a Prefeitura de São Paulo tem como premissa empoderar a população T. Segundo Symmy Larrat, assistente de coordenação do programa, é uma resposta do Estado à situação de exclusão. “Muitas pessoas, por não conseguirem vivenciar o gênero com o qual se identificam na sua localidade de origem, por conta de preconceito e de uma ausência de políticas públicas, acabam migrando para São Paulo para conseguir ser quem são, utilizar tecnologias de adequação de corpo, e, às vezes, se submeter a subempregos”.

A luta de Demily, de Luciano e de tantas outras mulheres e homens trans não é somente por visibilidade, e sim pelos mesmos direitos que todas as outras pessoas têm. É pelo direito de ocupar todos os espaços que todas as outras pessoas ocupam.

O racismo de quem narra os massacres nas prisões

<p><a href=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/01/koinonia_presidio-3.jpg”><img src=”http://koinonia.org.br/wp-content/uploads/2017/01/koinonia_presidio-3.jpg” alt=”presidio 3″ width=”810″ height=”447″ class=”alignleft wp-image-5506″ /></a>A crise no sistema carcerário trouxe de volta temas como a superlotação das unidades, direitos das pessoas privadas de liberdade e ressocialização de detentos e ex-detentos. São mais de 600 mil pessoas em jogo (sem falar em seus familiares), 62% dos presos negros e mais da metade com entre 18 e 29 anos.</p><p>Gente que não desaparecerá do dia para a noite como querem apresentadores histriônicos e comentadores extremados dos portais de notícias. Todos têm soluções já prontas, fórmulas mágicas ou simplesmente bordões, no meio de um deserto de propostas. A ideia de que leis mais duras e reações mais enérgicas resolveriam tudo, ignora ainda que no Brasil foram mortas, somente em 2014, quase 60mil pessoas, criminosas ou não. Entre os jovens assassinados 77% foram negros. Isto é, se o Estado não os executou pelas próprias mãos, sua omissão acabou por produzir tal resultado. Seria a violência e o endurecimento das penas os melhores antídotos?</p><p>“Essas vozes que clamam por posturas mais firmes das autoridades acabam ocultando um consentimento perverso: o da pena de morte. Proteger apenados e indenizar famílias de pessoas assassinadas em instituições que deveriam reeducá-las são encarados como tratamento desigual e gasto desnecessário com quem mereceria repressão violenta. Há uma inversão”, lembra Rafael Oliveira, diretor executivo de KOINONIA.</p><p>A ideia de que a solução é prender ou matar mais e de que a polícia perdeu o seu poder é repisada como se tal “política de segurança” já não estivesse em curso, além de aplicada com rigor sobre o contingente jovem e negro. Patrícia Tolmasquim, membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos do Rio de Janeiro, afirma que a partir daí, além dos criminosos, o grande bode expiatório têm sido os defensores dos direitos humanos.</p><p>“A mídia ao divulgar constante e massivamente a situação nos presídios está atuando para desqualificar de vez os defensores dos direitos humanos. Pautados na narrativa repetitiva nos últimos dias, insinuando por meio da fala de analistas convidados que ‘os culpados pela crise dos presídios são os ‘Direitos Humanos’ que teriam ‘vencido’ ao convencer o governo a negociar no que ficou conhecido como o Massacre do Carandiru. Nessa versão, o poder de violência teria sido retirado das polícias, fortalecendo os criminosos”.</p><p>Segundo Rafael Oliveira a mídia reflete o olhar discriminatório entranhado no imaginário social, sancionando a barbárie do Estado contra a população negra.</p><p> “A persistência do sensacionalismo e das imagens da crise no Presídio Alcaçuz, em Natal, mostram imagens de jovens negros animalizados pela edição, circulando como verdadeiras feras enjauladas. Aí se flagram caricaturas vivas de uma bestialidade atribuída aos negros por séculos de preconceito ainda bem vivo no inconsciente coletivo”, comenta Rafael Oliveira.</p><p>Até ontem (24), o governo do RN não sabia sequer o tamanho da população carcerária dos presídios em que houve o último massacre. Em entrevista para a <em>Exame</em>, o representante regional para América do Sul do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH), Amerigo Incalcaterra, declarou que a impunidade em casos de tortura praticados por agentes públicos contra presos hoje é regra no sistema penitenciário brasileiro. </p>

Ato na Avenida Paulista marca Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa em São Paulo

FOTO: Natália Blanco
FOTO: Natália Blanco

No último sábado (21), movimentos sociais e culturais, além de grupos de diferentes credos, se reuniram no vão livre do Museu de Artes de São Paulo (MASP) para protestar contra a intolerância religiosa, problema que assola, sobretudo, as religiões de matrizes africanas. KOINONIA também esteve presente.

FOTO: Natália Blanco
FOTO: Natália Blanco

Pessoas que passavam por ali no momento acabaram parando e aderindo ao movimento. Apesar de a chuva ter impossibilitado a caminhada pela Avenida Paulista, os diferentes segmentos puderam compartilhar de momentos de celebração e falas. Todos enfatizaram a importância da sociedade se levantar contra o racismo que está por trás da discriminação e a necessidade urgente da existência de um Estado laico, de fato no Brasil.

Rio de Janeiro tem ato contra intolerância

IMG_2051Depois de um ano marcado pela ascensão definitiva da intolerância religiosa no debate público nacional, em parte pelo aprofundamento das violências, representantes de várias tradições de fé se reuniram no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, na última quinta (19), para mais uma vez reafirmar a importância da liberdade de crença e de um Estado efetivamente laico. Cerca de 150 pessoas estiveram no evento para dizer “basta”.

Segundo o babalawô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), o prefeito Marcelo Crivela foi convidado a participar, mas não apareceu. Durante a campanha Crivela foi um dos candidatos que assinaram a “Carta Compromisso com os Direitos Humanos Contra a Violência, Racismo e Intolerância Religiosa”, com diretrizes para a promoção do respeito à diversidade e às garantia individuais e coletivas.

Representando o Ministério Público estadual, Eliane de Lima Pereira, assessora de direitos humanos e minorias, falou de como o órgão passa a encarar a questão da intolerância. “Minha presença aqui é antes de tudo uma manifestação de apoio e a expressão de que o MP estadual elege a defesa da liberdade religiosa como prioridade, porque entendemos que a diversidade é fundamental para o regime democrático”, destacou.

O xeque Rodrigo Jalloul, primeiro brasileiro nato a ser oficialmente reconhecido como clérigo xiita, lembrou que apesar de um direito universal, a escolha de que religião seguir ainda é, na prática, um privilégio em muitos lugares do mundo. “A oração é a base de minha religião e ela não me convida a pregar o ódio. Também não vejo diferença na essência das muitas religiões. O Brasil é um dos poucos países em que podemos professar nossa fé e isso é importante porque, em seguindo uma religião – seja ela qual for -, pelo sentido básico delas, não tem como sermos levados a atos de intolerância”, concluiu.

Na oportunidade também foi lançado o livro bilingue “Intolerância Religiosa no Brasil”, que traz dados e análises de especialistas sobre o problema, além de contribuições para seu enfrentamento. De acordo com a pastora luterana Lusmarina Garcia a publicação é mais um instrumento que ajuda a compreender a necessidade de um compromisso profundo tanto do Estado quanto da sociedade com a superação da intolerância. “De nossa parte, nessa caminhada temos mostrado que é possível, cada qual em sua religião, descobrir no outro, no diferente, um parceiro e uma parceira de vida. Esse movimento é em si um grande exemplo de como se produz uma quebra no ciclo de intolerância”.

 

A intolerância religiosa cresce. Mas o que acontece depois das denúncias?

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Menina Kailane, vítima de uma pedrada em 2015. FOTO: O GLOBO

Com aumento de mais de 3.700% nos últimos cinco anos, a intolerância religiosa é mais um dos fenômenos a desafiar a imagem cristalizada de um Brasil avesso a conflitos. Em 2011, quando o Disque 100, da hoje Secretaria Especial de Direitos Humanos, começou a registrar esse tipo de violação, foram apenas 15 denúncias. Comparando com o momento atual, somente entre janeiro e setembro de 2016, foram 300. No ano anterior, os casos ficaram em 556.

Num país de mais de 200 milhões de habitantes, a impressão é de que os números são pequenos. Mas infelizmente não é bem assim. Uma das explicações para o fato desse problema que tanto mobiliza a sociedade – a ponto de ter sido tema da redação do Enem, feito por mais de 8 milhões de estudantes – traduzir-se numa quantidade tão baixa de denúncias é a subnotificação.

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Capa da Folha Universal que estampava a imagem de Mãe Gilda. Caso acabou dando origem ao Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

A Iyalorixá baiana Jaciara dos Santos conta que, por falta de órgãos públicos atentos à questão, os casos são registrados oficialmente como tudo menos crimes de ódio motivados pela fé. “Você sai com as roupas de santo e é insultada no ônibus, na rua, em qualquer lugar. Se resolve denunciar, na falta de uma delegacia especializada, o policial de plantão, sem preparo, acha que aquilo é briga de vizinho”, diz.

A Iyalorixá sabe bem do que fala. Ela teve a história definitivamente marcada pela intolerância, quando no ano de 2000, sua mãe biológica, a Mãe Gilda, então líder do terreiro Axé Abassá de Ogum, infartou após uma série de atos de violência contra ela e seus filhos de santo. As agressões foram desencadeadas pela publicação de uma foto da religiosa na primeira página do jornal Folha Universal, da igreja homônima, sob a chamada “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de Janeiro, é uma homenagem à Iyalorixá.

A vitória na justiça na ação movida por KOINONIA e a celebridade do caso não foram suficientes para que a perseguição cessasse. Ano passado o busto erguido em memória de Mãe Gilda, no bairro de Itapuã, Salvador, foi destruído. “Nada se descobriu sobre quem fez isso. As câmeras mostraram que estavam com rosto coberto. Ninguém que quebra uma estátua por simples vandalismo vai se preocupar em preservar a identidade”, ressalta Jaciara, certa da motivação religiosa do ataque. O monumento foi restaurado em novembro passado.

Em outro caso famoso, o da menina Kailane, alvo de uma pedrada em junho de 2015, também não se conseguiu chegar aos autores do crime. Embora a família tenha recebido apoio do poder público, como destaca a avó da adolescente, Kátia Marinho, as imagens das câmeras de segurança de um ônibus, que poderiam identificar os responsáveis foram misteriosamente apagadas. Os vídeos foram recuperados em um procedimento técnico feito em Brasília. O tempo perdido acabou dificultando o reconhecimento dos prováveis autores da tentativa de homicídio contra a menina (a pedra pesava quase 3kg).

Atualmente, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) só existe em São Paulo, onde foi inaugurada em 2006. No Rio, apesar de aprovada desde 2011 pela Assembléia Legislativa, a especializada nunca chegou a ser implementada. Entre 2011 e 2015, o estado foi o recordista de denúncias, segundo o Disque 100. A Bahia, embora possua a política pública considerada mais avançada a respeito do tema no Brasil, o Estatuto da Igualdade Racial e Combate à Intolerância Religiosa, também não tem uma Decradi.

Outra questão preocupante além das agressões diretas é a resistência por parte do sistema de ensino à aplicação da lei 10.639, que desde 2003 determina sobre o ensino da história e cultura afro-brasileiras. Segundo Patrícia Tolmasquim, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), a dificuldade é um ingrediente importante para a reprodução da intolerância (lembrando ainda que os professores ocupam o 4º lugar na lista dos tipos de agressores intolerantes mais frequentes). “Ninguém identifica aquilo que não conhece e isso vai contribuindo para a naturalização da violência”, afirma.

O interlocutor da CCIR, babalawô Ivanir dos Santos, observa que, no momento, têm sido cada vez mais raras as oportunidades de diálogo entre a sociedade civil e o poder público para criação de políticas, leis e mecanismos de garantia da liberdade religiosa no país. Para o religioso, as razões da impermeabilidade dos gestores do Estado a estas demandas são claras. “Temos dificuldade de conseguir respostas concretas para casos de intolerância porque setores representativos dos que, em geral, são os violadores fazem parte das composições políticas nos níveis estadual, municipal e federal”, avalia.

De acordo com Ivanir, a estratégia da CCIR será pressionar o poder público a partir de denúncias feitas a organismos internacionais de direitos humanos. “Vamos começar a difundir a expandir o debate para além das fronteiras nacionais, tentando provocar reações mais contundentes do Estado brasileiro. Foi assim na época da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com o governo cedendo a pressões que vinham de fora”.

A CCIR lança nesta quinta (19), celebrando o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, um relatório bilíngue, que reúne números sobre o fenômeno no Brasil. A publicação traz ainda um roteiro de ações para a construção de um plano nacional de combate a intolerância religiosa. O lançamento acontece às 19h, no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Celebração pela liberdade de fé no vão livre do Masp, em São Paulo

arte divulgação - dia combate intolerancia religiosa (1)No próximo sábado (21), o espaço que tem dado lugar a manifestações que, de certa forma, resumem grandes tensões da sociedade brasileira, terá um ato para lembrar mais uma questão urgente: a necessidade de superação da intolerância religiosa. A celebração no vão Livre do Museu de Artes de São Paulo (MASP) começa às 15h. De lá os presentes sairão em marcha contra a violência que tem atingido principalmente os cultos de matriz africana.

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa surgiu em 2007, instituído pela Lei nº 11.635, de 27 de dezembro do mesmo ano. A data rememora o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum, em Salvador (BA), vítima de um enfarto, no dia 21 de janeiro, após tomar conhecimento de uma foto sua publicada na Folha Universal, sob a acusação de charlatanismo. Sua casa foi atacada e pessoas da comunidade agredidas. 

Lembra deles? “Gladiadores do Altar” da Igreja Universal serão investigados

GuardiõesEm nome dos advogados Hédio Silva Jr, Antonio Basílio Filho, Jáder Freire de Macedo Júnior e Andreia Letícia Carvalho Guimarães, o pedido de instauração de inquérito, datando do último dia 10, foi motivado por um texto publicado numa página do Facebook de nome “Gladiadores do Altar”. A publicação diz o seguinte: “(…)Destruiremos cada religião enganosa até que desapareça do nosso país! Essas religiões pagãs e de origens africana e asiática ou muçulmana não serão toleradas em nosso país! Nem o Homossexualismo! Faremos o trabalho que o governo não teve competência pra fazer! Junte-se a nós!”. A informação é do blog Umbanda EAD, que também disponibilizou uma cópia do requerimento enviado à Decradi de São Paulo.

Gladiadores 2O inquérito deve apurar a responsabilidade por crimes como propaganda de perseguição religiosa e prática, indução ou incitação a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Ambos os delitos têm pena de 1 a 4 anos de prisão. O documento que solicita a instauração do inquérito se refere aos “gladiadores” como grupo paramilitar e descreve o objetivo da mensagem como sendo o de “arregimentar pessoas com o propósito de ‘limpar’, destruir, fazer desaparecer, eliminar fieis das Religiões Afro-brasileiras, muçulmanos e homossexuais”.  

Espera-se que os autores da postagem sejam encontrados por meio de colaboração da Delegacia de Crimes Eletrônicos com a Decradi, identificando o dispositivo que divulgou e o horário de publicação da mensagem. Hoje (16), a página que teria postado o texto não foi mais encontrada no Facebook.

Relembre

Os “Gladiadores do Altar” ficaram conhecidos no início de 2015, quando vídeos do grupo foram difundidos na internet. O que a Igreja Universal define como “projeto”, é dedicado a formação de jovens que no futuro vão colaborar como pastores. Os participantes chamaram atenção por se apresentarem uniformizados encenando – com palavras de ordem, continência e formação – movimentos característicos da disciplina militar.

Na época, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) se disse chocado após assistir aos vídeos do grupo. Para ele, aquilo se tratava de uma manifestação de “fundamentalismo cristão”, que oferecia ameaça às liberdades individuais, a diversidade sexual e as manifestações culturais laicas. A Igreja Universal, por sua vez, se posicionou em nota dizendo que o comentário do parlamentar foi injurioso e que ele estava pouco informado sobre a iniciativa.

Quase dois anos depois, os “gladiadores” devem voltar ao centro do debate sobre intolerância, dessa vez, após uma mensagem que declara abertamente o ódio a adeptos de religiões não cristãs e aos homossexuais.