TRANSCIDADANIA

Publicação revista
O Brasil é o país número um em assassinatos de transexuais e travestis, com mais de 600 mortes entre 2008 e 2014. O dado é da Transgender Europe (TGEU) – rede européia de entidades de apoio aos direitos da população transgênero – e mostra a face mais radical da discriminação e negação de direitos experimentada por travestis e transexuais também em outras dimensões da vida como as da saúde, educação, trabalho e outras.

Superar essa situação de violência requer um projeto de cidadania comprometido com a população transgênero, o que na prática quer dizer implementar políticas públicas que tenham como principal objetivo superar a discriminação em todas as áreas. Um dos primeiros passos nessa direção foi dado, em 2014, pela prefeitura de São Paulo na criação do projeto Transcidadania, que tem KOINONIA como parceira na execução.

A iniciativa visa contribuir para que a população transgênero também faça parte da experiência cidadã, oferecendo oportunidades de escolarização, profissionalização, colocação no mercado de trabalho e formação sobre seus direitos. Atualmente são 100 pessoas participando do projeto, onde recebem atendimento individual de profissionais de assistência social, psicologia e pedagogia e passam por um processo formativo com módulos que tratam de temáticas que vão desde a discussão de direito a cidade e acesso a diversidade de bens culturais até a questão dos direitos e as dinâmicas sociais que podem levar ao fortalecimento, extinção ou inexistência destes.

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NOTÍCIAS

 

29 jan 2016“O Transcidadania educa toda a sociedade para a diversidade”, declarou Fernando Haddad na formatura do programa

29 de janeiro de 2016

O clima festivo pelo primeiro ano de realização do programa marcou a primeira formatura das/dos beneficiárias/os, na Praça das Artes, em São Paulo

12552661 cópiaEm SP, Dia da Visibilidade Trans é comemorado com programação especial

28 de janeiro de 2016

O Dia da Visibilidade Trans é um momento em que diferentes setores da sociedade se reúnem para dialogar sobre os caminhos para ampliar os direitos dessa população

125zzzCerimônia celebra um ano do Programa Transcidadania

15 de janeiro de 2016

Celebração reunirá beneficiárixs do programa e parceiros para entrega de certificados. Haverá ainda a recepção da nova turma

hormonioterapiaPelo direito à saúde integral da população trans

16 de outubro de 2015

Pela garantia de direitos da população Trans, KOINONIA participa do lançamento do serviço gratuito de hormonioterapia

unnamedNovo módulo do Transcidadania trata de mercado de trabalho e direitos

7 de outubro de 2015

Curso apresentará ferramentas de garantia de direito ao mercado de trabalho axs alunxs do programa Transcidadania

11870772Aulas de dança são oferecidas axs alunxs do Transcidadania

2 de setembro de 2015

Em parceira com o Centro de Referência da Dança de São Paulo, xs participantes terão aulas de dança contemporânea, urbana, afrobrasileira, ballet e expressão corporal

18 ago 2015Alunxs do Transcidadania visitam Memorial da Resistência em São Paulo

18 de agosto de 2015

Elxs foram ao museu dedicado à preservação das memórias da repressão e resistência política do Brasil

11070385Cursos preparatórios da UNEAfro Acolhem participantes do Transcidadania que vão prestar o ENEM

11 de agosto de 2015

Parceria entre  UNEafro e KOINONIA possibilitará o encaminhamento dxs participantes  para os cursos

DSC_0044A primeira de 100: aluna do Transcidadania conclui os estudos

7 de agosto de 2015

Amanda Marfree é a primeira a terminar o ensino médio no primeiro semestre do programa Trasncidadania

11139368Formação em Direitos Humanos debate redução da maioridade penal com participantes

4 de agosto de 2015

Foram discutidas as abordagens do tema e suas implicações

11738042-1Aula de maquiagem para caracterização dá início aos cursos de extensão cultural

3 de agosto de 2015

A oficina possibilitou a aprendizagem de técnicas que poderão ser utilizadas em espaços de trabalho

IMG-20150521-WA0013-2KOINONIA em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo implementam o Programa Transcidadania

26 de maio de 2015

Inicia-se o curso de Direitos Humanos e Democracia promovido por KOINONIA em parceria com a SMDH

22627Abertura do curso de Direitos Humanos e Cidadania tem aula do prefeito Fernando Haddad

18 de maio de 2015

O curso é uma parceria entre o Programa Transcidadania e KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço

11245509_2Primeira aula do Programa Transcidadania com o prefeito Fernando Haddad, em São Paulo

15 de maio de 2015

Aula inaugural do Curso de Educação em Direitos Humanos, no Teatro Mario de Andrade, marca o início da participação de KOINONIA no programa

REVISTA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Edição 2 no ar www.revistaintoleranciareligiosa.com
Reunir contribuições analíticas da academia, de movimentos e organizações da sociedade civil, que possam interferir no debate público de forma qualificada, responsável e, se possível, ajudando a construir caminhos para o enfrentamento das múltiplas formas de violência baseadas na fé. Esse é o objetivo da Revista Intolerância Religiosa. Confira!

Afinal, de onde veio e do que trata o Prevenid@sG@me?

Natália Blanco

O Prevenid@s Game é um jogo de tabuleiro, pensando, idealizado e produzido pela e para a juventude. Com uma linguagem própria e voltada para educar de forma divertida sobre prevenção ao HIV, Hepatites Virais e outras IST (que antes se chamavam DST).

De onde surgiu a ideia?

Informar e formar a jovens sobre prevenção ao HIV, Hepatites Virais e Outras IST é o principal objetivo do projeto Fortalecendo Laços: Juventude Sexualidade e Direitos Humanos, uma parceria entre KOINONIA e a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

Tal parceria visa uma aproximação com jovens em situação de vulnerabilidade à ou infecção pelo HIV, as hepatites virais e outras IST, especificamente na cidade de São Paulo. E pensando no futuro, a ideia é levar essa aproximação e linguagem para outras regiões do país.

Mas como atingir essa população que está cada vez mais antenada, independente e exigente? A resposta é simples, falar a mesma “língua” que elas e eles. E isto é uma demanda que a própria juventude expressa.

As típicas campanhas de “use camisinha” que são veiculadas no carnaval já estão mais do que batidas. Os setores do poder público e muitas vezes organizações sociais têm dificuldade de interagir e dialogar com a juventude que, mesmo estando mais antenada, ainda tem pouco conhecimento sobre os métodos de prevenção.

Dados divulgados pela UNAIDS (Organização das Nações Unidas) no relatório de 2015 revelam que apesar do número de infecções pelo HIV na população geral estar em queda, existe uma faixa preocupante. Um crescimento de 53% no número de casos vem atingindo homens de 15 a 19 anos.

Com isso mente, o Fortalecendo Laços viu uma oportunidade de conseguir chegar à esse público, com a ideia de criar um jogo que falasse a língua do jovem e ainda fosse divertido. Nasceu assim, o Prevenid@sG@me.

E como se joga?

O jogo enfoca três aspectos: interação entre jogadores/as, compartilhamento de vivências pessoais e o aprendizado sobre métodos de prevenção e sobre as infecções.

Como qualquer jogo de tabuleiro, os jogadores/as são posicionados/as nas quatro casas, uma em cada extremidade. O dado vai ditar o número de passos a avançar.

As casas representam cartas que podem conter perguntas ou consequências. São elas:

– Cartas de sorte ou azar:
“Foi para a balada sem camisinha? Volte duas casas!”

– Cartas com desafios se o jogador parar na casa inicial de outro adversário:
“Parou na casa do adversário? Dê um abraço no dono da casa!”

– Cartas para o jogador pagar uma “prenda”:
“Prenda: Dance a Macarena!”

– Cartas com perguntas técnicas para o jogador responder a alternativa correta:
“As lesões de HPV têm cura?

  1. Não, sempre surgirão outras lesões;
  2. Sim, o organismo cura sozinho;
  3. Sim, desde que o tratamento for feito de forma correta.”

– Cartas com perguntas de situação para o jogador responder qual a melhor opção naquele contexto:
“Ao compartilhar batons, lápis de olho, alicate de unha, etc. É possível transmitir HIV?

  1. Existe a possibilidade de transmissão do HIV e da Hepatite C pelo alicate de uma, mas não existe risco de transmissão de alguma IST por batons e lápis de olho;
  2. O risco é o mesmo, tanto para transmissão do HIV quando das IST’s;
  3. Não existe risco algum de transmissão do HIV e nem das IST’s.”

Ganha o jogo quem completar uma volta no tabuleiro, adquirindo assim conhecimentos sobre práticas de prevenção ao HIV, hepatites virais e outras IST!

 

Sobre o projeto
“Fortalecendo Laços: Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos – Uma ação concreta com populações jovens vulneráveis e HIV/AIDS na cidade de São Paulo” é realizado por KOINONIA em parceria com a Secretária Municipal de Saúde de São Paulo. Assinado pelo termo de convênio Nº026/2015 – SMS – G, o projeto tem por objetivo formar 50 jovens com idade entre 15 e 30 anos, preferencialmente LGBT, frequentadores do centro de São Paulo e transforma-los em agentes de defesa de direitos sexuais e reprodutivos, de epidemias de DST/HIV/AIDS, bem como de hepatites virais.

Histórias de vida entre a dor e a esperança

Por: Cláudio Márcio, Reverendo da Igreja Presbiteriana Unida de Muritiba-BA

“Jovens, à época, empolgados com as possibilidades abertas para construção de um novo futuro para o país, e, ao mesmo tempo, convencidos do retrocesso político, econômico e cultural sinalizado pela implantação de um regime autoritário, criaram as suas diferentes formas de resistência ao arbítrio      e ao atropelo dos direitos inalienáveis da pessoa humana. Pagaram um preço inaudito por sua ousadia e destemor. Foram vítimas da tortura, da prisão e do exílio… e muitos tiveram suas vidas ceifadas nos porões da violência institucionalizadas” (DIAS, 2014, p.13).

O documentário Muros e Pontes: memórias Protestantes na ditadura ajuda a refletir sobre a temática do Estado Laico e a função religiosa, pois, propõe desvendar memórias como uma espécie de recontar narrativas experimentadas por jovens protestantes ecumênicos (homens e mulheres) durante o golpe de 1964. Ora, as memórias são modos de articulações entre experiências vividas no fluxo do tempo, portanto, passadas e presentes, ou seja, contar a memória é reconstruir um lugar no mundo produzindo pertencimento político identitário, pois, a memória é produto e produtora de mundo concomitantemente.

Partindo deste pressuposto da fabricação de identidades, quem são esses rostos e essas vozes apresentados no documentário? A função de entrevistador do documentário é do pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e professor universitário, Zwinglio M. Dias. Na realidade, ele ocupa um lugar dúbio, uma vez que, neste processo de múltiplas identidades, ele ora realiza entrevistas, ora oferece o seu depoimento como alguém que também carrega as marcas deste contexto arbitrário militar brasileiro. O documentário oferece histórias de vida com um misto de dor e esperança. Sinaliza ainda um contexto de efervescência política onde as instituições estavam sendo questionadas por seus modelos hierárquicos, muitos líderes religiosos não estavam preparados para serem interrogados e, ao mesmo tempo, de fazer uma ponte entre a fé cristã e as inúmeras demandas sociais do Brasil. Evidentemente que alguns jovens cristãos e ecumênicos estavam dispostos a construir essa suposta ponte.

Assim sendo, refletindo o protestantismo brasileiro é possível problematizar: por que essas experiências de fé, luta, reflexão crítica e engajamento político foram (são) negadas em muitas comunidades de fé? Falta de informação das lideranças? Trata-se de líderes mal intencionados? Por que negar a trajetória e influência de figuras como: Richard Shaull, Waldo César, Jaime Wright, Paulo Stuart Wright, João Dias de Araújo, Anivaldo Padilha e Rubem Alves?

Uma das formas de tentar responder a esses questionamentos é olhar para a parceria feita entre o Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia e Koinonia Presença Ecumênica e Serviço, pois, ao desvendar e ou recontar um momento histórico do Brasil e de alguns jovens ecumênicos, muitas narrativas são potencializadas gerando imagens e sons desafiadores para outras gerações. Dito de outra forma, esses depoimentos apresentam-se como contraponto de uma suposta história oficial, uma vez que, esses homens e mulheres trazem no corpo e na memória as marcas de um momento sombrio na política brasileira.

Com efeito, é urgente romper com os paradigmas que não dialogam com a diversidade cultural brasileira. É preciso compreender que existem protestantismos com possibilidades múltiplas de vivência da fé. A Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU) é um exemplo de uma forma de ser em que a dimensão da fé pode-deve ser efetivada em sindicatos, partidos políticos, ONG’s, etc, logo, criou-se a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) e a Comissão Ecumênica dos Direitos da Terra (CEDITER).

Há um fragmento narrado por Zwinglio M. Dias no documentário em que ele e um grupo eram acusados de “ecumenistas”, ou seja, uma mistura de ecumênicos com comunistas. Desta forma, esses jovens eram vistos como “perigosos” para o ordenamento eclesiástico onde estavam inseridos, assim como, para a ordem política vigente no país. Bem, tenho lido Richard Shaull e Frei Betto, assim, penso ser necessário fazer uma distinção entre uma “bancada evangélica” com características teocráticas e que em nada garantem os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras em nossa “pátria amada”, de uma fé que é práxis libertadora, isto é, uma participação política engajada por justiça social e garantia dos direitos de grupos sociais.

De fato, o documentário traz a memória entre os tantos nomes o do Rev. João Dias de Araújo. De quem se trata? Um líder religioso com formação em teologia, filosofia e direito. Um dos fundadores da IPU. Ajudou a criar o SIM (Serviço de Integração do Migrante), em Feira de Santana-BA. Autor de uma obra clássica para quem estuda o fenômeno religioso protestante brasileiro, a saber: Inquisição sem fogueiras, ou seja, trata-se de um líder religioso extremamente articulado com o solo brasileiro e optou (assim como Jesus de Nazaré), em caminhar com e pelos “pobres”.

Evidentemente que o processo de rememorização é sintético, pois, o reverendo João Dias foi em vida muito mais do que o dito acima. Logo, como e ou por que ocultar uma trajetória tão relevante e encorajadora? A quais grupos e ou sujeitos sociais interessam o apagamento ou a omissão dessa e tantas outras memórias? Comungo então que as lutas outrora travadas encontram-se atuais, sobretudo porque ainda vivemos com as velhas inquietações abordadas nos fragmentos do que se tornou o Hino oficial da IPU que diz: “Que estou fazendo se sou cristão, Se Cristo deu-me o seu perdão? Há muitos pobres sem lar, sem pão. Há muitas vidas sem salvação. Mas Cristo veio pra nos remir, O homem todo sem dividir: Não só a alma do mal salvar, Também o corpo ressuscitar” (OLIVEIRA, 2014, p. 80).

Essa era a característica das vidas acionadas no documentário: por uma teologia pública crítica e libertadora. Assim, é necessário potencializar essas vozes para que novas práticas possam brotar no protestantismo brasileiro. Lembremos de Rubem Alves quando sinaliza: “Mas os mártires têm aparecido: Gandhi, Martin Luther King, Oscar Romero e muitos outros. Líderes religiosos são intimados, perseguidos, ameaçados, expulsos, presos… Ópio do povo? Pode ser, mas não aqui. Em meio a mártires e profetas, Deus é o protesto e o poder dos oprimidos” (ALVES, 2003, p. 111).

 

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

DIAS, Zwinglio M. (org) Memórias Ecumênicas Protestantes – Os protestantes e a Ditadura: Memória e Resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014.

OLIVEIRA, Nilton, Emmerick. A Militância Política de um Presbiteriano “Comunista”… In: DIAS, Zwinglio M. (org) Memórias Ecumênicas Protestantes – Os protestantes e a Ditadura: Memória e Resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014.

 

Igreja também é lugar de falar de prevenção

De jovem para jovem é como o Fortalecendo Laços tem sido pensado. Daí vem a facilidade e desenvoltura com que a equipe debate com este público questões como as de gênero, sexualidade, saúde e prevenção. Um dos métodos encontrados para tratar desses temas que nem sempre são fáceis de abordar é o chamado jogo de tabuleiro humano “Prevenidas Game”.

No mês de junho, o Prevenidas foi jogado por jovens e lideranças da comunidade religiosa da Igreja Batista da Liberdade, SP. De forma engraçada e lúdica, o jogo propõe dinâmicas que estimulam a ampla discussão a respeito da prevenção ao vírus HIV, hepatites virais e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST’s). Com uma linguagem próxima da juventude, o jogo de perguntas e respostas promove desafios e brincadeiras descontraídos com os participantes. Tudo em torno do tema principal.

No fim, muitos dos participantes destacaram a importância da disseminação de informações sobre prevenção para outros espaços, incluindo, é claro, templos e comunidades religiosos. É isso que inclusive um grupo que participou do Prevenidas decidiu fazer. Os jovens, que se preparam agora para um trabalho de ação social com a população ribeirinha no Amazonas, resolveu botar em seu plano um debate sobre prevenção com distribuição de preservativos.

Negra e a Caminho por Dias Melhores: depoimento de Yalorixá Helenice Brito no dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha

Foto: Ivana Flores

Foto: Ivana FloresFoto: Ivana Flores

No dia 25 de julho de 2017, aconteceu em Salvador a 5º edição do Prêmio Mulheres Negras Contam Sua História, juntamente com muitos eventos que celebraram o dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. O prêmio é uma realização do Egbé Axé, Associação de Terreiros de Candomblé que atua em prol destas comunidades.

KOINONIA esteve presente neste evento onde conhecemos a história de várias mulheres que têm contribuído para a melhoria do mundo, dentro de suas funções e espaços ocupados. Para ilustrar a riqueza deste momento, trazemos o discurso de Mãe Helenice, que foi uma das homenageadas:

“Quero começar agradecendo aos Orixás a honra de estar aqui neste momento, tomando a benção aos meus mais velhos e cumprimentando aos meus mais novos. Cumprimento a mesa na pessoa de sua presidente, irmã Diana, a quem gostaria de parabenizar pela sua força na criação do Egbé Axé e por esta iniciativa de render homenagem a mulheres negras que fazem a diferença. Parabéns, Diana!

Agradeço a todos por esta homenagem, momento em que nos lembramos de que nossos passos vêm de longe, são passos de resistência que fazem um caminhar ao longo do qual aconteceu o Encontro de Mulheres Afro Latino Americanas e Afro Caribenhas, em 1992. Estamos aqui reunidas em comemoração deste evento, na busca de reforço deste laço.

Gostaria também neste momento de lembrar de nossos irmãos afrodescendentes que são as maiores vítimas da pobreza e da marginalização no nosso Brasil e também em toda em todas as Américas, o que nos dá um maior senso de responsabilidade e compromisso com esta luta com as questões raciais.

Assim, com este compromisso venho construindo minha trajetória de vida, seguindo minha missão religiosa.

Nasci mulher e negra, no bairro do Rio vermelho e muito cedo me mudei para o Engenho Velho de Brotas. Filha de um funcionário público e de uma mulher do lar, que embora tenha ido muito cedo para o orun, me deixou um legado de cumprimento do dever de educar e orientar a vida de seis irmãos menores. Hoje agradeço a Deus e aos Orixás, por todos terem trilhado o caminho do bem. Deixou também um legado de culto à nossa ancestralidade, através da crença e fé nos Orixás.

Logo cedo, no Engenho Velho, percebendo que existia uma grande evasão escolar, dei banca para as crianças mais necessitadas do bairro, preocupada em motivá-las para perceberem que o mundo pode ser grande através do conhecimento.

Aos 14 anos comecei a receber caboclos, junto com minha mãe.

Fui ser técnica em enfermagem, sempre trabalhando no auxílio ao próximo e prestando meus serviços aos que me procuravam.

Neste período comecei a organizar as Giras de Caboclo Boiadeiro, meu grande parceiro e protetor até hoje.

Aos 19 anos casei. Tive quatro filhos homens, sendo todos iniciados na religião de matriz africana, assim como eu fui iniciada pelas mãos de Hilda Gitolú, in memorian, estando hoje no terreiro Pilão de Prata, comandado pelo grande amigo, o líder Pai Air de Oxagian.

Já se vão 40 anos de iniciação. Assisti muitas mudanças, pois sou do tempo que yaô era benção em uma casa e ele tinha orgulho de ser iniciado naquele local escolhido por seu Orixá. Sou de uma época em que não olhávamos nos olhos dos mais velhos e que respeitávamos nosso kelê como instrumento de ligação com o sagrado.

Nesses anos todos, vi aumentar o número de mortes de jovens negras e negros, vi aparecer o termo feminicídio, ligado diretamente à proteção da mulher (que antigamente era direito do homem, que se sentisse traído por uma mulher, lavar sua HONRA com sangue).

Vi traficantes de drogas utilizarem a inteligência de meninas e meninos a serviço deles, transformando suas vidas e de suas mães para sempre. Vi mortes, balas e vidas perdidas.

Vi igrejas que demonizam as religiões de matriz africana serem adoradas por negros e negras que se tornaram intolerantes para com seus irmãos, esquecendo-se de seus ancestrais e enriquecendo estas igrejas enquanto empobrecem suas vidas e se desligam de suas histórias.

Assisti e participei de muitas ações em favor dos direitos dos negros. Surgiram cotas e os cabelos crespos foram expostos com orgulho e determinação. Assim como Martin Luther King presenciei e presencio a resistência, a luta, a determinação em não calar diante de todas as formas de opressão que vivemos atualmente: Genocídio da população negra, Feminicídio, Estupros, a Lei Maria da Penha. Tudo isso somos nós: mulheres negras latino-americanas e caribenhas. Somos a história do nosso povo! Somos a resistência e a consciência!

Assim, ser homenageada nesta data me enche de orgulho e me leva a lembrar também das nossa irmãs líderes de nossa causa como Dandara, Maria Felipa, Luiza Mahin, Luiza Bairros, dentre tantas outras. Isso aprimora minha determinação em continuar com minha cabeça erguida, meus fios de conta, minha roupa de Santo, caminhando e cantando e seguindo a canção, pois nasci mulher, negra e de candomblé. Não existe possibilidade de desistir, de mudar de ideia, de mudar de lado. Existe apenas um caminho a seguir, a luta por dias melhores, a aluta por mais espaço para negras e negros em todas as instancias e locais.”

Yalorixá Helenice Brito, SSA 25/07/2017.

Colaboração: Ana Gualberto

 

 

 

 

Remanescentes de quilombo da comunidade Rasa dão mais um passo rumo à titulação de suas terras

A Superintendência Regional do INCRA no Rio confirmou, no Diário Oficial de 26 de junho, a passagem de uma etapa importante do processo de regularização fundiária da terra quilombola da Rasa. Os moradores acabam de conseguir o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação do Território (RTID), documento elaborado pelo Incra  e formado por vários estudos, fundamental para o reconhecimento de uma comunidade como remanescente de quilombo.

A área de 109,7228 ha abriga 422 famílias em nove diferentes localidades. A abertura do processo de titulação, segundo a Fundação Cultural Palmares, é do ano de 1999. Desde então, a Rasa luta por reconhecimento, enfrentando o poder financeiro e o lobby, sobretudo de construtoras.

Ivone Bernardo, presidenta da Associação de Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro (Acquilerj) comemorou a conquista. Ela lembrou o papel de Dona Uia, liderança da comunidade que nunca deixou de acreditar na titulação quando muitos diziam ser impossível.

“Rasa fica num lugar onde há uma luta muito antiga e dura contra a especulação imobiliária. Nós da Acquilerj, que acompanhamos a Associação de Moradores local, não poderíamos deixar de lembrar Dona Uia, uma guerreira que não desistiu nunca. Ela é um grande exemplo para nós, porque quando as pessoas diziam: ‘Búzios é um lugar de milionários, ela respondia que antes de morrer ainda veria essa terra titulada.

Ivone destaca ainda as entidades quilombolas inúmeras vezes tiveram de recorrer aos Ministérios Públicos federal e estadual para embargar obras que se iniciavam nas terras quilombolas indiscriminadamente.

“Conseguir essa conquista do RTID, é algo impressionante, pela pressão da especulação, que inclusive pode ter sido um fator para que outras comunidades tivessem avançado no caminho para a titulação e a Rasa não. Embora a titulação ainda não tenha vindo, como disse Dona Uia, o RTID é um grande passo nessa direção”, completou Ivone.