O “nós por nós” na prevenção do HIV e outras IST

 

Natália Blanco 

Entre os dias 23 e 24, mais de 70 jovens de diferentes regiões do Brasil participaram do Workshop Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos em HIV, Hepatites Virais e outras IST, uma iniciativa do projeto Fortalecendo Laços. Como outros nessa temática, o encontro reuniu especialistas, ativistas e pessoas vivendo com HIV. Mas desta vez o que houve de especial foi o fato de a maioria dos participantes – o que incluiu, é claro, os provocadores das discussões – ter sido de jovens, com toda a pluralidade que o termo abriga. Eles não só deram o tom das conversas durante os dois dias, como foram os grandes responsáveis pelo evento desde a concepção.

Foram nove debates transmitidos ao vivo, com ampla participação dos convidados e mais outras dinâmicas de interação, partindo de temas inter-relacionados como as representações da juventude nas políticas e serviços públicos; história do HIV; gerenciamento de risco e prevenção combinada; a importância da participação jovem no controle social do SUS; sexualidades e identidades de gênero; saúde mental na juventude; comunicação; e a experiência dos jovens que vivem com HIV.

No debate “Vivendo com HIV e ponto”, as falas que abriram a troca de ideias foram de Pierre Freitaz, 30, e Caliane Araujo, 21. Mais que tratar de como lidam com a sorologia, eles abordaram uma série de efeitos da discriminação, traço comum à experiência dos jovens que vivem com a infecção.

“Eu soube o que era HIV na escola, com um colega gritando ‘você tem Aids’. Se a mente tivesse esse poder, eu teria me teletransportado daquele lugar. A partir daquele momento, a escola virou um lugar muito punk pra mim”, conta Caliane, que começou a virar o jogo contra o preconceito quando passou a frequentar um grupo de jovens soropositivos na Fundação Poder Jovem. “Foi como se eu fosse de marte e de repente conhecesse outros marcianos”, brincou. “O que mata não é a doença, mas o preconceito, a não aceitação imposta a nós”, lembrou em seguida.

Pierre descobriu sua sorologia entre os 14 e os 15 anos de idade. Ele recordou ter recebido a notícia de uma profissional de saúde de forma que definiu como “fria”. “Recebi o diagnóstico em Pinheiros e andei até Taboão da Serra sem saber o que fazer”, relatou. O trecho percorrido caminhando pode ter de 13km a 15km aproximadamente. A história de Pierre traz o problema da falta de preparo nos serviços públicos de saúde para o acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e, sobretudo, os jovens.

“O serviço de saúde ainda tem uma dificuldade de lidar com as pessoas que descobrem ou que vivem com o HIV. Isso até por conta da rotina do dia a dia em que muitos passam por essas situações naquele ambiente. Os técnicos acabam não vendo a pessoa que está ali na frente deles como uma pessoa, com sentimentos, questões e que precisa de um acolhimento especial porque está recebendo um diagnóstico que muda tudo”, avaliou.

O objetivo do workshop foi promover o debate público e a articulação de coletivos jovens, principalmente LGBTs, em torno da prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV e das Hepatites Virais. O que acaba sendo uma aposta destes jovens no fortalecimento das lutas pela superação da discriminação e da falta de informação. Pois, ao contrário do que se pensa, muita gente ainda não tem acesso sequer ao bê-a-bá da prevenção.

“Vivemos na era da informação e os jovens continuam se infectando. Isso porque acontece o efeito bolha: a informação existe, mas ainda não está disponível para uma grande parcela da população. Muito se discute no meio universitário e ativista, mas muita gente que precisa dessa informação ainda não tem. A gente ainda vive num mundo em que mães, quando descobrem que um filho tem HIV, querem separar talheres”, destacou Marcos Borges, infectologista conhecido em seu blog e noYoutube como Doutor Maravilha.

O workshop contou com o apoio do Programa Municipal DST/AidsCentro de Referência e Treinamento DST/Aids – SPCRT da Secretaria Estadual da SaúdeInstituto Latino Americano de Promoção e Defesa de Direitos HumanosInstituto Vida Nova Integração Social Educação e CidadaniaFundação Poder JovemÉ de LeiConexão Saúde Positiva; Coletivo Vertentes; Agência de Notícias da Aids; Hotel BoulevardInn; DKT BrasilUNAIDS Brasil; e UNICEF Brasil.

O projeto Fortalecendo Laços – Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos acontece em parceria com o Programa Municipal DST/Aids, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, através do convênio 026/2015/SMS-G.

Aviso de Licitação

De acordo com a 9433/05, artigo 50, alínea lll, KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço está tramitando a licitação para aquisição de equipamentos referentes ao projeto Comércio Quilombola – Apoio a Grupo de Mulheres Quilombolas no Baixo Sul da Bahia, Edital da  SETRE 001/2014 – SETRE, a partir de dia 28 de agosto de 2017. As cartas serão abertas as 10h30 do dia 6  de outubro de 2017, sob o regime de menor preço.  Aos convidados foi entregue o Memorial descritivo.

Abaixo Especificação de materiais a serem adquiridos, para apresentação de carta proposta de venda, clique e acesse: “Especificação de materiais a serem adquiridos, para apresentação de carta proposta de venda“.

Aids e religiões: um tema central no enfrentamento à epidemia (de preconceito)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ester Lisboa

Dos dias 14 a 17 de setembro aconteceu no Centro de Expansão Crato (CE), o 4º Aids e Religiões. O Seminário foi organizado pela ABEMAVI Associação Beneficente Madre Maria Villac, em parceria com KOINONIA e outras instituições.

Representando KOINONIA, Ester Lisboa ficou responsável pela mística de abertura, trazendo uma reflexão sobre a diversidade e a importância de dividir com o outro os desafios que a Aids traz no seu dia a dia.

O Jogo de tabuleiro humano com informações sobre prevenção de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, “Prevenidas Game”, agitou a oficina “Juventude, Sexualidade e Direitos Humanos”. Na brincadeira, os jovens tiveram a oportunidade de refletir em conjunto sobre a temática da sexualidade, identidade de gênero e saúde.

Em outra oficina, o tema foi “Fé, solidariedade e compromisso na luta contra Aids”.  Iniciando com uma reflexão do Papa Francisco, que recomenda repensar a vida. A oficina evidenciou que o compromisso na luta contra a Aids não é com o vírus (disto os cientistas estão cuidando), mas com pessoas que vivem com HIV, Aids ou que correm o risco de se infectarem.  Para tanto precisamos mergulhar em nós mesmos, a fim de ouvir melhor os outros e sermos capazes de manejar as dificuldades inevitáveis que possam advir.

 

 

 

 

 

 

“O Ser humano é estranho…
Briga com os vivos, e leva flores para os mortos;
Lança os vivos na sarjeta, e pede um “bom lugar para os mortos”;
Se afasta dos vivos, e se agarra desesperados quando estes morrem;
Fica anos sem conversar com um vivo, e se desculpa, faz homenagens, quando este morre;
Não tem tempo para visitar o vivo, mas tem o dia todo para ir ao velório do morto;
Critica, fala mal, ofende o vivo, mas o santifica quando este morre;
Não liga, não abraça, não se importam com os vivos, mas se autoflagelam quando estes morrem…
Aos olhos cegos do homem, o valor do ser humano está na sua morte, e não na sua vida.
É bom repensarmos isto, enquanto estamos vivos!”
(Papa Francisco)

Antes de começarmos a entender as outras pessoas, precisamos entender a nós mesmos. A vontade de ajudar é naturalmente um aspecto muito importante, mas somente ela não será suficiente para um auxílio frutífero e uma cura amigável (cura amigável é a criação de um espaço onde aqueles que sofrem podem dizer as suas estórias a alguém que pode ouvi-los com uma atenção real, sem julgamentos).

No ministério de Jesus vimos a importância de cuidado próprio. Ele sempre teve tempo para estar sozinho, assim como teve tempo para estar com os outros nas suas dificuldades. Jesus tenta em todo tempo ouvir a Deus. Num ritmo de dar e receber: ele ouve as pessoas. Não somente através de suas palavras, mas também do seu coração.

Dossiê Intolerância Religiosa

Criado em 2010 e administrado desde então por KOINONIA, o dossiê reúne conhecimento e informação (desde notícias, passando por artigos acadêmicos, até vídeos) sobre o tema, visando contribuir para a produção de saberes sobre o problema da intolerância religiosa e a qualificação do debate público sobre a questão.

Transversal • Ecumenismo, Superação da Intolerância Religiosa e Justiça de Gênero

O fenômeno da intolerância religiosa tem se desdobrado em inúmeras formas de rejeição à diferença, seja ela sexual, racial ou cultural. Com atenção a essa complexidade, “Ecumenismo, Superação da Intolerância Religiosa e Justiça de Gênero” se constitui num eixo de trabalho norteador de cada prática de KOINONIA, tanto em seus vários campos e territórios geográficos de atuação, quanto no que se refere à diversidade das populações com as quais tem caminhado.

Nesse sentido, as ações voltadas para a defesa e expansão de direitos de comunidades tradicionais (terreiros de Candomblé e quilombos); mulheres; e lésbicas, gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBTTs), passam simultânea e necessariamente pela afirmação da importância do diálogo e da liberdade religiosa. Passam ainda por uma visão do ecumenismo apoiada em três dimensões centrais: o empenho pela aproximação e colaboração entre os cristãos; a aliança solidária com os que promovem a justiça, a paz e a defesa dos bens comuns; e o inadiável e necessário diálogo igualitário entre as diferentes tradições religiosas.

Além de orientar o conjunto de atividades institucionais, este eixo de trabalho abriga iniciativas voltadas exclusivamente ao enfrentamento da intolerância e promoção do diálogo inter-religioso, que dedicam-se à produção de dados, difusão de informação e conhecimento; incidência pública; participação e controle social; e estímulo ao debate de temas e questões implicados na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.


PROJETOS E INICIATIVAS

IMG_1573Ações de Incidência Pública | KOINONIA atua nacional e internacionalmente, articulando-se com outras instituições e movimentos, a fim de produzir mudanças políticas e sociais que se traduzam na garantia e expansão dos direitos de grupos histórica e culturalmente vulneráveis.

Memórias Ecumênicas Protestantes no Brasil | Dedica-se a registrar, organizar e tornar pública a memória da participação protestante na luta pela democracia durante o período da Ditadura Civil-Militar, por meio da criação de um Acervo Digital Multimídia.

PELO FIM DA CALAMIDADE SOCIAL

Calamidade Pública: “Trata-se de uma situação anormal, provocada por fatores adversos, resultante da ação humana ou catástrofes ocasionadas por fenômenos naturais, que causam o caos na comunidade pelo não atendimento de suas necessidades básicas”[1]

A Intolerância Religiosa exercida pela mão armada do crime organizado no Rio é a expressão mais aguda do Estado de Calamidade (Pública) Social que nós, cidadãs e cidadãos, queremos que seja oficialmente declarado. Dessa forma, não existirão mais desculpas para que não sejam empreendidas ações continuadas de enfrentamento ao ódio religioso, nos territórios onde ele se apresenta, para além de iniciativas pontuais, datadas e restritas, compreendendo tão simplesmente a repressão aos crimes, sem simultâneas intervenções sociais e educativas. Declarar “Estado de Calamidade” permite o uso de recursos nacionais e até mesmo apoios internacionais.

O que se vê noticiado, filmado e viralizado nas redes sociais infelizmente não é novo. Estas expulsões de comunidades e líderes religiosos, com destruição e depredação de templos de matriz africana pelo crime, foram inclusive as principais motivações iniciais para que se criasse, em 2008, a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro (CCIR).

A Intolerância Religiosa lamentavelmente é parte da nossa cultura. Desde a colonização,  com a demonização, acusação de charlatanismo e proibições legais dos cultos. Presentes também há séculos no Brasil, as religiões de matrizes africana e afro-brasileira têm sido as mais severamente atingidas: condenações de feitiçaria, demonolatria, magia negra… A referência à cor não é gratuita.

O fenômeno fundamentalista neopentecostal não inventou nem a intolerância religiosa nem o racismo. Ele se valeu de ideias preconceituosas que já existiam e potencializou o racismo intolerante, se propondo ao “exorcismo” do outro, em supostos espetáculos contra o “mal”. Particularmente o que ocorre no Rio vem sendo denunciado há anos. Os dados de 2005 para cá demonstram um crescimento de 400% nos casos registrados pelo Disque 100. Embora poucos em números absolutos, há uma taxa de crescimento absurdamente elevada e veloz. É como se um câncer social se alastrasse.

A gravidade, a ameaça, a violência do uso do poder bélico do crime em um território ocupado devem ser combatidos. Começar por Nova Iguaçu e seguir noutros municípios com o reconhecimento do Estado de Calamidade Social (valendo-se do instrumento da Calamidade Pública) é urgente. Não pelo número de pessoas já atingidas, mas pelo poder de propagação e necessidade de contenção de um mal social que já alcançou até escolas (professores/as são mais intolerantes de acordo com pesquisas e relatórios recentes).

É preciso ir além do espetáculo grotesco das notícias policiais, que em pouco tempo esgotam a capacidade de manter a questão da intolerância no centro do debate público. É urgente uma ação ampla e continuada que garanta  não só repressão, mas o apoio em múltiplas frentes às pessoas que obviamente desejam exercer seu direito à liberdade religiosa.

Hoje religiões são demonizadas e agressões materiais e físicas perpetradas. Homicídios podem vir em breve. A sociedade é corresponsável e deve exigir ações como a declaração de Estado de Calamidade Social aqui defendida. Amanhã será a sua religião atacada, sua igreja ou templo. Mas não só isso: sua aparência, suas roupas, seus adereços, sua identidade sexual… Tudo poderá vir a ser motivo de execução sumária. Uma organização armada, a pretexto ou baseado na fé, criou no Oriente o grupo auto-denominado Estado Islâmico (totalmente o oposto aos legítimos seguidores do Islã). Este é um fenômeno que pode se repetir e propagar no Brasil, inicialmente com a máscara inaceitável de criminosos comuns, mas que podem ter adeptos em outros nichos sociais – como já se ouviu falar de milícias santas. Não há justificativa para a violência baseada na fé – muito menos a fé cristã declarada pelos agressores!

Clamamos pela ação ampla pública e com recursos nacionais e internacionais suficientes, em prazo adequado e sustentável, de modo a nos tirar do medo. Queremos professar a alegria e o dom divino da vida contra toda força da morte. Queremos evitar o câncer social e faremos nossa parte. Orando, rezando, indo às ruas e o que mais estiver ao nosso alcance na paz, com justiça! Nossa cidadania não permite e nossa ética religiosa nos proíbe de calar.

[1] Saiba mais em JusBrasil https://goo.gl/ZcAJm9; Artigos 21, inciso XVIII, e 148, inciso I, da Constituição Federal Artigo 61, inciso II, alínea “j”, do Código Penal.

“Vários desses traficantes foram formados em lares evangélicos”, diz pesquisadora

As recentes imagens da violência intolerante contra religiosos de matriz africana escancararam um problema recorrente desde pelo menos a década passada: a ameaça de grupos armados aos cultos afro em favelas e bairros populares do Rio. Além do horror e indignação frente às cenas de agressão, os vídeos recentes também fizeram ressurgir questões a respeito de como o ódio religioso pôde ter chegado a tal ponto.

Segundo a professora do Departamento de Sociologia da UFF e autora do livro Oração de Traficante: Uma Etnografia (Ed. Garamond), Christina Vital, esse nível intolerância tem a ver com um caldo de cultura que mistura religiosidade popular, o que chama de “teologia do domínio” com o contexto de violência produzido pela relação do Estado com as periferias urbanas.

Christina conta que, nos anos 2000, apareciam sinais decisivos de uma virada evangélica nas favelas e periferias do Rio de Janeiro. Este é um fenômeno que, para muito além de apenas religioso, tem se refletido em diferentes aspectos do cotidiano das comunidades: na visão de mundo de moradores, no comércio, na estética e nos valores. Todas essas transformações – que se deram em diferentes escalas de região para região – estão ligadas ao fortalecimento de uma verdadeira cultura neopentecostal que floresce nesses lugares.

Como outros habitantes desses espaços, os traficantes também receberam esse tipo de influência, alguns deles inclusive crescendo em famílias evangélicas. Christina explica que, embora a intolerância não caracterize tais comunidades de fé, há lideranças que têm estimulado a ideia de uma batalha espiritual em curso. Nela o mal estaria situado justamente naqueles grupos mais vulneráveis socialmente: os adeptos das religiões de matriz africana. Confira a entrevista.

 

Na cabeça de pessoas já envolvidas com controle armado de territórios e possivelmente com outras atividades ou condutas criminosas não há contradição entre suas práticas e certas bases do discurso cristão (mesmo aquele vinculado ao neopentecostalismo)? Como essas contradições se acomodam?

Há uma questão para os traficantes que se auto-declaram “traficantes evangélicos”, “traficantes de Jesus”, “traficantes do senhor”, pois isso é algo delicado tanto para alguns traficantes quanto para as comunidades religiosas locais. Em parte porque, embora vários traficantes participassem da vida na igreja, vão semanalmente a cultos, participem de campanhas e escrevam diários onde falam do desejo de passar a uma vida “correta”, vários deles têm dificuldade de assumir essa identidade porque acabam não se vendo integralmente naquele exercício ético e disciplinar anunciado proposta evangélica pentecostal. Por outro lado, outros falam que são evangélicos e são de Cristo. Agora, na comunidade evangélica essa é uma questão muito séria, porque não são poucos os membros rechaçam essa proximidade, afirmando que os criminosos não são evangélicos de verdade. E estes quando assim se anunciam provocam reações de membros da comunidade religiosa que, por sua vez, insistem que aquilo é um “falso testemunho”, um testemunho ruim para os evangélicos. Um “traficante evangélico” é algo encarado como mancha moral sobre a percepção a respeito dos evangélicos em geral. Então muitas são as pessoas críticas dessa aproximação. Algumas delas tem se pronunciado em redes sociais para afirmar que esses traficantes não os representam.

De outro lado, várias das ações que partem de um ou mais chefes do tráfico parecem perder a intencionalidade primeira – que é de inspiração religiosa – se transformando em instrumentos como quaisquer outros de demonstração de força, de intimidação do outro, o que passa também pelo campo religioso. Então, para além do objetivo que nos parece mais claro – que é coibir a presença, o crescimento e, no limite, a existência de religiões de matriz africana em favelas -, esse também é um comportamento que visa exibir força e poder local e deseja agradar a uma comunidade imaginada pelos traficantes em questão. Uma comunidade que, na cabeça dos criminosos, aprovaria uma medida violenta como a que vimos nos vídeos. Afinal estamos falando de favelas com presença majoritariamente evangélica.

 

Como começa a aproximação de alguns grupos que atuam no varejo da droga em comunidades pobres do Rio de Janeiro e seus líderes com a cultura neopentecostal?

A primeira coisa pra pensar essas aproximações é ter em mente que esses traficantes integram um contexto cultural das favelas e periferias que, a partir da década de 1990 e mais acentuadamente nos anos 2000, é marcado pela presença do pentecostalismo, com sua gramática e sua estética. Vários desses traficantes foram formados em lares evangélicos, compondo uma segunda ou terceira geração pentecostal em suas famílias. Desse modo, o referencial moral e estético pentecostal já lhes era de acesso simples no núcleo familiar, assim como nos contatos cotidianos nos seus lugares de moradia. Durante o desenvolvimento do meu trabalho encontrei muita dificuldade inclusive no universo da pesquisa sociológica e antropológica de religião para desenvolver esse argumento. A literatura que relacionava o mundo do crime com o das religiões de matrizes africanas não sofria estranhamento nem por parte de pesquisadores e nem da sociedade. Mas dada a ética e o lugar moral que o cristianismo tem no Brasil e no mundo, a proximidade do crime com uma religião que se apresenta como eticamente superior – com uma disciplina que orienta uma conduta correta – a ideia de um traficante evangélico foi de difícil assimilação. Quando comecei a apresentar dados etnográficos sobre a questão não foi fácil. Várias pessoas duvidavam que poderia existir algo como um “traficante de Jesus”, pois de fato essa figura representava afinidade entre dois universos aparentemente incompatíveis.

Na década de 1990 ainda existiam muitos registros do contato de traficantes com o universo católico popular e mesmo com religiões afro-brasileiras. Eles usavam guias, faziam tatuagens com santos e entidades. Mas nos anos 2000 fui observando uma mudança tanto no uso corporal das imagens como nas pinturas em paredes das comunidades. Se na década de 1990 eram os santos que operavam por um sincretismo – se aparecia um São Jerônimo, que ao mesmo tempo poderia ser Xangô; ou São Cosme e São Damião, sempre como uma referência às religiões afro-brasileiras -, isso muda nos anos 2000, quando surgem trechos bíblicos, usualmente do antigo testamento, apresentando-se numa estética que remetia aos textos históricos antigos, em papiros.

Numa das facções, o Terceiro Comando Puro, houve a conversão de um traficante importante para a vinculação de outros a essa gramática e estética pentecostais, bem como para a difusão das pinturas que mencionei na favela de Acari, que foi meu caso etnográfico. Mas isso aconteceu em outras favelas também como no Santa Marta, na Rocinha, em comunidades da Maré e da Baixada Fluminense.

 

Você acha que hoje a atuação de igrejas com esse perfil em unidades prisionais pode de alguma forma reforçar a identificação de membros de facções com certa visão de mundo religiosa, que prega a existência de uma espécie de guerra espiritual do bem contra o mal? 

 A passagem pelo sistema prisional é absolutamente fundamental na atividade criminosa. Isso de modo geral. Porque até quem não tem facção, no sistema prisional ou em unidades sócio-educativas, é dividido por facção. Então você é empurrado pelo Estado para assumir uma identidade com o crime. E em razão disso vem surgindo uma nova facção em presídios que se apresenta a partir de uma gramática religiosa cristã. Então a passagem pelo presídio é importante para esse processo também, juntamente com o contexto cultural mais geral. No presídio também há uma ação religiosa bem significativa. Eu mesma entrevistei para meu livro um traficante que tinha se convertido na prisão e esse não é um caso isolado.

 

Diante da violência escancarada em vídeos que passaram a circular essa semana, movimentos, organizações e representantes de religiões de matriz africana têm – e com razão – exigido ações do poder público frente à intolerância. Acontece que as vítimas e espaços religiosos em questão se encontram em lugares onde tradicionalmente o Estado tem uma presença, sobretudo, policial, cuja lógica de intervenção é tão conhecida quanto ineficaz. É o momento de dialogar com líderes religiosos pentecostais que atuam nessas comunidades? É um diálogo possível?

De fato é um momento excelente para organizações e grupos que atuam no Estado produzirem diálogo com diferentes lideres pentecostais. Tem uma questão aí que é pensar a complexidade desse fenômeno, porque não há só lideranças que insuflam o ódio. Há lideres sérios que estão militando pela melhoria de vida de um número significativo de pessoas. Então é preciso que aqueles que têm uma atuação mais respeitosa em relação ao outro comecem a ganhar espaço. Os evangélicos raivosos não representam a maior parte dos evangélicos no Brasil. É preciso que se faça pesar um estigma sobre os intolerantes. Porque se religião é ligada a paz, acolhimento e amor, o que esse tipo de discurso prega é completamente diferente. As bases desse tipo de pregação não são novas. Elas têm a ver inclusive com uma teologia do domínio que prega o combate ao mal, localizado este mal justamente em grupos mais vulneráveis socialmente.

 

 Campanhas de esclarecimento são capazes de atingir aqueles que acreditam lutar contra um mal absoluto?

 Acho que além de serem capazes de atingir essas pessoas, sim, essas campanhas podem formar gerações. O mais importante é atuar de modo contundente em torno da noção de respeito e de liberdade. O que se quer não é que as pessoas gostem das mesmas coisas ou que se sintam representados pelas mesmas manifestações, mas que se compreenda os limites das possibilidades de ação religiosa. Se trata de fortalecer uma noção de respeito, onde o outro pode escolher o que quer sem ser agredido por isso. Pode ser por meio de campanhas publicitárias, campanhas do Estado, inclusive aquelas dirigidas a escolas públicas, que devem ser lugares de diversidade. Hoje quando falamos de diversidade só se pensa em sexo, mas não é só isso. É uma questão de respeitar a opinião do outro. O fundamental é insistir no respeito à diversidade e na produção de estigmas sobre os intolerantes, porque esse tipo de comportamento é insustentável num mundo globalizado de encontros culturais intensos e constantes.

TRANSCIDADANIA

Publicação revista
O Brasil é o país número um em assassinatos de transexuais e travestis, com mais de 600 mortes entre 2008 e 2014. O dado é da Transgender Europe (TGEU) – rede européia de entidades de apoio aos direitos da população transgênero – e mostra a face mais radical da discriminação e negação de direitos experimentada por travestis e transexuais também em outras dimensões da vida como as da saúde, educação, trabalho e outras.

Superar essa situação de violência requer um projeto de cidadania comprometido com a população transgênero, o que na prática quer dizer implementar políticas públicas que tenham como principal objetivo superar a discriminação em todas as áreas. Um dos primeiros passos nessa direção foi dado, em 2014, pela prefeitura de São Paulo na criação do projeto Transcidadania, que tem KOINONIA como parceira na execução.

A iniciativa visa contribuir para que a população transgênero também faça parte da experiência cidadã, oferecendo oportunidades de escolarização, profissionalização, colocação no mercado de trabalho e formação sobre seus direitos. Atualmente são 100 pessoas participando do projeto, onde recebem atendimento individual de profissionais de assistência social, psicologia e pedagogia e passam por um processo formativo com módulos que tratam de temáticas que vão desde a discussão de direito a cidade e acesso a diversidade de bens culturais até a questão dos direitos e as dinâmicas sociais que podem levar ao fortalecimento, extinção ou inexistência destes.

Logos


 

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REVISTA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Edição 2 no ar www.revistaintoleranciareligiosa.com
Reunir contribuições analíticas da academia, de movimentos e organizações da sociedade civil, que possam interferir no debate público de forma qualificada, responsável e, se possível, ajudando a construir caminhos para o enfrentamento das múltiplas formas de violência baseadas na fé. Esse é o objetivo da Revista Intolerância Religiosa. Confira!