Tapera - RJ
História:
A comunidade remanescente de quilombo Tapera está situada no município de Petrópolis, na Região Serrana do estado do Rio de Janeiro, em área historicamente marcada pela expansão das grandes propriedades rurais, pela escravidão e, posteriormente, por intensos processos de urbanização e valorização imobiliária. A formação histórica da Tapera está diretamente vinculada à trajetória de Sebastiana Augusta da Silva, mulher negra escravizada cuja memória é preservada pela comunidade como ancestral fundadora do território.
De acordo com as narrativas orais transmitidas entre gerações, ao longo da segunda metade do século XIX, Sebastiana Augusta da Silva, mulher negra escravizada, viveu, constituiu família e se estabeleceu nas terras da antiga Fazenda Santo Antônio. Essas terras teriam sido destinadas a ela por meio de testamento lavrado por Agostinho Corrêa da Silva Goulão, fato que marca o início de uma ocupação negra contínua na localidade. A partir desse núcleo familiar, estruturou-se uma rede de parentesco que garantiu a permanência de descendentes de pessoas escravizadas no território, configurando a Tapera como espaço de reconstrução da vida negra no contexto do pós-abolição, a partir do final do século XIX.
A pesquisa histórica e antropológica evidencia que a Tapera não se constituiu apenas como local de moradia, mas como território socialmente produzido, no qual se articularam relações de parentesco, práticas de trabalho, formas próprias de uso da terra e sistemas de transmissão de saberes. Ao longo de mais de um século, consolidaram-se conhecimentos associados à ancestralidade africana, como o uso de plantas medicinais, práticas de cuidado comunitário, modos específicos de relação com a terra e formas de espiritualidade que estruturam a identidade quilombola local.
Esses elementos foram preservados mesmo diante de processos recorrentes de expropriação e pressões externas. A partir do século XX, a Tapera passou a sofrer impactos cada vez mais intensos da expansão urbana de Petrópolis, especialmente com a valorização imobiliária, a implantação de condomínios residenciais de alto padrão e a sobreposição de interesses privados sobre áreas tradicionalmente ocupadas pela comunidade. Esses processos produziram situações de confinamento territorial, restrições ao uso da terra e conflitos fundiários persistentes, que afetaram diretamente as condições de reprodução social da comunidade .
No início do século XXI, tais vulnerabilidades estruturais foram agravadas pela tragédia climática de 2011, que atingiu severamente a Região Serrana do Rio de Janeiro. Os deslizamentos de terra provocaram destruição de moradias, perdas materiais significativas e aprofundamento das desigualdades historicamente enfrentadas pela Tapera. Apesar disso, a comunidade reafirmou sua capacidade de organização coletiva, fortalecendo redes de solidariedade interna e mobilização política em defesa do território e de seus direitos.
Ainda em 2011, a certificação da Tapera como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares representou um marco fundamental. Mais do que um reconhecimento formal, a certificação legitimou institucionalmente uma história de longa duração já afirmada pela memória coletiva, pela ocupação contínua da terra e pelas práticas culturais transmitidas entre gerações. Esse reconhecimento impulsionou novas formas de articulação política, ampliou a visibilidade pública da comunidade e fortaleceu as reivindicações por regularização fundiária e proteção territorial.
No presente, a Tapera se afirma como território quilombola vivo, marcado pela articulação entre memória, ancestralidade e luta por justiça territorial. A comunidade segue enfrentando desafios relacionados à titulação da terra, à pressão imobiliária e às desigualdades socioambientais, ao mesmo tempo em que desenvolve iniciativas culturais, educativas e políticas voltadas à valorização de sua história e à afirmação de sua identidade coletiva. Assim, a Tapera permanece como símbolo da resistência negra em Petrópolis e da centralidade dos territórios quilombolas na compreensão da história do pós-abolição no Brasil.
Origem do nome: O nome Tapera tem origem no termo de matriz tupi que designa casa ou povoado abandonado, muito utilizado no Brasil para indicar antigos locais de moradia. No caso do quilombo Tapera, o nome remete à ocupação histórica negra em área anteriormente vinculada a uma fazenda, ressignificada pela permanência e reconstrução da vida comunitária. Assim, a Tapera expressa a transformação de um espaço marcado pelo abandono em território de resistência e ancestralidade.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Petrópolis
Número de famílias: 27
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 16 de março de 2011. Processo: 01420.002953/2011-95
Referência:
DA COSTA, Diogo Ferreira. Audiência pública trata sobre a titulação do Quilombo da Tapera. Câmara Municipal de Petrópolis, Petrópolis, 2025. Disponível em: https://www.petropolis.rj.leg.br/institucional/noticias/audiencia-publica-trata-sobre-a-titulacao-do-quilombo-da-tapera. Acesso em: 14 nov. 2025.
DA COSTA, Diogo Ferreira. Quilombo da Tapera: a memória do povo africano em Petrópolis. Tribuna de Petrópolis, Petrópolis, 2018. Disponível em: https://tribunadepetropolis.com.br/noticias/quilombo-da-tapera-a-memoria-do-povo-africano-em-petropolis/#google_vignette. Acesso em: 14 nov. 2025.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Certidão de Autorreconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo Sossego. Processo nº 01420.002953/2011-95. Brasília, DF, 11 maio 2011.
GOULART, Pablo Gomes. Comunidade remanescente de quilombo da Tapera (Petrópolis, RJ): visões de passado em contexto de presente. 2022. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2022. Disponível em: https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/15137. Acesso em: 14 nov. 2025.
OBSERVATÓRIO DO PATRIMÔNIO NORTE FLUMINENSE. Quilombo São Benedito. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, [s.d.]. Disponível em: https://observatoriopatrimonionf.uenf.br/patrimonio/quilombo-sao-benedito/. Acesso em: 7 nov. 2025.
QUILOMBO DA TAPERA. Perfil oficial no Instagram. Instagram, [s.d.]. Disponível em: https://www.instagram.com/quilombodatapera/. Acesso em: 14 nov. 2025.
REDAÇÃO O DIA. Quilombo da Tapera realiza primeiro evento cultural aberto ao público neste domingo. O Dia, Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://odia.ig.com.br/petropolis/2025/07/7099851-quilombo-da-tapera-realiza-primeiro-evento-cultural-aberto-ao-publico-neste-domingo.html. Acesso em: 14 nov. 2025.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Tapera (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart.
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 24/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
