Sossego - RJ
História:
A comunidade remanescente de quilombo Sossego está localizada na zona rural do município de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, no distrito de Dores de Macabu. Trata-se de uma comunidade negra rural cuja trajetória histórica está profundamente marcada por processos de silenciamento, apagamento e reconfiguração das memórias coletivas, especialmente no que se refere às práticas culturais, religiosas e aos saberes tradicionais de matriz africana, construídos a partir da experiência histórica da população negra no território.
A formação histórica do Sossego insere-se no contexto da expansão da monocultura canavieira e do regime escravista que estruturou a economia e a sociedade campista entre os séculos XVIII e XIX. Nesse período, Campos dos Goytacazes consolidou-se como um dos principais polos produtores de açúcar do Sudeste, sustentado pela exploração intensiva do trabalho de africanos escravizados. Após a abolição formal da escravidão, em 1888, as estruturas sociais, econômicas e raciais herdadas do período escravista permaneceram operando, restringindo o acesso da população negra à terra, ao trabalho digno e a direitos básicos, o que resultou na marginalização das comunidades negras rurais e na permanência em condições precárias.
É nesse cenário do pós-abolição que se consolida o Quilombo Sossego, a partir da permanência de famílias negras no território anteriormente vinculado a antigas fazendas. Ao longo do tempo, essas famílias construíram formas próprias de organização social baseadas nos vínculos de parentesco, na memória compartilhada e no uso coletivo do território. Práticas culturais e religiosas de matriz africana, saberes de cura, rezas e rituais integraram o cotidiano da comunidade, embora tenham sido progressivamente silenciados diante do racismo estrutural, do preconceito religioso e das pressões para adequação aos valores dominantes da sociedade envolvente.
Apesar desses processos de ocultação da memória, a identidade quilombola do Sossego não se dissolveu. A comunidade permaneceu fortemente ancorada no pertencimento territorial, nas relações familiares e na valorização da terra como espaço de proteção, bem-estar e ancestralidade. O território segue sendo compreendido como herança histórica coletiva, o que se expressa na resistência à saída do local, mesmo diante das dificuldades econômicas, da migração temporária para o trabalho e da ausência prolongada de políticas públicas adequadas. Essa permanência histórica e simbólica fundamenta, no presente, as reivindicações por reconhecimento e proteção do território enquanto espaço de memória e de direitos.
Nesse sentido, além do reconhecimento quilombola, o Sossego foi objeto de tombamento por interesse histórico e cultural do Estado do Rio de Janeiro, nos termos da Lei Estadual nº 8.565, de 2019. O tombamento reconhece o Quilombo Sossego como bem de relevante valor histórico, social e cultural, associado à história da escravidão, do pós-abolição e às formas de resistência e permanência das comunidades negras rurais no estado. Trata-se de um importante instrumento de salvaguarda do território e de seus referenciais materiais e imateriais, reforçando a proteção da memória coletiva e o reconhecimento público de sua importância histórica.
Fundamentada no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 e no Decreto nº 4.887/2003, a comunidade foi oficialmente certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 12 de junho de 2017. No presente, o Quilombo Sossego se afirma como território quilombola vivo, atravessado por memórias, silêncios e resistências, mas também por processos de reconstrução histórica, fortalecimento do autorreconhecimento identitário e reivindicação de direitos territoriais, sociais e culturais, reafirmando sua permanência e relevância no tempo presente.
Origem do nome: O nome Sossego está associado à memória do território como lugar de abrigo, tranquilidade e proteção para famílias negras que ali permaneceram após a escravidão. A denominação expressa o contraste entre a violência do cativeiro e a possibilidade de viver, trabalhar e constituir família em um espaço de maior segurança. Assim, o nome carrega um sentido simbólico de refúgio, permanência e dignidade no pós-abolição.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Campos dos Goytacazes
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 12 de junho de 2017. Processo: 01420.001173/2007-41
Referência:
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 nov. 2003. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/d4887.htm. Acesso em: 23 jan. 2026.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Certidão de Autorreconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo Sossego. Processo nº 01420.001173/2007-41. Brasília, DF, 12 jun. 2017.
OBSERVATÓRIO DO PATRIMÔNIO NORTE FLUMINENSE. Quilombo São Benedito. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, s.d. Disponível em: https://observatoriopatrimonionf.uenf.br/patrimonio/quilombo-sao-benedito/. Acesso em: 7 nov. 2025.
PINTO, Gabriele de Souza. Entre o esquecer e o lembrar: um estudo acerca das memórias do Quilombo Sossego/RJ. 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Sociais) – Universidade Federal Fluminense, Campos dos Goytacazes, 2023.
RIO DE JANEIRO (Estado). Lei nº 8.565, de 11 de outubro de 2019. Dispõe sobre o tombamento por interesse histórico e cultural do Estado do Rio de Janeiro do Quilombo Sossego, localizado no município de Campos dos Goytacazes. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 11 out. 2019. Disponível em: https://leisestaduais.com.br/rj/lei-ordinaria-n-8565-2019-rio-de-janeiro. Acesso em: 23 jan. 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Quilombo de Campos dos Goytacazes. Projeto Impressões Rebeldes. Niterói: UFF, s.d. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/quilombo-de-campos-dos-goytacazes/. Acesso em: 23 jan. 2026.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Sossego (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart.
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 23/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
