Sobara - RJ
História:
Nossa caminhada tem início com uma breve história sobre a comunidade de Sobara, localizada na região rural do município de Araruama, Rio de Janeiro, integrando há gerações um dos distritos do município, São Vicente de Paulo. Para chegar, percorremos aproximadamente 18 km de “estrada de chão”. A paisagem é predominantemente rural, com pastos, canaviais e plantações de laranja, o que nos desperta a atenção para a beleza e desconformidade do que é possível observar no espaço urbano. O acesso à comunidade é dificultoso, seja pela condição das vias, seja pelo transporte coletivo disponível para acesso, com horários bastante restritos.
A partir de narrativas fragmentadas, o “tempo antigo” de Sobara foi se construindo. Histórias sobre famílias e sobrenomes de senhores e seus escravos, senzalas, capatazes e, principalmente, a instigante história de uma escrava, que recebeu como doação de um fazendeiro a terra hoje ocupada pela comunidade. Uma escrava de nome desconhecido, mas teria deixado a herança de todo o seu patrimônio para sua neta Cesárea, uma emblemática personagem nos relatos orais dos moradores do lugar. Porém essa é uma história sem maiores detalhes e em partes. Registros confirmam que, em São Vicente de Paulo, a população de escravos era bastante expressiva na segunda metade do século XIX. O comércio de escravos também foi uma atividade intensa, incentivado pela produção de café na região. Porém, a cultura do café já apresentava sinais de decadência no final do mesmo século, decadência que se estendeu por grande parte do século XX. Entre os anos 20 e 60 do século XX, impactos na paisagem vegetal foram agravados com a sistemática produção de carvão nas fazendas da região. Já na segunda metade do século, esses impactos estavam diretamente ligados à expansão das plantações de laranja, pecuária e pelos canaviais da empresa Agrisa, instalada na região.
Os detalhes sobre a escravidão são difíceis de levantar, pois têm causado constrangimento ou receio entre os moradores. A justificativa para tamanha dificuldade em tocar no assunto está relacionada a alguns fazendeiros da localidade com os quais um grupo da comunidade manteve relações trabalhistas. Esses fazendeiros foram denunciados e condenados pela justiça por praticarem em suas propriedades formas de trabalho equivalentes à escravidão, o caso teve ampla repercussão na imprensa. Sobre o assunto, o relato dos mais antigos na comunidade, trata de uma prática comum na região: a doação de terras para escravos ou ex-escravos. Desses relatos se reproduz a história mais marcante sobre “o tempo da escravidão” em Sobara, a história de Cesárea, herdeira de um ‘pedaço da terra’ que o fazendeiro Manoel Gonçalves deu para a sua avó, escrava de seu plantel. Seu Narciso não chegou a conhecer Cesárea, mas registra que sua situação de herdeira era conhecida por todos e que os ‘marcos de pedra’ que delimitavam sua terra estiveram intactos por muito tempo, mas que foram ‘derrubados pelo trator da Agrisa’. Dessa forma, a memória da escravidão em Sobara parece ter se materializado na figura de uma ‘herdeira’ e não de uma escrava.
Há aproximadamente 30 anos, a empresa se instalou e alterou profundamente tanto o cenário econômico quanto a geografia da localidade. Apesar de ser apontada como a maior responsável pelo desmatamento e pela decadência da lavoura branca, a empresa é considerada por muitos moradores a solução para o sustento das famílias e a principal barreira para a demanda coletiva por retomada de terras ocupadas. “Mesmo cercados por canaviais, os moradores de Sobara ali permanecem e não pretendem sair. Ressaltam que Sobara é o ‘lugar da gente’, o lugar de seus antepassados, de seus parentes, onde nasceram seus filhos, ‘lugar sossegado’ e da vizinhança solidária”. Lugar que, por muito tempo, teve como principal sustento das famílias, a agricultura familiar pelo cultivo de milho, feijão, batata, banana, cajá, laranja, urucum, aipim, mandioca brava, além da criação de animais de pequeno porte, como galinhas e porcos. As famílias vendiam o excedente para São Vicente e proximidades, como Sobradinho e Três Vendas, elas também recebiam compradores em suas casas. Segundo relato de moradores, havia muitas “vendas” na região, muitos plantavam e viviam da roça. Cenário que sofreu profundas transformações desde a chegada da Agrisa. Hoje, a agricultura familiar está reduzida, mas as famílias resistem, mantendo as roças de mandioca, árvores frutíferas e criação de animais de pequeno porte. As causas apresentadas pela comunidade para a decadência da agricultura familiar são: o desgaste da terra, a escassez de terra para o cultivo, falta de tempo pelas extensas horas de trabalho, principalmente nos canaviais da Agrisa, e a atuação de funcionários do Ibama, que frequentemente abordam os moradores, proibindo-os de roçar áreas consideradas “matas” pelos técnicos. Porém os moradores não compreendem por que não podem roçar, mas a Agrisa pode plantar cana. Esses são desafios que têm acompanhado a comunidade há alguns anos, conflitos que parecem ser de difícil caminho para a solução e, atualmente, a questão de terras está em disputa, seja pela tímida organização política da comunidade, seja pelo receio de um conflito direto com a Agrisa.
Mesmo diante desse quadro, essa “gente do lugar” ali permanece, alimentando esse desejo, buscando soluções e se refazendo. A religiosidade, nesse processo, talvez seja um importante “ponto de convergência” dos laços e de união. Grande parte da comunidade é frequentadora da igreja Assembleia de Deus. Apesar de informarem que os cultos nos lares ocorram há décadas, o número de “convertidos” aumentou na década de 1970. A relação com a escola, atualmente, em Sobara também é muito valorizada por seus moradores, a Escola Municipal Pastor Alcebíades Ferreira de Mendonça aparece no censo como instituição de ensino em área quilombola, desde 2006.
Sobara é uma comunidade que vem se ressignificando, despertando-se para organizar e reivindicar seus direitos com o auxílio de órgãos competentes e aos poucos estão se (re)descobrindo. A associação de moradores da comunidade aponta pequena melhoria no transporte coletivo, uma entre as principais reivindicações, já que em 2019 conquistaram um posto de saúde, tão sonhada demanda, realizada com ajuda da defensoria pública, após anos de luta, mas que ainda precisa de recursos. Além da melhoria no transporte público, a associação também aponta como recentes demandas o saneamento básico e a melhoria da estrada de acesso, que é dificultoso, principalmente, em períodos de chuva tanto para profissionais, quanto para a comunidade.
Em 2006 a comunidade de Sobara foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares e abriu processo administrativo pela titulação do território no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA - 54180.001502/2006-18), que ainda segue em tramitação.
Origem do nome:
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Araruama
Número de famílias: 30
Estágio no processo e regularização territorial: Certificado pela Fundação Cultural Palmares em 28/07/2005 - Processo: 01420.001750-2006-14 - Incra - Processo: 54180.001502/2006-18.
Referência:
BATISTA, Ana Carolina Mota da C. Relações étnico-raciais no contexto quilombola: currículo, docência e tecnologia. Curitiba : Appris, 2020.
BATISTA, Ana Carolina Mota da C. Relações étnico-raciais na voz do professor: os debates curriculares no contexto quilombola. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Departamento de História, 2016.
CORDEIRO, Nayara Araujo. Titulação como garantia de direitos: limites e entraves para a regularização fundiária das comunidades quilombolas Prodígio e Sobara (Araruama-RJ). Dissertação (mestrado) - Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Serviço Social 2012.
MALHEIROS, Márcia. Terra da Cesária, Terra Solta, Terra de negócio: a comunidade de Sobara no processo de identificação e delimitação de terras quilombolas no Rio de Janeiro. In: O’DWYER, Eliane Cantarino (org.). O fazer antropológico e o reconhecimento de direitos constitucionais: o caso das terras de quilombo no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: E-papers/Laced, 2012. p. 68-112.
Redação: MOTA, Ana Carolina. Quilombo Sobara. IN: Atlas Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço. 18 de setembro de 2020.
Pesquisas: Entrevista com a líder comunitária de Sobara, Rosiele Vasconcelos da Silva Conceição, 2020.
Verbete atualizado em 23/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
