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São Jacinto Campos Novos - RJ

História:

A comunidade remanescente de quilombo São Jacinto está localizada no município de Cabo Frio, na Região das Baixadas Litorâneas do estado do Rio de Janeiro, área historicamente conhecida como Região dos Lagos. Trata-se de um território cuja ocupação está profundamente vinculada aos processos coloniais iniciados no século XVII, marcados pela disputa territorial, pela presença de ordens religiosas, pela exploração econômica e pelo uso sistemático de mão de obra indígena e africana escravizada.

Além de São Jacinto, destacam-se na região outras comunidades remanescentes de quilombo, como Botafogo, Preto Forro, Maria Romana, Maria Joaquina e Fazenda Espírito Santo, todas, de diferentes maneiras, historicamente relacionadas à antiga Fazenda de Campos Novos, um dos principais empreendimentos coloniais da região.

A história da Fazenda de Campos Novos remonta aos conflitos do início do século XVII, quando a região de Cabo Frio se tornou alvo de investidas estrangeiras, sobretudo de franceses, ingleses e holandeses, interessados na extração do pau-brasil e em alianças comerciais com grupos indígenas hostis à presença portuguesa. Em resposta a essas ameaças, a Coroa portuguesa promoveu a ocupação militar e religiosa da região, articulando o estabelecimento de fortificações, aldeamentos indígenas e concessões de sesmarias.

Nesse contexto, em 1617 foi fundado o aldeamento de São Pedro do Cabo Frio, com indígenas oriundos da capitania do Espírito Santo. A partir de 1630, com a incorporação definitiva da região à Coroa e a reorganização administrativa da então Capitania da Paraíba do Sul, iniciou-se uma nova fase de distribuição de terras. As ordens religiosas, especialmente a Companhia de Jesus, passaram a desempenhar papel central nesse processo.

Os jesuítas estabeleceram um vasto complexo territorial baseado no tripé colégio–aldeamento–fazenda, articulando o Colégio do Rio de Janeiro, o aldeamento de São Pedro do Cabo Frio e diversas propriedades rurais, entre elas a Fazenda de Campos Novos. Essa fazenda foi oficialmente doada à Companhia de Jesus em 1630, embora sua estruturação efetiva tenha ocorrido apenas no final do século XVII.

Localizada em uma área originalmente caracterizada por campos alagadiços, a Fazenda de Campos Novos foi transformada por meio de obras de drenagem, abertura de canais e manejo hidráulico, seguindo a experiência jesuítica em outras propriedades, como a Fazenda de Santa Cruz. Sua produção econômica estava centrada na criação de gado, na produção de alimentos e na exploração de madeiras da Mata Atlântica, enviadas principalmente para a cidade do Rio de Janeiro.

A base da força de trabalho da Fazenda de Campos Novos era composta por africanos e afrodescendentes escravizados. Inventários realizados após a expulsão dos jesuítas, em 1759, permitem identificar a existência de uma escravaria numerosa, organizada majoritariamente em famílias nucleares, com forte presença feminina e elevada taxa de crescimento vegetativo.

Os dados revelam a formação de famílias extensas, a manutenção de vínculos parentais ao longo de gerações e a emergência de arranjos familiares complexos após a saída da ordem religiosa, incluindo mulheres que criavam seus filhos sozinhas e casos de fuga masculina para áreas urbanas ou para quilombos da região. Esses elementos indicam práticas de resistência cotidiana, estratégias de sobrevivência e a construção de redes sociais negras no interior do sistema escravista.

Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal, em 1759, a Fazenda de Campos Novos tornou-se propriedade da Coroa, foi inventariada e posteriormente leiloada, juntamente com seus bens, terras, ferramentas, animais e pessoas escravizadas. Esse processo intensificou a instabilidade das populações negras que ali viviam, ao mesmo tempo em que abriu brechas para deslocamentos, permanências informais e processos de territorialização negra que se prolongaram no período pós-colonial.

É nesse cenário de longa duração, marcado pela exploração colonial, pelo trabalho escravizado e pelas estratégias de resistência negra, que se insere a trajetória histórica da comunidade de São Jacinto. Sua formação está vinculada à desagregação do sistema escravista regional, à permanência de famílias negras no território e à construção de vínculos comunitários baseados na ancestralidade, no uso comum da terra e na memória coletiva.

Em 2024, a comunidade de São Jacinto foi oficialmente reconhecida como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, nos termos do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 e do Decreto nº 4.887/2003. Esse reconhecimento está relacionado a uma trajetória histórica própria, associada à ancestralidade negra, à resistência à opressão sofrida e à relação específica com o território, conforme os critérios definidos pela legislação brasileira.

Assim, São Jacinto se afirma como parte integrante do mosaico histórico das comunidades quilombolas da Região dos Lagos, herdeira direta das dinâmicas coloniais que marcaram a Fazenda de Campos Novos e expressão contemporânea das lutas por território, memória e justiça histórica no Brasil.

 

Origem do nome: O nome São Jacinto Campos Novos tem origem na antiga Fazenda Campos Novos, propriedade colonial formada no século XVII, inicialmente vinculada à presença jesuítica e à ocupação agrária que estruturou o território.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Cabo Frio

Estágio no processo e regularização territorial: Certificado pela Fundação Cultural Palmares em 15/05/2024 - Processo: 01420.102453/2023-21.

Referência:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 21 nov. 2003.

BRASIL. Fundação Cultural Palmares. Portaria nº 120, de 15 de maio de 2024. Certidão de autorreconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo São Jacinto Campos Novos (São Fidélis/RJ). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2024.

ENGEMANN, Carlos; AMANTINO, Márcia. A fazenda de Campos Novos e sua história – séculos XVII e XVIII. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-RJ, 8., 2010, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos […]. Rio de Janeiro: ANPUH-RJ, 2010. Disponível em: https://encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1276191032_ARQUIVO_Fazenda+de+Campos+Novos.pdf. Acesso em: 22 jan. 2026.

OBSERVATÓRIO DO PATRIMÔNIO NORTE FLUMINENSE. Quilombo São Benedito. Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF. Disponível em: https://observatoriopatrimonionf.uenf.br/patrimonio/quilombo-sao-benedito/. Acesso em: 7 nov. 2025.

PERES, Sidnei Clemente; NAZARIO, Gessiane Ambrosio; VIEIRA, José Jairo. Imprensa, ditadura militar e conflito fundiário na Fazenda Campos Novos: a memória da repressão e o regime de terror. PRACS: Revista Eletrônica de Humanidades do Curso de Ciências Sociais da UNIFAP, v. 18, n. 1, 2025.

PREFEITURA DE CABO FRIO. Secretaria Municipal de Turismo. Fazenda Campos Novos. Disponível em: https://turismo.cabofrio.rj.gov.br/fazenda-campos-novos-3/. Acesso em: 22 jan. 2026. Informações sobre a história e a importância do patrimônio histórico da Fazenda Campos Novos, construção jesuítica do século XVII no distrito de Tamoios.

SANTOS, Gabriela Cardinot dos. Memória e legado: caminhos para requalificação da Fazenda Campos Novos. 2020. Trabalho Final de Graduação (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2020.

WERNECK, Márcio. Fazenda Campos Novos e a Igreja de Santo Inácio. Acervo Márcio Werneck. Disponível em: https://www.acervomarciowerneck.com.br/artigos/cabo-frio/patrimonio-historico/fazenda-campos-novos-e-a-igreja-de-santo-inacio. Acesso em: 22 jan. 2026.

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo São Jacinto Campos Novos (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart.

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).

Verbete atualizado em 23/01/2026


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