São Benedito - RJ
História:
A comunidade remanescente de quilombo São Benedito localiza-se no município de São Fidélis, na região Norte Fluminense. Sua história está profundamente vinculada à antiga Fazenda São Benedito, cuja origem remonta ao século XIX, no contexto de expansão da economia escravista e da grande lavoura açucareira na província do Rio de Janeiro.
A Fazenda São Benedito consolidou-se como uma das mais importantes propriedades rurais de São Fidélis durante o Império. Sua formação está associada ao barão de Vila Flor, João Manuel de Souza, herdeiro da propriedade em 1850, após o falecimento de seus pais. A fazenda possuía engenho de açúcar, estruturas de beneficiamento de café, além de equipamentos e serviços que a caracterizavam como uma unidade produtiva complexa e de grande porte, sustentada pela exploração intensiva do trabalho de pessoas escravizadas.
O barão de Vila Flor integrou a elite política e econômica regional, mantendo relações próximas com o Imperador Dom Pedro II. Essa proximidade contribuiu para a elevação da antiga freguesia de São Fidélis à condição de vila em 19 de abril de 1850, com instalação de Câmara de Vereadores. O barão residia no casarão localizado na praça central da vila, imóvel que hoje abriga o Museu de São Fidélis e permanece como marco material desse passado senhorial.
Por volta de 1886, em um contexto de crise do sistema escravista e às vésperas da abolição formal, João Manuel de Souza e sua esposa deliberaram libertar as pessoas escravizadas sob sua posse, antecipando-se à Lei Áurea de 1888. Apesar desse gesto, comum entre determinados setores da elite naquele momento, a libertação não foi acompanhada de políticas de acesso à terra ou de integração social, o que marcou profundamente o pós-abolição local.
Com a desagregação do regime escravista, os descendentes das famílias negras que haviam trabalhado na Fazenda São Benedito permaneceram no território, estabelecendo vínculos duradouros com a terra, com as práticas produtivas e com a vida comunitária. A permanência dessas famílias, ao longo de gerações, estruturou uma territorialidade própria, fundada na memória do trabalho forçado, na ancestralidade africana e na construção de estratégias coletivas de sobrevivência.
Essa continuidade histórica é o elemento central que caracteriza São Benedito como comunidade remanescente de quilombo, nos termos do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988.
A trajetória recente da comunidade é marcada pela busca por reconhecimento e regularização fundiária. Em 2009, São Benedito foi oficialmente certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. A partir dessa certificação, foi aberto processo administrativo junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para fins de titulação do território tradicional.
Um marco importante ocorreu em junho de 2022, quando o Quilombo São Benedito foi declarado Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Lei nº 9.704/2022. Esse reconhecimento reforçou a relevância histórica, cultural e simbólica da comunidade para a memória social fluminense.
Atualmente, o Quilombo São Benedito mantém vivas práticas culturais, religiosas e comunitárias que expressam a continuidade de sua história. Entre elas, destaca-se a celebração anual do Dia da Consciência Negra, realizada em 20 de novembro, ocasião em que a comunidade reafirma sua identidade, sua memória coletiva e seus saberes tradicionais. A preparação de alimentos como o biju recheado, receita transmitida entre gerações, simboliza a permanência de uma culinária ancestral ligada à experiência quilombola.
Assim, a história do Quilombo São Benedito articula passado e presente: nasce da violência da escravidão, consolida-se na permanência pós-abolição e projeta-se no presente como território de resistência, memória e reivindicação de direitos. Sua trajetória evidencia não apenas a centralidade da população negra na formação histórica de São Fidélis, mas também a atualidade da luta quilombola por reconhecimento, terra e dignidade.
Origem do nome: O nome da comunidade São Benedito deriva inicialmente da antiga Fazenda São Benedito, denominação atribuída à propriedade rural ainda no período escravista, conforme a prática recorrente de batizar fazendas com nomes de santos católicos. Posteriormente, essa designação foi ressignificada pela devoção a São Benedito, santo negro de forte presença entre populações negras no Brasil, que se tornou símbolo de proteção, fé e resistência espiritual, conferindo sentido identitário ao território e à comunidade que nele se constituiu.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: São Fidélis
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 19 de novembro de 2009. Processo: 01420.001170/2007-16
Referência:
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br. Acesso em: 7 nov. 2025.
BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 21 nov. 2003.
BRASIL. Fundação Cultural Palmares. Portaria nº 185, de 19 de novembro de 2009. Certidão de autorreconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo São Benedito (São Fidélis/RJ). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2009.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações – CPISP. Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.
OBSERVATÓRIO DO PATRIMÔNIO NORTE FLUMINENSE. Quilombo São Benedito. Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – UENF. Disponível em: https://observatoriopatrimonionf.uenf.br/patrimonio/quilombo-sao-benedito/. Acesso em: 7 nov. 2025.
O DIA. Quilombo fidelense beneficiado através de pacote de decretos assinado por Lula. Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://odia.ig.com.br/sao-fidelis/2024/12/6963123-quilombo-fidelense-beneficiado-atraves-pacote-de-decretos-assinado-por-lula.html. Acesso em: 7 nov. 2025.
SÃO FIDÉLIS (RJ). Barões de Vila Flor e de São Fidélis. Disponível em: https://www.saofidelisrj.com.br/baroes-de-vila-flor-e-de-sao-fidelis/. Acesso em: 7 nov. 2025.
SILVA, Redação Brasil de Fato. Quilombo São Benedito é reconhecido como patrimônio histórico e cultural do Rio de Janeiro. Brasil de Fato, São Paulo, 6 jun. 2022. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/06/06/quilombo-sao-benedito-e-reconhecido-como-patrimonio-historico-e-cultural-do-rio-de-janeiro/. Acesso em: 7 nov. 2025.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo São Benedito (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart.
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 22/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
