Quilombo do Leblon - RJ
História:
A Comunidade Remanescente de Quilombo do Leblon localiza-se no município do Rio de Janeiro, no bairro do Leblon, área atualmente marcada por intensa urbanização e reconhecida como um dos bairros mais caros e valorizados da cidade. Levantamentos imobiliários recentes indicam que o valor médio do metro quadrado residencial no Leblon situa-se entre R$ 24.000 e R$ 27.000, podendo ultrapassar R$ 30.000/m² em imóveis de alto padrão e em localizações privilegiadas. Esse cenário evidencia o elevado grau de pressão fundiária incidente sobre o território tradicional da comunidade.
A formação histórica da comunidade está associada à presença negra em antigas áreas de uso rural e a atividades de trabalho doméstico e agrícola desenvolvidas no entorno do Maciço da Tijuca e dos Morros Dois Irmãos, estes últimos importantes cartões-postais da cidade e áreas de intenso fluxo turístico. Ao longo do século XX, tais regiões passaram por profundas transformações fundiárias e urbanísticas, convertendo antigas paisagens rurais ou periféricas em zonas altamente valorizadas do ponto de vista imobiliário.
As memórias comunitárias e os processos contemporâneos de mobilização social evidenciam a permanência histórica de famílias negras no território, bem como a construção de vínculos de pertencimento, ancestralidade e identidade coletiva, mesmo diante das fortes pressões do mercado imobiliário e da recorrente invisibilização das populações negras em áreas centrais da cidade do Rio de Janeiro. A afirmação da identidade quilombola insere-se, assim, em um contexto mais amplo de reconhecimento das comunidades negras urbanas e de suas formas específicas de territorialização.
No que se refere ao reconhecimento institucional, a comunidade alcançou recentemente um marco fundamental: o Quilombo do Leblon foi oficialmente certificado como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União em 8 de maio de 2025. Essa certificação constitui um reconhecimento jurídico e simbólico da trajetória histórica, da identidade coletiva e da legitimidade territorial da comunidade, fortalecendo suas reivindicações por direitos e abrindo caminho para o acesso a políticas públicas voltadas à proteção cultural e territorial das comunidades quilombolas urbanas.
Historicamente, o bairro do Leblon teve seu processo de formação, especialmente a partir da década de 1880, marcado pela presença de escravizados em fuga e por intensas atividades abolicionistas. O chamado quilombo do Leblon situava-se na chácara do comerciante português José de Seixas Magalhães, localizada no Alto Leblon, onde hoje se encontra parte do Clube Campestre do Rio de Janeiro, fundado em 1919, bem como na área conhecida como Chácara do Céu. Antes disso, essas terras integravam propriedades associadas ao francês Le Blond, personagem do século XIX, cujo nome foi incorporado tanto ao quilombo quanto, posteriormente, ao bairro.
Em um contexto de fortalecimento do movimento abolicionista no Rio de Janeiro, Seixas e outros simpatizantes da causa atuavam no apoio à fuga de escravizados. Diferentemente de muitos quilombos rurais, o quilombo do Leblon constituiu-se também como um espaço político, no qual se realizavam encontros, articulações e ações vinculadas ao abolicionismo, contando com o apoio de setores da elite intelectual e política da época. Embora as fontes históricas registrem pouco sobre as lideranças negras do movimento, são conhecidos os vínculos com figuras públicas como Rui Barbosa (1849–1923), jurista, intelectual e parlamentar de destaque no Império e na Primeira República, defensor de pautas liberais e abolicionistas, e José do Patrocínio (1853–1905), jornalista, escritor e um dos principais líderes do movimento abolicionista brasileiro, cuja atuação foi central na mobilização pública contra a escravidão.
Na chácara, Seixas e os quilombolas cultivavam camélias, flores raras no Brasil oitocentista, que se tornaram um dos principais símbolos do abolicionismo. As camélias eram enviadas ao Palácio das Laranjeiras, então residência da Princesa Isabel (1846–1921), figura central do processo de abolição por ter sancionado a Lei Áurea em 13 de maio de 1888, que extinguiu legalmente a escravidão no Brasil. Sua aparição pública com buquês da flor conferiu visibilidade política ao movimento abolicionista e à causa da liberdade, transformando a camélia em um emblema de resistência e esperança.
A formação do bairro do Leblon incorpora, portanto, a história da comunidade da Chácara do Céu. Com a abolição da escravidão, observa-se a continuidade da presença negra no território e, posteriormente, o surgimento e a expansão de outras comunidades nas áreas adjacentes, como o Vidigal e a Rocinha, também na Zona Sul da cidade. É dessa interseção entre história social, territorial, política e cultural que se constitui a complexa paisagem urbana do Leblon contemporâneo, marcada por profundas desigualdades, mas também por persistentes formas de resistência e afirmação da memória negra.
Origem do nome: O nome Quilombo do Leblon tem origem nas terras que pertenciam ao francês Le Blond, no século XIX, cujo sobrenome passou a identificar a região. Posteriormente, a área ficou associada à chácara do comerciante abolicionista José de Seixas Magalhães, onde escravizados fugidos encontravam refúgio. O local tornou-se conhecido como “quilombo Le Blond” ou “quilombo Leblon”. Com o tempo, a denominação foi incorporada ao bairro e à memória histórica da resistência negra.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Rio de Janeiro
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 07/05/2025 - Processo: 01420.014757/2014-14.
Referência:
AGENDA DO PODER. Quilombo do Leblon ganha certificação pela Fundação Cultural Palmares. Rio de Janeiro, 10 jan. 2026. Disponível em: https://agendadopoder.com.br/quilombo-do-leblon-ganha-certificacao-pela-fundacao-cultural-palmares/. Acesso em: jan. 2026.
CLUBE CAMPESTRE DO RIO DE JANEIRO. Histórico institucional. Rio de Janeiro, 1919. Disponível em: https://www.clubecampestre.com.br. Acesso em: jan. 2026.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria de certificação do Quilombo do Leblon como Comunidade Remanescente de Quilombo. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 7 maio 2025.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.
SANDRONI, Luciana; IRUSTA, Carla. Um quilombo no Leblon. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo do Leblon (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 07 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)
Verbete atualizado em 19/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
