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Pinheiral - RJ

História:

O Quilombo do Pinheiral, localizado no município de Pinheiral, no Médio Vale do Paraíba fluminense, constitui um território historicamente marcado pela presença negra e pela permanência de práticas culturais de matriz africana. A comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 22 de agosto de 2025, reconhecimento que afirma sua trajetória histórica específica, ancorada na ancestralidade negra, na relação contínua com o território e na preservação de saberes, práticas culturais e formas próprias de organização social.

A formação histórica do território está associada às profundas transformações ocorridas no período pós-abolição da escravidão, quando trabalhadores negros libertos e seus descendentes permaneceram na região após o declínio da economia cafeeira escravista. Esses grupos construíram formas próprias de ocupação, trabalho e sociabilidade, estabelecendo vínculos duradouros com a terra e organizando redes comunitárias fundamentais para a reconstrução da vida em liberdade no final do século XIX e início do século XX, em um contexto marcado por exclusões sociais e raciais.

A cidade de Pinheiral teve origem a partir da antiga estação ferroviária vinculada à Fazenda do Pinheiro, integrando-se às rotas de circulação de mercadorias e pessoas no Vale do Paraíba fluminense. Nesse processo, o território consolidou-se como espaço de moradia, trabalho e sociabilidade negra, onde práticas culturais, religiosas e associativas desempenharam papel central na afirmação identitária da comunidade e na transmissão intergeracional de memórias e saberes.

Nesse contexto, o jongo consolidou-se como elemento estruturante da experiência histórica, social e cultural negra em Pinheiral. Praticado como dança, música e forma de comunicação simbólica, o jongo foi transmitido de geração em geração, constituindo-se como um verdadeiro arquivo vivo da memória da escravidão, do pós-abolição e das estratégias de resistência, solidariedade e afirmação identitária da comunidade. A expressiva presença de mestres e mestras jongueiras levou Pinheiral a ser reconhecida como a Capital do Jongo do Estado do Rio de Janeiro, evidenciando a relevância cultural do território no cenário estadual e nacional.

O dia 7 de abril ocupa lugar central na memória dos jongueiros de Pinheiral, por homenagear a data de nascimento do falecido Mestre Cabiúna, referência fundamental na manutenção e transmissão da tradição jongueira na região. Reconhecido como educador popular e guardião da cultura, Mestre Cabiúna dedicou sua vida ao ensino do jongo, de seus rituais, pontos cantados e costumes, assegurando a continuidade de um legado ancestral. A criação do Dia Municipal do Jongo respondeu à necessidade de reconhecer e afirmar institucionalmente essa manifestação cultural como marca identitária de Pinheiral, tornando o município a primeira cidade da região Sudeste a instituir oficialmente uma data comemorativa dedicada ao jongo.

Além da celebração municipal, o jongo em Pinheiral integra um calendário mais amplo de reconhecimento cultural. No dia 26 de julho, data dedicada a Sant’Ana, celebra-se também o Dia Estadual do Jongo no Rio de Janeiro, reforçando a importância dessa manifestação como parte fundamental do patrimônio cultural afro-brasileiro e de seu legado para a formação de expressões culturais como o samba. O jongo foi reconhecido, em 2005, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reconhecimento que fortaleceu políticas de salvaguarda e valorização dessa tradição.

Em Pinheiral, o jongo articula ancestralidade, religiosidade, oralidade e pertencimento territorial, funcionando como prática coletiva de elaboração da memória social negra. Por meio dos pontos cantados, dos tambores e das rodas, são narradas histórias de sofrimento, trabalho forçado, luta, liberdade, solidariedade e resistência, fortalecendo laços comunitários e produzindo sentidos próprios sobre o passado e o presente da comunidade quilombola.

Diversos espaços do município configuram-se como lugares de memória, entre eles antigas fazendas, a estação ferroviária, igrejas, cemitérios e áreas de uso comunitário, compondo um circuito que permite compreender a presença negra no território ao longo do tempo. Esses lugares foram integrados ao roteiro “Jongo de Pinheiral”, desenvolvido no âmbito do projeto Passados Presentes: Memória da Escravidão no Brasil.

O projeto Passados Presentes constitui uma rede de pesquisa em história pública da escravidão, voltada ao reconhecimento do protagonismo da população negra na história do Brasil. Desenvolvido em parceria com comunidades quilombolas e detentoras de patrimônios culturais, como os jongos e os congados, o projeto realiza atividades de pesquisa, ensino, divulgação científica, musealização, criação de roteiros turísticos e produção de conteúdos para exposições. Sua trajetória teve início em 1994, com o projeto Memórias do Cativeiro, no Laboratório de História Oral e Imagem da UFF, e se consolidou a partir de 2005 por meio de ações em rede que resultaram, entre outros produtos, na coletânea de documentários Passados Presentes (2011), no Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil (2012), na organização de um banco de dados digital e na realização de roteiros de visitação a comunidades quilombolas e jongueiras. Atualmente, a rede Passados Presentes: Memória da Escravidão no Brasil é coordenada pelo CLAS/PITT, pelo LABHOI/UFF, pelo LABHOI/UFJF e pelo Le Africa/UFRJ.

Dessa forma, a história do Quilombo do Pinheiral, profundamente associada à prática do jongo, evidencia a continuidade histórica da ocupação negra no Vale do Paraíba fluminense e reafirma o território como espaço de produção de cultura, memória e resistência, fundamental para a compreensão das dinâmicas do pós-abolição e da presença quilombola no estado do Rio de Janeiro.

 

Origem do nome: O nome Pinheiral deriva da paisagem natural original da região, marcada pela presença abundante de pinheiros, que formavam extensos bosques utilizados como referência geográfica. A denominação foi reforçada pela antiga Fazenda do Pinheiro e pela estação ferroviária que deu origem ao núcleo urbano.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Barra do Piraí

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 22/08/2025 - Processo: 01420.101860/2025-48.

Referência:

BRASIL. Fundação Cultural Palmares. Certificação da Comunidade Remanescente de Quilombo de Pinheiral. Portaria n. 224, de 22 de agosto de 2025. Brasília, DF, 2025.

BRASIL. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Jongo no Sudeste: dossiê de registro. Brasília: IPHAN, 2007.
(Registro do Jongo como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, reconhecido em 2005).

MATTOS, Hebe; ABREU, Martha; GURAN, Milton (org.). Inventário dos lugares de memória do tráfico atlântico de escravos e da história dos africanos escravizados no Brasil. Rio de Janeiro: LABHOI/UFF, 2012.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.

PASSADOS PRESENTES: MEMÓRIA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL. Roteiro Jongo de Pinheiral. Rio de Janeiro: Passados Presentes, s.d. Disponível em: http://numemunirio.org/pp/site/Site/index.php. Acesso em: 17 jan. 2026.

PONTÃO DE CULTURA DO JONGO/CAXAMBU. Dia Municipal do Jongo em Pinheiral. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: http://pontaojongo.uff.br/dia-municipal-do-jongo-em-pinheiral. Acesso em: 17 jan. 2026.

PORTAL ANP. Dia Estadual do Jongo no Rio de Janeiro celebra a resistência cultural e a origem do samba. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://anp.com.br/dia-estadual-do-jongo-no-rio-de-janeiro-celebra-a-resistencia-cultural-e-a-origem-do-samba-hoje/. Acesso em: 17 jan. 2026.

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Pinheiral (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).

Verbete atualizado em 19/01/2026


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