Pedra Bonita - RJ
História:
A comunidade remanescente de quilombo Pedra Bonita está localizada na Floresta da Tijuca, no município do Rio de Janeiro (RJ), e constitui um dos mais antigos territórios quilombolas em permanência contínua no estado, com formação anterior à abolição da escravidão no Brasil. Sua presença histórica se insere em um espaço marcado por profundas transformações ambientais e políticas desde o século XIX. A Floresta da Tijuca foi criada pelo Decreto Imperial nº 577, de 11 de dezembro de 1861, durante o reinado de Dom Pedro II, no contexto das políticas de desapropriação e reflorestamento das antigas fazendas de café da Tijuca e das Paineiras, com o objetivo central de proteger as nascentes responsáveis pelo abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro, então gravemente afetadas pelo desmatamento. Quase um século depois, a área reflorestada e regiões adjacentes foram transformadas em unidade de conservação federal com a criação do Parque Nacional da Tijuca, pelo Decreto nº 50.923, de 6 de julho de 1961, no governo de Jânio Quadros, passando posteriormente à gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com objetivos de preservação ambiental, proteção da paisagem, pesquisa científica e uso público controlado.
A trajetória histórica do Quilombo da Pedra Bonita está profundamente vinculada às dinâmicas de ocupação, resistência e reconstrução territorial protagonizadas por populações de matrizes africanas e indígenas que, desde meados do século XIX, encontraram refúgio na Floresta da Tijuca em meio às violências do sistema escravocrata. Os primeiros grupos chegaram à região por volta da década de 1860, estabelecendo laços comunitários duradouros e garantindo sua subsistência por meio de atividades como a produção de carvão, a agricultura e o próprio reflorestamento, contribuindo de forma decisiva para a regeneração da Mata Atlântica local. A memória oral preserva narrativas sobre personagens como o escravizado Veríssimo, que teria construído sua moradia na mata como gesto de autonomia e resistência; as ruínas associadas a essa ocupação, assim como as chamadas “árvores sagradas”, constituem referências simbólicas centrais para a identidade quilombola da comunidade.
A relação da comunidade com o território ultrapassa sua dimensão material, assumindo também um caráter espiritual, cultural e ancestral. Os moradores afirmam que ser quilombola implica “falar com os ancestrais”, reconhecendo na terra a continuidade de saberes, práticas e valores transmitidos entre gerações. Essa conexão se expressa na produção de música, artesanato e alimentos tradicionais, bem como no cultivo de espécies simbólicas, como as camélias associadas ao movimento abolicionista, que há mais de um século garantem sustento e simbolizam a história de acolhimento, liberdade e resistência construída pela comunidade.
O reconhecimento oficial do Quilombo da Pedra Bonita como remanescente de quilombo ocorreu em 15 de junho de 2021, por meio da certificação emitida pela Fundação Cultural Palmares, após mais de um século de ocupação contínua do território. Esse reconhecimento fortaleceu as reivindicações da comunidade pela preservação de seu patrimônio cultural e ambiental. Contudo, apesar da certificação, os moradores seguem enfrentando desafios significativos relacionados à gestão territorial, ao acesso a direitos básicos — como energia elétrica, sinal de telefonia e serviços públicos — e à proteção de sua cultura frente a pressões externas, especialmente aquelas associadas à expansão do turismo e à administração ambiental do parque.
A Pedra Bonita, atualmente consolidada como um dos pontos de visitação mais conhecidos do Parque Nacional da Tijuca e como referência para o turismo de aventura e o voo livre, abriga uma rampa amplamente utilizada para a prática de asa-delta e parapente, atraindo fluxo constante de visitantes nacionais e internacionais. Essa intensa apropriação recreativa do espaço convive de maneira desigual com a presença histórica do Quilombo da Pedra Bonita, cuja ocupação antecede a própria criação do parque. A sobreposição entre a lógica da conservação ambiental estatal e da exploração turística, de um lado, e o direito ao território tradicional quilombola, de outro, tem produzido tensões recorrentes relacionadas ao controle do uso do solo, à circulação de pessoas, à visibilidade pública da comunidade e à aplicação de normas ambientais que frequentemente desconsideram a territorialidade negra histórica. Nesse contexto, a experiência da Pedra Bonita evidencia como políticas ambientais e turísticas, quando dissociadas do reconhecimento efetivo dos direitos territoriais assegurados pela Constituição de 1988 às comunidades remanescentes de quilombo, podem operar como mecanismos contemporâneos de invisibilização, restrição e conflito, reforçando a centralidade da luta quilombola por permanência, consulta prévia e justiça territorial em áreas classificadas como de preservação ambiental.
Origem do nome: O nome Pedra Bonita tem origem na paisagem natural do maciço rochoso que se destaca pela imponência e pela vista panorâmica sobre a Floresta da Tijuca e o litoral do Rio de Janeiro. Desde o século XIX, viajantes e moradores passaram a identificar o local pela “beleza” da formação geológica e do entorno natural. A denominação consolidou-se com o uso cartográfico, turístico e administrativo da área ao longo do tempo.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Rio de Janeiro
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 15 de junho de 2021 - Processo: 01420.100384/2021-14
Referência:
BRASIL. Decreto Imperial nº 577, de 11 de dezembro de 1861. Dispõe sobre a desapropriação de terras e o reflorestamento das encostas da Tijuca e Paineiras para proteção dos mananciais de abastecimento da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1861.
BRASIL. Decreto nº 50.923, de 6 de julho de 1961. Cria o Parque Nacional da Tijuca, no Estado da Guanabara. Diário Oficial da União, Brasília, 6 jul. 1961.
DIÁRIO DO ESTADO. Quilombo da Pedra Bonita: conexão com a história e a ancestralidade. Diário do Estado de Goiás, [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://diariodoestadogo.com.br/quilombo-da-pedra-bonita-conexao-com-a-historia-e-ancestralidade-567237/. Acesso em: 18 jan. 2026.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Certificação da Comunidade Remanescente de Quilombo Pedra Bonita. Brasília, 15 jun. 2021. Portaria nº 123.
G1 RIO DE JANEIRO. Conheça o quilombo da Pedra Bonita, na Floresta da Tijuca. Rio de Janeiro, 20 nov. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/20/conheca-o-quilombo-da-pedra-bonita-na-floresta-da-tijuca.ghtml. Acesso em: 18 jan. 2026.
INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (ICMBio). Parque Nacional da Tijuca – Pedra Bonita. Rio de Janeiro, [s. d.]. Disponível em: https://parquenacionaldatijuca.rio/locais/pedra-bonita/. Acesso em: 18 jan. 2026.
INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL (IAB). Diretoria do IAB visita o Quilombo da Pedra Bonita, fundado nas terras de Montezuma. Rio de Janeiro, [s. d.]. Disponível em: https://iabnacional.org.br/diretoria-do-iab-visita-quilombo-pedra-bonita-fundado-nas-terras-de-montezuma-criador-da-entidade/. Acesso em: 18 jan. 2026.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). [s. l.], [s. d.]. Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.
RÁDIO ESTAÇÃO PORCIÚNCULA. Ser quilombola é falar com os ancestrais: conheça o Quilombo da Pedra Bonita, na Floresta da Tijuca. Porciúncula, [s. d.]. Disponível em: https://www.radioestacaoporciuncula.com.br. Acesso em: 18 jan. 2026.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Pedra Bonita (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 18/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
