Pai Joaquim - RJ
História:
A comunidade remanescente de quilombo Pai Joaquim está localizada no município de Valença, na região do Vale do Paraíba Fluminense, território profundamente marcado pela expansão da cafeicultura ao longo do século XIX e pela intensa exploração de africanos escravizados e de seus descendentes. A formação histórica do quilombo insere-se nesse contexto de grandes propriedades rurais, trabalho compulsório e violência estrutural, mas também de múltiplas estratégias de resistência negra, que se expressaram tanto durante a escravidão quanto no período pós-abolição, marcado pela exclusão social e pela negação sistemática de direitos.
A trajetória da comunidade está associada à permanência histórica de famílias negras no território após o fim formal da escravidão, seja por meio da ocupação contínua de áreas tradicionalmente utilizadas, seja pela construção de vínculos de pertencimento ancorados no trabalho agrícola, nas redes de solidariedade comunitária e na transmissão intergeracional da memória. Assim como em outros quilombos do Vale do Paraíba, a consolidação territorial de Pai Joaquim ocorreu em um cenário de extrema precarização do acesso à terra, ausência de políticas públicas voltadas à população negra rural e sucessivas tentativas de invisibilização de sua identidade coletiva.
No município de Valença, destaca-se também o Quilombo São José da Serra, reconhecido nacionalmente como uma das comunidades quilombolas mais emblemáticas do estado do Rio de Janeiro. Com forte projeção histórica, cultural e política, São José da Serra constitui uma referência fundamental para a luta quilombola na região. Desde 2015, a comunidade possui Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) de seu território, representando um importante avanço no reconhecimento dos direitos territoriais quilombolas e um marco para as demais comunidades do município, incluindo Pai Joaquim.
Ao longo do século XX, a comunidade de Pai Joaquim enfrentou processos de desestruturação econômica decorrentes da decadência da economia cafeeira, da concentração fundiária e das transformações no uso do solo, sem que isso implicasse o rompimento dos laços históricos com o território. Apesar das pressões externas e dos silenciamentos institucionais, a memória da ancestralidade negra, do trabalho coletivo e da resistência permaneceu como elemento estruturante da identidade quilombola e da reprodução social da comunidade.
O reconhecimento oficial de Pai Joaquim como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, em 2024, nos termos do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 e do Decreto nº 4.887/2003, representa um marco recente e fundamental em sua trajetória histórica. Esse reconhecimento reafirma direitos territoriais, identitários e culturais historicamente negados, além de fortalecer a luta por políticas públicas específicas voltadas à garantia da reprodução social, cultural e econômica da comunidade.
Origem do nome: O nome Pai Joaquim remete à memória de um ancestral negro reconhecido pela tradição oral como figura central no processo de formação da comunidade.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Valença
Estágio no processo e regularização territorial: Certificado pela Fundação Cultural Palmares em 04/03/2024 - Processo: 01420.102368/2023-28.
Referência:
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 5 out. 1988. Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT).
BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 21 nov. 2003.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Cadastro Geral de Comunidades Remanescentes de Quilombos. Certificação da Comunidade Quilombola Pai Joaquim. Portaria nº 50, de 4 de março de 2024. Brasília, DF, 2024.
OBSERVATÓRIO DO PATRIMÔNIO NORTE FLUMINENSE. Quilombo São Benedito. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2025. Disponível em: https://observatoriopatrimonionf.uenf.br/patrimonio/quilombo-sao-benedito/. Acesso em: 7 nov. 2025.
YABETA, Daniela. Quilombo São José da Serra (RJ). In: ATLAS DO OBSERVATÓRIO QUILOMBOLA. Observatório Quilombola; KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço. [S.l.], 6 jan. 2026.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Pai Joaquim (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 24/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
