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Maria Romana - RJ

História:

A Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Romana está localizada no distrito de Tamoios, no município de Cabo Frio, na Região das Baixadas Litorâneas, configurando-se como um dos mais relevantes territórios quilombolas do litoral norte fluminense. Sua formação histórica remonta ao período da escravidão africana no Brasil e é sustentada tanto por narrativas orais transmitidas entre gerações quanto por pesquisas acadêmicas e registros institucionais recentes. Essas memórias coletivas vinculam a origem da comunidade às experiências de africanos escravizados e de seus descendentes que atuaram em fazendas da região e que, ainda no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, construíram estratégias de permanência, resistência e enraizamento territorial.

De acordo com os relatos preservados pela comunidade e sistematizados por suas lideranças — entre elas Lamiel Leopoldino Barreto, ex-presidente da Associação da Comunidade Quilombola de Maria Romana —, a trajetória histórica do quilombo está profundamente associada à vida de Elias Barreto e de sua companheira, Romana da Conceição. Com o processo de abolição da escravidão, em 1888, Elias Barreto tomou a decisão de adquirir um pequeno lote de terras, motivado pelo desejo de garantir melhores condições de vida para seus filhos e de romper com formas históricas de subordinação. O pagamento da terra ocorreu por meio de acordos desiguais com fazendeiros locais, nos quais Elias trabalhava parte da semana para quitar a dívida contraída. Em 1924, essas terras foram oficialmente registradas em nome de Maria Romana, filha do casal, constituindo um marco fundamental na consolidação do território quilombola que passou a levar seu nome. A partir desse registro, firmou-se a ocupação contínua do território por familiares e descendentes, dando origem ao Quilombo Maria Romana tal como reconhecido na atualidade.

Ao longo do século XX, parte significativa das famílias vinculadas à comunidade passou a residir fora do território tradicional, sobretudo em áreas urbanas próximas, em busca de oportunidades de trabalho e acesso a serviços. Apesar desses deslocamentos, os vínculos familiares, sociais e simbólicos com o território foram preservados, mantendo viva a memória coletiva e o sentimento de pertencimento ao quilombo.

Desde a certificação oficial da comunidade como remanescente de quilombo, em 23 de setembro de 2011, pela Fundação Cultural Palmares, observa-se um movimento gradual de retorno de famílias às terras ancestrais. Esse processo tem contribuído para o fortalecimento da reorganização comunitária e para a valorização das memórias, práticas sociais e saberes transmitidos intergeracionalmente, reafirmando a identidade quilombola local.

A certificação e o reconhecimento institucional desempenharam papel central no fortalecimento da luta pelo direito à terra, em consonância com o artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) e com o Decreto nº 4.887/2003. No mesmo ano de sua certificação, a comunidade instaurou processo administrativo junto ao INCRA, visando à titulação coletiva de seu território. Conforme enfatiza Lamiel Barreto, a dimensão coletiva da titulação é fundamental, uma vez que as áreas atualmente ocupadas não são suficientes para atender a todas as famílias que se reconhecem como pertencentes ao Quilombo Maria Romana. Nesse sentido, a regularização fundiária baseada na ancestralidade quilombola constitui uma estratégia essencial para garantir a reprodução social, cultural e econômica do grupo.

O acesso à terra, compreendido como condição básica de dignidade, autonomia e continuidade histórica, permanece como um dos principais sonhos e reivindicações da comunidade, frequentemente sintetizado na afirmação de que “quem tem terra, tem tudo”. Assim, o Quilombo Maria Romana se afirma como um território de memória, resistência e continuidade histórica, no qual as experiências do pós-abolição, as lutas por reconhecimento e os saberes herdados dos antepassados ocupam lugar central na construção da identidade coletiva. A valorização dessas trajetórias, articulada às políticas públicas voltadas aos povos e comunidades tradicionais, tem sido decisiva para o fortalecimento da comunidade e para a reafirmação de seus direitos históricos no contexto das Baixadas Litorâneas fluminenses.

 

Origem do nome: O nome Maria Romana tem origem na trajetória histórica de Maria Romana Barreto, filha de Elias Barreto e de Romana da Conceição, em cujo nome as terras do território foram oficialmente registradas em 1924. A denominação do quilombo preserva a memória dessa mulher negra e de sua família, simbolizando a continuidade da ocupação territorial no pós-abolição. Ao nomear o território, a comunidade afirma a centralidade da ancestralidade feminina na construção de sua história coletiva.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Cabo Frio

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 04/10/2011 - Processo: 01420.007498/2011-14 - Incra - Processo: 54180.001440/2011-01.

Referência:

A COZINHA DOS QUILOMBOS. Quilombo de Maria Romana – Cabo Frio, região das Baixadas Litorâneas. Publicado em 14 nov. 2016. Disponível em: https://acozinhadosquilombos.com.br. Acesso em: 9 jan. 2022.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 21 nov. 2003.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Certidão de Autorreconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Romana. Portaria nº 165, de 27 de setembro de 2011. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 4 out. 2011.

G1 REGIÃO DOS LAGOS. Famílias quilombolas de Cabo Frio, RJ, recebem incentivos. Rio de Janeiro, 18 nov. 2013. Disponível em: https://g1.globo.com. Acesso em: 9 jan. 2022.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.

QUILOMBO MARIA ROMANA. Perfil oficial no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/quilombomariaroma/. Acesso em: 17 jan. 2026.

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Maria Romana (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).

Verbete atualizado em 18/01/2026


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