Maria Conga - RJ
História:
A comunidade remanescente de Quilombo Maria Conga está localizada no município de Magé -Região Metropolitana do Rio de Janeiro- bem próxima ao centro da cidade, no bairro de mesmo nome.
A produção da cana e o estabelecimento de engenhos foram responsáveis pelo surgimento dos primeiros núcleos populacionais e do desenvolvimento das regiões da baixada. Desse modo ocorreu ocupação da maioria das regiões localizadas no entorno da Baía de Guanabara, vinculadas de alguma forma a monocultura canavieira, pois, além do solo fértil da região e da introdução do trabalho escravo, através das suas águas fazia-se o escoamento do açúcar.
Desenvolveu-se também uma rede de transportes, que foi intensificada após a descoberta do ouro. Esse contexto gerou mudanças na estrutura política e econômica do Brasil e Magé ganhou nova importância, pois pelo seu território passavam alguns dos principais caminhos que ligavam Rio de Janeiro a Minas Gerais. A partir do afluxo populacional gerado pela descoberta do ouro no interior, vão surgindo nas imediações das fazendas, engenhos, igrejas e pequenos povoados, acompanhados de todo um aparato político e administrativo para controlar a passagem do ouro, localizados entre Minas e Rio. Portanto, Magé exerceu um papel de abastecedor de produtos para o Rio de Janeiro e era local de passagem na dinâmica econômica desde o começo da colonização até o império. Sendo assim, era lógica também sua participação na estrutura do sistema escravista e o quilombo Maria Conga surgiu nesse contexto, ou melhor, como forma de resistência a esse contexto histórico.
Os negros que viviam na região de Magé foram, em sua maioria, africanos e crioulos (descendentes de africanos nascidos no Brasil) que resistiram à condição de escravização aquilombando-se nas matas da região que hoje é parte da Baixada Fluminense.
De acordo com a memória da comunidade, Maria Conga ou Maria do Congo nasceu na África em 1792 e veio pilhada junto com a sua família num navio negreiro da Costa do Congo para o Brasil, chegando na Bahia com 9 anos de idade, no início do século XIX (por volta do ano de 1804), separada dos pais e dos irmãos foi vendida para um senhor de engenho em Salvador e foi batizada com o nome de Maria da Conceição. Era comum que negros escravizados recebessem o um nome cristão. Contudo também eram identificados por seus locais de origem.
Aos 18 anos, foi vendida e chegou a Magé em 1810 pelo porto de Piedade (onde fica o atual quilombo do Feital), onde os africanos escravizados eram desembarcados e negociados. Com 24 anos, foi vendida novamente, desta vez, para o conde alemão Ferndy Von Scoilder. Maria Conga ganhou liberdade 11 anos depois, a partir de sua alforria, aos 35 anos, Maria iniciou sua trajetória como liderança do quilombo recebendo escravos fugidos de diversas fazendas.
Segundo a memória dos quilombolas após a saída da fazenda onde foi escravizada, Maria Conga fez sua casa numa mata fechada, próxima ao atual bairro do Saco, local onde estava localizada a antiga fazenda. Ali mata recebeu e protegeu escravos fugidos de outras fazendas que se escondiam e trabalhavam para o bem da comunidade e , assim, fundou o quilombo que recebeu seu nome.
Ainda de acordo com os quilombolas Maria sofreu diversos abusos dos seus senhores durante o período em que foi escravizada, porém nunca teve filhos. No entanto, segundo as memórias quilombolas, dizia que os fugidios que recebia eram os seus filhos e lutou por eles até o fim de sua vida. Maria Conga liderava o quilombo, cuidava dos enfermos, fazia o parto das mulheres e resolvia os problemas na comunidade. Nunca foi capturada, morrendo de velhice, mas nunca conseguiu reencontrar sua família.
É possível encontrar no local vestígios desse período atualmente, como a bica d`água e restos de ferramentas, apesar do esforço da comunidade na manutenção da memória de Maria , muitos desses resquícios estão sendo aos poucos destruídos devido à invasões e aos conflitos territoriais e identitários que a comunidade enfrenta em decorrência dessas nova configuração urbana.
As terras em que viviam os negros dos tempos de Maria Conga foram reconhecidas pela Fundação Palmares como comunidade Remanescente de Quilombo em 2007, constituindo o atual Quilombo Maria Conga, que faz parte da Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj). Atualmente esta comunidade, habitada por uma população majoritariamente negra, foi a primeira comunidade quilombola reconhecida na Baixada Fluminense e apesar da importância histórica, a comunidade é hoje uma das regiões do município de Magé menos favorecidas e sofre com sucessivas invasões.
Trata-se de um quilombo que surgiu a partir da fuga dos escravos, que tinha a liderança de uma mulher negra e que tem na sua história e memória uma justificativa de importância e também um instrumento de luta dos quilombolas do Maria Conga pela melhoria das condições de vida no quilombo. Os quilombolas do Maria Conga se reconhecem com essa identidade e consideram Maria do Congo ou Maria Conga um símbolo feminino de luta e resistência negra e lutam pelo reconhecimento da memória e história local. No centenário da abolição da escravidão Maria foi oficialmente pela prefeitura declarada heroína da cidade de Magé em 1988.
Origem do nome: O nome do quilombo Maria Conga remete à trajetória de Maria Conga, ou Maria do Congo, mulher africana nascida em 1792, trazida ao Brasil ainda criança na condição de escravizada. Sua memória permanece associada à resistência, à ancestralidade africana e à luta pela liberdade, constituindo referência simbólica e histórica para a comunidade quilombola.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Magé
Referência:
ABREU, Camila. Quilombo de Maria Conga em Magé: memória, identidade e ensino de História. 2016. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.
ABREU, Martha; GURAN, Milton; MATTOS, Hebe. Inventário dos lugares de memória do tráfico atlântico de escravos e da história dos africanos escravizados no Brasil. Niterói: Laboratório de História Oral e Imagem (LABHOI), Universidade Federal Fluminense, 2013.
BERNARDO, Ivone. Entrevista concedida como líder da Comunidade Quilombola Maria Conga. Magé, Rio de Janeiro, realizada no Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR), 2015.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 51, de 16 de maio de 2007. Certifica a Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Conga (RJ). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, 2007.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/?terra_nome=&situacao=0&uf%5B%5D=58&ano_de=&ano_ate=&orgao_exp=0. Acesso em: 17 jan. 2026.
SAMPAIO, Jucá Antônio Carlos de. Magé na crise do escravismo: sistema agrário e evolução econômica na produção de alimentos (1850–1888). 1994. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1994.
Redação: ABREU, Camila. Maria Conga. IN: Atlas Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2020.
Pesquisas: Camila Abreu
Mais informações: Graduação em Tecnologia em Produção Cultural pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ-2009) e licenciatura e bacharelado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ-2010), pós-graduação em Arte e Cultura pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ-2013) e Mestrado Profissional em Ensino de História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO-2016). Doutora em História pela Unirio (2024) e professora do Ensino Fundamental e Médio das redes municipais de educação de Guapimirim e Cachoeiras de Macacu.
Verbete atualizado em 18/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
