Lagoa Fea - RJ
História:
A Comunidade Remanescente de Quilombo de Lagoa Fea localiza-se no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, em uma área historicamente estruturada pela economia agrocanavieira e pelo uso intensivo da mão de obra africana escravizada. A trajetória da comunidade está profundamente vinculada ao regime escravista e ao período pós-abolição, sendo marcada por longos processos de invisibilização social e apagamento identitário. Tais processos passaram a ser enfrentados mais recentemente por meio de iniciativas voltadas ao resgate da memória coletiva, da história local e da afirmação da identidade quilombola.
As narrativas sobre a formação da comunidade apontam para duas matrizes históricas complementares. A primeira refere-se à permanência, no território, de pessoas escravizadas e, posteriormente, libertas que trabalhavam nas lavouras de cana-de-açúcar da região, especialmente sob o sistema de colonato. Esse sistema baseava-se na cessão de moradia e de pequenas áreas para cultivo em troca de trabalho obrigatório nas propriedades dos grandes fazendeiros, configurando uma relação de exploração que se estendeu para além da abolição formal da escravidão e operou como mecanismo de controle da população negra rural. A segunda matriz de formação relaciona-se à fuga e ao deslocamento de famílias negras oriundas de fazendas da região, em especial das fazendas Machadinha e Zé Paz, que encontraram em Lagoa Fea um território possível de refúgio, recomposição familiar e sobrevivência.
Nesse contexto, a comunidade de Lagoa Fea mantém estreitos vínculos históricos, familiares e territoriais com a comunidade quilombola de Machadinha, localizada no município de Quissamã. Essas conexões expressam trajetórias compartilhadas de parentesco, circulação de pessoas, práticas culturais e experiências de resistência tanto ao sistema escravista quanto às formas de dominação impostas no pós-abolição. Tais vínculos regionais evidenciam a constituição de uma rede histórica de territórios negros no norte fluminense, marcada pela mobilidade forçada, pela solidariedade e pela reconstrução coletiva da vida após a escravidão.
Atualmente, o território de Lagoa Fea apresenta uma ocupação diversificada, composta tanto por famílias remanescentes de quilombo quanto por outros grupos que adquiriram terrenos ao longo do tempo. Essa configuração reflete os impactos das dinâmicas fundiárias, do mercado de terras e da ausência histórica de políticas públicas de regularização territorial. Apesar dessa diversidade, persistem referências comuns de pertencimento, memória e uso do território, que estruturam a identidade coletiva da comunidade.
No campo religioso e cultural, destaca-se o sincretismo entre o catolicismo popular e as tradições de matriz africana, com especial relevo para a devoção a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da comunidade, celebrada anualmente no dia 8 de dezembro. Ao longo das gerações, mantiveram-se práticas tradicionais como os saberes das curandeiras e parteiras, fundamentais para o cuidado da saúde comunitária em contextos de ausência do Estado, bem como memórias associadas ao trabalho no campo, à oralidade e às formas coletivas de sociabilidade.
A afirmação contemporânea da identidade quilombola de Lagoa Fea insere-se em um processo político e social mais amplo de autorreconhecimento, mobilização comunitária e disputa por direitos, especialmente a partir das garantias estabelecidas pela Constituição Federal de 1988 e pelo Decreto nº 4.887/2003, que regulamenta o reconhecimento, a delimitação e a titulação dos territórios quilombolas. Nesse contexto, a comunidade passou a se organizar coletivamente em torno da reivindicação de reconhecimento institucional, visibilidade pública e acesso a políticas públicas específicas.
O reconhecimento oficial como comunidade remanescente de quilombo, ocorrido em 2017, constituiu um marco fundamental para Lagoa Fea, fortalecendo os processos de reconstrução identitária e ampliando as possibilidades de enfrentamento do racismo, do estigma e das desigualdades historicamente impostas à população negra rural. Lagoa Fea afirma-se, assim, como território de memória, resistência e produção de futuro, no qual passado e presente se articulam na luta contínua pelo direito à terra, à identidade e à dignidade.
Esse processo de afirmação territorial e identitária articula-se, ainda, às disputas em torno da preservação ambiental. Lagoa Fea enfrenta uma grave crise hídrica resultante da combinação entre os impactos das mudanças climáticas e intervenções humanas, como poluição, desmatamento, manejo inadequado de comportas e omissões de órgãos ambientais. Esses fatores colocam em risco a biodiversidade, os serviços ecossistêmicos e a qualidade de vida das comunidades que dependem diretamente desse território, denunciando a fragilidade da fiscalização e a inércia de instâncias públicas responsáveis pela gestão ambiental.
Origem do nome: O nome Lagoa Fea tem origem no modo de falar dos antepassados da comunidade, que atravessavam a Lagoa Feia sem pronunciar o fonema “i”. Essa forma de nomeação, preservada na oralidade local, expressa uma marca linguística própria e constitui parte importante da memória histórica e cultural do território.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Campo dos Goytacazes
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 12/06/2017 - Processo: 01420. 001172/2007-05.
Referência:
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, art. 68. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 21 nov. 2003.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 176, de 12 de junho de 2017. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo de Lagoa Fea (RJ). Diário Oficial da União: Brasília, DF, 2017.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/?terra_nome=&situacao=0&uf%5B%5D=58&ano_de=&ano_ate=&orgao_exp=0. Acesso em: 17 jan. 2026.
PEDLOWSKI, Marcos. Lagoa Feia em perigo: quando clima e ação humana ameaçam um ecossistema único. Portal Viu, seção Opinião, 18 jan. 2026. Disponível em: https://www.portalviu.com.br/opiniao/lagoa-feia-em-perigo-quando-clima-e-acao-humana-ameacam-um-ecossistema-unico. Acesso em: 18 jan. 2026.
QUILOMBO DE LAGOA FEA. Perfil oficial no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/quilombodelagoafea/. Acesso em: 18 jan. 2026.
RICARDO, Rafaela Cruz. O Quilombo Lagoa Fea em Campos dos Goytacazes/RJ: território, memória e construção da identidade. Campos dos Goytacazes, 2023. Trabalho acadêmico (Graduação) – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense (IFF), Campus Campos Centro. Disponível em: https://bd.centro.iff.edu.br/bitstream/123456789/4567/1/Texto.pdf. Acesso em: 7 nov. 2025.
SOUZA, Estefani Peixinho de; GAJANIGO, Paulo Rodrigues. O processo de construção da identidade quilombola: entre o local e o virtual. In: CONGRESSO FLUMINENSE DE PÓS-GRADUAÇÃO (CONPG), 2023. Anais […]. Campos dos Goytacazes, 2023.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Lagoa Fea (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 18/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
