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Grotão - RJ

História:

A Comunidade Remanescente de Quilombo do Grotão está localizada no município de Niterói, na Região Oceânica, em área atualmente sobreposta ao território do Parque Estadual da Serra da Tiririca. A formação histórica da comunidade remonta às primeiras décadas do século XX, quando Manoel Bonfim e Maria Vicência migraram do estado de Sergipe para o Rio de Janeiro, por volta da década de 1920, em busca de trabalho e melhores condições de vida. O casal passou a residir e trabalhar na antiga Fazenda Engenho do Mato, onde exerciam atividades agrícolas em regime de colonato, caracterizado pela troca de trabalho pelo direito à moradia e por uma remuneração precária, frequentemente restrita ao acesso a gêneros básicos — condição hoje reconhecida como forma de exploração do trabalho análoga à escravidão.

A presença da família Bonfim no território consolidou-se ao longo das décadas seguintes por meio do trabalho agrícola, da produção de alimentos e da organização da vida familiar no local. Na década de 1940, com a falência da Fazenda Engenho do Mato, parte das terras foi repassada à família, juntamente com mudas de banana, possibilitando a continuidade da ocupação e a reorganização das estratégias de subsistência. A partir desse momento, os moradores passaram a produzir tanto para o autoconsumo quanto para a comercialização em mercados locais, especialmente por meio do cultivo da banana, garantindo a permanência no território e a reprodução social do grupo.

Ao longo do século XX, a comunidade do Grotão consolidou-se como um núcleo negro rural-urbano, marcado por laços de parentesco, solidariedade e uso coletivo do espaço. Essa permanência, no entanto, não se deu sem conflitos. A partir da segunda metade do século XX, intensificaram-se as pressões externas relacionadas à expansão urbana, à especulação imobiliária e, posteriormente, à criação de unidades de conservação ambiental. Em 1991, o Decreto nº 1.901, de 29 de novembro, instituiu o Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET) como unidade de conservação de proteção integral, passando a ameaçar diretamente a permanência da comunidade, uma vez que esse modelo de conservação historicamente desconsiderou a presença e os direitos de populações tradicionais residentes em áreas protegidas.

Diante desse cenário, a Comunidade do Grotão passou a desenvolver estratégias de resistência e organização política, articulando-se com pesquisadores, universidades, movimentos sociais, ambientalistas críticos e outras comunidades tradicionais da região. A luta pelo direito à permanência no território articulou-se progressivamente à afirmação da identidade quilombola, especialmente a partir do reconhecimento constitucional assegurado pelo artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988, que garante às comunidades remanescentes de quilombos a propriedade definitiva das terras que tradicionalmente ocupam, bem como pelo Decreto nº 4.887/2003, que regulamenta os procedimentos administrativos de reconhecimento, delimitação e titulação desses territórios.

A afirmação contemporânea da identidade quilombola do Grotão consolidou-se institucionalmente em 2016, com a certificação da comunidade como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. Esse reconhecimento representou um marco político e simbólico fundamental, fortalecendo as reivindicações territoriais e conferindo visibilidade jurídica à trajetória histórica de ocupação, resistência e pertencimento da comunidade.

Paralelamente à luta territorial, a comunidade do Grotão tornou-se amplamente reconhecida no contexto regional por suas práticas culturais, especialmente pelas rodas de samba e pela feijoada comunitária, que se afirmaram como importantes espaços de sociabilidade, geração de renda, afirmação identitária e construção de alianças políticas. Essas atividades funcionam como arenas públicas de visibilidade da comunidade, articulando cultura, memória, lazer e reivindicação de direitos, e reforçando o papel do quilombo como território vivo, dinâmico e produtor de cultura negra no espaço urbano-metropolitano.

Assim, a trajetória da Comunidade Remanescente de Quilombo do Grotão evidencia a permanência histórica da população negra no território, a capacidade de adaptação frente às transformações econômicas e ambientais e a centralidade da organização coletiva na defesa dos direitos territoriais, culturais e sociais, constituindo referência significativa no debate sobre quilombos urbanos, conflitos socioambientais e reconhecimento de comunidades tradicionais no Brasil contemporâneo.

 

Origem do nome: O nome Quilombo do Grotão tem origem nas características geográficas do território onde a comunidade se formou. “Grotão” é uma denominação popular para áreas rebaixadas do relevo, cercadas por morros, mata densa e cursos d’água. A comunidade se estabeleceu justamente em uma depressão natural da Região Oceânica de Niterói, o que favoreceu sua ocupação e permanência. Esse tipo de terreno oferecia proteção, relativo isolamento e condições para o trabalho agrícola. Assim, o nome expressa a relação histórica da comunidade com o espaço físico apropriado como território de vida e resistência.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Niterói

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 20/05/2016 - Processo: 01420. 001829/2016-17 - Incra - Processo: 54000.137236/2018-67.

Referência:

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 nov. 2003.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 103, de 20 de maio de 2016. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo do Grotão (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2016.

INSTAGRAM. Quilombo do Grotão. Perfil oficial da Comunidade Remanescente de Quilombo do Grotão. Disponível em: https://www.instagram.com/quilombodogrotao/. Acesso em: 17 jan. 2026.

MONTEIRO, Gabriel Romagnose Fortunado de Freitas. O quilombo em questão: sobreposições e insurgências a partir do conflito socioambiental e territorial da Comunidade Negra do Grotão no Parque Estadual da Serra da Tiririca. Ensaios de Geografia, Niterói, v. 4, n. 8, p. 28–48, 2015. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=748481103002. Acesso em: 17 jan. 2026.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas: Comunidade Remanescente de Quilombo do Grotão (RJ). Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.

RIBEIRO, Yolanda Gaffrée. Os momentos e seus públicos nas rodas de samba do Quilombo do Grotão/RJ. Synthesis: Cadernos do Centro de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, p. 38–46, jul./dez. 2019.

RIO DE JANEIRO (Estado). Decreto nº 1.901, de 29 de novembro de 1991. Cria o Parque Estadual da Serra da Tiririca, nos municípios de Niterói e Maricá, no Estado do Rio de Janeiro. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 30 nov. 1991.

TOKARNIA, Mariana. Embratur capacita Quilombo do Grotão para ser atração internacional. Agência Brasil, Brasília, 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-10/embratur-capacita-quilombo-do-grotao-para-ser-atracao-internacional. Acesso em: 13 nov. 2025.

 

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Grotão (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart.

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).

Verbete atualizado em 18/01/2026


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