Familia Pinto - Sacopã - RJ
História:
A família Pinto, também conhecida como família Sacopã, habita desde o início do século XX o território situado à Rua Sacopã, nº 250, no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro. Inserido atualmente em uma das áreas mais valorizadas da cidade, o Quilombo Sacopã constitui um dos mais emblemáticos exemplos de permanência negra em contexto urbano marcado pela elitização do espaço. Sua história entrelaça-se à própria formação do bairro da Lagoa e expressa uma trajetória contínua de trabalho, cultura, ancestralidade e resistência.
A ocupação do território teve início em 1929, quando Manoel Pinto Jr. migrou de Nova Friburgo (RJ) para a então capital federal em busca de trabalho. Operário da construção civil, Manoel atuou diretamente nas obras de urbanização da Lagoa, participando inclusive da abertura e consolidação da atual Rua Sacopã. A partir dessa inserção no mundo do trabalho urbano, fixou moradia no local, estabelecendo um vínculo territorial duradouro. Em 1939, sua esposa, Eva Manoela da Cruz, mudou-se para o terreno com os filhos, consolidando a presença familiar e comunitária no espaço.
Manoel Jr. e Eva criaram ali seus sete filhos — Sebastião, Édimo, Maria Bernardina, Maria Laudelina (Tia Neném), João, Antônio e José Luiz (Luiz Sacopã) — todos profundamente ligados à história social e cultural da Lagoa. Reconhecidos por moradores mais antigos como referências do bairro, os Pinto vivenciaram as primeiras e decisivas transformações da região, que, ao longo do século XX, deixou de ser um bairro operário para se tornar uma área residencial voltada às classes médias altas e à elite carioca. A valorização fundiária e a especulação imobiliária intensificaram processos sistemáticos de remoção de favelas e expulsão de populações negras e de baixa renda, reconfigurando profundamente a paisagem social da Lagoa.
Esse processo atingiu diretamente o entorno do território da família Pinto com a remoção, no início da década de 1970, da Favela da Catacumba, que ocupava as encostas do morro de mesmo nome, localizado no bairro da Lagoa. Posteriormente à remoção, foi implementado um projeto de recomposição florestal da encosta e de criação de um parque voltado à difusão cultural e à exposição de obras de arte integradas à paisagem. Inaugurado em 1979, o então chamado Parque da Catacumba — hoje Parque Natural Municipal da Catacumba — tornou-se um parque permanente de esculturas ao ar livre, com obras de artistas de reconhecimento internacional, alcançando ampla repercussão cultural por sua concepção inédita no Brasil. A permanência da família Pinto em Sacopã, cercada por esse novo ordenamento urbano e ambiental, reforça o caráter excepcional de sua resistência territorial.
Um dos pilares centrais da história do Quilombo Sacopã é a cozinha da Sacopã. Construída por Dona Eva e posteriormente conduzida por Maria Laudelina Pinto, a Tia Neném, transformou-se em uma pequena pensão destinada ao preparo de marmitas para operários envolvidos nas obras de urbanização da Lagoa. Rapidamente, a cozinha tornou-se o núcleo da vida familiar. Mais do que um espaço produtivo, assumiu um caráter comunitário e afetivo, sendo compreendida pelos Pinto como um patrimônio coletivo transmitido entre gerações. Família e trabalho sempre estiveram profundamente entrelaçados: praticamente todos os membros participaram das atividades da cozinha, especialmente aqueles que residiam no território. O espaço funcionava simultaneamente como local de refeições familiares, de trabalho cotidiano e de intensa sociabilidade, onde encontros informais frequentemente se transformavam em almoços ou cafés compartilhados.
Tia Neném tornou-se uma referência central para a família e para o Quilombo Sacopã. Reconhecida como uma liderança agregadora — uma espécie de líder que sempre reuniu toda a família —, era amplamente conhecida dentro e fora da Lagoa. A partir da década de 1980, ganhou projeção na mídia, período fundamental para a difusão pública da feijoada oferecida no território e da história de resistência da comunidade. Seu talento singular para a música e a culinária atraiu inúmeros frequentadores, entre eles artistas consagrados, como o cantor Tim Maia.
Apesar de sua importância cultural, a família passou a enfrentar, a partir dos anos 1980, severas restrições ao exercício de suas práticas culturais. Mesmo com o Artigo 215 da Constituição Federal assegurando o direito à livre manifestação cultural, o Quilombo Sacopã foi proibido de realizar eventos em seu território após sucessivas reclamações de vizinhos quanto ao barulho. À época, Sacopã era amplamente conhecido pelos eventos de samba e pagode intitulados Só na Lenha, nos quais a tradicional feijoada era preparada em fogão a lenha. Esses encontros não eram apenas uma importante fonte de renda, mas também uma expressão fundamental da ancestralidade negra e da sociabilidade quilombola. Membros da família, como Luiz Sacopã e a própria Tia Neném, atuavam também como cantores e compositores de samba.
Além da feijoada e do samba, o Quilombo Sacopã é também berço do tradicional Bloco Rola Preguiçosa – Tarda Mas Não Falha, que desfila no carnaval carioca. Encrustado no interior de um bairro de elite, o bloco reafirma a presença negra no território e, em 2024, desfilou com o enredo “Perdeu Mané!”, criado pelo cantor e compositor Noca da Portela.
No campo jurídico e institucional, a luta da comunidade também obteve importantes conquistas. Em 2012, foi sancionada a Lei Municipal nº 5.503, que criou a Área de Especial Interesse Cultural (AEIC) do Quilombo Sacopã, reconhecendo oficialmente o valor histórico, cultural e simbólico do território no âmbito do planejamento urbano da cidade do Rio de Janeiro. Em 2014, o quilombo urbano Sacopã comemorou, junto a diversas comunidades quilombolas e parceiros institucionais, o reconhecimento de seu território pelo Governo Federal. Na ocasião, Luiz Sacopã recebeu, de representantes do INCRA, o documento que reconhecia o domínio da área — uma das etapas centrais do processo administrativo de titulação, iniciado formalmente em 2005.
Nesse contexto, a feijoada, o samba, o carnaval e a luta jurídica constituem dimensões indissociáveis da história do Quilombo Sacopã. Mais do que práticas culturais, são instrumentos de afirmação identitária, de construção de redes de solidariedade e de resistência frente à especulação imobiliária. O Quilombo Sacopã permanece, assim, como um território negro vivo, onde memória, cultura e luta pelo direito à cidade seguem profundamente entrelaçadas.
Origem do nome: O nome Quilombo Sacopã deriva da Rua (Ladeira) Sacopã, via de acesso à comunidade no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro. A denominação foi adotada como referência territorial e urbana. Com o tempo, consolidou-se como símbolo da identidade histórica e da luta da comunidade por permanência e direitos.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Rio de Janeiro
Número de famílias: 13
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 10/12/2004 - Processo: 01420.000425/1999-53 - Incra - Processo: 54180.000712/2005-18 – Portaria Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) de reconhecimento do território quilombola a ser titulado – DOU 22/09/25014.
Referência:
COMUNIDADE QUILOMBOLA SACOPÃ. Comunidade Quilombola Sacopã. Rio de Janeiro: Terras de Quilombos, [s.d.].
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 35, de 10 de dezembro de 2004. Certidão de autorreconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo Família Pinto – Sacopã. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2004.
HENRIQUE, João. Rola Preguiçosa: Carnaval em Ipanema com o enredo Perdeu Mané!. JpRevistas, 16 jan. 2024. Disponível em: https://jprevistas.com/2024/01/rola-preguicosa-carnaval-em-ipanema-com-o-enredo-perdeu-mane/. Acesso em: 18 jan. 2026.
MAIA, Patrícia. As múltiplas faces do Quilombo Sacopã – Rio de Janeiro. 2010. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010.
O GLOBO. Reivindicado há 50 anos, quilombo da Sacopã é reconhecido pelo governo federal. Rio de Janeiro, 19 set. 2014. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/reivindicado-ha-50-anos-quilombo-da-sacopa-reconhecido-pelo-governo-federal-13982307. Acesso em: 18 jan. 2026.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.
OVALLE, Luíza Aragon. Entre a casa e a política: uma etnografia das controvérsias da Ladeira Sacopã. 2013. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.
POETS, Désirée; HENNIES, Marina (trad.). 130 anos após a abolição, Quilombo Sacopã resiste através de tradicional feijoada e samba. Rio de Janeiro: RioOnWatch, 25 maio 2018. Disponível em: https://rioonwatch.org.br/?p=33335. Acesso em: 18 jan. 2026.
PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Parque Natural Municipal da Catacumba. Disponível em: https://ambienteclima.prefeitura.rio/parque-nacional-municipal-da-catacumba/. Acesso em: 18 jan. 2026.
RIO DE JANEIRO (Município). Lei Ordinária nº 5.503, de 17 de agosto de 2012. Cria Área de Especial Interesse Cultural – AEIC do Quilombo Sacopã, e dá outras providências. Disponível em: https://leismunicipais.com.br/a/rj/r/rio-de-janeiro/lei-ordinaria/2012/551/5503/lei-ordinaria-n-5503-2012-cria-area-de-especial-interesse-cultural-aeic-do-quilombo-sacopa. Acesso em: 18 jan. 2026.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Família Pinto - Sacopã (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart; Valéria Louenço.
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul).
Verbete atualizado em 19/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
