Atlas

Deserto Feliz - RJ

História:

A Comunidade Remanescente de Quilombo de Deserto Feliz localiza-se no município de São Francisco do Itabapoana, no norte fluminense. Sua origem remonta ao período da escravidão, quando famílias negras passaram a se estabelecer no território por meio de estratégias de permanência, solidariedade e reorganização da vida social no contexto do pós-abolição, marcado pela exclusão social, pela precarização do trabalho e pela negação sistemática do acesso à terra.

Ao longo do tempo, a comunidade manteve vínculos duradouros com o território por meio da convivência comunitária, da transmissão intergeracional de memórias e da preservação de práticas culturais, consolidando uma identidade coletiva baseada na ancestralidade negra e na resistência histórica. Essas formas de pertencimento contribuíram para a continuidade da ocupação e para a construção de sentidos compartilhados em torno da terra, da história e da vida comunitária, em consonância com os critérios estabelecidos pelo art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988, regulamentado pelo Decreto nº 4.887/2003, especialmente no que se refere à autoidentificação, à ancestralidade negra e à relação coletiva com o território tradicionalmente ocupado.

Em reconhecimento à sua relevância histórica, cultural, social e identitária, a Comunidade de Deserto Feliz — juntamente com a Comunidade Quilombola de Barrinha — foi oficialmente declarada Patrimônio Cultural Imaterial do município de São Francisco do Itabapoana, nos termos da Lei Municipal nº 950, de 9 de junho de 2025, de autoria do presidente da Câmara Municipal, Alexandre Barrão, aprovada pelo Poder Legislativo e sancionada pela prefeita Yara Cinthia, com publicação no Diário Oficial em 11 de junho de 2025.

A referida lei reconhece como patrimônio cultural imaterial as práticas, representações, expressões, saberes e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades quilombolas, responsáveis por conferir sentimento de identidade, continuidade histórica e pertencimento coletivo. Conforme estabelecido no texto legal, o Poder Executivo municipal, por meio da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, deverá adotar medidas voltadas à preservação, valorização, reconhecimento e promoção das tradições culturais, saberes, práticas, festas, culinária, história oral e demais expressões culturais das comunidades de Deserto Feliz e Barrinha.

A afirmação contemporânea da identidade quilombola de Deserto Feliz insere-se, assim, em um processo mais amplo de reconhecimento institucional e de valorização de sua trajetória histórica, articulando memória, território e direitos, e reforçando a centralidade das comunidades quilombolas no patrimônio cultural e na história social do norte fluminense. A comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 2010, passo fundamental para o fortalecimento de suas reivindicações e para a consolidação de políticas de valorização cultural e territorial.

Atualmente, o Quilombo de Deserto Feliz reúne aproximadamente 50 famílias, situadas em área rural do município, e desenvolve importantes iniciativas de salvaguarda cultural. Entre elas destaca-se o projeto “Jonguinho”, voltado ao ensino do jongo para crianças, com o objetivo de manter vivas as formas de expressão cultural da comunidade e garantir a transmissão intergeracional desse patrimônio imaterial. O jongo, enquanto prática cultural de matriz africana, ocupa lugar central na identidade local, articulando memória, corporeidade, musicalidade e resistência.

Além das manifestações culturais, a comunidade preserva saberes tradicionais ligados à gastronomia, como a feijoada comunitária e o angu doce, prática ancestral que resiste ao longo do tempo e integra a identidade alimentar do quilombo. O modo de fazer o angu doce, mantido por mulheres mais velhas da comunidade — como o saber tradicional transmitido por Dona Santinha — constitui importante referência da memória culinária e cultural de Deserto Feliz.

Essas práticas e experiências foram registradas no vídeo Quilombo Deserto Feliz e seus costumes, produção audiovisual que busca manter vivos os costumes da comunidade por meio do registro do projeto Jonguinho, com duração aproximada de 30 minutos, e da valorização da gastronomia local, especialmente a iniciativa “Delícias do Deserto Feliz”. O vídeo integra os esforços recentes da comunidade para o resgate, a valorização e a difusão de seu patrimônio cultural, reafirmando a vitalidade de suas tradições e a centralidade da cultura na afirmação da identidade quilombola.

 

Origem do nome: O nome Deserto Feliz tem origem na forma como os primeiros moradores negros passaram a designar o território onde se estabeleceram. A expressão “deserto” remete à condição inicial do lugar, então pouco ocupado, afastado dos núcleos urbanos e desprovido de infraestrutura, enquanto “feliz” expressa o sentido de liberdade, pertencimento e autonomia associado à possibilidade de viver e trabalhar em um espaço próprio, longe do controle direto dos antigos senhores. Assim, o nome sintetiza a experiência histórica da comunidade, marcada pela transformação de um espaço marginalizado em território de vida, resistência e construção coletiva.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: São Francisco do Itabapoana

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 27/12/2010 - Processo: 01420.006908/2010-29- Incra - Processo: 54180.000466/2007-48.

Referência:

A COZINHA DOS QUILOMBOS. Quilombo de Deserto Feliz, São Francisco de Itabapoana, Região Norte Fluminense. 2016. Disponível em: https://br.acozinhadosquilombos.com.br/news/quilombo-de-deserto-feliz-sao-francisco-de-itabapoana-regiao-norte-fluminense. Acesso em: 13 nov. 2025.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento administrativo para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 nov. 2003.

COMUNIDADE QUILOMBOLA DE DESERTO FELIZ. Deserto Feliz (@deserto_feliz_). Perfil oficial no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/deserto_feliz_/. Acesso em: 13 jan. 2026.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 162, de 27 de dezembro de 2010. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo de Deserto Feliz (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, 2010.

MUSEU ONLINE SFI. Quilombo Deserto Feliz e seus costumes. São Francisco do Itabapoana, 9 nov. 2024. Disponível em: https://www.museuonlinesfi.com/2024/11/quilombo-deserto-feliz-e-seus-costumes.html. Acesso em: 13 jan. 2026.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP).
Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO FRANCISCO DO ITABAPOANA. Quilombos de Deserto Feliz e Barrinha são considerados patrimônio cultural e imaterial. São Francisco do Itabapoana: Assessoria de Comunicação, 12 jun. 2025. Disponível em: https://www.pmsfi.rj.gov.br/cultura/item/3035-quilombos-de-deserto-feliz-e-barrinha-sao-considerados-patrimonio-cultural-e-imaterial. Acesso em: 13 jan. 2026.

SÃO FRANCISCO DO ITABAPOANA (RJ). Lei Municipal nº 950, de 9 de junho de 2025. Declara as Comunidades Quilombolas de Barrinha e Deserto Feliz Patrimônio Cultural Imaterial do Município de São Francisco do Itabapoana. Diário Oficial do Município, São Francisco do Itabapoana, 11 jun. 2025.

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Deserto Feliz (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)

Verbete atualizado em 17/01/2026


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