Custodópolis - RJ
História:
A Comunidade Remanescente de Quilombo de Custodópolis localiza-se no município de Campos dos Goytacazes, no subdistrito de Guarus, em área historicamente marcada pela economia da cana-de-açúcar e pela concentração de trabalhadores negros vinculados às fazendas da região. Sua formação está associada ao período pós-abolição, quando Custodópolis passou a funcionar como um importante ponto de encontro e de concentração de trabalhadores negros que se deslocavam diariamente para o corte da cana-de-açúcar nas propriedades rurais do entorno, inserindo-se na dinâmica do trabalho agrícola sazonal que caracterizou a região ao longo do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX.
Segundo a memória coletiva, as terras pertenciam ao Doutor Custódio Siqueira, identificado nas narrativas locais como proprietário de terras e profissional liberal (médico), atuante em Campos dos Goytacazes na primeira metade do século XX. De acordo com os relatos comunitários, ele parcelou e vendeu os lotes a preços acessíveis às famílias negras trabalhadoras, possibilitando sua fixação no território em um contexto marcado pela exclusão fundiária da população negra no pós-abolição. Esse processo de ocupação resultou na constituição de um núcleo habitacional formado, inicialmente, por moradias de palha, o que levou o local a ser conhecido, durante décadas, como a “Cidade de Palha”. Tais condições expressam a precariedade das formas de acesso à terra e à moradia impostas aos descendentes de pessoas escravizadas, em um cenário de ausência de políticas públicas voltadas à integração social dessa população.
As construções de palha permaneceram predominantes até a década de 1970, quando se registra a chegada da energia elétrica, marco importante no processo de urbanização e de melhoria gradual das condições de vida da comunidade. Ainda assim, Custodópolis manteve, ao longo do tempo, características de vulnerabilidade social, combinadas à consolidação de fortes vínculos comunitários e de redes de sociabilidade baseadas na convivência cotidiana, na memória compartilhada e na permanência das famílias no território, elementos centrais para a constituição de um sentimento coletivo de pertencimento.
A trajetória histórica de Custodópolis é profundamente marcada pela preservação de práticas culturais e religiosas, destacando-se o sincretismo religioso como elemento estruturante de sua identidade coletiva. A articulação entre o catolicismo popular e as religiões de matriz africana — especialmente a Umbanda — constitui a base simbólica da comunidade, expressando formas próprias de espiritualidade, sociabilidade e resistência cultural. Entre as práticas historicamente referidas pelos moradores estão as ladainhas realizadas nas casas, as celebrações dedicadas a santos católicos, os rituais e atendimentos espirituais ligados à Umbanda, bem como manifestações culturais associadas à cultura negra, como o jongo/caxambu, a capoeira e outras expressões corporais e musicais, que funcionam como espaços de transmissão intergeracional de saberes e valores.
A afirmação contemporânea da identidade quilombola em Custodópolis está diretamente vinculada aos processos de organização política local e à mobilização por reconhecimento e visibilidade. A partir da segunda metade do século XX, e de forma mais intensa nas décadas recentes, lideranças comunitárias passaram a acionar a identidade quilombola como instrumento de reivindicação por direitos diferenciados, acesso a políticas públicas e valorização da cultura negra. Esse processo culminou no reconhecimento oficial da comunidade como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 9 de agosto de 2018, consolidando institucionalmente uma identidade historicamente construída no território a partir da experiência comum de trabalho, moradia, sociabilidade e resistência.
Origem do nome: O nome Custodópolis tem origem na referência ao antigo proprietário das terras, Doutor Custódio Siqueira, cuja memória permanece associada à história de formação da comunidade. A denominação expressa tanto a origem fundiária do território quanto o processo de apropriação social do espaço pelas famílias negras que nele se estabeleceram, transformando-o em lugar de pertencimento, identidade e resistência.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Campos dos Goytacazes
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 09/08/2018 - Processo: 01420.102023/2018-15.
Referência:
COMUNIDADE QUILOMBO CUSTODÓPOLIS. Quilombo Custodópolis (@quilombo_custodopolis). Perfil oficial no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/quilombo_custodopolis/. Acesso em: 13 nov. 2025.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 197, de 9 de agosto de 2018. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo de Custodópolis (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, 2018.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.
PELÁEZ, Daniela Velásquez. Cultura, política e identidade: trajetória política de uma liderança em Custodópolis, Campos dos Goytacazes (RJ). In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA, XIV., 2014, Belém. Anais… Belém: Universidade Federal do Pará, 2014. Disponível em: https://www.29rba.abant.org.br/resources/anais/1/1402011254_ARQUIVO_Cultura,politicaeidentidade-ABA2014.pdf. Acesso em: 13 nov. 2025.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Custodópolis (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 07 de janeiro de 2026
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart.
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)
Verbete atualizado em 17/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
