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Cruzeirinho - RJ

História:

A região do noroeste fluminense passou a ser ocupada de forma sistemática a partir da década de 1830, quando se registra a chegada de José de Lannes Dantas Brandão, procedente de Minas Gerais. Seguindo o curso do rio Muriaé até a foz do rio Carangola, Brandão tomou posse de extensas áreas de terra, denominando o primeiro núcleo de ocupação de Porto Alegre. A partir desse ponto, ampliou progressivamente seus domínios, apropriando-se de terras que hoje correspondem aos municípios de Itaperuna, Natividade, Porciúncula e Varre-Sai. Em Varre-Sai, dedicou-se à extração da poaia-do-campo (ipecacuanha), planta medicinal altamente valorizada no período, e à prospecção mineral em riachos da região, à procura de ouro. Posteriormente, na companhia do pai e dos irmãos, passou a doar e vender parcelas das terras ocupadas, contribuindo para a formação de fazendas, povoados e núcleos de colonização regional.

Nesse contexto de expansão territorial e consolidação da economia agrária, a Comunidade Remanescente de Quilombo do Cruzeirinho se formou no atual município de Natividade, em uma região historicamente ocupada por populações indígenas, africanas e afrodescendentes. Sua origem remonta ao período da escravidão, sendo marcada por ancestralidade africana e indígena, com destaque para o povo Puri, tradicionalmente associado à ocupação do Vale do Rio Carangola. Os Puri habitaram extensas áreas do atual noroeste fluminense e da Zona da Mata mineira, abrangendo municípios como Natividade, Porciúncula, Itaperuna e Varre-Sai. Embora profundamente impactados por processos de extermínio, deslocamento forçado e assimilação ao longo do século XIX, há registros históricos e etnográficos que indicam a permanência de seus descendentes na região, sobretudo por meio de processos de miscigenação e incorporação às populações rurais negras e caboclas.

A formação da comunidade está associada à expansão das lavouras de café no século XIX, período em que diversas fazendas foram implantadas na região. Entre elas destaca-se a Fazenda São José, também referida na tradição oral como Fazenda Santa Rosa, de propriedade de José de Lannes Dantas Brandão, considerado fundador do núcleo que daria origem ao município de Natividade. Foi nesse contexto que se iniciaram os assentamentos de famílias negras antes escravizadas, vinculadas às atividades agrícolas e, posteriormente, afastadas das terras em decorrência das transformações no regime de trabalho e da crise do sistema escravista.

O território passou a ser ocupado por famílias que fugiam de propriedades vizinhas, construindo estratégias de refúgio, solidariedade e permanência coletiva. A memória histórica da comunidade remete às intensas tensões sociais e raciais que marcaram a região, sendo frequentemente evocada a narrativa da morte de José de Lannes Dantas Brandão, ocorrida em 1852. Segundo registros históricos, o fazendeiro e seu genro foram assassinados durante uma revolta protagonizada por pessoas escravizadas da Fazenda São José, armadas com instrumentos de trabalho. Esse episódio desencadeou conflitos fundiários, dispersões populacionais e o deslocamento de famílias negras para áreas de refúgio, contribuindo de forma decisiva para a consolidação do quilombo na região onde hoje se localiza o Cruzeirinho.

Em 1942, parte das terras atualmente ocupadas pela comunidade foi doada por Álvaro Andrade de Souza, proprietário rural da região, casado com Donária Lannes de Andrade, descendente da família proprietária, à Mitra Diocesana do Bispado de Campos, sob a invocação de Santo Antônio. A doação produziu efeitos simbólicos e jurídicos relevantes, transformando a área em “terra do santo”, estratégia que dificultou sua alienação e reforçou a centralidade da religiosidade católica na organização social e simbólica do território.

Ao longo das décadas, o Cruzeirinho consolidou-se como referência regional de sociabilidade, recebendo pessoas de diferentes localidades para participar de festividades religiosas e encontros comunitários. Essas celebrações desempenharam papel fundamental na manutenção dos vínculos sociais, na circulação regional e na afirmação da identidade coletiva da comunidade.

Entre as principais expressões culturais do Cruzeirinho destaca-se o Caxambu, manifestação de origem africana que ocupa lugar central na memória, na identidade e nas práticas culturais locais. O Caxambu articula ancestralidade, religiosidade e resistência, funcionando como importante meio de transmissão intergeracional de saberes e de afirmação da identidade quilombola, mesmo em um contexto marcado por transformações religiosas e sociais ao longo do século XX.

A Comunidade do Cruzeirinho foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 2009 e encontra-se em processo de regularização territorial, com a elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

 

Origem do nome: O nome Cruzeirinho tem origem na existência de um cruzeiro localizado nas proximidades da antiga Igreja de São Pedro, em torno do qual os moradores acendiam velas e realizavam pedidos e agradecimentos religiosos. Esse cruzeiro constituiu um marco simbólico e espiritual do território, tornando-se referência espacial da comunidade e dando origem à sua denominação, associada à devoção católica e à história de permanência coletiva na terra.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Natividade

Número de famílias: 37

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 19/11/2009 - Processo: 01420.001338/2009-47- Incra - Processo: 54180.000993/2007-52.

Referência:

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento administrativo para identificação, reconhecimento, titulação e demarcação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 21 nov. 2003.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 185, de 19 de novembro de 2009. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo de Cruzeirinho (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, 2009.

INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Inventário Nacional de Referências Culturais: Jongo/Caxambu no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPHAN, 2006.

INSTAGRAM. Quilombo Cruzeirinho (@quilombo_cruzeirodecima). Perfil oficial da comunidade. Disponível em: https://www.instagram.com/quilombo_cruzeirodecima/. Acesso em: 17 jan. 2026.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.

SOUZA, Márcia Aparecida de; CUNHA JÚNIOR, Henrique. A população negra na construção do território do Vale do Rio Carangola. Revista Transformar, v. 13, n. 1, p. 268–284, jan./jul. 2019.

 

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Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Cruzeirinho (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 07 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart.

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)

Verbete atualizado em 17/01/2026


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