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Conceição do Imbé - RJ

História:

A Comunidade Remanescente de Quilombo de Conceição do Imbé localiza-se no município de Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro, em área historicamente estruturada pela economia agrocanavieira, que marcou profundamente a ocupação territorial, as relações de trabalho e as formas de sociabilidade na região ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX. A constituição do território esteve vinculada à expansão das grandes propriedades monocultoras de cana-de-açúcar e, posteriormente, à consolidação do modelo agroindustrial sucroalcooleiro, caracterizado pela concentração fundiária, pelo controle patronal da terra e do trabalho e pela reprodução de relações de subordinação no pós-abolição .

O território atualmente ocupado pela comunidade integrou originalmente a Fazenda Conceição do Imbé, unidade produtiva voltada à lavoura canavieira, organizada sob o regime do trabalho escravizado e, após 1888, por meio de formas precarizadas de trabalho rural, como a parceria, o trabalho a dia e a moradia vinculada ao emprego. Com a modernização do setor açucareiro, a fazenda foi incorporada à dinâmica industrial da Usina Novo Horizonte, inserindo a localidade no chamado “tempo da usina”, conforme a periodização nativa identificada nas narrativas dos moradores, marcada pela intensificação do controle sobre o trabalho, o cotidiano e as práticas de lazer da população negra local .

A existência, até 2007, de um antigo casarão-sede — associado à administração da fazenda e posteriormente da usina — constitui um importante marco material da história local. Segundo relatos recorrentes, o edifício funcionava como referência simbólica do núcleo de povoamento anterior ao assentamento rural, sendo lembrado como espaço de mediação entre trabalhadores e administração, além de elemento central da memória coletiva. Sua demolição é interpretada pelos moradores como uma perda irreparável de um bem histórico capaz de materializar a trajetória de exploração, trabalho e permanência negra no território .

Os atuais moradores quilombolas são majoritariamente descendentes diretos de trabalhadores da antiga fazenda e, posteriormente, da usina, o que evidencia uma continuidade histórica de ocupação e reprodução social no território. Essa permanência não se restringe à dimensão física da terra, mas se expressa por meio de relações de parentesco, redes de solidariedade, práticas culturais compartilhadas e formas específicas de uso e significação do espaço, elementos que sustentam a autoidentificação quilombola e a reivindicação territorial coletiva, em consonância com os critérios estabelecidos pelo Decreto nº 4.887/2003 .

As relações de parentesco e sociabilidade foram historicamente fortalecidas por meio de alianças matrimoniais realizadas predominantemente entre moradores da própria localidade e de comunidades negras vizinhas, como Aleluia, Batatal e Cambucá. Essas comunidades, situadas na região do Imbé, compartilham trajetórias históricas semelhantes e hoje integram um mesmo campo de relações sociais, configurando uma rede territorial negra articulada. Tal dinâmica corresponde ao que a literatura conceitua como “campo negro”, caracterizado pela circulação de pessoas, pela interdependência entre comunidades, pela partilha de experiências históricas de dominação e resistência e pela construção coletiva de pertencimento territorial .

A denominação Conceição do Imbé está associada à devoção a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da comunidade, cuja festividade, celebrada tradicionalmente em 8 de dezembro, ocupa lugar central na memória religiosa local. Segundo narrativas dos moradores, a imagem original da santa, adornada com joias ofertadas pela própria comunidade, foi retirada pela proprietária da usina e substituída por outra imagem desprovida desses símbolos. Esse episódio é interpretado como expressão de controle simbólico e de ruptura entre a religiosidade popular e o poder econômico, contribuindo para o enfraquecimento das práticas religiosas comunitárias e revelando dimensões imateriais da dominação territorial exercida historicamente pela elite usineira .

A configuração fundiária atual da comunidade está diretamente relacionada ao processo de Reforma Agrária desencadeado após a falência da Usina Novo Horizonte, na década de 1980. A falência, marcada por atraso de salários, fome, adoecimento e extrema vulnerabilidade social, constitui um marco traumático nas memórias locais e antecede a desapropriação da área em 1989, quando foi criado o Projeto de Assentamento Rural Novo Horizonte. Esse processo representou, simultaneamente, uma ruptura com as relações de trabalho anteriores e a abertura de novas possibilidades de acesso à terra, ainda que atravessadas por ambiguidades, conflitos e inseguranças quanto à estabilidade da posse e às condições de reprodução econômica .

A implantação do assentamento produziu uma situação singular, definida na literatura como o “paradoxo de ser assentado e quilombola”, na qual coexistem identidades políticas e jurídicas distintas, nem sempre compreendidas de forma homogênea pelos moradores. Parte da comunidade associa o reconhecimento quilombola ao risco de perda dos lotes individuais conquistados no âmbito da Reforma Agrária, o que gera resistências internas à titulação coletiva, apesar do reconhecimento da ancestralidade negra e da história comum de exploração e permanência no território .

Do ponto de vista institucional, a Comunidade de Conceição do Imbé foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 2005, e possui processo de regularização territorial aberto junto ao INCRA desde 2004. Entretanto, até o presente, não houve avanços substantivos na titulação coletiva do território, em razão de entraves administrativos, da sobreposição com o histórico de assentamento rural, da existência de títulos individuais e dos conflitos internos relacionados ao significado político e jurídico do reconhecimento quilombola .

 

Origem do nome: O nome Conceição do Imbé tem origem na devoção a Nossa Senhora da Conceição, padroeira histórica da comunidade, cuja festa tradicional ocorre em 8 de dezembro. A referência a “Imbé” está associada à região homônima, marcada por rios, matas e antigos engenhos de cana-de-açúcar no norte fluminense. A denominação expressa a articulação entre religiosidade popular, território e memória histórica dos moradores. O nome foi preservado ao longo das transformações fundiárias, da fazenda à usina e, posteriormente, ao assentamento rural. Essa continuidade reforça o vínculo simbólico e identitário da comunidade com o território tradicional.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Campos dos Goytacazes

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 30/09/2005 - Processo: 01420.002165/2005-51.

Referência:

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 39, de 30 de setembro de 2005. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo de Conceição do Imbé (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, 2005.

GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzala no Rio de Janeiro – século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.

GOMES, Flávio dos Santos. A hidra e os pântanos: quilombos e mocambos no Brasil (séculos XVII–XIX). São Paulo: Editora UNESP; Campinas: CECULT, 2005.

NEVES, Priscila. Política quilombola: acessos e entraves em Conceição do Imbé, RJ. 2015. Dissertação (Mestrado em Políticas Sociais) – Centro de Ciências do Homem, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Campos dos Goytacazes, 2015.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/. Acesso em: 17 jan. 2026.

RIBEIRO, Yolanda Gaffrée. Parceiros, trabalhadores, quilombolas: narrativas e trajetórias de acesso à terra nos quilombos do Imbé/RJ. Sertanias: Revista de Ciências Humanas e Sociais, v. 2, n. 2, p. 1–19, 2021. DOI: 10.22481/sertanias.v2i2.12717.

 

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Conceição do Imbé (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 07 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)

Verbete atualizado em 17/01/2026


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