Atlas

Cambucá - RJ

História:

A Comunidade Remanescente de Quilombo de Cambucá localiza-se no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, região historicamente marcada pela economia agroexportadora e pelo uso intensivo de mão de obra africana escravizada. Entre os séculos XVII e XIX, a ocupação rural regional estruturou-se a partir de grandes propriedades monocultoras, voltadas principalmente à produção açucareira e, posteriormente, articuladas às lavouras de café. Africanos desembarcados no Cais do Valongo eram comercializados e redistribuídos para o Norte Fluminense, compondo uma estrutura produtiva profundamente dependente da escravidão. Nesse contexto, a presença negra foi decisiva para a organização do espaço rural, dos sistemas produtivos e das redes de sociabilidade locais.

Mesmo sob a violência do regime escravista, pessoas escravizadas e, posteriormente, libertas construíram vínculos duradouros com a terra, dando origem a formas de ocupação coletiva e a territórios de permanência negra. Esses processos históricos constituem a base da formação da comunidade quilombola de Cambucá, cuja trajetória se insere em uma longa experiência de resistência à escravidão, à expropriação territorial e às hierarquias raciais impostas na região.

As narrativas orais, os registros comunitários e os estudos históricos indicam que Cambucá mantém vínculos históricos, territoriais e de parentesco com os quilombos de Aleluia e Batatal, conformando um conjunto conhecido localmente como “quilombo ABC”. Essa denominação expressa a articulação entre comunidades negras formadas a partir de trajetórias comuns de permanência no território após a escravidão. A circulação de famílias entre essas localidades, os casamentos intercomunitários e o compartilhamento de práticas produtivas, culturais e religiosas consolidaram redes duradouras de solidariedade e cooperação.

O quilombo ABC constitui, assim, um território ampliado, marcado por laços de parentesco, ajuda mútua e estratégias coletivas de enfrentamento às transformações fundiárias, à expansão do latifúndio e aos impactos da modernização agrícola. Essa articulação regional foi fundamental para garantir a permanência das populações negras no meio rural de Campos dos Goytacazes, preservando a memória social e fortalecendo a identidade quilombola compartilhada entre as comunidades.

No período pós-abolição, as famílias negras de Cambucá permaneceram no território, reorganizando suas formas de vida em um contexto marcado pela exclusão social, pela concentração fundiária e pela ausência de políticas públicas voltadas aos libertos e seus descendentes. A liberdade formal conquistada em 1888 não se traduziu em acesso a direitos básicos, o que levou essas populações a desenvolver estratégias próprias de sobrevivência e permanência, baseadas no trabalho agrícola, no cultivo de subsistência e na prestação de serviços em propriedades vizinhas. A vida comunitária, estruturada pela ajuda mútua, pelas relações de vizinhança e pela transmissão intergeracional de saberes, foi central para a manutenção do grupo no território.

A afirmação contemporânea da identidade quilombola de Cambucá insere-se no mesmo processo vivido por Aleluia e Batatal, especialmente a partir das últimas décadas do século XX. Até então reconhecidas predominantemente como comunidades de trabalhadores rurais e, posteriormente, como assentamentos da reforma agrária — em especial após a desapropriação da Fazenda Novo Horizonte, na década de 1980 —, essas comunidades passaram a revalorizar suas memórias de ancestralidade negra e suas trajetórias históricas específicas. A autoidentificação como remanescentes de quilombo, conforme o critério da autoatribuição definido pelo Decreto nº 4.887/2003, consolidou a emergência de uma identidade quilombola compartilhada.

Nesse processo, o reconhecimento de Cambucá como comunidade quilombola fortaleceu a organização comunitária, ampliou a visibilidade da presença histórica da população negra no meio rural fluminense e reforçou a luta por direitos territoriais, sociais e culturais. Assim como Aleluia e Batatal, Cambucá integra um campo histórico e territorial negro articulado em Campos dos Goytacazes, no qual a experiência do quilombo ABC expressa uma trajetória coletiva de resistência, permanência na terra e afirmação de modos de vida tradicionais.

 

 

 

Origem do nome: O nome Cambucá tem origem toponímica associada ao cambucá, fruto nativo da Mata Atlântica, comum na região norte fluminense. A denominação remete às características ambientais do território e às formas tradicionais de nomeação do espaço anteriores à ocupação colonial. Para a comunidade, o nome também expressa a história de permanência negra no local. Assim, Cambucá identifica o território como espaço de pertencimento, trabalho coletivo e memória histórica.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Campos dos Goytacazes

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 30/09/2005 - Processo: 01420.002163/2005-61

Referência:

ABREU, Martha; GURAN, Milton; MATTOS, Hebe. Inventário dos lugares de memória do tráfico atlântico de escravos e da história dos africanos escravizados no Brasil. Niterói: LABHOI/UFF, 2013.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos, de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Diário Oficial da União, Brasília, 21 nov. 2003.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 39/2005, de 30 de setembro de 2005. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo de Cambucá (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, 2005.

GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro – século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

HENRIQUES, Leandro. Comunidades quilombolas de Campos dos Goytacazes. Campos dos Goytacazes: Instituto Historiar, 2010.

MUNIZ, Lucimara Pereira. Griôs – histórias que os livros não contam: memórias dos sete quilombos de Campos dos Goytacazes. IDANNF, 2022.
Disponível em: https://youtu.be/A-uCR4I9w8c?si=AXqn5x0gAC7a1R80.
Acesso em: 14 nov. 2025.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas — Observatório das Terras Quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/?terra_nome=&situacao=0&uf%5B%5D=58&ano_de=&ano_ate=&orgao_exp=0. Acesso em: 17 jan. 2026.

 

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Cambucá (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 07 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)

Verbete atualizado em 17/01/2026


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