Batatal - RJ
História:
A Comunidade Remanescente de Quilombo de Batatal localiza-se no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, região que concentrou, desde o período colonial, um dos maiores contingentes de africanos escravizados da então província do Rio de Janeiro. Entre os séculos XVIII e XIX, a economia regional foi estruturada a partir da grande propriedade rural, inicialmente vinculada à produção açucareira e, posteriormente, às lavouras de café, ambas sustentadas pelo uso intensivo de mão de obra africana escravizada. Africanos desembarcados no Cais do Valongo eram comercializados e redistribuídos para o Norte Fluminense, compondo uma estrutura produtiva profundamente dependente da escravidão.
Nesse contexto, formaram-se diversos núcleos de população negra rural, incluindo quilombos e outras formas de ocupação coletiva do território. A resistência negra em Campos dos Goytacazes foi amplamente registrada em documentos históricos que relatam fugas coletivas, formação de quilombos, repressão armada e ações contínuas de rebeldia escrava, evidenciando a centralidade do aquilombamento como estratégia de enfrentamento à escravidão e à violência senhorial. A comunidade de Batatal insere-se nessa longa trajetória de resistência e permanência negra no território.
As narrativas orais e os estudos históricos indicam que Batatal integra um conjunto articulado de comunidades negras rurais que compartilham trajetórias históricas, territoriais e de parentesco com os quilombos de Aleluia e Cambucá, conformando o que é conhecido localmente como “quilombo ABC”. Essa articulação foi construída a partir da circulação de famílias negras entre fazendas, engenhos e áreas de trabalho agrícola, bem como por meio de casamentos, redes de solidariedade e apoio mútuo. Tais vínculos garantiram a permanência dessas populações no território, mesmo diante da repressão ao aquilombamento e das profundas transformações econômicas e fundiárias ocorridas ao longo do século XIX.
Assim como Aleluia, Batatal se formou a partir da permanência de populações negras no pós-abolição, em um contexto marcado pela exclusão social, pela precarização do trabalho agrícola e pela ausência de políticas públicas voltadas aos libertos e seus descendentes. As famílias negras dessas comunidades reorganizaram suas formas de vida por meio do trabalho agrícola, da ocupação contínua do território e da preservação de práticas culturais e saberes transmitidos entre gerações, assegurando a reprodução social, cultural e territorial de seus descendentes.
Até as últimas décadas do século XX, Batatal, Aleluia e Cambucá foram reconhecidas predominantemente como comunidades de trabalhadores rurais e, posteriormente, como assentamentos da reforma agrária, especialmente após a desapropriação da Fazenda Novo Horizonte, na década de 1980. A partir de processos de reflexão interna, da valorização das memórias de ancestralidade negra e da articulação política com outras comunidades negras rurais de Campos dos Goytacazes, consolidou-se a emergência da identidade quilombola dessas comunidades, fundamentada no princípio da autoatribuição e no reconhecimento de relações territoriais específicas, conforme estabelecido pelo Decreto nº 4.887/2003.
Nesse processo, a afirmação da condição de remanescente de quilombo passou a expressar não apenas a reivindicação de direitos territoriais, mas também o reconhecimento público de uma trajetória histórica própria, marcada pela resistência à escravidão, à expropriação territorial e às múltiplas formas de subordinação impostas no pós-abolição. A experiência compartilhada do quilombo ABC evidencia a existência de um campo histórico e territorial negro articulado em Campos dos Goytacazes, no qual Batatal ocupa lugar central na luta contemporânea pelo reconhecimento de direitos territoriais, sociais, culturais e históricos.
Origem do nome: O nome Batatal está associado à denominação tradicional do território, vinculada às atividades agrícolas desenvolvidas historicamente na região, consolidando-se como referência geográfica e identitária para a comunidade.
Processo:
- Certificada
Município / Localização: Campos dos Goytacazes
Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 30/09/2005 - Processo: 01420.002164/2005-14
Referência:
BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União, Brasília, 21 nov. 2003.
FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 39, de 30 de setembro de 2005. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo de Batatal (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, 2005.
INSTITUTO HISTORIAR. Comunidades quilombolas de Campos dos Goytacazes (Conceição do Imbé, Aleluia, Batatal e Cambucá). Campos dos Goytacazes, 2010.
Disponível em: https://institutohistoriar.blogspot.com/2010/12/comunidades-quilombolas-de-campos-dos.html. Acesso em: 2025.
MATTOS, Hebe; ABREU, Martha; GURAN, Milton. Inventário dos lugares de memória do tráfico atlântico de escravos e da história dos africanos escravizados no Brasil. Rio de Janeiro: LABHOI/UFF, 2013.
MUNIZ, Lucimara Pereira. Griôs – histórias que os livros não contam: memórias dos sete quilombos de Campos dos Goytacazes. IDANNF, 2022. Disponível em: https://youtu.be/A-uCR4I9w8c?si=AXqn5x0gAC7a1R80. Acesso em: 14 nov. 2025.
OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas — Observatório das Terras Quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/?terra_nome=&situacao=0&uf%5B%5D=58&ano_de=&ano_ate=&orgao_exp=0. Acesso em: 17 jan. 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Quilombo de Campos dos Goytacazes. Projeto Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/quilombo-de-campos-dos-goytacazes/. Acesso em: 2025.
Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Batatal (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.
Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart
Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)
Verbete atualizado em 17/01/2026<< Voltar para listagem de comunidades
