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Alto da Serra do Mar - RJ

História:

A Comunidade Quilombola Alto da Serra do Mar localiza-se no distrito de Lídice, no município de Rio Claro, no sul do estado do Rio de Janeiro, em um vale situado entre as serras da Casaca e do Sinfrônio. O território é atravessado por um antigo segmento da Estrada Real, utilizado no período colonial para o escoamento do ouro proveniente de Minas Gerais, o que insere a comunidade em uma região historicamente marcada por fluxos econômicos, exploração intensiva da terra e uso de mão de obra escravizada .

A formação da comunidade está diretamente associada à trajetória das famílias Leite e Antero, descendentes de trabalhadores escravizados nas antigas fazendas de café do Médio Paraíba fluminense, região composta pelos municípios de Barra do Piraí, Barra Mansa, Itatiaia, Mendes, Piraí, Porto Real, Quatis, Resende, Rio Claro, Valença e Volta Redonda. Após a crise da cafeicultura, o esgotamento dos solos e a abolição da escravidão, esses trabalhadores passaram a se deslocar pela região em busca de meios de sobrevivência, especialmente por meio da produção de carvão vegetal. Entre as décadas de 1930 e 1950, a demanda por carvão foi impulsionada pelo processo de industrialização do Médio Paraíba, pela instalação de siderúrgicas e pela abertura da Rodovia Presidente Dutra em 1951, conectando Rio de Janeiro e São Paulo .

Nesse contexto, os antepassados da comunidade atuaram como carvoeiros, geralmente agenciados por empresários que exploravam a mata sem necessariamente deter a propriedade formal das terras. As famílias deslocavam-se conforme o esgotamento dos recursos florestais, construindo fornos, roças e moradias provisórias. O Sertão do Sinfrônio destacou-se como uma das áreas preferenciais para essa atividade na década de 1950, sendo explorado principalmente por empresários locais. Com o declínio da produção de carvão, entre as décadas de 1950 e 1960, as famílias passaram gradativamente a se fixar em áreas menos cobiçadas, voltando-se para a agricultura de subsistência e para a produção de banana .

A ocupação definitiva do Alto da Serra consolidou-se a partir da década de 1950, quando membros das famílias Antero e Leite passaram a estabelecer sítios familiares, baseados em uma lógica de uso comum da terra, forte centralidade do parentesco e investimento contínuo de trabalho. A noção de “tomar conta” da terra — um vínculo informal herdado das relações de trabalho anteriores — estruturou a permanência da comunidade no território, mesmo diante da ausência dos proprietários formais, legitimando socialmente a posse quilombola perante a população local .

Ao longo das décadas seguintes, a comunidade consolidou um modo de vida baseado na agricultura familiar, no cultivo de banana, na criação de peixes em tanques, na produção de alimentos para autoconsumo e venda, além de atividades complementares na região. A dimensão familiar e comunitária constituiu o eixo central da organização social, garantindo a reprodução material e simbólica do grupo, bem como a transmissão intergeracional de saberes, práticas produtivas e valores culturais.

A partir do final da década de 1980, a comunidade passou a enfrentar conflitos fundiários mais intensos, decorrentes da valorização das terras e da atuação de novos proprietários formais. Processos de reintegração de posse, ameaças de expulsão e destruição de roçados marcaram profundamente a trajetória da comunidade, revelando o desencontro entre o direito formal da propriedade privada e o direito histórico de ocupação coletiva. Esses conflitos tiveram impacto direto na reorganização política da comunidade, que passou a buscar alternativas institucionais para garantir sua permanência no território .

Foi nesse contexto que emergiu a afirmação da identidade quilombola. A partir do início dos anos 2000, com apoio de educadores, organizações do movimento negro, ONGs e instituições públicas, a comunidade criou uma associação local, inicialmente denominada “Alto da Serra” ou “Nós da Roça”, que se tornou espaço central de organização política, articulação jurídica e representação coletiva. Esse processo culminou no reconhecimento da comunidade como remanescente de quilombo, com base no critério da autoatribuição e na comprovação de sua trajetória histórica, conforme os parâmetros estabelecidos pela legislação brasileira .

O Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), elaborado no âmbito do INCRA-RJ, reconheceu o território quilombola de Alto da Serra do Mar como composto por duas áreas descontínuas — uma destinada à moradia e produção e outra voltada exclusivamente à produção — totalizando 327,19 hectares, grande parte dos quais corresponde a áreas de preservação permanente e reserva legal. O reconhecimento territorial está diretamente vinculado à trajetória das famílias Leite e Antero, cuja permanência contínua e investimento de trabalho fundamentam o direito quilombola à terra .

Atualmente, a Comunidade Quilombola Alto da Serra do Mar mantém uma organização ativa em defesa de seus direitos territoriais, sociais e culturais, articulando práticas produtivas sustentáveis, agricultura orgânica, produção de alimentos, artesanato e participação em políticas públicas. Sua história constitui um exemplo emblemático das múltiplas estratégias de resistência quilombola no pós-abolição, evidenciando como a luta pela terra, pela dignidade e pela memória permanece central na experiência quilombola contemporânea.

 

 

Origem do nome: O nome Alto da Serra do Mar refere-se à localização geográfica da comunidade, situada em área elevada da Serra do Mar, denominação historicamente utilizada pelos moradores para identificar o território.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Rio Claro/ Angra dos Reis

Número de famílias: 20

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 11/05/2007 - Processo: 01420.001171/2007-52 - Incra - Processo: 54180.000972/2006-56 - Decreto de desapropriação do publicado no D.O.U em 20.09.2024.

Referência:

BESSA, Alyne Fonseca. Escola do campo e escola quilombola: a implementação de uma política de educação do campo em uma comunidade remanescente de quilombo do Rio de Janeiro. 2015. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, 2015.

COMUNIDADE QUILOMBOLA ALTO DA SERRA DO MAR. Comunidade Quilombola Alto da Serra do Mar. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), s.d. (Coleção Terras de Quilombos).

FIGUEIREDO, André. De carvoeiros a quilombolas: o processo de construção da territorialidade em uma comunidade negra rural brasileira. In: NORIEGA, Armando Chaguaceda; BRANCALEONE, Cassio (org.). Sociabilidades emergentes y movilizaciones sociales en América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2012. v. 1, p. 197–220.

FIGUEIREDO, André. O caminho quilombola: sociologia jurídica do reconhecimento étnico. 1. ed. Curitiba: Editora Appris, 2011.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Certificação de Comunidades Remanescentes de Quilombos: Comunidade de Alto da Serra do Mar (RJ). Brasília: FCP, 2005. Certificação por meio da Portaria nº 135, de 4 nov. 2005.

GUALBERTO, Ana. Alto da Serra. In: Informativo Territórios Negros. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, ano 6, n. 27, jan./fev. 2007, p. 6.

NETO, Dario Aragão. Programa Caravana da Cidadania na comunidade do quilombo Alto da Serra do Mar – Lídice (RJ). In: Anais do Congresso Africanidades e Brasilidades. 2014.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas — Observatório das Terras Quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/?terra_nome=&situacao=0&uf%5B%5D=58&ano_de=&ano_ate=&orgao_exp=0. Acesso em: 17 jan. 2026.

 

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Alto da Serra (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)

Verbete atualizado em 17/01/2026


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