Atlas

Aleluia - RJ

História:

A Comunidade Remanescente de Quilombo de Aleluia localiza-se no município de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, região historicamente marcada pela economia agroexportadora e pelo uso intensivo de mão de obra africana escravizada. Desde o final do século XVIII, Campos concentrou o maior contingente de população escravizada da então província do Rio de Janeiro, inicialmente vinculada aos engenhos de açúcar e, posteriormente, às fazendas de café. Africanos desembarcados no Cais do Valongo, na cidade do Rio de Janeiro, eram comercializados e redistribuídos para o Norte Fluminense, compondo uma estrutura produtiva profundamente dependente da escravidão. Nesse contexto, consolidaram-se núcleos de população negra rural que permaneceram no território mesmo após a abolição formal da escravidão, em 1888, assegurando a reprodução social, cultural e territorial de seus descendentes.

As narrativas orais e os registros comunitários indicam que Aleluia mantém vínculos históricos, territoriais e de parentesco com as comunidades de Batatal e Cambucá, conformando um conjunto conhecido localmente como “quilombo ABC”. Essas conexões expressam uma trajetória histórica compartilhada, marcada pela circulação entre territórios, pela solidariedade comunitária e pela preservação de práticas sociais herdadas de seus ancestrais. No período pós-abolição, as famílias negras reorganizaram suas formas de vida diante da exclusão social, da precarização do trabalho agrícola e da ausência de políticas públicas, mantendo a ocupação do território por meio de estratégias coletivas, do trabalho familiar e da transmissão intergeracional de memórias e saberes.

Até as últimas décadas do século XX, essas comunidades foram reconhecidas predominantemente como trabalhadores rurais e, posteriormente, como assentados da reforma agrária, especialmente após a desapropriação da Fazenda Novo Horizonte na década de 1980. A partir de processos de reflexão interna, da valorização das memórias de ancestralidade negra e da articulação com outras comunidades negras rurais de Campos dos Goytacazes, consolidou-se a emergência da identidade quilombola, fundamentada no critério da autoatribuição, conforme estabelecido pelo Decreto nº 4.887/2003. A afirmação da condição de remanescente de quilombo passou, assim, a expressar o reconhecimento de uma trajetória histórica própria, de relações territoriais específicas e da presunção de ancestralidade negra associada à resistência à opressão histórica, fortalecendo a luta pelo reconhecimento de direitos territoriais, sociais e culturais.

 

Origem do nome: O nome Aleluia está associado às tradições orais da comunidade e às expressões simbólicas e religiosas presentes na memória coletiva, remetendo a práticas de fé, celebração e resistência cultural construídas ao longo da permanência histórica no território.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Campos dos Goytacazes

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 12/09/2005 - Processo: 01420.002155/2005-15

Referência:

ABREU, Martha; GURAN, Milton; MATTOS, Hebe. Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e da História dos Africanos Escravizados no Brasil. Niterói: LABHOI/UFF, 2013.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União, Brasília, 21 nov. 2003.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Certificação de Comunidades Remanescentes de Quilombos: Comunidade de Aleluia (RJ). Brasília: FCP, 2005. Certificação por meio da Portaria nº 39, de 30 set. 2005.

GOMES, Flávio dos Santos. História de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro – século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

HENRIQUES, Leandro. Comunidades quilombolas de Campos dos Goytacazes. Campos dos Goytacazes: Instituto Historiar, 2010.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas — Observatório das Terras Quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/?terra_nome=&situacao=0&uf%5B%5D=58&ano_de=&ano_ate=&orgao_exp=0. Acesso em: 17 jan. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE. Quilombo de Campos dos Goytacazes. Projeto Impressões Rebeldes. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/quilombo-de-campos-dos-goytacazes/. Acesso em: 17 jan. 2026.

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Aleluia (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 06 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)

Verbete atualizado em 17/01/2026


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