Uma Declaração Conjunta: Gênero, Fé e COVID-19

0.0. Introdução

Como atores religiosos e redes de organizações baseadas na fé, somos chamados a trabalhar juntos pela igualdade de gênero e justiça, em meio a mudanças globais, nacionalismo crescente e conflitos. Estamos vivendo mudanças em ambientes globais, regionais e nacionais. À medida que a COVID-19 se espalha pelo nosso mundo, países, comunidades e indivíduos enfrentam desafios crescentes. Durante a pandemia de COVID-19, muitos atores religiosos estão na vanguarda da planificação, entrega e implementação de uma resposta sensível e holística de gênero baseada em informações precisas. Ao mesmo tempo em que pratica o distanciamento social e adesão às diretrizes de ministérios da saúde. Este tempo de urgência exige uma ação responsiva baseada no amor, dignidade e justiça.

A crise COVID-19 não opera no vácuo e, como resultado, a COVID-19 aumenta as desigualdades pré-existentes. Mulheres e meninas estão experimentando injustiças interseccionais nas esferas política, social e econômica[1].

Fé em Pequim é um coletivo de atores religiosos e redes, que estão convocando governos, atores baseados na fé e sociedade civil, para respostas fortes à COVID-19 que colocam a justiça de gênero no centro.

1.0. Dimensões de Gênero da COVID-19

Governos em todo o mundo têm lutado para responder adequadamente à crise. Isso é resultado de decisões tomadas por líderes poderosos, que incluem décadas de sub-financiamento dos serviços públicos de saúde, e do sistema multilateral de saúde, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Durante muitas décadas, a OMS tem apresentado consistentemente evidências robustas sobre os determinantes sociais da saúde, a necessidade de que saúde esteja enraizada em todas as políticas e observou que a saúde não pode ser separada de outras áreas políticas. A pandemia da COVID-19 mostra que respostas fortes requerem abordagens interseccionais, que incluem a proteção dos direitos das mulheres e a igualdade de gênero.

Olhando para a COVID-19 a partir de uma lente de gênero interseccional, podemos ver que as várias formas de desigualdade muitas vezes operam juntas e exacerbam umas às outras. O quadro geral é muito mais complexo do que é frequentemente retratado pelos governos. As vulnerabilidades pré-existentes são exacerbadas durante uma crise, uma vez que as redes sociais e de proteção são interrompidas. Sob políticas de confinamento, muitas mulheres são forçadas a ficar em casas onde não estão à salvo ou em segurança. Elas são forçadas a viver com parceiros ou pais abusivos, enquanto os serviços aos sobreviventes da violência de gênero são mais difíceis de serem acessados[2]. À medida que a pandemia se desenrola, temos testemunhado um aumento da violência entre parceiros íntimos e outras formas de violência doméstica. Em algumas comunidades ao redor do mundo, a violência contra as mulheres durante a pandemia por parte das agências de segurança que aplicam o confinamento, tem sido às vezes usando força indevida. A resposta à COVID-19 deve, portanto, incluir estratégias para enfrentar e prevenir a violência sexual e de gênero. Este trabalho deve ser conduzido de forma holística, com uma abordagem multisetorial para que as necessidades mentais, sociais e físicas das pessoas sejam atendidas. Ao integrar aspectos psicossociais na abordagem, o bem-estar, a segurança e a esperança entre sobreviventes e comunidades podem ser fortalecidos.

À medida que a injustiça de gênero persistir em nosso mundo, os impactos da COVID-19 serão mais sentidos pelas mulheres e meninas. Em todo o mundo, muitas pessoas que estão matriculadas na assistência à saúde e ao que está relacionado à economia do cuidado são as mulheres. Ocupar posições na linha de frente torna as mulheres mais suscetíveis ao risco de infecção. Muitas pessoas perderão seus meios de subsistência, como já experimentado em todo o mundo com o confinamento global. Isso impacta a indústria de serviços e o setor informal, onde muitas mulheres trabalham. O fechamento das escolas impactará a educação das meninas agora e a longo prazo, com aumento do risco para o casamento infantil e o trabalho infantil[3].

Isso se torna mais agudo quando olhamos para os diferentes níveis de vulnerabilidade a que as mulheres podem ser expostas, como idade, raça, etnia, classe, deficiência e status de imigrante. Uma vez que os sistemas de saúde são imensamente pressionados durante a COVID-19, é importante que os governos em todo o mundo continuem a fornecer serviços de saúde sexual e reprodutiva (SRH). Esses serviços são essenciais e salvam vidas, especialmente para mulheres e meninas, e agora são mais cruciais com riscos elevados para mulheres e meninas.

2.0. Respostas Baseadas na Fé e Gênero

Mais uma vez vemos que atores religiosos e comunidades religiosas podem desempenhar um papel importante no momento de uma crise sem precedentes. Os atores religiosos estão profundamente enraizados nas comunidades que servem e, como tal, são frequentemente os socorristas. Diante da pandemia da COVID-19, instituições de fé locais, líderes religiosos e outras organizações  baseadas na fé estão respondendo às necessidades de suas comunidades como atores humanitários, bem como aproveitando sua autoridade moral para compartilhar mensagens e orientações positivas de saúde, conforme informado pelos ministérios de saúde do governo.

Em todo o mundo, milhões de pessoas foram confinadas para reduzir a transmissão do vírus e parar as taxas de infecção e morte. O isolamento associado a confinamentos e quarentenas terá um impacto nas comunidades em que trabalhamos e às quais pertencemos. As comunidades religiosas são sociais por natureza. Instituições religiosas e práticas religiosas são impactadas, pois cerimônias que, geralmente, reúnem muitos de nós, estão sendo restringidas. A Páscoa foi marcada, e o Ramadã será, de forma diferente este ano, mas continuam a ser oportunidades de dar e receber, perdoar, suportar e exercitar a paciência.

As comunidades religiosas têm uma forte base para promover o distanciamento social (para reduzir a transmissão do vírus causador da COVID-19), ao mesmo tempo em que praticam a solidariedade. O serviço aos mais oprimidos deve continuar, ainda que de novas maneiras. Muitos líderes religiosos detêm poder e confiabilidade significativos, às vezes mais do que o governo. Assim, as instituições religiosas podem desempenhar um papel vital na distribuição de informações precisas sobre saúde pública para suas comunidades. Além de promover mensagens de justiça de gênero, desafiando o estigma e as normas de gênero prejudiciais.

O diálogo entre diferentes fés e inter-religioso e a colaboração são cruciais nestes momentos. As religiões de maiorias, com relações mais fortes e de maior grau de confiança entre autoridades e funcionários do Estado, podem colaborar com religiões minoritárias, que são muito vulneráveis em vários contextos. Além disso, atores religiosos e instituições religiosas com mais recursos e capacidade de resposta a essa crise podem compartilhar conhecimentos, recursos e melhores práticas sempre que possível com outras comunidades religiosas, com líderes tradicionais e organizações de direitos das mulheres. Portanto, os atores religiosos continuam a ser parceiros críticos no enfrentamento dessa crise e no trabalho que está por vir.

3.0. Post COVID-19: Uma Visão da Justiça de Gênero em Nosso Mundo

Nós, como atores religiosos e redes baseadas na fé, estamos comprometidos em garantir que a justiça de gênero e a igualdade se tornem realidade em todo o mundo. Acreditamos que a Agenda 2030 é fundamental para garantir que “Ninguém seja deixado para trás”, e que a igualdade de gênero é sobre direitos iguais para todos.

Durante esta crise, nosso foco será a melhor forma de trabalharmos juntos para apoiar líderes religiosos e comunidades religiosas para responder efetivamente às circunstâncias cada vez mais desafiadoras. Em particular, nosso trabalho pela justiça de gênero continua sendo importante, para garantir um futuro justo e sustentável para todos. Continuaremos a trabalhar dentro e entre nossas comunidades religiosas para moldar um mundo sustentável e onde os direitos humanos de todos sejam respeitados.

Nosso compromisso com os direitos humanos não é uma preferência cultural ou ideológica arbitrária; está enraizada em convicções religiosas. Não pode haver justiça onde os direitos humanos dados por Deus são violados ou quando os portadores de dever não cumprem suas responsabilidades. Nessa visão, valorizamos o trabalho de cuidar e nutrir dentro de nossas comunidades. Busquemos realmente aprender com aqueles que já possuem o conhecimento e a sabedoria de sistemas alternativos. Vamos entender que um conhecimento por si só nunca será completo. Apenas por realmente engajar-se uns com os outros a partir de um lugar de humildade e vulnerabilidade, com a vontade de nos desfamiliarizarmos com as normas correntes para que possamos ver a mudança radical para um mundo centrado na justiça. Isso é necessário para a verdadeira igualdade de gênero, bem como para o florescimento humano e planetário.

4.0. Recomendações aos Governos, Atores Baseados na Fé e Sociedade Civil

Nas semanas, meses, anos e décadas à frente, continuaremos a trabalhar juntos para defender nossos governos e dentro de nossas comunidades, para uma aceleração das ações para alcançar a Agenda 2030. À luz deste compromisso, apresentamos as seguintes recomendações em meio à resposta do COVID-19 e além.

 

Uma Chamada Coletiva aos Governos

  1. Defendemos que todas as respostas envolvam atores religiosos e garantam coordenação e parcerias significativas entre atores religiosos, tradicionais e seculares. Os atores religiosos são fundamentais para alcançar comunidades tanto com informações essenciais, prestando serviço a grupos vulneráveis e promovendo mudanças de comportamento e desafiando normas, estereótipos e estigmas prejudiciais.
  2. Defendemos a adoção de políticas justas de gênero e o financiamento de planos de resposta a COVID-19 que abordam holisticamente a pandemia, incluindo os impactos secundários na educação, saúde, economia e meios de subsistência.
  3. Reconhecemos que a resposta à pandemia da COVID-19 requer mobilização de recursos, e pedimos aos nossos governos que continuem a financiar e a alocar recursos compatíveis com o compromisso de alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
  4. A força de trabalho “doméstica”, onde as mulheres compõem 70%, são mais propensas a fazer parte da resposta da linha de frente. Incidimos junto aos nossos governos para que deem respostas coordenadas que sejam sensíveis às necessidades de mulheres e meninas, onde cuidadores não remunerados e agentes comunitários de saúde recebam treinamento adequado, equipamentos e apoio à subsistência para responder efetivamente e manter a si mesmos e suas famílias seguros.
  5. Defendemos uma agenda de desenvolvimento holístico que aborde injustiças interseccionais, incluindo cobertura universal de saúde e sistemas de saúde de gênero justo, igualdade na educação, empoderamento econômico e livre de exploração, violência e discriminação. Os governos devem integrar uma avaliação de gênero para entender o impacto da COVID-19 sobre mulheres e meninas, incluindo impacto econômico, e como lidar com isso de forma eficaz. Os governos devem planejar e dar recursos à sua resposta a longo prazo, pois os impactos continuarão muito tempo depois de termos enfrentado o vírus.
  6. Defendemos que governos, líderes religiosos e sociedade civil colaborem na designação de espaços seguros (físicos e online) para mulheres, onde possam denunciar abusos sem alertar os agressores, por exemplo, em farmácias ou via plataformas digitais.

Uma Chamada Coletiva para Atores Parceiros Baseados na Fé e Sociedade Civil

  1. Defendemos que líderes políticos, religiosos e comunitários se manifestem contra a violência sexual e de gênero e garantam que os serviços centrados em sobreviventes para as mulheres sejam bem aproveitados e estejam em bom funcionamento. As campanhas de conscientização devem ser continuadas e táticas direcionadas a homens e meninos em casa devem ser integradas.
  2. Encorajamos as comunidades religiosas a apoiar a solidariedade social por qualquer meio disponível, e para aquelas com recursos adicionais, para que apoiem a conexão com comunidades que estejam em maior risco.
  3. Atores baseados na fé já são importantes provedores de educação e apoio psicossocial. Defendemos, durante esse período, que as práticas sejam adaptadas e recursos designados para garantir que esse trabalho continue.
  4. Defendemos que atores religiosos promovam valores de amor, dignidade e justiça em seu trabalho para enfrentar essa pandemia. É vital que uma abordagem não discriminatória seja exercida em todos os aspectos da resposta à COVID-19.
  5. Defendemos que líderes políticos e religiosos adotem canais de comunicação que atinjam pessoas marginalizadas em nossas comunidades, especialmente mulheres e meninas. Mulheres e meninas podem ter acesso restrito à informação em tempos de crise, portanto, acesso limitado a sistemas de distribuição de alimentos, assistência médica ou acessibilidade a serviços de proteção.

Não permaneceremos calados enquanto as desigualdades de gênero são exacerbadas como resultado desta crise.

 

 

 

 

 

[1] Para mais informação, veja: Resumo de Política da ONU (2020): O Impacto do COVID-19 sobre as mulheres, https://www.unwomen.org/-/media/headquarters/attachments/sections/library/publications/2020/policy-brief-the- impact-of-covid-19-on-women-en.pdf?la=en&vs=5029 [último acesso em 15/04/2020]

[2] Para mais informação, veja: ONU Mulheres (2020) COVID-19 e Fim da Violência Contra Mulheres e Meninas: https://www.unwomen.org/- /media/headquarters/attachments/sections/library/publications/2020/issue-brief-covid-19-and-ending-violence- against-women-and-girls-en.pdf?la=en&vs=5006 [último acesso em 15/04/20]

[3] Estudos da Libéria, Guiné e Serra Leoa mostram que a educação das meninas foi afetada negativamente pela epidemia de Ebola. Depois do surto, menos garotas voltaram para a escola. Para obter mais informações, consulte Malala Fund (2020) Educação de meninas e COVID-19 – o que choques passados podem nos ensinar sobre mitigar o impacto das pandemias, https://malala.org/newsroom/archive/malala-fund-releases-report-girls-education-covid-19 [último acesso em 15/04/20]