Postura tímida do governo brasileiro pode prejudicar a Rio+20

Carolina Maciel

Vinte anos se passaram desde que a primeira conferência sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável aconteceu no Brasil. No Rio de Janeiro de 1992, a Rio 92 foi considerada um marco, um verdadeiro divisor de águas no debate sobre a adoção mundial de uma economia de baixo carbono. Agora, prestes a sediar mais uma vez o megaevento – a capital carioca deve receber mais de cem governantes entre os dias 13 e 22 de junho para a Rio + 20 -, a sensação é de que nas últimas duas décadas, o País deixou de tomar medidas relevantes para realizar a transição para a economia verde.

“Hoje nós estamos não apenas com o risco de que a Rio +20 seja irrelevante, mas também um retrocesso para os desafios da agenda climática”, afirmou Marina Silva durante evento realizado na Fundação Armando Álvares Penteado na quarta-feira 18. A opinião da ex-ministra do Meio Ambiente é a mesma de outros ativistas brasileiros – como os ex-ministros José Carlos de Carvalho e José Goldemberg, o embaixador Rubens Ricupero e o deputado Fábio Feldmann -, também presentes no evento. Junto com o Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (CINDES), eles apresentaram o documento “Rio mais ou menos 20?”, que traz reivindicações a respeito do rumo a ser tomado pela cúpula. A ementa deve ser apresentada à presidenta Dilma Rousseff nas próximas semanas.
 
Ausência de protagonismo
Para Ricupero, os dirigentes brasileiros não acreditam na mudança climática. “Há um certo ceticismo por parte de nosso governo a respeito do tema. Tenho dúvidas de que alguém, à exceção da ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, tenha lido o relatório da ONU sobre as mudanças do clima”, afirmou. Por conta disso, o embaixador considera tímida a atitude do Brasil em relação à conferência. “Como sediadores, deveríamos ter uma posição protagonista no debate. O País deveria atuar nas negociações climáticas internacionais defendendo seus direitos, mas também promovendo temas relacionados a objetivos globais”, opina.
Marina Silva concorda. A ex-ministra explica que do jeito que a Rio + 20 está sendo levada hoje, há o risco de que o principal motivo da conferência – a discussão sobre o desenvolvimento sustentável – seja esvaziado. “A crise econômica mundial deu uma sobrevida à velha forma de economia. Temos que compreender que desenvolvimento econômico e climático são duas coisas que caminham juntas. Se não entendermos isso, estamos jogando uma pá de cal no sucesso que foi a Rio 92”.
 
Crise e meio ambiente
O documento tem a teoria de que a crise fez com que a comunidade internacional passasse a ver a economia de baixo carbono com maus olhos. “A ideia corrente é acreditar que a transição para uma forma econômica sustentável é cara”, explica José Goldmann.
Os palestrantes consideram esse raciocínio equivocado. Para eles, a crise é justamente uma prova de que o planeta está chegando ao seu limite e que a transição para a economia verde é a única solução para os problemas globais. “A economia predatória destrói as bases do desenvolvimento sustentável. A responsabilidade do governo é adotar medidas climáticas de longa duração”, adverte.
“Hoje em dia comemoramos a nossa 6ª posição no ranking de maiores economias mundiais. Mas se continuarmos do jeito que estamos, vamos acabar no final dessa lista”, contesta José Carlos Carvalho. Ele chama atenção para o fato de os governos acharem exorbitantes os valores para a adoção de uma economia verde, mas gastaram trilhões para salvar um sistema que se mostra falido. “Algumas pesquisas apontam que seriam necessários 800 bilhões de dólares para realizar a transição para a economia de baixo carbono. Enquanto isso, para conter a crise econômica, já foram gastos cerca de três trilhões”, contabiliza.
“O engraçado é que uma mulher foi a principal responsável pela contenção dessa crise de 2008. A Angela Merkel fez a lição de casa. Não seria muito interessante se outra mulher tomasse a dianteira na questão da economia de baixo carbono?”, imagina Marina Silva.
 
Atual política econômica brasileira
Sandra Rios, economista e diretora do CINDES, diz que falta clareza na política ambiental brasileira. “Nós não temos nenhum tipo de intersecção entre temas econômicos e climáticos. O Brasil já adotou diversos pacotes para a indústria, mas praticamente não temos medidas verdes. É preciso de uma vez por todas entender que não se pode levar em conta o desenvolvimento sustentável sem incluir as necessidades ambientais”, afirma.
José Carlos Carvalho atenta ao fato de que o Brasil é rico em recursos naturais e que a economia verde só traria benefícios para o País. “Um terço das florestas tropicais do mundo estão em nosso território, 47% de nossa energia é proveniente de fontes renováveis. O Brasil deveria estar muito mais interessado na questão do desenvolvimento sustentável, quanto mais que nossa economia voltou a ser baseada na exportação de commodities”.
 
Reversão
Para os ex-ministros, ainda há tempo de reverter a agenda da Rio+20, já que deve outras duas reuniões de negociação devem ocorrer antes da cúpula – uma ainda este mês, em Nova York, e outra em junho, no Brasil, uma semana antes do encontro com os chefes de Estado. “Há muita coisa para fazer e dá para negociar sim, desde que haja vontade e um trabalho conjunto”, enfatiza Rubens Ricupero.
 
Com informações Beatriz Mendes para “Carta Verde” – Carta Capital

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