Oficinas de artes, ofícios e direitos

Jussara Rêgo (chamada inicial: Manoela Vianna)

Chega ao final mais um ciclo de oficinas de artes e ofícios nos Terreiros de Candomblé de Salvador. No início de 2007 o programa Egbé Territórios Negros ampliou suas ações com a implantação do Projeto de “Capacitação e apoio ao desenvolvimento de Comunidades Negras Tradicionais no Brasil”, co-financiado pela União Européia, Christian Aid e EED (Serviço das Igrejas Evangélicas na Alemanha para o Desenvolvimento), realizado em quinze Terreiros de Candomblé localizados em Salvador, e em comunidades negras litorâneas do Baixo Sul do estado da Bahia.

Como objetivo geral, o projeto busca apoiar ações afirmativas por Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais (DHESC) de comunidades tradicionais na Bahia, buscando a melhoria da qualidade de vida dessas populações. O projeto é uma das iniciativas mundiais que contribuem para a realização das metas de desenvolvimento do milênio elaboradas pelas Nações Unidas.

Ao longo de um ano e meio foram desenvolvidas oficinas de corte e costura, bordado, estética, culinária, toque de atabaque, serigrafia e resgate de identidade e artesanato em madeira (entalhe), todos voltados ao resgate de saberes tradicionais afro-brasileiros e ministrados pelos mestres populares integrantes da religião.

As oficinas foram ofertadas pelas Casas ao público por elas escolhido, que convidaram outras Casas e a comunidade circunvizinha a cada uma delas.

O resgate tradicional da arte, que em outros tempos era dominada por um número significativo de pessoas dentro das Casas, torna possível a manutenção e difusão deste patrimônio imaterial da cultura afro, fortalecendo a própria religião, na medida em que qualifica novos detentores destes saberes, além de promover a melhoria da auto-estima dos mestres e aprendizes.

Outro ganho de elevada importância foi o fortalecimento do papel social de centros de desenvolvimento local que são os Terreiros de Candomblé espalhados por toda a cidade.

As atividades de aprendizagem prática são entremeadas por momentos de discussão sobre direitos civis e territoriais, direito à saúde, à memória, ao meio ambiente, e até ao resgate de suas próprias histórias de vida, além orientações sobre auto-diagnóstico da comunidade local para enfrentamento de suas realidades. Cada ciclo de oficinas se encerra com a capacitação de seus representantes na elaboração de seus próprios projetos, dando-lhes condição para a criação, implementação, reprodução e sustentabilidade das atividades.

Neste primeiro semestre de 2008 o projeto foi desenvolvido em cinco locais: no Ilê Axé Alarabedê, sendo as oficinas alocadas na própria Casa (crochê) e no Espaço Cultural Vovó Conceição (corte e costura), sob a coordenação do Instituto Nacional das Tradições Afrobrasileiras – Intecab; no Terreiro Viva Deus Bisneto (bordado – bainha aberta); no Terreiro Tuumba Junçara (serigrafia e toque de ngoma); no Ilê Axé Osun Yinká (corte e costura, bordado, manicure); e no Ilê Axé Kalé Bokun (oficina integrada Odun Olá – Vivenciando a Ancestralidade: toque, dança, canto, culinária).

As oficinas envolveram 17 Casas e um público direto de 217 pessoas, na maioria mulheres e jovens.

Um diferencial, nesta etapa, foram duas oficinas exclusivamente de jovens: a de serigrafia (Imprimindo a Identidade) e a Oficina Integrada Odun Olá, que teve como ponto alto a montagem e apresentação de espetáculo cênico (dança e música) com o mesmo nome, cuja estréia lotou o teatro do Centro Cultural de Plataforma – Subúrbio Ferroviário de Salvador. A experiência foi tão forte que a oficina se transformou no Grupo Odun Olá, que continua se encontrando uma vez por semana, aos sábados, no Centro Cultural, dandocontinuidade ao trabalho. Essas duas oficinas também geraram novas parcerias dos Terreiros: a de serigrafia, com uma empresa do ramo, que emprestou seus equipamentos para capacitar os jovens aprendizes; e a Odun Olá, com o Centro Cultural de Plataforma, que cedeu a sala de dança para os ensaios do grupo.

A palavra de quem viveu a experiência

No depoimento abaixo, Maria das Graças Guimarães, Mãe Dadá, responsável pela Associação Beneficente, Cultural e Religiosa Margarida Lima Guimarães, do Terreiro Osun Inká fala da experiência de oferecer oficinas para a comunidade:

A Associação Margarida Lima Guimarães, em parceria com KOINONIA, no mês de março de 2008, praticou mais uma ação social oferecendo aulas de corte e costura, manicure e bordado-afro, abrindo as portas para aqueles que desejaram freqüentar os referidos cursos. Durante quatro meses foram desenvolvidas aulas, oficinas e palestras com um público satisfatório de pessoas de 12 a 60 anos. A ação do projeto foi ecumênica, pois alcançou um dos objetivos da associação que é integrar pessoas de várias comunidades de Salvador sem excluir idade e nenhum segmento religioso. Tivemos participação de Testemunhas de Jeová, Batistas e Candomblecistas que desenvolveram seus trabalhos em clima de harmonioso com respeito mútuo e muita solidariedade.

Leia mais depoimentos em breve na nova edição do informativo Fala Egbé.

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