Num mundo violento, há espaço para o perdão?

Márcia Evangelista

Nos últimos 40 anos, o Brasil teve um aumento enorme de morte por violência, que afetou 500 mil pessoas, de 1979 a 2006. Por ano, morrem cerca de 40 mil jovens, de 16 a 24 anos. Esta realidade revela a dificuldade em reconhecer nossos erros e os dos outros, e perdoar, conforme analisa o filósofo e escritor Jorge Atílio Silva Iulianelli.

Mundo Jovem: Por que existe tanta violência?

Jorge Atílio: Podíamos até falar de um etnocídio ou geranocídio, mas a violência é um tema bastante complexo, e quando você vai falar da causa, não há apenas uma: há um conjunto de causas que provocam essa violência letal. Os jovens estão mais vulneráveis a esta violência porque eles são um setor da sociedade em processo formativo, ainda diretamente afeitos aos processos de socialização cotidiana. Isso acaba afetando diretamente essa juventude, que fica refém desses processos que têm um componente significativo de relações atritivas. E isso tem relação tanto com os processos econômicos locais, o comércio de substâncias ilícitas, quanto com questões banais, como torcidas de futebol.

Há pesquisas indicando que as mortes ocorrem aos finais de semana e em locais de encontro de jovens para diversão. Nas zonas rurais ocorre o consumo de bebidas alcoólicas, e daí a violência banal: os jovens se atritam porque discordam se a menina é bonita, ou se o time perdeu, ou se a festa não foi boa, culminando em violência letal.

Outra dimensão da violência é justamente o comércio das substâncias ilícitas, também feito por jovens. E tem o agregado bélico: os jovens estão armados. Estão potencialmente prontos para eliminar o outro, porque têm a arma na mão. Quando se encontram em situações de conflito, a violência fica facilitada para estes jovens.

Mundo Jovem: Entre os cristãos, que têm a utopia da fraternidade, essa é uma realidade que choca. Seria o reflexo de uma banalização da vida?

Jorge Atílio: Como é que Jesus lidava com as situações de conflito? Poderíamos utilizar do paradigma da mulher adúltera que estava lá sendo julgada pelos fariseus para ser apedrejada. Eles tinham uma regra clara sobre o assunto e a ordem era matar. Então Jesus interferiu e provocou uma reflexão: a violência como resposta a um atrito gera mais atrito.

É preciso operar algo na consciência humana, criar uma reflexão sobre a própria violência e reverter esse processo. Jesus percebeu que nós temos um “oco” que nos torna sempre abertos aos outros, ao meio ambiente e a Deus. É essa abertura que permite a fraternidade. E essa abertura precisa ser “cutucada”. Se não for assim, não haverá como reverter o processo gerador da violência.

Mundo Jovem: A violência é parte da estrutura humana?

Jorge Atílio: Nós, humanos, somos animais. E a violência é um elemento da estrutura humana. Inclusive, às vezes, é um elemento bastante importante: se a gente não tiver a capacidade de ousar, por exemplo, a gente não inova. Sob esta ótica, a violência não é algo absolutamente negativo. Existem elementos positivos na forma de conduzir a vida. Ninguém pode chegar para alguém que quer agredi-lo e agir passivamente. Deverá ter uma atitude interativa de não aceitar a agressão. E este gesto, em si, já é violento. Os processos da interação cotidiana têm diversas formas de violência: dentro de casa, entre marido e mulher, são relações cotidianas nas quais, às vezes, as pessoas se atritam porque discordam e não conseguem dialogar em torno da divergência, e surge uma discussão. A discussão é uma violência. Ocorre um debate, onde cada um quer defender e provar o seu ponto de vista, não aceitando o do outro. Em determinadas circunstâncias alguém se vê acuado e, muitas vezes, o resultado é um gesto violento (violência física).

Mundo Jovem: A violência desumaniza?

Jorge Atílio: Uma definição que a Organização Mundial da Saúde tem usado para a violência, é que ela é uma forma de subordinação da outra pessoa: física, psicológica, moral, religiosa… Ou seja, toda a maneira que leva à subordinação de alguém por imposição é a construção de uma atitude violenta. Esta definição já é para entender a violência no seu sentido mais negativo e desumanizador. Subordinar o outro é desumanizá-lo e também desumanizar-se a si próprio, pois quem age violentamente também se desumaniza, e não apenas ao objeto de sua ação violenta.

Mundo Jovem: O que dizer do componente vingança na questão da violência?

Jorge Atílio: No caso da violência letal, não se pode reduzir a uma causa apenas. Uma tese da antropologia faz a seguinte leitura: a violência letal é uma resposta das classes oprimidas ao processo de subordinação que a sociedade capitalista as submete, ou seja, é uma vingança que as classes oprimidas operam em relação à subordinação socioeconômica e política sob a qual vivem no cotidiano. Então, em termos de cotidiano, faz sentido. Nas relações interpessoais, as construções de relações de vingança também ocorrem.

Na cidade de Floresta, interior de Pernambuco, há muitos anos as famílias Novaes e Ferraz tiveram um desentendimento por conta de um casamento que não era aceito, e um jovem foi assassinado. Em vingança a esta situação, a família da vítima assassinou um jovem da família executora, e essa rivalidade durou décadas. Quando Dom Adriano Ciocca Vasino foi estabelecido bispo naquela cidade, uma de suas primeiras ações foi uma campanha pela cultura de paz, e conseguiu fazer um acordo de conciliação entre os membros das famílias rivais (e já existiam outras famílias em conflito). Mas ele conseguiu restabelecer as relações de paz, indicando que o caminho é o do perdão mútuo.

A vingança é uma resposta unilateral: alguém decide se vingar do outro, sem perguntar se ele aceita a vingança. O perdão é dialogal, precisa do acordo: tanto quem perdoa quanto quem é perdoado, precisa aceitar mutuamente essa relação.

Angola, em 2004, estava em processo de paz. A guerra foi até 2002 e permaneceu um processo de rixas intertribais, em que as pessoas, por etnia, odiavam-se umas às outras. O preconceito, portanto, é também um elemento que alimenta a violência, e a construção do preconceito sempre é social. Mas, em 2004, em Angola, havia Juntas de Conciliação em cada cidade, para que os jovens que regressavam a elas pudessem ser aceitos pelas comunidades. E as igrejas tinham um papel muito importante neste processo de construção da paz, justamente pela capacidade que as igrejas têm de ajudar as pessoas a enxergarem esse “oco”, essa abertura à transcendência, à alteridade, que existe nos seres humanos. Se a gente reconhece o outro como pessoa, alguém semelhante, com os mesmos direitos, possibilita o relacionamento com a pessoa na busca da reconciliação.

Mundo Jovem: De que forma acontece o perdão e a reconciliação entre pessoas ou grupos rivais ?

Jorge Atílio: A reconciliação não é algo que acontece da noite para o dia: é um processo. A violência também não se dá da noite para o dia: também é um processo. A diferença é que na violência o processo é de reforço no indivíduo que se sente agredido e quer se vingar, ou se sente acometido por um desejo e quer realizálo para sentir prazer. E essa autossatisfação é dirigida contra alguém, em forma de subordinação física, psicológica, até chegando à eliminação da vida alheia.

Na reconciliação, o movimento não é da autossatisfação, mas da satisfação mútua. O interesse buscado não é o individual, mas o coletivo. O Paraguai e a África, por exemplo, tiveram situações semelhantes em tempos diferentes: os juizados de reparação e reconciliação recebiam o agressor e ele tinha que reconhecer a agressão. Apenas isso. O fato de o agressor assumir publicamente o seu ato violento, causava no agredido a possibilidade de perdoá-lo. O perdão supõe o reconhecimento do erro, assim como supõe também a generosidade da abertura ao que errou.

Mundo Jovem: Os termos “perdão” e “reconciliação” pertencem apenas ao universo religioso cristão ou são importantes para todas as relações sociais?

Jorge Atílio: Usa-se o termo “mediação de conflitos” para falar desses processos ou simplesmente o termo “reconciliação”, que é justamente encontrar outra vez o acordo. Esse reencontro do acordo é um termo mais clássico, mas de fato o cristianismo trouxe essa contribuição para o pensamento ético-político grecoromano. A reparação de danos era admitida como parte da construção da justiça. No pensamento contemporâneo há um novo uso desses conceitos na noção de solidariedade, de reconhecimento da diferença, de direitos distributivos. Todas essas noções supõem que as relações interpessoais, intercomunitárias, tenham que ser relações de reconhecimento dos direitos das pessoas que se relacionam entre si. A nossa sobrevivência depende da construção de relações justas e harmoniosas: este é o espaço da reconciliação. Sem harmonia ou justiça não haveria condições de sobrevivência.

Reconciliação: um tema para as escolas

A reconciliação é uma tarefa coletiva. No conjunto da sociedade, inclusive as igrejas e as escolas, a linguagem da violência e da agressão está muito presente. A sociedade estimula a competição (para ter o meu espaço tenho que abstrair das outras pessoas para me dar bem). Neste conceito de “se dar bem” as pessoas se olham não como amigas, na construção da felicidade coletiva, mas se olham como inimigos potenciais na construção de uma felicidade particular. Essa relação pode ser observada até em alguns hinos das igrejas (falam de competição, do senhor dos exércitos…). A própria linguagem é estimuladora de violência, e os meios de comunicação, por estarem dentro do sistema do mercado, fazem a reprodução do que construímos como sociedade. A sociedade é construída coletivamente. Daí o elemento crítico e utópico, necessário para a gente transformar: se queremos outro mundo possível, temos que trabalhar com outros parâmetros, outros critérios.

Evidente que não há só a linguagem da violência. As igrejas, escolas, os meios de comunicação reproduzem outra semântica: a do amor, da fraternidade, da cooperação, da solidariedade, da vida em comum. No Brasil, apesar dos altos índices de violência (um dos mais altos do mundo), temos um conjunto imenso de redes de solidariedade, o que permite a sobrevivência. Temos que espalhar a “bem querência”, termo utilizado por Guimarães Rosa no “Sertão Veredas”. Querer bem um ao outro é a fórmula para superar os processos geradores da violência. E com ela ocorrendo, temos que ter a habilidade de criar espaços de conciliação.

No Brasil, em várias cidades, já existe um espaço de mediação de conflitos. Geralmente é escolhido alguém da própria comunidade, que é da confiança de todos, e que fica ali como ouvinte e mediador das contendas, para articular um acordo que beneficie a todos os envolvidos. Assim, a mediação dos conflitos interrompe o círculo da violência. Nos espaços escolares também devemos criar a mediação de conflitos e a reconciliação, o exercício do perdão mútuo. Cada um(a) de nós somos constituído(as) para a abertura generosa ao outro, que nos permite receber do outro o perdão e a capacidade de perdoar. Perdoar não significa esquecer o mal, mas saber que, apesar do mal, a outra pessoa continua sendo tão digna quanto eu e deve ser acolhida por mim.

Jorge Atílio Silva Iulianelli, filósofo, escritor e assessor da organização ecumênica Koinonia, no Rio de Janeiro.

 

Fonte: Jornal Mundo Jovem – Entrevista publicada na edição nº 407, junho de 2010

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