Mulher: Canta, dança e recita a sua própria violência

Márcia Evangelista

Desde quando nascemos, somos educados e educadas a achar a violência algo normal. Qual o conhecimento que nós mulheres e homens recebemos no decorrer de nossas vidas que justificam tal comportamento? Se lembramos das músicas infantis que aprendemos em nossa infância, talvez encontremos pelo menos uma pista. Por exemplo:

“Vem cá, Bitu! Vem cá, Bitu! Vem cá, meu bem, vem cá! Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá! Tenho medo de apanhar”. Quem foi o adulto sádico que criou essa rima?

“A canoa virou, quem deixou ela virar, Foi por causa da (nome de pessoa) Que não soube remar.”Ao invés de incentivar o trabalho de equipe e o apoio mútuo, as crianças são ensinadas a dedurar e a condenar um semelhante.

“Samba-lelê tá doente, Tá com a cabeça quebrada. Samba-lelê precisava é de umas boas palmadas” – pessoa doente, ao invés de ajuda e apoio, a música diz que ela precisa de palmadas!

E, como esquecer: “O cravo brigou com a rosa. Debaixo de uma sacada. O cravo saiu ferido e a rosa despedaçada. O cravo ficou doente. A rosa foi visitar. O cravo teve um desmaio, A rosa pôs-se a chorar.” – Desgraça, desgraça, desgraça! E ainda incita a violência conjugal (releia a primeira estrofe).

Precisamos lutar contra essas lembranças, essa educação. Nossos filhos, nossos netos merecem uma nova visão de relação entre homens e mulheres.

Mas, crescemos. Mudamos o nosso gosto pela música? Nada! As músicas que são tocadas nas rádios promovem a mesma relação de violência. Lembra…

“Você não vale nada, mais eu gosto de você/ Você não vale nada mais eu gosto de você”.

Mas nem sempre tem que ter música, ter barulho, para a violência se manifestar. O silêncio! O nosso silêncio! Silêncio, porque não quer se intrometer, mas que imediatamente imobiliza e emudece.

A casa já não é mais um lugar seguro e de proteção. O lar é hoje o principal palco de violência contra a mulher. No Brasil, a violência contra a mulher é considerada uma epidemia. Como tal, ela é um problema da sociedade toda e é, além de uma questão de saúde pública, um problema sócio cultural e religioso.

Pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Sesc, mostra uma chocante estatística: a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil. E já foi pior: há 10 anos, eram oito as mulheres espancadas no mesmo intervalo (fev, 2011). Realizada em 25 Estados, a pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado” ouviu em agosto do ano passado 2.365 mulheres e 1.181 homens com mais de 15 anos. Aborda diversos temas e complementa estudo similar de 2001. Mas a parte que salta aos olhos é, novamente, a da violência doméstica.

Os dados mostram que a violência contra a mulher não é um problema privado, de casal. É social e exige políticas públicas, diz Gustavo Venturi, professor da Universidade de São Paulo (USP) e supervisor da pesquisa.

O sentimento que esses dados devem nos provocar é o da indignação. Precisamos nos indignar com as injustiças, com os absurdos. Precisamos estar indignados para nos movermos e sairmos da inércia.

É importante que as vítimas não se calem, denunciem para que também o agressor possa ser ajudado.

É necessário afirmar a vida plena como nosso referencial primeiro, dádiva de Deus para ser vivida abundante e pacificamente. Quando esta vida for machucada, devemos denunciar estas violações, que nomeamos pecado contra Deus e contra o próximo.

08 de março de 2011

 

Ester Leite Lisboa

Assessora do Programa Saúde e Direitos

KOINONIA- Presença Ecumênica e Serviço.

 

 

 

 

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